terça-feira, 26 de novembro de 2019

Capitulo treze

  O casamento foi lindo. Leninha estava linda, Marcelo ajudava na missa e no casamento e a todo o momento dava uma olhada na menina. Os cabelos com um laço de fita da cor do vestido, os sapatinhos de meio salto davam-lhe um ar de moça.
  Depois da cerimônia teve um almoço ao ar livre com churrasco e muita bebida.
  Tarzan não saía do lado da prima, cuidava dela como se fosse uma irmãzinha. Por um momento ela sonhou que era o seu próprio casamento, só que tinha três noivos, Marcelo Tarzan e Leonardo. Abriu os olhos e seu primo segurava as suas mãos. Eram mãos firmes. Ele era muito bonito, ela sentiu uma enorme vontade de abraçá-lo. Encostou a cabeça em seu ombro, ele lhe fez um pequeno carinho no rosto e ela se sentiu tão bem.
  “Pena que ele é tão velho.” – pensou.
  No domingo inauguraria o berçário, deu tido certo e as mães poderiam assistir a missa em paz.
  Ia ser inaugurada também uma linha de ônibus ligando a cidade a Boa Unia. O ônibus sairia às seis horas e voltaria às dezoito horas, seria bom demais. A cidade estava crescendo.
  Fariam também uma estrada subindo até a pedreira, porque lá seria instalada uma antena de televisão. Na cidade só tinham dois aparelhos televisão, que ficava na casa de Eliza e do Rui, dono da Eletrônica.
  Leninha um dia pediu a Eliza para ligar e ela viu um tanto de formiguinha.
  --- Será que dá mesmo pra gente ver aí? – perguntou para a amiga.
  --- Dá sim, eu já vi na casa da minha tia lá de Belo Horizonte. – respondeu Eliza.
  --- Você já foi a Belo Horizonte?
  --- Fui, você esqueceu? Foi quando fui tirar as amídalas.
  --- Ah, é verdade. Você até trouxe uma pulseirinha com o meu nome. Eu era tão pequena que nem me serve mais.
  As coisas corriam, dona Santa foi para Boa União ganhar neném.
  O dia do pagamento chegou, dona Elza foi buscar o dinheiro. Leninha gostava quando a mãe viajava, pois ela trazia maçã e pão sovado, que ninguém sabia fazer.
  À noite quando voltou, aquele homem do chapéu grande foi até a casa deles. Dona Elza foi receber.
  --- Entre sr. Sebastião, vou buscar um cafezinho.
  Leninha e Cirino ficaram quietos no quarto ouvindo a mãe atender o homem.
  --- O que esse homem vem fazer aqui? – perguntou Leninha.
  --- Você não sabe até hoje?
  --- Não, se soubesse não perguntaria.
  --- Vem buscar dinheiro, a mamãe deve a ele.
  --- A mamãe deve a ele também?
  --- É, a mamãe deve muito dinheiro.
  Dona Elza sofria com esses cobradores, às vezes ela chorava baixo.
  Quando sr. Sebastião foi embora ela entrou no quarto onde os filhos estavam. Pegou o resto do dinheiro do pagamento e separou o que devia a cada um.
  --- Mamãe, porque nunca sobra dinheiro? – perguntou Leninha.
  --- Essas dívidas não são minhas, minha filha.
  --- Então porque a senhora paga? São de quem?
  --- Eu nunca quis ver vocês passando falta das coisas. Quando o pai de vocês foi embora, ele pegou dinheiro emprestado com muita gente daqui, eu não sabia das intenções dele e assinei umas promissórias que ele trouxe dizendo que estava comprando um caminhão para fazer viagens. Eu fiquei alegre porque seria um meio de termos mais coisas, ele pegou o dinheiro dizendo que ia viajar para comprar o caminhão e tem sete anos que ele está comprando o caminhão.
  Leninha não sabia daquela história, nem pensava no pai, porque quase não se falava sobre ele naquela casa. Cirino sabia, mas não gostava de tocar no assunto.
  --- Porque ele fez isso?
  --- Não sei, minha filha. Só sei que vivo para vocês e não estou conseguindo pagar as contas, os juros só estão crescendo. Preciso ver o que eu faço para conseguir dinheiro. Este homem que saiu daqui até ameaçou tomar a casa, que é a única coisa que temos. Foi herança do meu pai.
  Leninha estava com os olhos cheios de água.
  --- Eu vou ajudar, não fique triste..
  A força que aquela garotinha tinha dentro dela era incrível, conseguiu acalmar a mãe com um simples abraço.
  Dona Ruth estava sentada na porta do quaro deles e também tinha os olhos cheios de lágrimas.
  Uma coisa que as crianças tinham agora para passar o tempo, era sentar na praça em frente à Prefeitura e esperar o ônibus chegar às dezoito horas.
  Foi instalada a antena de televisão, ouve comício e falação no alto-falante. Colocaram um aparelho de televisão no palanque, todos queriam ver, até os primos vieram.
  Não deu para ver nada direito, só alguns fantasmas, mas mesmo assim foi aplaudido.
  Na casa do Rui a imagem ficou até boa, ele também era entendido de eletricidade e sabia mexer  com as peças. Leninha foi até a casa dele junto com sua mãe. Ele tinha uma casa grande cheia de peças de rádios espalhadas por toda a casa. Ele e sua esposa, Suely tinham duas filhas e estavam esperando mais um.
  Dona Elza era amiga deles há muito tempo. Rui era amigo de Pedro, estudaram juntos.
  --- Quando Pedro volta, dona Elza? – perguntou Rui.
  --- Ele mandou uma carta dizendo que vem passar as férias em casa.
  --- Estou com saudades dele.
  --- Eu quase não durmo pensando nele, é a primeira vez que fica tanto tempo longe de casa. Mas, é bom para ele, eu não posso dar muito conforto.
  --- Que bobagem, dona Elza. – disse Suely entrando na conversa. – todos na cidade sabem dos seus problemas e te respeitam, porque sabem que a senhora é uma boa mãe.
  Dona Elza suspirou.
  Estava passando um concurso de Miss Brasil, não dava para ver direito, mas Leninha ficou  fascinada.
  Quando voltaram para casa, ela estava com a cabeça nas nuvens. “Vou ser Miss” – pensou.

Capitulo catorze


  A igreja Batista estava em festa, ia vir um pastor para ficar no comando da igreja.
  Quando ele chegou teve festa e muita música na igreja, até os católicos foram na recepção. Sua casa ficava pero da casa de Leninha, quase de frente. Ela viu a mudança chegar em um caminhão grande. Nunca tinha visto tanta coisa bonita: sofá, televisão, tinha até geladeira.
  Quando vieram, ela ficou da janela da sala olhando. O pastor tinha três filhos, duas filhas, sendo uma moça e uma menina pequena que devia ter três anos.
  “Vieram da capital, devem ser metidos” – pensou Leninha olhando.
  A notícia espalha rápido pela cidade, a irmã de Eliza, a Elvira estava grávida e ia ter que casar rápido com Raul.
  --- Viu só, Leninha. Não te disse que eles estavam fazendo bobagem? – disse Eliza para Leninha na hora do recreio.
  As duas estavam sentadas na porta da cantina fazendo um lanche, nisso vinha chegando Cláudia e Sônia.
  --- Eu não contei nada a ninguém. – disse Leninha.
  --- Eu sei, você é uma amigona. Mas, mamãe estava desconfiada, ela estava vomitando muito.
  --- Fazer bobagem faz vomitar? – perguntou Leninha.
  --- Não, mas faz neném e neném dá enjôos. – disse Eliza rindo da inocência da amiga.
  --- Agora eles vão ter que casar? – perguntou Cláudia.
  --- Ele não está querendo muito não, mas teve a maior briga lá em casa. Eu fiquei até com medo, papai disse ao pai de Raul que se ele não casar com Elvira, não casa com mais ninguém, que ele mata antes. – disse Eliza.
  --- Nossa senhora! – disse Sônia. – Eu nunca quero casar assim.
  --- Nem eu. – disse Eliza.


  O circo de Cirino fazia o maior sucesso. Aos sábados às três horas tinha espetáculo de mais ou menos quarenta minutos. Leninha cantava “Boiadeiro” tão bem que até gente grande ia ver o circo.
  As férias estavam chegando. Dona Elza ia viajar duas semanas para fazer um curso e tratar dos papéis de sua aposentadoria. Ia aprender a dar aulas pra pessoas adultas, para poder abrir uma escola do Mobral, aproveitaria para ganhar mais dinheiro. Tinha um cômodo em sua casa que ficava desocupado, a prefeitura ia dar algumas carteiras e ela daria aula à noite. Seria bom, podia dar mais assistência em casa. Já fazia vinte e sete anos que era professora, tinha começado a dar aulas com dezenove anos, já estava na hora de aposentar.
  Ia deixar Leninha na casa da madrinha, a mãe não dava conta de correr atrás da menina o dia inteiro.
  Os dias que dona Elza estava fora passavam voando, Leninha sentia a ausência da mãe, mas gostava de ficar na casa da madrinha, lá tinha muito conforto, tinha bife todos os dias e ela aproveitava pra brincar muito. Tinha muitas árvores no quintal e uma plantação enorme de milho que já estava seco. Leninha adorava brincar de Tarzan. Lili era a Jane, Soraya a Chita e os milhos eram os índios e bandidos.
  --- Mim Tarzan, you Jane.
  Era assim o dia inteiro. Coitados dos pés de milho.
  A madrinha gostava muito dela, ensinava as obrigações de moça, o jeito de andar, sentar e conversar com as pessoas.
  Depois da aula ela foi na casa de Eliza, Lili foi também. Daniel ia dar aulas para Eliza duas vezes por semana na casa dela, para ver se ela conseguia passar de ano.
  --- Será que isso vai dar certo, Eliza? – perguntou Leninha.
  --- Vai sim, pedi a mamãe. Preciso de verdade tomar vergonha na cara e passar de ano. Não vou mais precisar que você copie pra mim. Espere aqui um pouco. – deixou as meninas no quarto e foi até o quarto da mãe.
  --- Isto aqui é para você. – trouxe um embrulho e entregou a Leninha.
  --- Para mim? – pegou o embrulho e abriu, Lili também estava curiosa.
  Era a bolsa, a bolsa tão sonhada, igualzinha a de Eliza. Leninha até chorou. Abraçou a amiga.
  --- Obrigada, Eliza. Obrigada mesmo.
  --- Você merece.
  --- E então Eliza, e o seu namoro com o Daniel, como é que fica? – perguntou Lili.
  --- Contei para a mamãe. Prometi nunca ver ele escondido, para não acontecer o mesmo que aconteceu com a Elvira.
  --- Me conta uma coisa, que horas ele vem dar aula?
  --- Depois do serviço dele, só por uma hora. Mamãe fica por perto.
  --- Então, não deu nem para um beijo?
  Eliza sorriu e Leninha ficou calada prestando atenção.
  --- Se eu contar, fica só entre nós?
  --- Claro. – responderam em coro.
  --- Outro dia enquanto a mamãe foi buscar um lanche, ele chegou bem perto de mim, me fez um carinho no rosto e encostou a boca na minha.
  --- Na boca? – espantou Lili.
  --- Claro, sua boba.
  --- Você gostou? – perguntou Leninha.
  --- Achei um pouco estranho, fiquei quietinha, ele abriu meu lábios devagarzinho com a língua, eu tremi toda, não sabia o que fazer.
  --- E aí?
  --- Eu abri um pouco a boca e chupei a língua e a boca dele.
  --- Que nojo! – resmungou Lili.
  --- Que nojo nada. No princípio achei esquisito, mas depois não queria mais parar. Ele sabe das coisas.
  Leninha prestava atenção na conversa.
  --- Vocês fiquem mais atentas, daqui a pouco estão moças como eu e vão ter que beijar. É muito fácil, é só não ter medo.
  Leninha deu uma risadinha.
  --- É, tem razão. – disse Lili. – Olhe os meus seios como estão durinhos. – levantou a blusa da escola e pegou a mão de Eliza para sentir os mamilos que estavam duros para crescer.
  --- É mesmo, os meus começaram assim, olhem só como já estão grandes. – levantou a blusa e ficou com os seios empinadinhos e mamilos cor-de-rosa de fora.
  --- Que bonitos. Deixa-me ver os seus Leninha.
  Leninha achou aquilo esquisito, mas deixou as amigas passarem as mãos em seus seios lisos. A sensação era gostosa, mesmo sem seios, sentiu cócegas.
  Eliza abaixou a calcinha e mostrou a vagina cheia de pêlos. Lili era bem assanhada, correu para passar a mão.
  --- Passe a mão Leninha, olha que gostoso.
  --- Quer beijar meus seios, Lili? – perguntou Eliza passando a mão dentro da calcinha da Lili.
  Lili beijou os seios de Eliza, Leninha também quis experimentar. A sensação era boa, quente. Leninha sentiu quentura nas pernas.
  --- Vem cá, Leninha. Deixa eu te ensinar como que faz bobagem.
  Leninha deixou Eliza colocar as mãos na sua vagina, ela também passou a mão em Lili e Eliza. Ela nunca tinha passado por aquilo.
  --- Você vai fazer isso com o Daniel? – perguntou Leninha.
  --- Não, com ele é só depois de casar. Senão, eu fico grávida.
  Leninha vestiu a roupa rápido, ouviu passos no corredor do quarto.
  --- Vamos embora, Lili. Já é tarde.
  --- Olhe, meninas. Isso que fizemos é segredo. Ta certo? – disse Eliza.
  Elas foram embora, Leninha estava sentindo diferente, um pouco desconfiada. Tinha a impressão que nunca mais seria a mesma, mas se sentia tão bem.

 
  Aprendeu tantas coisas naqueles dias, que por um momento até pediu a Deus para não trazer mais a sua mãe, porque assim viveria na riqueza o resto da vida. Depois, arrependeu e passou na igreja pra pedir perdão a Deus.
  Marcelo a viu entrar. A igreja estava vazia, quando ela saiu, ele a chamou para tomar um suco na casa paroquial. Ele era tão bom para ela.
  Marcelo era um jovem italiano, veio para o Brasil já havia muitos anos, mas conservava o sotaque.
  --- Quando você vai virar padre? – perguntou Leninha entrando com ele na casa. Não havia ninguém lá, o padre Mario tinha ido jogar cartas na casa de um amigo.
  --- Você vai me deixar ser padre? – respondeu levando Leninha até a cozinha para pegar um suco.
  Tinha um suco geladinho e até biscoito, ele a pegou pelos braços e a sentou na mesa. Ela não sentia medo, confiava nele.
  --- Como assim? – perguntou Leninha.
  --- Nada não, esquece. É que você é tão bonita e meiga, que se eu achasse uma moça que nem você, até me casaria.
  --- Mas, eu já sou quase uma moça. -- respondeu Leninha arrumando os cabelos e levantando os ombros.
  --- Eu sei, pequenina, eu sei.
  A abraçou com tanto carinho, que Leninha sentiu aquela quentura que sentiu quando Eliza pegou em seus seios.

Capitulo quinze


  Leninha foi para o ponto de ônibus receber a mãe. Dona Elza chegou cheia de malas. Foram para casa, depois dona Elza passou na casa da madrinha para agradecer e pegar as coisas de Leninha.
  Trouxe maçã, pão sovado, um colar com o nome de Leninha gravado. Ela gostou tanto. “Maria Helena”, o nome inteiro, se sentiu grande. Queria tanto ficar grande depressa.
  Já ia fazer dez anos. O irmão chegaria na próxima semana a tempo de cantar parabéns para ela.
  Elvira se casou com Raul e foram morar na casa dele até a casa deles ficar pronta.
  As carteiras foram entregues bem cedo, a mãe ia dar aulas para um tanto de gente à noite em casa. Limparam e arrumaram tudo. Ia ser ótimo, não precisava mais dormir tão cedo.
  --- Sônia, você acha que eu já devia usar sutiã? – perguntou Leninha um dia à Sônia.
  --- É, eu acho que devia. Já dá para vê-los pela transparência da blusa.
  “Engraçado eles começarem crescer de uma hora para a outra, desde que deixou colocarem as mãos neles” – pensou Leninha
  Ela contou para Sônia o que tinha feito com as meninas. Sônia deu um risinho e disse que Eliza já tinha feito com ela também.
  --- Você gostou?
  --- Demais, depois vamos fazer?
  --- Mamãe disse que não devemos deixar ninguém passar a mão na gente, porque tem uma florzinha que não pode deixar abrir. – explicou Leninha.
  --- É só passar a mão, Leninha. Não machuca ninguém. Pede a sua mãe e vem tomar banho de chuveiro comigo.
  --- Depois eu peço. Tchau, Sônia.

capitulo dezesseis


  Pedro chegou à cidade. Leninha, Cirino, dona Elza e até dona Ruth foram esperá-lo na praça do ônibus.
  Ele estava tão diferente, de barba, mais magro. Abraçou a mãe, a avó, a irmã e o irmão e eles foram para casa cheios de curiosos atrás.
  Pedro trouxe presentes para todos. Para Cirino trouxe um olho de boi que quando a gente esfregava no chão e encostava nas pessoas, queimava. Para Leninha trouxe calcinhas com renda, trouxe um cachimbo novo para a avó e uma linda blusa para a mãe.
  Quando acordou no dia seguinte, estava com a aparência melhor.
  --- Que saudades disso tudo aqui. – disse à mãe.
  --- Também sentimos a sua falta.
  --- Vou dar uma volta, ver os amigos.
  --- Rui perguntou por você.
  --- Vou lá, ver o que ele está inventando agora.
  --- Deixa eu ir com você? – perguntou Leninha.
  --- E o que você vai fazer lá?
  --- Vou brincar com as meninas, aproveito e assisto televisão.
  --- Então, vamos.
  Cirino foi jogar bola com alguns amigos na praça da igreja perto da casa do Rui.
  À tarde iam buscar o boletim para ver quem passou e quem ia ficar de recuperação.
  Leninha como sempre passou em todas as matérias, Eliza também conseguiu graças às aulas de Daniel.
  Estava acontecendo alguma coisa diferente na cidade, todos passavam cochichando e andando rápido. O pastor da igreja Batista passou dentro de um jipe com o prefeito e mais dois homens e entraram na igreja.
  As mães gritavam, mandando as crianças entrarem rápido em casa e trancavam as portas.
  A madrinha viu Leninha na rua e mandou ela chamar Cirino e ir rápido para casa. Ela não entendeu nada, mas correu para casa. Quando chegou lá, dona Elza não estava em casa.
  --- Mamãe pediu para ficarmos quietinhos e que depois conta o que está acontecendo. – disse Pedro.
  Pedro era um rapaz magro, de olhos pretos como os de Leninha, era o filho mais velho e sendo assim, eles o respeitavam muito.
  --- Que bom que você está em casa. – disse Leninha. – Você ainda vai voltar para o seminário?
  --- Mamãe quer que eu seja padre.
  --- E você quer ser? – perguntou Cirino mexendo em um bodoque.
  --- Ainda não sei. – respondeu com a cabeça baixa.
  Era muito obediente, estava com dezenove anos, nunca tinha feito nada que contrariasse a mãe, tinha pena dela, vontade de ajudar, mas ela achava que se formasse padre, teria um ótimo futuro.
  Leninha estava olhando pela janela o movimento na casa do pastor. Dois filhos dele, mais ou menos da idade de Cirino já tinham feito amizades. Eles eram diferentes dos meninos dali, andavam sempre limpinhos, de tênis e meia, cabelos sempre penteados. Leninha achava engraçado.
  --- Sua mãe disse que não é para ficar olhando janela. – disse dona Ruth já com a correia nas mãos.
  --- Não vovó, eu não estou fazendo nada de errado. – disse ela correndo para perto de Pedro. – Ela só fica querendo me bater, Pedro. O que é que eu faço?
  --- Ela acha que é assim que corrige.
  --- Mas ela só bate e mim, o Cirino pode fazer tudo e eu não posso fazer nada.
  --- Ela pensa que mulher tem que ser quieta e quer que você seja uma boa moça, para encontrar um bom marido.
  --- Será que ela fez isso com a mamãe?
  --- Deve ter feito.
  --- Mas a mamãe não encontrou um bom marido.
  --- Mamãe não deu sorte. Venha ver os livros que eu trouxe para ler.
  --- Deixa eu ler alguns?
  --- Claro, venha.
  Dona Elza estava demorando, as pessoas já estavam chegando para a aula.
  Pedro cuidou de ir passando alguns deveres enquanto mamãe não vinha.
  Aquele pessoal tinha tanta vontade de aprender a ler e escrever, que não mediam esforços para irem às aulas. Dona Elza era uma boa professora, tinha conseguido milagres ensinando. Quando ela chegou agradeceu a Pedro e continuou a aula.

Capitulo dezesete

  Só no outro dia Leninha ficou sabendo dos segredos pelos cantos da cidade.
  --- O filho de dona Rita está tendo problemas. – explicava dona Elza. – Temos que rezar muito por ele.
  --- Que tipo de problemas, mamãe? – perguntou Pedro.
  --- Eu não sei direito, ontem eu demorei porque fizemos uma roda de oração por ele. Ele está quebrando tudo que vê pela frente, xinga, chuta e está babando.
  --- Qual dos filhos de dona Rita? – perguntou Leninha.
  --- O Vandinho.
  --- Mas ele é tão alegre, nunca foi dessas coisas. – disse Pedro.
  --- É por isso que estamos rezando, pra ele voltar a ser como antes.
  --- De onde está vindo a força dele? Ele nem é forte.
  --- Dizem que nem o pai mais três homens estão conseguindo segurá-lo.
  --- Vou lá ver ele. – disse Pedro.
  --- Não, meu filho. Não vá, ele está muito mal. Só padres e pastores que podem ajudar.
  --- Mas eu estou estudando pra ser padre.
  --- Mesmo assim é perigoso. Hoje vamos orar, você vai comigo.
  Leninha ouvia sem entender muito bem.
  “Babando, quebrando tudo. O que será que ele tem?”—pensou Leninha.
  As férias são sempre uma ótima coisa, mas os dias ficam tão compridos. Dona Elza depois do almoço saiu com Pedro, pediu pra dona Ruth não deixar Leninha e Cirino saírem de jeito nenhum, até aquele problema com Vandinho ficar esclarecido.  
  Leninha queimava de curiosidade. Encheu o tanque de água e entrou dentro para ver se as horas passavam mais depressa. Pediu à avó para ir buscar a Sônia, mas esta lhe disse que se fosse ia apanhar de correia.
  “Tenho que fazer alguma coisa, não agüento mais.” – pensou Leninha.
  Aproveitou que a avó foi no banheiro e combinou com Cirino para fingirem que iam dormir, colocaria travesseiros nas camas e sairiam caladinhos.
  Cirino não concordou, disse que estava com medo do que estava acontecendo.
  --- Também, você não é de nada! – gritou Leninha voltando para o tanque de água.
  Dona Elza tinha ido para a igreja com Pedro. Todos estavam ansiosos pelos acontecimentos. Nunca ninguém tinha passado por tal situação.
  Padre Mário, Marcelo e todos os freqüentadores da igreja estavam lá. Pediam a Deus para tirar o mal de Vandinho.
  O pastor da igreja Batista pediu para reunirem à noite na igreja deles, pois rezariam juntos. Iriam levar Vandinho lá para sentir a força da oração.
  Dona Elza passou em casa para tomar banho e jantar antes de ir à reunião.
  --- Por favor, mãe. Me deixa ir, eu prometo ficar quieta. – pedia Leninha.
  Leninha conseguiu iria ver o que estava acontecendo. Sentiu uma coisa ruim ao entrar na igreja Batista, o ar estava pesado, difícil de respirar, sentiu medo, mas a vontade de ver as coisas era maior.
  --- Onde ele está, mamãe? – perguntou Leninha segurando firme na mão de sua mãe.
  --- Deve estar lá dentro com o pastor.
  --- Podemos ir lá?
  --- Por enquanto, não. Fica quieta.
  Leninha e todos na igreja estavam em oração, vez por outra se ouviam gritos estranhos.
  --- Mamãe, vou lá fora um pouco.
  --- Tá, mas não vai longe.
  Leninha foi calada tentar ver pela janela de fora o que dava pra ver lá dentro, encontrou Eliza e Daniel caladinhos tremendo de medo.
  --- O que vocês estão fazendo aqui? – perguntou Leninha assustada.
  --- Estamos tentando ver, e o que vimos nos deu medo.
  --- O que vocês viram?
  --- Olhe pelo buraco da janela, olhe se você tem coragem. – disse Daniel.
  Leninha levantou nas pontinhas do pé e pôde ver um bando de homens, dentre eles o pastor, o pai de Eliza, o pai de Vandinho, até o pai da Sônia estava lá, deveria ter pelo menos umas quinze pessoas dentro do quarto.
  Vandinho estava deitado em um banco com o corpo todo torcido, algumas pessoas seguravam nele.
  Ele gritava umas palavras que Leninha não entendia. De repente, pareceu que Vandinho havia olhado na direção de Leninha, ela arrepiou toda. Ele deu uma tremenda risada.
  Leninha desceu rápido da janela.
  --- Afinal, o que é isso? – perguntou.
  --- Meu pai disse que ele está falando inglês e até russo. É incrível, um rapaz que ainda nem fez a quinta série direito e que já foi reprovado. – disse Eliza.
  --- Vou voltar para a igreja e ficar junto da mamãe, estou com medo.
  --- Eu vou também. Tchau, Daniel. – Eliza deu um beijo rápido nele e foi de mãos dadas com Leninha para dentro da igreja.
  Sentaram em um banco na frente e começaram a rezar junto com outras pessoas.
  Leninha teve medo de ir ao banheiro sozinha quando chegaram em casa. Ficou toda quieta, só foi dormir quando dona Elza foi. Não teve aula para o Mobral aquela noite.
  A cidade estava sem brilho, parecia que o sol estava apagado, todo mundo falava pouco.
  --- Mamãe, hoje eu posso ir na casa da Sônia? – pediu Leninha logo cedo.
  --- Pode, depois do almoço eu te levo lá.
  --- Precisa me levar? É tão perto.
  ---É só por precaução. Eu te levo e marco a hora de te buscar.
  --- Tá bom. – Leninha concordou, afinal, era melhor que nada.

 

 

 

capitulo dezesete


  O primo Tarzan chegou para almoçar com eles. Veio ver Pedro, morria de saudades dele, afinal, não o via há tanto tempo.
  Chegou montado em uma bicicleta, não se esquecendo de trazer um frango para dona Elza. Pegou Leninha pelos braços e a levantou até em cima, ela adorava aquela força toda.
  --- Ta ficando pesada. – disse ele colocando ela no chão. – Ta virando mocinha.
  Leninha enchia toda quando a tratavam de moça. Almoçaram.
  --- Eu vou brincar na casa da Sônia, você ainda vai ficar aqui, não é? – perguntou Leninha.
  --- Eu vim para resolver umas coisas para o papai, talvez eu durma aqui e só vou amanhã bem cedo.
  --- Assim é melhor, porque depois a gente pode jogar dama, o Pedro trouxe um jogo lá do seminário.
  --- Combinado! Então à noite a gente joga.
  Dona Elza levou Leninha até a casa de Sônia, pediu a dona Neném para não deixar ela sair sozinha, às cinco horas iria buscá-la.
  Sônia estava no quarto brincando da casinha sozinha. O fogãozinho, as panelinhas, a mesinha, as camas das bonecas estavam todas arrumadinhas.
  --- Que bom você ter vindo, isto aqui estava tão triste. – disse Sônia.
  Dona Neném fechou a porta do quarto dela e pediu para as duas brincarem quietinhas, iria fazer bolo para elas.
  --- Do que você está brincando? – perguntou Leninha.
  --- De casinha. Vamos fazer de conta que você é minha comadre e veio me visitar.
  As duas brincaram horas e horas.
 A comadre Sônia estava grávida e tinha que ir ao médico ganhar neném. O neném era uma boneca que elas enrolavam em panos e colocavam por baixo do vestido. Na hora do médico fazer a operação para tirar o neném, Leninha passava a mão em Sônia esta ficava quietinha só sentindo o carinho. Depois era a vez de Leninha ser a grávida e assim passavam a tarde até dona Neném trazer o bolo com suco de groselha.
  Leninha não falou nada sobre o Vandinho com Sônia, pensava que ela não sabia de nada.
  --- Leninha, sua mãe veio te buscar. – gritou dona Neném chamando Leninha.
  --- Já vou.
 Despediu-se de Sônia olhando com um olhar de cumplicidade.


  “Que cheiro bom”  -- pensou Leninha ao chegar em casa, até que enfim teriam um jantar com carne de frango que o primo trouxera da fazenda.
  Dona Elza preparou o banho de Leninha.
  --- Por favor, mamãe, não me deixe sozinha. Estou com medo.
  --- Medo de quê?
  --- De ficar sozinha.
  --- Você sempre tomou banho sozinha e de porta fechada.
  --- Fica, mamãe. Eu não demoro.
  Dona Elza entendeu e ajudou a filha a se lavar.
  Leninha às vezes lembrava do olhar do Vandinho e sentia um arrepio. Dona Elza não foi à igreja aquela noite, tinha que dar aula para os velhos, por isso, serviu o jantar mais cedo.
  O primo Tarzan estava no quarto de Pedro conversando com ele. Leninha toda perfumada foi perturbá-los. Eles estavam conversando sobre Vandinho.
  Leninha sentou quietinha perto dos dois.
  --- Então você acha difícil ele sarar? – perguntou Tarzan a Pedro.
  --- Vamos ter que rezar muito. – respondeu Pedro.
  --- Ele olhou pra mim. – disse Leninha com um arrepio no corpo.
  Os dois seguraram nas mãos de Leninha, um de cada lado.
  --- Ele tinha os olhos vermelhos e estava babando. Tive tanto medo. – continuou Leninha.
  --- Onde você o viu? – perguntou Pedro.
  --- Eu e s Eliza olhamos da janela da igreja.
  --- Você não devia ter feito isso. – disse Tarzan.
  --- Fiquei curiosa. Vocês acham que ele está realmente doente?
  Os dois ficaram calados.
  ---- Vamos arrumar o jogo para depois do jantar? – perguntou Tarzan mudando de assunto.
  --- Vamos. Mamãe chamou para o jantar.
  Cirino já estava na mesa esperando o frango ensopado com quiabo e angu. Parecia manjar dos deuses. Dona Ruth fez limonada, Cirino foi até a casa dos novos amigos, os filhos do pastor.
  As férias prometiam ser tão boas, mas com aquele problema na cidade tudo estava tão quieto.
  “Tenho que fazer alguma coisa.” – pensava Leninha. “Só o circo e o berçário não bastam.”

capitulo dezoito


  O primo tinha ido embora bem cedo. Leninha levantou da cama com o cheiro de café. Cirino tinha dormido com ela para dar lugar ao primo, por isso, quando Leninha acordou ainda tinha gente no quarto. Ela correu para a cozinha.
  --- Mamãe, posso sair hoje? – perguntou Leninha sentando-se à mesa.
  --- E onde você pretende ir?
  --- Só na casa da Cláudia ou da Lili.
  --- Pode ir, mas não quero você andando sozinha pro lado do Grupo. Pelo menos até tudo acalmar.
  --- Tá bom, mamãe. Vou lá na casa da madrinha, tem mais espaço e eu brinco com a Lili e com a Soraya e aproveito e vejo o neném.
  --- Vou pedir para o Cirino te levar.
  Cirino chegou na cozinha com cara de sono.
  --- Logo eu, mamãe? Eu quero mexer no quintal, arrumar o circo. – reclamou Cirino ao ouvir sua mãe pedir para levar Leninha até a casa de dona Santa.
  --- Deixe, mamãe. Eu levo – disse Pedro ouvindo os resmungos do irmão. – Vai, Leninha. Escove os dentes, lave o rosto e venha tomar café rápido. Eu te levo.
  Cirino respirou aliviado.
  Dona Elza estava inquieta, preocupada, o natal estava chegando e ela sabia que seria difícil
comprar presentes para os filhos.
  Dona Elza aproveitou que Cirino estava no jardim e Leninha e Pedro haviam saído para    conversar com a mãe.
  --- Não sei o que fazer, tudo que eu quero comprar tem que ser para pagar depois e isso está    complicando.
  --- Explique para eles que você não vai poder dar presentes.
  --- É muito chato, mamãe. O aniversário da Leninha é depois de amanhã e eu não posso fazer nada, já está chegando natal, ano novo. E o pior é que ela ainda acredita em Papai Noel.
  --- Eu tenho um trocado do vidro de xarope que vendi, vê se dá para comprar uma boneca para ela. Eu sei que o que ela mais quer é aquela que chora.
  --- Eu sei, mamãe. Eu vejo o brilho nos olhos dela quando a gente passa em frente à loja da Rosa. Vou pedir para a Rosa guardar uma para mim. Se o dinheiro não der, eu pago depois.
  --- Eu faço mais xarope e vendo.
  Dona Elza gostava muito da mãe, não sabia se teria conseguido Aprumar-se se ela  não tivesse dado tanto apoio.
  Dona Ruth já caminhava devagar, as pernas não estavam mais tão firmes, mas tinha uma mente lúcida, sabia das coisas.
  --- E o aniversário dela? O que vamos fazer?
  --- Eu faço um bolo, compro suco e chamo uns coleguinhas. Eles brincam no circo e o tempo passa.
  --- Pelo menos não passa em branco.



  Leninha aguardava o dia de seu aniversário cheio de ânimo. Brincou o dia inteiro com Lili e Soraya. O assunto maior além de seu aniversário, era a doença de Vandinho.
  --- Doença nada! – dizia Lili. – Ele está com a coisa ruim no corpo.
  --- Também já pensei nisso. – Dizia Leninha.
  A madrinha as chamou para tomarem suco, já tinham almoçado há muito tempo, deveriam estar com sede.
  --- Fala com a comadre Elza que eu vou lá na casa de vocês depois de amanhã. Não se preocupe com nada, que o bolo eu vou levar.
  --- Oba! – gritou Leninha correndo para abraçar a madrinha. – Obrigada madrinha.
  Dona Santa adorava aquela menina. Via nela muita disposição para a vida e faria de tudo que estivesse ao seu alcance para vê-la feliz.
  --- Madrinha. – chamou leninha depois que tomou ao suco.
  --- Oi.
  --- Será que o Vandinho está mesmo com o coisa ruim no corpo?
  A madrinha ficou séria, não fugiu do assunto. Lili e Soraya prestavam atenção na conversa.
  --- Ainda não se pode dizer nada, minha filha. Temos que rezar muito para afastar os maus pensamentos. Vandinho é um menino muito levado, mas vai ficar bom.
  --- Se depender de nós ele vai ficar bom, a gente está rezando muito por ele. – Disse Lili.
  --- Pois está bom. Agora vão se limpar que leninha não pode ir embora de noite.
  --- Eu já vou madrinha, eu tomo banho lá em casa.
  --- Então vai, eu fico olhando você virar a esquina da sua casa.
  --- Não tem perigo, mamãe pediu pra eu não ir  lá no grupo, e pra lá eu não vou.
  Chegando em casa, Leninha contou à mãe que a madrinha ia levar o bolo para o seu aniversário.
  Dona Ruth ficou aliviada, pois assim tinha certeza que a neta teria um bolo de aniversário.
  Todas as noites as famílias continuavam rezando por Vandinho. No último encontro na igreja, ele ficou sentado em um banco da frente, estava mais calmo. Leninha não gostava do jeito que ele olhava pra ela, sentia um arrepio na espinha, como se algo muito ruim tocasse a sua alma.
  “Deus é um ser tão bom que não vai deixar nada de ruim me acontecer. Eu quero fazer tanta coisa em minha vida, quero conhecer a cidade grande, ser tão feliz. Jesus proteja a minha alma e meu espírito e afaste este mal para bem longe de mim e de todos aqui presentes.” -- pedia Leninha.

Capitulo dezenove


  Ela não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Não tinha convidado ninguém , porque sabia que a sua mãe não estava em condições de preparar uma festa. Sabia que a madrinha ia, mas todo mundo chegando assim junto a deixou emocionada.
  Foi chegando Marcelo, Eliza, Sônia, Leonardo, Daniel, Cláudia, a madrinha, as filhas e até o Tarzan com o irmão.
  Os olhinhos dela brilhavam e ela agarrou o pescoço de Tarzan e começou a chorar.
  Eles preparam uma verdadeira surpresa para Leninha. Ninguém esquecia o aniversário daquela garotinha que todos adoravam. Chegaram cada um com um embrulho na mão e um prato de doce e salgado, até refrigerante tinha.
  Foram os dois amigos de Cirino, os filhos do pastor que levaram os refrigerantes, estavam geladinhos.
  Ela ganhou tanto presente que nem acreditava, parecia um sonho. Leonardo lhe deu um relógio, o primeiro relógio da vida dela. Ganhou panos para fazer roupa e até uma saia plissada pronta.  
  “Que noite linda! É claro que Deus existe.” – pensava a aniversariante.
  Dona Elza não sabia como agradecer a todos tanta alegria que eles estavam dando à sua filha.
  Agora, graças a Deus era pensar em preparar a noite de Natal. Ia ter presépio feito por dona Elza e sua amiga e comadre Antônia.
 Dona Antônia tinha a cintura tão fina que até parecia uma tanajura, era esse o pensamento de todos. Ela era a esposa do eletricista da cidade, era muito distinta, uma dama, de uma educação rara. Sabia fazer tantas coisas bonitas, era ela que sempre tinha as idéias para a decoração de quase todas as festas da cidade.
  Ela tinha uma filha única com dezesseis anos, uma menina fina igual à mãe, tanto no corpo, quanto na educação. Ela era linda, tinha os cabelos loiros e lisos, cortados até os ombros, só andava de saia ou calça bem apertada na cintura para ficar ainda mais bonita. Ela estava sempre junto da mãe. Dona Elza tinha batizado a menina, por isso, gostava muito dela, além de ser amiga da sua mãe. Era com essa comadre que ela conseguia conversar sobre todos os seus problemas de uma forma clara, além de sua mãe, é claro.
  Elas estavam na igreja planejando os arranjos do presépio, Pedro e Leninha também tinham ido.
  Leninha reparava o quanto Pedro olhava para Izabel, parecia que não a via há tanto tempo. Eles foram praticamente criados juntos.
   “Será que eles estão querendo namorar? Ela finge que não está olhando, mas quase toda hora fica dando uma olhadinha por baixo.” – pensava Leninha.
  Pedro pegou um papel e ficou desenhando mais ou menos os pensamentos da mamãe e de dona Antônia para o presépio, ia ser muito bonito.
  No domingo, Marcelo propôs aos meninos do catecismo para ensaiarem um tema e fazer um teatro à meia-noite no dia vinte e quatro. Eles gostaram muito da idéia, Leninha ia ser Maria.
  Até que enfim parecia que ia ter paz naquela cidade. O pastor conseguiu quebrar o mal que atormentava Vandinho.
  Leninha lembrava daquela noite de arrepios:
  “Foram todos à igreja Batista, até Marcelo e o padre estavam lá. Vandinho parecia calmo, de repente levantou e começou a torcer no chão. Falava umas coisas que ninguém entendia, correram cinco homens para segurá-lo, mas ele jogou seu pai por cima do banco, quase quebrando sua coluna e o pastor começava a gritar:
   --- Saia desse corpo, venha para o meu, porque sou mais forte de espírito e tenho armas para te combater. Saia dessa criança, criatura do mal.
  As mulheres começavam a cantar hinos católicos. Leninha ajoelhou em um canto, pôs as mãos a posto, rezava tanto em sua mente, que por um momento sentiu-se como se seu corpo tivesse levantado dali e ido para um lugar distante, cheio de luz e paz. Pediu a Deus para levar o mal embora dali e que desse paz a todos. Quando abriu os olhos, Vandinho e o pastor estavam desmaiados um enfrente ao outro, como se tivessem acabado uma luta.
  Todos na igreja estavam petrificados, dona Elza chegou perto da filha e a abraçou com força, parecia algo acontecera, mas Leninha não entendeu porque no momento exato estava de olhos fechados.
  O prefeito pegou a Comby da Prefeitura e levou Vandinho e o pastor para o hospital de Mantena. Eles estavam desacordados.
  Foram todos para casa. Mais tarde, Leninha ficou sabendo que quando o pastor pediu para o mal ir para ele, porque ele era mais forte, houve uma espécie de explosão entre os dois e um calor vermelho saiu pelo teto da igreja.”
   Leninha tentou descrever a história em sua imaginação.
   “Será que tudo isso ocorreu enquanto eu rezava?” – pensava Leninha -- “Mas, é claro que eu consegui, Deus me ouviu, eu sou forte, Deus é meu amigo. Eu sei que posso conseguir tudo, é só ter o pensamento forte. Não vou falar isso pra ninguém, vou deixar todo mundo achando que foi o pastor que conseguiu arrancar aquilo do Vandinho. Eu sei que foi eu e meu amigo do céu.”
   --- Obrigada, Senhor. – falava Leninha sozinha.
   A coisa mais bonita que existe nesse mundo é a época de Natal. As pessoas ficam felizes, parece que o mundo entra numa só harmonia, tudo parece cair do céu e chegar às pessoas com mais facilidade.
   Aquela cidadezinha estava assim, Vandinho ficou mais uns dias no hospital, mas, a notícia que se tinha é que ele estava bem, estava meio bobão, mas quase conseguia conversar direito. O pastor estava pronto pra outra, pelo menos, era o que os moradores dali diziam. Ele já estava fazendo seus cultos com a igreja cheia de novos protestantes que o consideravam um herói.
   A missa do galo ia ser depois da apresentação de teatro. As crianças fizeram tudo direitinho. Foi uma maravilha quando voltaram para casa, o presente de Leninha estava em cima de sua cama.
   --- Ele lembrou de mim! – correu pegando o embrulho.
   Cirilo foi correndo atrás dela.
   --- Ele quem?
   --- Papai Noel. Ele trouxe presentes. Olha! Corre! Vamos abrir!
   --- Não foi Papai Noel, sua boba. Foi a mamãe, eu vi ela comprando na loja da Rosa.
   Dona Elza veio entrando e ouvindo a conversa. Os olhos de Leninha estavam cheios de lágrimas.
   --- É mentira! É mentira! Eu sei que foi o Papai Noel.
   Dona Elza abraçou a filha repreendendo Cirilo.
   --- Não chore, minha filha. Você sabe que se não fosse Papai Noel, não teríamos condições de comprar estes brinquedos. Vamos, abra. Vamos ver o que é.
   Ela enxugou os olhos, abriu o pacote. A boneca, ra a mesma boneca que ela sonhava tanto e com um lindo vestido feito por dona Ruth, todo de renda. Ela não agüentou de felicidade, que até esqueceu o que Cirilo tinha falado. Dormiu abraçada com “sua amiga”.
  Cirilo ganhou um caminhão de madeira que dava para brincar de rolimã, feito por Pedro. E Pedro ganhou uma Bíblia nova, que o bispo mandou entregar.

Capitulo vinte


   Dona Ruth andava muito cabisbaixa, estava preocupada com a filha, as coisas estavam apertando muito de novo, ela entendia que Pedro não parecia querer voltar para o seminário.
   --- Vovó, eu queria tanto ficar aqui e ajudar a mamãe. Sou um homem, posso trabalhar no cartório ou na prefeitura, este ano que estive no seminário aprendi datilografia e muitas outras coisas que poderia ser útil. – dizia ele.
   --- Sabe, Pedrinho – falava pacientemente dona Ruth. – é por isso mesmo que sua mãe quer que você volte pra lá, é para você estudar e poder mais tarde ser alguém na vida.
   --- Mas isso, eu posso fazer aqui, eu estudo à noite e trabalho de dia, o seminário é uma prisão, não sei se agüento voltar para lá.
   Pedro não sentia nenhuma vocação para ser padre, ficar trancado o dia todo, aliás, o tempo todo. Ainda mais com uma menina tão bonita ali por perto, Izabel, como ela estava bonita, que vontade ele sentiu de pegar na mão dela, beijar aquela boca. Como uma pessoa que queria ser padre poderia pensar em uma mulher daquele jeito? Sentia vontade de trocar idéias com Marcelo, mas também sentia reprimido, tinha medo de magoar sua mãe.
   Enquanto isso, tudo estava ótimo para Leninha. Como ela estava sentindo diferença em seu corpo. Encheu o tanque para tomar banho, tirou a blusa, olhou para os seus seios e levou um susto, eles estavam mais duros, passou a mão e sentiu uma dorzinha, resolveu tomar banho de blusa, não queria que ninguém a visse nua, sentiu vergonha.
   Dona Elza gostava muito do ano novo, preparou um frango recheado com farofa, ganhou dois patos dos primos e recheou. Iam todos para a fazenda, à noite os primos estouravam fogos de artifício e faziam aquela festa.
   Leninha calçou o sapatinho de salto, lavou os cabelos e vestiu seu vestido novo que a madrinha deu no seu aniversário.
   Ela se sentia como uma princesa, ficar ao lado do primo Tarzan era sua maior alegria. Queria que ele notasse como ela estava crescida, como já tinha ar de moça.
   Pedro convidou Marcelo para ir com eles, o padre Mário reclamou um pouco, mas concordou, pois afinal, o rapaz precisava sair e se divertir um pouco também.
   Eles iam dormir lá mesmo.
   À meia-noite teve estrondo dos foguetes. Pedro estava elétrico, tinha bebido uma mistura que os primos fizeram. Leninha sentou entre Tarzan e Marcelo para a ceia. Eles a tratavam como uma verdadeira princesa. A mesa estava repleta de coisas gostosas.
   A prima Ana, mãe de Tarzan, era uma mulher muito caprichosa, tinha uma mão para fazer as coisas que dava gosto.
   Eles colocaram luzes no quintal da frente da fazenda perto do riacho, enfileiraram quatro mesas. Os filhos estavam todos reunidos, aquilo que era felicidade! Dona Ruth que não quis ficar no sereno, ficou olhando para eles da varanda, mas se sentia muito bem, gostava de ver a filha e os netos felizes, pelo menos ali dona Elza esquecia dos sofrimentos da vida.
   Tinha até música. “ Que noite boa.” – pensava Cirino.
   Leninha não tirava os olhos de Tarzan, sentou bem pertinho dele, queria tanto que ele pegasse em suas mãos e a tirasse para dançar. De vez em quando o braço dele roçava no braço dela, ela sentia uma coisa tão boa, como se estivesse uma formiguinha em todo o seu corpo. Definitivamente, ela compreendeu que por tudo o que Sônia lhe contava de romances, ela estava apaixonada por Tarzan.
   Encostou a cabeça em seus ombros, sempre que fazia isso ele passava a mão em seus cabelos e a carinhava.
   --- Está com sono? – perguntou carinhosamente.
   --- Ainda não, vou ficar acordada até o sol aparecer.
   --- Você não agüenta.
   --- Quer apostar?
   Ele a olhou nos olhos, ela sentiu que o olhar dele estava diferente, seu corpo tremeu, sentiu o cheiro de se hálito bem perto do rosto dela, ele ia lhe beijar... e a beijou, um beijo carinhoso na testa.
   Marcelo observava como se entendesse tudo aquilo. Pedro continuava alegre, já estava até dançando. Dona Elza pediu ao primo para não dar mais bebida a ele, pois ele era fraco e poderia passar mal. E não deu outra, quando todos resolveram se recolher lá estava Pedro quase jogando as tripas pela boca.
   Cirino morria de rir.
   --- Lá vai ele chamar o Juca. Juca! – gritou Cirino.
   A prima Cida correu a fazer um café amargo para ele beber foi um custo, mas conseguiu.
   Por fim, todos conseguiram dormir. Dona Elza e a prima não dormiram muito, acordaram cedo e cuidaram de tudo. Quando o pessoal conseguiu levantar já tinha café fresco, leite morno, queijo, biscoito de polvilho e pão feito em casa.
   --- Melhorou, Pedro? – perguntou Marcelo vendo ele andar meio bambo.
   --- Maia ou menos, minha cabeça está rodando.
   --- Vamos dar uma volta, tomar ar puro. – convidou Marcelo.
   --- Tomem café primeiro. – recomendou a prima.
   Nisso veio chegando Tarzan.
   --- Vou andar com vocês também.
   --- Posso ir com eles, mamãe? – pediu Leninha.
   --- Não, filha. Eles são homens, precisam conversar e vão longe.
   --- Que pena! – protestou Leninha.
   Tarzan a pegou por debaixo do braço e a jogou lá em cima.
   --- Depois eu te levo para andar de cavalo.
   --- Oba!
   Dona Elza observava o carinho dos dois, sentia aliviada por saber que sua filha era tão querida.
   Aquele era o primeiro dia de um ano que ia começar e as esperanças a raiar junto com ele.
   A família de dona Elza ficaria com os primos até depois do almoço, depois iriam embora de caminhonete.

Capitulo vinte e um

   Pedro desabafa com Marcelo, eles conversaram muito tempo, Tarzan ficou ouvindo e entendia como era difícil para ele ter que seguir uma vocação que não tinha.
   --- Conversa com sua mãe, eu sei que ela vai entender. – dizia Tarzan.
   --- É tão difícil, Tarzan, vou te chamar assim, já que Leninha o batizou assim. Afinal, qual é o seu nome? – perguntou Marcelo.
   --- Douglas.
   --- Puxa, é até um nome bonito.
   --- É que a Leninha desde pequenininha via os filmes de Tarzan e me acha parecido com ele. Ela diz que eu sou selvagem, mas muito doce. Vê se pode uma coisa dessas.
   --- E você até que gostou, né? – riu Marcelo.
   --- Pois é, o apelido pegou. Ninguém mais me chama de Douglas, nem meus pais. Agora, voltando ao assunto do seminário, deixa Pedro, eu vou pedir ao papai, ele tem jeito. Vou explicar a ele que você não se acha pronto para ser um religioso, sei que ela vai deixar você ficar.
   --- Tem que ser rápido, senão vou ter que viajar daqui a três dias.
   --- Hoje mesmo resolvemos.
   --- Obrigado, Tarzan. Além de primo, você é um amigão.
   --- E você, Marcelo, tem vocação para padre?
   --- Não sei, para ser sincero até hoje eu não sei. Eu fui para o seminário porque meus pais morreram, o padre me tirou do orfanato e cuida de mim desde garoto. Não quero decepcioná-lo.
   --- Aí é que está o problema, Marcelo. – disse Pedro sentando mais à vontade perto do riacho.
   --- A gente – continuou – preocupa muito em não magoar quem cuida da gente, mas e depois se fizermos agora o que os nossos protetores , com certeza vamos fazer o mesmo com os nossos filhos, pois vamos quere que eles sejam alguma coisa que não conseguimos ser e aí vai embora.
   --- Te entendi, aí todos nós acabamos tristes, infelizes, sem realizar nossos sonhos.
   --- É isso aí.
   --- Agora me dizem uma coisa vocês dois. --- disse Tarzan. --- E mulher? Vocês pensam ou não nelas?
   --- Pedro disse que está apaixonado. – disse Marcelo.
   --- Tá vendo? E você Marcelo?
   Marcelo riu sem graça.
   --- Penso sim, mas não quero.
   --- Dois marmanjos que nunca tiveram mulher nos braços. – riu Tarzan.
   --- E você? Teve quantas? – perguntou Pedro.
   ---   Eu... eu... – engasgou.
   --- Tá vendo? Não fala de nós. Você não é padre e nem por isso teve mulher.
   --- Já tive, sim. – disse sem graça.
   Marcelo e Pedro se interessaram.
   --- Foi uma menininha meio doida, que veio passar as férias na casa da minha irmã o ano passado, essa meninas de cidade grande, vocês sabem como é. Acabou me puxando pro meio do mato.
   --- No mato? – perguntou Pedro superinteressado.
   --- E aí? – perguntou Marcelo.
   Tarzan pegou um capim ,começou a comer, deitou na grama.
   --- E aí que eu virei homem, ué!
   Marcelo e Pedro riram dele.
   --- Isto é ser homem? – perguntou Marcelo.
   --- Pelo menos é assim que eu escuto, que nunca seremos homens sem conhecer mulher.
   --- Eu nunca quero assim. – disse Pedro. – Quero uma mulher, mas que eu a ame.
   --- Eu também quero, Pedro, por isso, tinha vergonha de contar isso, não foi bom, acho que fazer sexo sem amor é sujo. É a mesma coisa que ficar olhando cachorro trepando em cadela.
   --- Que comparação, Tarzan! – disse Marcelo.
   --- Mas, é isso mesmo! Um dia você repara, ele chega, cheira e manda brasa. Nem conhece, depois pega outra e ela também aceita outro. É muito feio.
   --- Nós três aqui, estamos parecendo mulher quando se junta. Acho que estamos tendo uma conversa de virgenzinha. – riu Pedro.
   --- Mas, é isso mesmo. Homem também pensa na primeira vez. Às vezes, na pensa porque é posto diante de uma mulher e tem que provar sua macheza.  – disse Marcelo. – Ouvi isso do padre Mário um dia.
   --- Gostei. -- disse Tarzan. – Às vezes, arrependo de ter acompanhado aquela menina pro mato, mas eu esqueço. É só não ficar lembrando. Quero casar e cuidar bem da minha menina.
   --- Leninha? – perguntou Marcelo.
   --- Que déia! – disse Pedro. – O que a minha irmã tem a ver com isso?
   --- Nada, é que parece que ela olha Tarzan tão deslumbrada.
   --- Você fica com ciúmes, Marcelo? – perguntou Tarzan.
   --- Não, só que você vai ter que cuidar muito bem dela.
   --- Não estou entendendo, vocês estão olhando pra minha irmã? Falando dela assim na minha frente. Um estudante de padre, outro meu primo. Leninha é só uma menina, tem dez anos. – protestou Pedro.
   --- Está crescendo. – disse Tarzan – É linda, além do mais eu sou primo distante.
   --- Então, você pensa mesmo nela. – disse Marcelo com um sorriso triste.
       Tarzan não respondeu, levantou e foi andando.
   --- Vamos andando também, senão não dá tempo de falar com papai sobre Pedro.
   Eles levantaram e o acompanharam. Marcelo passou a mão pelo rosto enxugando uma lágrima que teimava em cair.
    Até que enfim Pedro suspirou aliviado. A mãe concordou dele ficar e arrumar um emprego, se não desse certo eles pensariam em fazer outra coisa.
Capitulo vinte e dois

   Que pena! Mas o dia acabou e à tarde eles voltaram para casa.
    Domingo Leninha, Sonia, Claudia e Eliza deixavam tudo limpinho para receber os bebês que as mães deixavam com elas enquanto assistia a missa.
      Cada bebezinho mais fofinho que chegava, elas ficavam deslumbradas, aqueles quarenta minutos a uma hora de missa era o sonho delas. Enquanto cuidava das crianças elas aproveitavam para brincar que elas eram a mãe deles.
   Uma menininha chegou na porta e ficou olhando lá pra dentro.
   --- Leninha, não vire rápido, mas tem uma menina suja na porta, o que vamos fazer?—perguntou Sonia para a amiga.
   Leninha virou devagar.
    --- Oh! Meu Deus é a Delícia!—exclamou.
    --- Delícia!—assustou-se Sonia.
    --- É uma menina que mora na favela?--veio chegando perto Claudia.
    --- Coitada, ela é muito pobre.--disse Eliza--E eu também a conheço, ela também já foi lá em casa pedir coisas.
    Elas chegaram perto da menina.
    --- O que você quer?--perguntou Claudia.
    --- Nada, só estou olhando vocês.—respondeu de cabeça baixa.
   --- Sabe Delícia, eu não vou mandar você entrar, porque você esta um pouco suja e os bebes estão quietinhos e limpinhos.--disse Leninha.
   --- Eu sei ,não tem importância. Eu só quero ver vocês mesmo.
   --- Está bem, domingo que vem se você tomar banho eu deixo você entrar um pouquinho.
  --- Deixa mesmo?
  ---- Deixamos.—responderam em coro as meninas.
  Mais uma idéia tinha parado na cabeça de Leninha, só que ela ia precisar pensar uma maneira de fazer a mãe deixar ela realizar isso.
 Capitulo vinte e tres

   Alguma coisa estava acontecendo, musica alta assim tão cedo.
   Cirilo e Leninha correram para a praça da igreja para ver que novidade era aquela. A meninada toda da cidade estava lá em volta da caminhonete. Era uma caminhonete toda cheia de desenhos, com altos-falantes. Eles anunciavam que ia chegar um circo na cidade. Vieram ver que lugar poderia ser armado a lona e se o prefeito autorizava a armação para o espetáculo.
   O coração de leninha quase soltava do peito de tanta alegria era isso que estava faltando em suas férias.
   Eles foram correndo atrás da caminhonete até a prefeitura. Enquanto o dono do circo conversava com o prefeito, ele faziam a maior festa ao som da musica. E claro que o prefeito autorizou, o circo seria armado num terreno atrás do grupo, lá tinha um espaço enorme.
   Boa chance para Leninha dar uma fugidinha e ir até a casa de Delícia. Ela pediria a mãe para ver o circo ser armado, pediria a Lili para ir com ela, e descobririam a casa da menina.
  Dona Elza resmungou, mas acabou deixando Leninha ir ver o circo ser armado.
   Veio chegando tanta coisa, dois caminhões grandes, cheios de coisas. Leninha ainda não sabia como se chamava, mas depois acabou descobrindo que aquilo que a caminhonete puxava era um trailer, uma casa de rodas, onde os donos do circo dormiam.
  Cirilo estava junto com Wagner, um dos filhos mais velho do pastor que conhecia muitas outras cidades. Eles sentaram perto de Lili e Leninha e ia respondendo tudo que os meninos perguntavam, era muito inteligente e respondia calmamente.
  --- Porque eles usam tanto ouro assim no pescoço? ---quis saber Leninha.
  --- Eles são meio aciganados. --respondeu Wagner.
  ---Como assim?—perguntou lili.
  --- É que esse povo de circo viaja muito e viajantes assim sem um lugar fixo acaba sendo cigano mesmo. Repara como eles conversam uns com os outros, a gente não entende nada.
   Leninha ficou quieta para ouvir um pouco. Tinha uma média de dez pessoas adultas e umas cinco crianças.
  Pareciam meio sujas, as mulheres usavam saias rendadas e cheias de babados, tinha duas mais moças com blusas caídas nos ombros, cabelos compridos, muito bonitas. Os homens estavam sem camisas, tinham músculos, eram fortes, certamente seriam trapezistas. As crianças também ajudavam a descer coisas do caminhão. Realmente Leninha não conseguiu entender nada do que eles falavam uns com os outros, pareciam que falavam cantando. Até o homem que veio na frente falar com o prefeito estava falando diferente.
  --- É realmente engraçado.—disse Leninha.
--- São meio italianos, por isso falam cantando.
--- Então o Marcelo sabe o que eles falam?---perguntou Cirilo.
--- É bem capaz que não, porque o italiano deles e misturado com outras línguas. É um código que eles  mesmos inventaram para ninguém entender quando estão entre si.
  ---Então quer dizer que eles não gostam da gente?--perguntou Lili.---Então, por que trabalham em circo?
  --- Eles gostam é de dinheiro e são trabalhadores. Agora a gente que tem tomar cuidado porque eles gostam de vender ouro, muitas vezes falso.
   ---Vamos embora , Leninha. –pediu Lili um pouco com medo.
  ---Vamos ficar mais um pouquinho, daqui a pouco  a gente vai.
   Cirilo e Wagner foram olhar do outro lado onde eles já tinham começado a furar o chão para armar uma barraca para eles.
    Leninha chamou Lili par irem andando até o morro, ela concordou e elas foram andando. Hoje ela ia descobrir a casa de Delicia.
   Rodearam o grupo, correram um pouco, começaram a subir o morro, passaram de frente a cadeia correndo, avistaram de longe a casa onde ficava as mulheres que dançam. Haviam duas na porta, uma estava só de calcinha sem blusa, com os peitos de fora, a outra dançava com um cabo de vassoura. Riam alto. Leninha sentiu medo, segurou firme a mão de Lili e continuaram o caminho.
    Era longe e o morro não acabava. Passaram por trás do cemitério para encurtar o caminho, começou a aparecer umas poucas casinhas feitas parecia só de barro e eram pequenas. Haviam uns meninos brincando na rua, descalços, com os narizes escorrendo catarro amarelo. Lili pediu para sentar um pouco, estava cansada.
   Um menino aproximou dela.
   ----Vocês estão perdidas aqui?
  ----Não, a gente veio procurar a Delicia, você conhece ela?----perguntou Leninha.
  ---Conheço todo mundo aqui.---respondeu o menino.---Vocês são amigas dela?
  ----Somos.
  ---- É a terceira casa, aquela que tem margaridas na porta.
  ---Obrigada, vamos lá.
  ---Eu levo vocês.
    Elas levantaram e foram. A porta da casa era limpinha e tinha um canteiro com flores e uns pés de cebolinha. Bateram palmas.
  ---Chegou na janela uma senhora com um lenço na cabeça.
  ---Delicia está?--perguntou Leninha.
  ---Estou.---respondeu uma voz lá de dentro.
  Ela chegou a cara na janela.
  --- Mamãe, é a menina que eu falei com a senhora. É minha amiga, a Leninha e a Lili.
   Correu a abrir a porta. Ela estava que era sorriso puro e a mãe mandou as meninas entrarem. Tinha só dois cômodos, eles dormiam na sala e tinha uma cozinha com um fogão a lenha, tudo asseado, branquinho. “ Com certeza eles usam barro branco”. –pensou Leninha.
  Delicia ficou tão feliz de ver as meninas que acordou o irmãozinho que dormia de barriga para cima. Tinha um nenenzinho embrulhado nos cobertores, tão pequenino que mal dava pra ver que era um neném.
  ---Nossa, você tem mais um irmãozinho?  ---perguntou Lili.
  ---Não, é uma menininha. Nasceu tem uns quinze dias, mamãe ainda está um pouco fraca.
  ---Posso ver? –pediu Lili.
  A mãe de Delicia pegou o neném e trouxe para perto das meninas.
  ---Que gracinha, como se chama?—perguntou Leninha.
  ---Ainda não coloquei nome.
  ----Tomara que não seja Primor. ---riu Leninha.
  ---Dona Maria riu também.
  ---É que não tenho muita cabeça para nomes, vou deixar Delicia dar o nome para ela.] 
   ---Eu ia pedir para ser Maria Helena, porque é a menina mais linda  e boa que eu conheço.
   Leninha riu sem graça.
   --- A gente te ajuda a colocar um nome.---disse Lili.
   ---Por que, Lili? Ficou com ciúmes dela ter o meu nome?
  ----Não, é que vai ser difícil aguentarmos duas Leninhas.
   Elas riram.
   Dona Maria ofereceu café com leite para as meninas, elas aceitaram para não fazer desfeita.
   ---Temos que ir, está ficando tarde e é longe.
   ---Eu vou com vocês até no grupo. –ofereceu Delicia.
   As casas daquela pequena vila ficavam quase dentro umas das outras, o único espaço que tinha Delicia fez um canteiro. A mãe dela explicou que ela achou tão bonito o canteiro da casa de Leninha que acabou fazendo um e aproveitou para plantar cebolinhas que podia vender e ganhar o dinheiro do pão.
   Lili disse que ia pedir a mãe umas roupas do irmãozinho para dar a irmãzinha de Delicia.
  ---Vou pedir a mulher do Rui também, Lá tem neném.
  Dona Maria agradeceu o carinho das meninas.
   Foram andando. Tinha tanto menino naquele lugar, que Leninha ficou assustada.
    --- Por que vocês não vão à escola?  ---perguntou Leninha.
    --- A gente começa o ano, mas depois desanima. Fica com vergonha, às vezes não temos calçado nem para ir a escola, ai e melhor ficar em casa mesmo, e sair na rua pedindo. 
   ---Mas vocês têm que fazerem alguma coisa para melhorar isso, se não o que serão quando crescerem?
   ----Não sei, é tão difícil, Leninha, você nem imagina. Às vezes a gente acorda, não tem nada para comer.
   ----Eu sei sim, eu também sou pobre. Mas eu vou a escola.
   ----Sua mãe é professora.  
    Leninha calou, apesar das dificuldades em casa, não podia reclamar tanto da vida.
    ----Você sabe ler?---perguntou Lili a Delicia.
    ---Não, não sei nada.
   ----Você não tem medo de passar perto da casa daquelas mulheres?
   ----Não, elas são amigas da gente.
   ----Amigas?  ---perguntou Lili.
   ----E você nem imaginam o quanto elas ajudam a gente.
  ---Então elas não são ruins?----perguntou Leninha.
  ---A mamãe disse que elas foram moças que os pais tocaram de casa porque os namorados fizeram mal a elas e não casaram.
   Leninha não entendia muito disso, nem Lili, nem mesmo Delicia. Só ouviam o que os mais velhos diziam e não perguntavam mais.
    Andaram depressa para chegarem no grupo. Os pés doíam.
    ----Até amanhã, Delicia. ---despediram-se e foram embora depressa, o dia estava quase acabando. Passaram perto do circo, a barraca já estava de pé e Cirilo e Wagner já tinham ido embora.
  Despediu de Lili de frente da casa dela e correu para casa..
  ---Cadê Cirilo? ---perguntou dona Elza.
  ---Estava com Wagner.
  ---E você?
  ---Com Lili.
  ---Acabaram de montar o circo?
  ----Só a barraca deles. A lona do circo é grande, devem gastar uns dois dias para furar os buracos.
   ---Ah bom! Vou esquentar sua água. Está suja, vai tomar um banho.
   “Ufa!—pensou Leninha---ainda bem que a mãe não disse que tinha demorado”. Depois ia contar que tinha ido na casa de Delicia, mas tinha que ser depois....porque tinha medo de ficar de castigo.
   Dona Ruth tinha saído, tinha ido na casa de Sonia fazer um chá, ela estava gripada. “De novo” ---pensou Leninha.
   E o dia tinha sido de emoções. Aprendeu tanto.
   A mãe ia dar aula e o jantar estava cheirando. Não tinha carne, mas aquele cheirinho de feijão afogado era tão bom, sopa de taioba com fubá e ovo. Que delicia!.
   O que salvava muito aquele povo era a bondade do pai de Eliza que deixava os mais pobres pegar um litro de leite todas as manhãs na porta da casa dele. Tinha um empregado que trazia a carroça da fazenda com leite fresco.
  ---- Este homem era o merecedor do céu.-- dizia dona Ruth todo dia quando pegava o leite.
    Todo dia antes de ir para a porta da casa de Eliza ele deixava dois litros para dona Elza. Era ordem do patrão e ele cumpria orgulhoso, estudava com dona Elza á noite e estava aprendendo muito.
  A maioria dos alunos de dona Ruth era gente simples que não teve oportunidade de estudar e agora se esforçavam para aprender a ler e escrever e dona Elza era a bondade em pessoa para fazer isso.
   
Capitulo vinte e quatro

    Eliza estava cada dia mais bonita, já era uma moça por completo. Leninha escutou isso da boca de sua madrinha. Foi passear com Sonia na casa de Lili.
    ---Chegaram dois filmes novos---disse Lili
   ---- Quais?—quis saber Leninha.
   ---Um faroeste e o outro não sei ainda, papai vai começar a passar domingo.
   ----Oba! Quero ser uma das primeiras a ver.
   Cinema era uma coisa que Leninha mais gostava.
   Elas ficaram brincando. Sônia parecia um pouco sem cor.
  ---Ontem tive febre, mamãe deixou eu vir só um pouco.---Disse Sonia.--- Ela disse que seria bom para pegar um ar, mas não posso ficar muito, tenho que tomar remédio.
  ---Tomara que você não tenha que ir ao hospital.—disse Lili.
  ---Tomara mesmo.
  ---Será que da para irmos na casa de Eliza um pouco?---Perguntou Leninha.
  ---A Eliza ta tão chata, ontem eu fui lá ela nem quis brincar, a mãe dela disse que ela estava de repouso, estava com cólicas.
  ---Cólicas?---Perguntou Leninha.
  --E eu perguntei a mamãe o que era isso, e ela me disse que era coisa de moça. Eliza tinha ficado moça.
  ---Moça então não pode mais brincar com a gente.
  ---Só três dias, depois ela fica boa.
  ---Quando eu ficar moça, vou ficar de cama também.---disse Sonia.
  Elas riram não entendiam muito.
                             
XXX

    Depois da aula daquele dia bateram na porta.
    ---Será que algum aluno esqueceu alguma coisa?---Perguntou dona Elza levantando da cadeira que acabara de sentar.
   Leninha e Cirino já tinham ido dormir. Dona Ruth estava perto da filha e Pedro não tinha chegado do cinema.
   ---Vou ver quem é.—Disse Dona Ruth.
   ---Deixa mamãe, eu abro. Vai deitar, já é tarde.
   Dona Ruth caminhou até seu quarto e fechou a porta, estava cansada.
   Dona Elza foi até a porta da sala, estava medo.
   Abriu a aporta era o sr. Sebastião.
   ---Boa- noite. Desculpe o adiantado da hora, mas preciso conversar com a senhora.
   Ela já sabia que ele estava atrás de dinheiro, não pôde pagar os juros daquele mês.
    ---Não tem importância, entre.
    Ele entrou estava com um cheiro forte de álcool.
    Ela o levou ate a sala de aula para não acordar as crianças.
    Quando Pedro chegou, ele já tinha ido embora. Dona Elza tentava arrumar as coisas na sala de aula, os olhos estavam roxos de tanto chorar.
   ---O que a sra tem mamãe, estava chorando?
   ---Não, meu filho, só estou com sono e muita dor de cabeça. Vou deitar. Boa-noite.
   “Alguma coisa aconteceu”---pensou Pedro.
   No outro dia ficou observando a mãe que parecia estar numa mais completa agonia com ela mesma.
    

XXXI

    Sonia mais uma vez foi para o hospital. Desta vez parecia bem pior. Parecia que tinha desmaiado e os pais não estavam conseguindo fazer ela voltar a si.
   Leninha ficou sabendo da noticia de novo por Vanda.
   ---Será que ela vai morrer? ---perguntou Leninha a Vanda.
    ---Eu ouço dizer que ela não vai ficar moça, que morre antes.
    Leninha sentiu um arrepio e começou a chorar.Vanda falava as coisas com simplicidade, parecia nem sentir o que falava.
  ---Você não pode falar assim.—Disse Leninha.
  ---Eu escutei minha mãe falando com a mãe dela, não tenho culpa, também gosto da Sonia, mas ficar vendo ela sofrer assim é bem pior.
  Leninha entendeu Vanda e a abraçou.
  Desta vez ela ficou uma semana no hospital.
  Voltou com uma carinha abatida e um sorriso triste.
  ---Vou lá na casa de Sonia.---Disse para a Avó
  ---Tome cuidado, não fica em cima dela, depois você pega essa doença e sua mãe não tem recurso para correr com você para o hospital igual a família dela.---Disse a avó para Leninha.
  Ela saiu batendo a porta.
  Ela entrou e Sonia estava sentada na cama Abriu os braços para abraçar Leninha, ela lembrou da recomendação da avó, mas abraçou assim mesmo.
  ---Você está melhor?—perguntou sentando perto de Sonia na cama.
  ---Estou. Olhe só meu braço, tomei tanto soro, tanta injeção. Não quero voltar nunca mais para o hospital. Desta vez eu saro, você vai ver só.
   Leninha ficou feliz.
   ---Então você vai poder ir ao circo? –perguntou Leninha.
   ---Ai eu não sei. Tenho que ver com mamãe.
    No sábado, ate que enfim o circo ia estrear.
    Eles levantaram a lona e montaram tudo rápido, mas demorou dez dias para inaugurarem.
  A caminhonete passava toda hora, tocando musica e anunciando as horas do espetáculo.
  ---Nós podemos ir, mamãe?---perguntou Cirilo e Leninha juntos.
 ---Não sei , não sei se o dinheiro vai dar.
 ---Deixa dona Elza, eu os levo e pago.---Chegou Marcelo Pedro entrando no assunto.
  ---Oba!---Leninha pulou no pescoço de Marcelo.
   Este a abraçou de uma maneira especial. Ela já estava tão crescida que ele só teve que levantar ela um pouco para ficar da sua altura.
  Dona Elza concordou.
  Ela vestiu o melhor vestido, colocou fita nos cabelos.
  ---Estou precisando comprar um soutien para leninha.—Comentou com Dona Ruth assim que os filhos saíram.
   ---Minha, filha .—Disse pausadamente dona Ruth.
   ---O que, mamãe.
   ---Desde aquela noite que o sr Sebastião esteve aqui, noto você diferente. Aconteceu alguma coisa?
   ---Nada, mamãe. Só pedi a ele mais um prazo. Vou ter que arrumar um outro empréstimo.
   ---Não, minha filha. O que será de nós!
   ---Não se preocupe mamãe, eu resolvo as coisas. Deus me ajuda e eu vou conseguir.
   Sonia não pôde ir ao circo Dona Neném não deixou porque ela estava muito agitada.
   Leninha contou tudo para ela, eles iam ficar uns três meses na cidade, ia dar tempo dela ver o espetáculo depois.
   Faltava pouco para recomeçar as aulas.
   Afinal teve muita emoção naquelas férias. Leninha ficou amiga de uma trapezista, ajudava ela limpar o circo e conseguia entrar de graça.
   Dona Elza não gostava, mas Lili estava sempre com ela. Ouviam dizer que ciganos roubam crianças, mas elas acabaram percebendo que isso era só boato.

XXXII

   Leninha estava tão preocupada. Tinha certeza que alguma coisa aconteceu com sua mãe, podia notar sua tristeza nos olhos.
  Mas ela não tinha coragem de perguntar nada sabia que era coisa de gente grande.
  “Gente grande”.—Que bobagem pensava ela, só fazia era complicar as coisas, tudo podia ser tão simples, pra que tanto esforço para não chegar a nada, trabalho, trabalho, canseira e no final das contas sempre a mesma coisa. Pra que? No final e tudo morte mesmo, tudo acaba, não sobra nada.
   Ela raras vezes sentia medo de alguma coisa, desde aquilo que viu acontecer com Vandinho percebeu a grandeza da mente. Queria ter o controle, se forte, assim como o Super_homem. Ficava horas e horas tentando e pedindo a Deus para lhe dar alguma super força. Era ate engraçado ela pegava os olhos com as pontas dos dedos e apertava com tanta força, ate ver estrelas, daquelas estrelas ela mergulhava a onde queria, descobria coisa fazia plano. Por isso sempre que sentia alguma coisa estranha ela fugia por esse caminho. Quando voltava a realidade não é que parecia que alguma coisa mudava?
   ---Mamãe! Mamãe! Entrou gritando Pedro.
   ---Que é filho? Que gritaria é essa?
   ---Consegui emprego.
   ---O que?
   ---É mamãe, vou trabalhar na prefeitura, o Sr. Joaquim pai da Eliza, me arrumou trabalho com o sr. Prefeito.
   ---Oh mau Deus!como posso agradecer esse homem?---Dizia dona Elza.
    Leninha ouviu tudo do quarto onde estava deitada e pensava.”---Obrigada meu Deus, eu sabia que o sr nunca iria me faltar”.
  Saiu correndo do quarto e foi abraçar o irmão.
  ---Oba! Pedrinho, agora você vai poder me pagar uma entrada no cinema de vez em quando.
  ---Claro meu amor! Claro!.—Dizia ele enchendo ela de beijos.
  Dona Ruth também ria satisfeita sentada na cadeira perto da porta da cozinha.
  Pedro iria trabalhar na secretária da prefeitura, tinha uma letra muito bonita e sabia datilografia.
   As aulas recomeçaram, este ano dona Elza só ia trabalhar pela manhã, estava esperando a aposentadoria, a tarde ia dar umas aulas particulares e a noite continuaria a ensinar os mais velhos.Tinha que juntar tudo que podia para saldar aquelas dividas que a atormentava.
   O medico pediu para dona neném deixar Sonia mais quieta, por isso dona Elza ia dar aulas para ela em casa, assim ela não perderia o ritmo até voltar as aulas novamente.
   Leninha iria estudar pela manhã.
    A turminha estava toda de volta.
   Claudia, Lili , Leonardo, Eliza.... Leninha...
   Leonardo continuava a insistir em querer ficar perto de Leninha. “Ele agora estava tão diferente”. Pensava leninha.—Tinha ido para a quinta série, estava mais alto, os olhos verdes dele pareciam ter outra cor.
  Mas ela não queria ficar pensando nisso, gostava mesmo era de Tarzan, tinha certeza.
  Eliza estava mais linda que antes, também tinha crescido, parecia mesmo uma moça de capa de revista, só andava bem aprumada, cabelos escovados e os dentes eram um brilho só.
  ---Nossa Leninha! Que saudades! Parece que faz tanto tempo que não nos vemos.---Disse Eliza abraçando Leninha.
  ---É mesmo, também tem um bom tempo que não vou a sua casa. Mas você está tão bonita! –Disse leninha retribuindo o abraço a amiga.
 ---Você também permanecer linda! Passe lá em casa depois da aula, tem um presente para você.
 ---Porque?não é meu aniversario?—Perguntou leninha.
 ---Não tem importância  se não é seu aniversario, e que eu comprei umas coisas novas para mim e separei umas coisas para você.
  ---Que legal! Aposto que é coisa legal---disse leninha.
  ---É sim, se a Lili quiser ir com você pode levar ela também.
  ---Ta legal.
  Foram para a sala de aula. Tinha professora nova.Uma normalista que tinha vindo da cidade vizinha, só para dar aulas para a turma da quarta série até a sétima série, seria a nova professora de português. Leninha estranhou pois agora tinha dois professores diferentes, sempre tivera uma só, mas a diretoria queria que eles já fossem acostumando, queria métodos novos na escola, assim quando chegassem na quinta série não estranhariam um professor para cada matéria.
   Cecília era o nome da professora nova. Ia ficar morando na pensão de dona Inês, tinha mais umas duas moças que também daria aulas para outras turmas. A outra professora cuidaria do restante das matérias só a professora de português era exclusiva, que cuidaria também de ortografia e redação.
  Todas as crianças gostaram da novidade, pareciam que estavam em outro lugar.
   Cecília devia ter uns vinte anos, bonita, meiga, logo conquistou a todos.
   Leninha estava contente, se sentia orgulhosa de estar na quarta série, se sentia uma mocinha, os cabelos soltos, os olhos mais brilhantes que tudo, ate seu jeito de sentar e conversar parecia estarem diferentes, ela mesma as vezes se sentia estranha.
   Já não pensava mais tanto em brincar, estava gostando de se olhar no espelho.
   Dona Elza já havia notado diferença na filha, pó isso as recomendações agora eram maiores.
  

XXXIII

    Foram a casa de Eliza depois da aula, esta lhe deu muitas roupas que já não serviam mais.
  ---Este aqui é pra você usar quando ficar de seios, ele tem umas pinças de lado e só fica bonito de soutien.---Disse Eliza.
   ---Nossa! Que bonito.---Disse Lili.—deixa-me experimentar?
   ---Pode, mas este é da Leninha.
   ---Eu sei só quero ver se fico bonita.
   ---Ta bem pegue um soutien meu.
   Leninha correu na gaveta de calcinha e de soutien de Eliza , ela também quis experimentar um.Eliza passou batom nelas, ela experimentaram todos os vestidos em Leninha serviu todos, até uma calça comprida ela ganhou.
Leninha ficou tão feliz que não sabia o que dizer.
---Eliza, será que eu posso dar um desses para a Delicia?---Perguntou com medo de ofender.
---sabe Leninha eu estou dando pa você e você pode fazer o que quizer com eles, só acho que seria melhor você dar os seus que não te servem mais, porque estes não vão servir nela, ela é bem menor. ---Disse Eliza calmamente.
  Eu também penso assim.---Disse lili.
  Leninha concordou.
  Chegou em casa toda feliz, dona Ruth foi ver as roupas e gostou achou todas de bom gosto.
  ---Vovó, será que a mamãe deixa eu dar alguns dos meus vestidos que não servem mais para a Delicia?
  ---Claro minha filha, claro, a gente deve sempre ajudar as pessoas, quanto mais bem a gente faz, mais bem a gente recebe.
  ---A sra me ajuda?
  ---Ajudo, vamos lá olhar suas gavetas. Depois você vai fazer seus deveres esta bem?
  ---Hoje não teve dever, foi o primeiro dia.
  ---É mesmo tinha me esquecido.
   Dona Ruth as vezes era tão legal! “ Pensava leninha,”. Nem parecia tão velha, tinha tanta força de viver parecia que não ia morrer nunca, ia ser eterna. Mas as vezes quando ela ralhava com ela, ela já não gostava tanto da avó, mas agora nesse momento ela estava gostando muito dela.
   A vida poderia ser tão boa! –Leninha pensava depois de ter separado os vestidos e sentada debaixo do pe de manga.---O céu tão azul, a avó mexendo nos pés de couve, o irmão trabalhando na prefeitura, Cirilo na escola, que alivio! Ela de manhã, ele de tarde, a casa ficava tranqüila.
  A mãe tinha ficado o dia inteiro no grupo por se o primeiro dia de aula.
  Deus tanto podia fazer um milagre e dona Elza não ter que pagar aqueles juros tão altos, de um divida que ela não tinha nada com isso.
  ---Ajude a mamãe meu Deus!..---Pedia Leninha.
  ---Leninha! Leninha!---gritou lá de frente da casa.
  ---Já vou respondeu leninha.
  Era Sonia de chapéu e sombrinha se protegendo do sol.
  ---Sonia, que surpresa.—correu a abraçar a amiga.
  ---Vim te buscar para lanchar e brincar comigo.
  ---Posso vovó.---pediu leninha.
  ---Pode filha, mas não demore.
  ---Ta bom vovó, tchau.
  Pegou a mão de Sonia e foram as duas pelo caminho.
  ----Que milagre e esse Sonia, você fora de casa.
  ----Mamãe deixou eu vir, estou melhorando. Preciso andar um pouco.
  ---Hoje a aula foi tão boa, conheci professores novos, tava todo mundo bonito.
  ----Que legal! Estou com saudades da turma.
  Tomaram o lanche e brincaram ate começar a escurecer.leninha foi para casa correndo. Ainda sentia um pouco de medo do escuro, também depois de ter presenciado aquele ataque de Vandinho. Será que ele tinha sarado mesmo? Melhor nem pensar.
  ---Mamãe ta demorando, vovó, será que aconteceu alguma coisa?---Perguntou leninha vendo os alunos do curso da noite chegando.
   ---vou mandar Cirilo correr ate o grupo.---respondeu dona Ruth.
   Não foi preciso. Dona Elza chegou parecendo apressada.] 
   ---Vai lá mamãe, distraia os alunos um pouco só vou lavar o rosto e tomar um café.
   ---O que aconteceu filha?  ---Perguntou dona Ruth aflita entre os olhares de Cirilo e de Leninha.
   ---Nada mamãe, eu fiquei conversando com a comadre Antonia, e não vi o tempo passar.
   Dona Ruth percebeu os olhos vermelhos da filha não disse mais nada e foi receber os alunos.
   Leninha não conseguiu ficar acordada ate a aula terminar, queria muito conversar com a mãe, mas não deu tempo, pela manha falaria com ela no caminho da escola. Não teve muita certeza se era sonho ou se realmente ouvira a mãe falando com a avó que estava com medo, que estava atrasada. E ouviu a avó falando que já tinha desconfiado do que o sr. Sebastião falava com ela aquela noite que ela não quis comentar nada.
   Mamãe atrasada.Coitada não tinha conseguido pagar os juros do mês, Pensava leninha.
   Mas não era nada disso, infelizmente o sr. Sebastião quase matou dona Elza aquela noite, forçando ela a lhe fazer carinhos em silencio para não acordar os filhos. Ela não teve coragem de contar a mãe, só contou a comadre, mas agora as coisas se agravaram a gravidez era evidente.
   Dona Elza não conseguiu dormir aquela noite, a mãe logo cedo cuidou de lhe preparar um chã que a “curaria” daquele mal.
   Leninha ficava olhando a cara da mãe tomando aquele negocio coada com café amargo.
   ---Posso tomar um poço mamãe?---Perguntou leninha vendo a cara da mãe e querendo ajudar.
   Dona Ruth abraçou a neta e não respondeu nada.
   Pedro e Cirilo só observavam e pensavam que a mãe deveria estar com uma gripe muito forte.
   ---Acho que a sra não devia ir da aulas hoje mamãe.---Disse Pedro, eu aviso lá na escola e eles colocam uma substituta.
   ---Também fico em casa hoje, e ajudo a vovó cuidar da sra.—disse leninha.
   ---nada disso, vão todos pro trabalho.---Retrucou dona Ruth, a mãe de vocês precisa andar e fazer exercícios, ficar de repouso vai é piorar as coisas.
   Dona Elza entendeu pegou o material a mão da filha e foi em direção ao grupo.
   ---Pedro foi pro serviço preocupado com a mãe.
   Quando chegaram a escola tinha uma roda de meninos esperando o portão abrir eo sinal bater.
   ---leninha beijou a mãe e foi-se juntar a turma.
   O assunto era um só, encontraram mais um homem morto no mato na saída da escola.
    Quem viu o defunto foi Leonardo. Ele estava todo tremulo, contou ao delegado que cuidou logo de ir ver quem era o morto.
   Leonardo não sabia quem era, tinha passado rápido, era o caminho que fazia ate a escola, pois morava em um sitio logo na saída da cidade.
  “Credo quem será que anda matando tanta gente”---pensava leninha.
  Logo bateu o sinal, os professores cuidaram logo de acalmar os meninos, pedindo para não ficarem tão agitados pois isso era um problema que só a policia podia resolver.
  Claro ninguém podia fazer nada!
  Logo à tarde ficaram sabendo que o defunto era nada menos que o marido da irmã de Eliza.
  Dona Elza não deixou Leninha ir na casa de Eliza, teve medo dos comentários e tinham que ver o que tinha acontecido.
  ---mas mamãe, Eliza é minha amiga, coitada deve estar arrasada, coitada da Elvira, casou tem tão pouco tempo. Quem será que matou Raul?
  ---Deixa disso filha, não e assunto para nos, depois vamos ficar sabendo mesmo.
  Dona Elza tentava convencer a filha e ao mesmo tempo segurava a parte de baixo da barriga, parecendo sentir dor.
   ---o que foi mamãe/
   ---Nada filha, vou deitar um pouco, cadê sua avó.
   ---não sei mamãe, deve ter ido em algum visinho.
   Segurou na mão da mãe e caminhou com ela ate a cama, sua mãe torcia de dor.
   “deve ser dor de barriga” —pensou leninha.— “Também não sei pra que foi tomar tanto xá de manha”.
    ---Vou procurar a vovó.---Disse correndo para a porta da sala.
    ---Se você não achar ela. Vê se acha a comadre Antonia, preciso falar com ela.
    Dona Elza recostou na cama, torcia toda sentindo uma cólica danada.O xá da mãe parecia fazer efeito. Também o atraso dela estava só de poucos dias, Deus podia ajudar e abençoar que aquele problema fosse resolvido urgente, pois não podia ficar passando por aquilo na idade e situação dela.
  A mãe chegou quase junto com dona Antonia.
  Elas cuidaram de fechar a porta e mandaram Leninha ir cuidar dos deveres. Ela não era tão boba assim e logo cuidou de sair de perto, aquilo era assunto de gente grande
   Escutou o choro da mãe que parecia sentir muita dor.
   A avó saiu do quarto e foi ferver água para dona Elza tomar um banho.
   Leninha sentou perto da mesa, fingiu estar fazendo alguma coisa, mas ainda não tinha dever, sabia que o melhor a fazer era ficar quietinha.

XXXIV

     Pedro estava bem no serviço, o prefeito gostava muito do serviço dele eo considerava muito. Ele esforçava para ser uma pessoa bem informada, para cooperar com tudo e também crescer no emprego para poder ajudar a mãe.
   O maior sonho daquela família era sair daquela dificuldade toda.
   Depois da três horas o comercio fechou todo, todos foram para o velório de Raul.
   Elvira não pode ir de tanto mal que passara, também tinha pouco tempo que seu filho nasceu. Eliza passou na casa de Leninha e pediu dona Ruth para ela fazer companhia a ela no velório do cunhado.Dona Elza estava ditada, não pode ir por isso resolveu deixara a filha ir, recomendando muito para não ficar com perguntas que não havia respostas.
  Leninha colocou um vestido de bolinha preta e branca, e foi com Eliza ate o velório que estava sendo feito no salão da prefeitura.
  Pedro logo veio falar com ela.
  ---cadê mamãe?---perguntou logo que viu a irmã sozinha.
  ---Ela não esta aquentando nem ficar de pe, esta com muita dor de barriga.---Respondeu leninha baixinho no ouvido do irmão.
  ---Meu Deus! O que será que ela tem.
  ---Não sei direito, dona Antonia esta la com ela.
  ---Izabel também?---Interessou logo Pedro.
  ---Não. Só dona Antonia e vovó estam lá em casa.
  O salão da prefeitura estava cheio, todos queriam ver o morto.
  Leninha não tinha medo de gente morta, chegou perto, o corpo estava cheio de rosas brancas, um cheiro forte, os lábios do rapaz estava muito roxo. Mesmo assim continuava bonito, tão moço.
   A família dele estava nervosa queria logo descobrir quem havia feito aquilo com o filho. Um moço tão bom nunca tinha feito mal a ninguém.
  “Só a Elvira”.—Pensou Leninha lembrando de ter visto eles juntos atrás da igreja naquele dia do comício.
    Pedro disse para Leninha ficar quietinha pois aquele lugar não era para ficar falando muito.Ele ia andar um pouco trabalhou a manha toda e precisava tomar um ar e comer alguma coisa.
   Saiu de fininho cumprimentou Marcelo que chegou e explicou que voltava logo.
   Saiu com as mãos no bolso pensando numa maneira de aproximar de Izabel. A moça estava sentada num banco de frente da sua casa.
   Pedro fez de conta que estava distraído e logo cuidou de  dizer alo.
   ---Oi Pedro, não lembra mais de mim?---Disse levantando parecendo tomar coragem.
   ---Oi Izabel! Como vai!---Desculpe estava distraído.—Disse fingindo surpresa de ver a moça.
   --Minha mãe esta na sua casa, pediu pra mim ficar aqui quieta ata ela voltar.
   ---Você não esta com medo? Esta escurecendo e com essas mortes misteriosas da ate mais medo ainda.
   ---Oh! Não! Medo eu não tenho. Ninguém ia querer me matar, não faço mal a ninguém.---Disse ela com o narizinho arrebitado e muito gracioso.
    Pedro ficava doido de ver aqueles pequenos lábios se movimentarem. Izabel era tão delicada que era ate difícil pensar e segurar aquela cinturinha, parecia que ia quebrar de tão fina e linda.
 ---E então Pedro, _--Continuou Izabel.---você esta gostando do emprego?
 Pedro levou um susto, não pensava que Izabel fosse tão conversadeira, afinal sempre estava caladinha perto da mãe.
   ---Muito. ---respondeu logo—é muito bom, lá estou aprendendo muitas coisas.
   ---Que bom Também vou trabalhar logo. Quero dizer logo assim que terminar o normal.
   --Você se forma este ano?
   ---Formo e vou trabalhar, se mamar deixar vou viajar para fazer faculdade quero ser bem informada, e você vai estudar mais?
   ---Vou sim, eu vou voltar para a cidade e vou ver se passo no vestibular quero ser advogado. Mas este ano e talvez no próximo ainda tenho que ajudar a mamãe.
   ---Sei, todo mundo sabe das dificuldades de sua mãe, se eu puder assim que conseguir a trabalhar também vou ajudar sua mãe.
   ---Izabel falou isso com tanta meiguice que os olhos de Pedro encheram de água, a menina sentiu uma emoção tão grande que fez um carinho no rosto do rapaz que logo cuidou de pegar sua mão e dar um beijo na palma da mesma.
   Por um momento ficaram em silencio olhando um no olho do outro.
   Ficaram se graça.
   ---Vou chegar lá em casa para ver mamãe.
   ---me espera vou fechar a porta e vou com você.
   Entrou e fechou a casa, ligou a luz da sala para quando voltar não ficar no escuro e acompanhou Pedro em silencio ate sua casa.
   Foi uma noite muito triste, dona Elza precisou ser levada para o hospital da cidade vizinha. Quem levou foi o motorista da prefeitura na ambulância da prefeitura. Ninguém sabia ao certo o que ele tinha falavam que era apendicite aguda, só sua mãe e dona Antonia sabiam a verdade.
   Leninha dormiu na casa da madrinha, estava com medo por causa da morte e triste pela mãe.
  Dona Santa a tratava muito bem, ela ficou com Soraya e Lili no quarto. Ninguém conseguiu pegar no sono.
  Ela pensava na saúde da mãe, tinha muitas vezes pedido a Deus para ser rica e poder cuidar de tudo que ate besteira tinha pensado, que se sua mãe morresse ela poderá morar com gente rica e ter tudo, mas agora ela resava de verdade para Deus dar saúde a sua mãe, o que havia acontecido realmente?
  Tudo chegava a crer que o dia seguinte seria um dia pesado, cheio de choros, o enterro de Raul seria às dez horas, porisso não teria aulas naquele dia a cidade ficaria de luto ate as três hora.
  Cirilo estava inquieto, dona Ruth não dormiu nada, ficou a noite toda com o terço na mão rezando.
  ---E se a mamãe morrer vovó? O que faremos?---Perguntou Cirilo com os olhos cheios de lagrimas.
  ---Não meu filho. Deus existe, ele olha por nos, fique tranqüilo.---disse dona Ruth passando as mãos nos cabelos de Cirilo. –Agora vai chamar o Pedro e traga o pão vou fazer um café fresquinho para esperarmos noticias.
  Cirilo enxugou os olhos e foi no quarto do irmão.
   Pedro estava sentado com a bíblia nas mãos.
   ---Vou buscar o pão, vovó mandou chamar você para tomar café.---Disse Cirilo baixinho.
   ---Eu já vou.—Respondeu Pedro.—Senta aqui um pouco Cirilo.
   Cirilo sentou na cama perto do irmão, já se sentia um rapazinho. Pedro o olhou carinhosamente e deu-lhe um abraço.
  ---Mamãe vai ficar boa Cirilo, fique calmo, deita aqui um pouco na minha cama eu mesmo vou buscar o pão 
  ---Cirilo sentiu um pouco mais protegido.
  ---Então vamos nos dois, eu também quero sair um pouco. Quem sabe o motorista da ambulância já chegou com noticias da mamãe.
  ----É mesmo, então vamos logo.
  Não foi preciso nem levantar lá de dentro já se ouvia o barulho da buzina, era o sr. Nicolau gritando.
  ---Anda gente acorda.
  Dona Ruth veio lá de dentro correndo quase caindo.
  Sr. Nicolau desceu da ambulância e foi entrando casa adentro sentindo o cheiro de café.
   --E então. –Perguntou dona Ruth.
   ---Oba! Cafezinho, estou mesmo precisando viajei a madrugada toda.
   ---Fala homem de Deus.---pediu dona Ruth aflita.
   ---Esta tudo bem dona Elza vai ficar de repouso ate sábado. Ela foi operada. E ate mandou falar para vocês irem buscar ela comigo.
   Pedro abraçou correndo o irmão, a avó e ate o sr. Nicolau ganharam um beijo.
   ---Vou correndo a casa de dona Santa dar a noticia a Leninha.—disse Cirilo.
   ---Tome cuidado meu filho! Lembre que daqui a pouco tem enterro na cidade.---recomendou dona Ruth.
   ---É mesmo. –Lembrou Cirilo.---Então vou tomar café primeiro, porque assim já fico lá para o enterro.
   ---Eu também vou.---Disse Pedro.---Afinal Raul era meu amigo.
   Credo!---pensava leninha, nunca tinha visto um enterro tão com cara de enterro daquele jeito, a barra esta pesada, a família de Elvira e de Raul só ficava pensando em como vingar do assassino, o menino tão bom como alguém poderia ter feito aquilo.
   Mas se de um lado havia gente triste do outro por lá no fundo do coração Leninha estava feliz com a noticia que sua mãe estava boa e outra melhor ainda ia viajar, ia conhecer a cidade vizinha tão sonhada, tão imaginada, e Tarzan! Tarzan estava lá também ao lado de Marcelo e Pedro , carregando o caixão de Raul junto com o pai dele.
   Tarzan era tão bonito, aquelas mãos grandes, aquele cabelo preto pele queimada, até que ele parecia mesmo era um índio, pensava leninha.Mas de qualquer jeito ela tinha certeza que era dele que ela gostava, ela sentia um frio na espinha cada vez que olhava pra ele e mesmo disfarçado por causa da tristeza do enterro ele ainda conseguia lhe dar um piscadinha despistado.
  Depois daquilo tudo, Tarzan foi pra casa de Leninha. Dona Ruth não foi ao enterro as pernas não aquentavam a subida do morro ate o cemitério.
  Assim que todos entraram ela mandou que tomassem banho e tirassem as roupas de ir a enterro. Tarzan não tinha trazido roupa e Raul lhe emprestou uma.
   ---Nossa tia Ruth a sra é barra mesmo, o que tem almoçar com a roupa que fomos lá, coitado do Raul, que Deus o tenha. ---Disse Tarzan benzendo o nome do Pi, do Filho, e do Espírito Santo Amém.
   Leninha foi a primeira a tomar banho, queria aproveitar o Maximo que Tarzan estava em sua casa.
  ---Cadê Cirilo?---Perguntou Pedro.
  ---Ainda não chegou, eu vi ele conversando com Leonardo.---Disse leninha.
  ---Tomar que eles não estejam inventando nada, não.meninos quando juntam só fazem besteira.
  ---Deixa ele Pedro, coitado quase não dormiu essa noite preocupado com sua mãe, é bom que distai um pouco, quando ele volta eu esquento o almoço dele.---Disse compreensiva dona Ruth.
  ---É vó, só a sra mesmo.---Disse Pedro.
  Tarzan já tinha tomado banho, leninha correu a lhe buscar um pente, pediu para ele sentar e foi lhe pentear os cabelos. Ele achou engraçado mas aceitou.
  Sentou em um banquinho na varanda. Ela era tão meiga que ele até fechou os olhos.
  ----Pronto, vou buscar o espelho pra você ver.---Disse Leninha tirando o espelho que ficava pendurado na parede perto do banheiro.
  ----O que já acabou? Tava tão bom! –disse Tarzan.
  Ela lhe mostrou o rosto no espelho e ele fez beicinho.
  ---Nossa meu amor, como estou bonito! Vou te levar lá pra casa pra você ser minha cabeleira.
  Disse isso puxando Leninha para o seu colo e lhe beijando a cara toda.
  Ela ficou quietinha que ate a boca de Tarzan roçou a sua, Ela queria que aquele momento não acabasse mais.
   ---Venham almoçar.---Gritou da cozinha dona Ruth.
   Ele a pegou no colo e a levou para dentro.
    ---Nossa Tarzan, tire essa menina do colo.---Disse dona Ruth não gostando daquele assanhamento.
   Leninha pulou logo do colo de Tarzan, se ajeitou e foi ajudar a avó servir o almoço.
   ---Precisa ter modos leninha, você já esta uma mocinha.
   ---Mas a sra acabou de me chamar de menina.---Resmungou Leninha.
   ---É menina . Mas também já esta grande. O primo Tarzan é um homem, e homem, é homem.
     Leninha achou engraçado o jeito da avó, pegou o prato e correu para sentar perto de Tarzan.
    O sábado chegou rápido, estavam todos prontos para a viagem de ir buscar a mãe.
     Dona Ruth ficou em casa.
     Cirilo, Pedro e Leninha foram até a pracinha esperarem a Kombi. Seu Nicolau veio chegando.
     ----E então moçada, vamos nessa!
     Claro que a viagem seria mais emocionante se fossem de ônibus, mas a mãe tinha que vir mais confortável e lá na Kombi tinha um banco que inclinava e virava cama, tinha até um colchão.
    Prometia ser um sábado emocionante para Leninha e Cirilo, eles nunca tinham ido ate outra cidade. Cada virada que a Kombi dava ela achava engraçado, ainda bem que a estrada estava seca não chovia há um bom tempo.
   Ela achava tudo bonito, passou pela fazenda do pai de Elisa, já tinha ouvido falar, era grande demais, era terra que não acabava mais, tudo limpo cheio de gado, e porco, eles criavam para o abate.” Como Elisa é rica”.—Pensava Leninha e mesmo assim era tão boa.
    Era tudo tão verde, cheio de arvores, capim e que bonito as montanhas, de vez em quando vinha outro carro e enchia eles de poeira, mesmo assim leninha curtia muito a viagem.Pedro viajava na frente.— “Pena que Tarzan não tinha vindo” —Pensava Leninha, seria tão bom estar aqui sentada perto dele.
   Chegaram a cidade, tinha muitas casas, lojas, uma pracinha linda. Seu Nicolau parou a Kombi perto de um hotel de conhecidos seus e pediu a dona para encaminhar os meninos para tomarem banho, não podiam irem ao hospital sujos de poeira daquele jeito.
   Leninha ficou encantada com o hotel, cheio de quartos, e tinha uma sala cheia de mesas para as refeições, veio um cheiro bom de comida da cozinha. A barriga já reclamava de fome.Mas a avó tinha mandado um lanche, pois não tinham dinheiro para gastar com comida na estrada. Mas qual não foi o espanto de Pedro, Cirilo e Leninha, ao saírem do banho, o Seu Nicolau os chamou para almoçarem.
  ---Não se preocupem é tudo por conta da prefeitura, afinal sua mãe ajudou muito o prefeito nas eleições.
   Não precisou falar mais nada, eles correram a sentar-se à mesa que já estava preparada para eles.
   ---Que delicia!—Disse Cirilo.
   ---Ótimo! –Concordou Pedro.
   Leninha comportou igual uma mocinha.
   Terminaram e foi direto ao hospital buscar a mãe, tinham que voltar ainda com dia claro.
   Dona Elza estava esperando por eles de frente ao hospital.
   ---Como demoraram.---Disse e levando uma explicação boa das crianças. Ela ficou feliz por eles, pena não poderem andar um pouco pela cidade. Mas prometeu assim que as coisas melhorassem passar uma semana com eles ali.
   Levou os meninos para conhecerem o hospital, e pegar suas coisas que ainda estavam no quarto.
   Qual não foi a surpresa de Leninha ao caminhar um pouco mais e dar de cara com Vandinho.Ela não sabia que ele estava ali. A mãe dele estava ao lado dele segurando o seu braço.Vandinho parecia não ter muita força para caminhar.Leninha ficou parada os olhos de Vandinho não saia dos dela. Ele foi até ela amparado pela mãe.
   Ninguém entendeu muito bem a reação do rapaz que esticou a mão para Leninha. Ela teve medo, mas mesmo assim estender a mãozinha e o cumprimentou. Ele disse baixinho num tom que quase só ela entendeu.
   ---Obrigado.
   ---Vem leninha.---Gritou Cirilo já da porta do quarto de dona Elza.
   Leninha sorriu para Vandinho, soltou suas mãos e correu para o irmão. Pedro observou a cena, mas não disse nada, sentiu uma emoção.
   Vandinho estava internado se recuperando desde a vez que teve a crise de possessão. Mas estava bem só com um ar de tristeza e cansaço.
   O hospital era bonito ficava na parte alta da cidade. Lá de cima dava pra ver tudo lá em baixo parecia pequeno e tão longe, mas tão bonito.---Pensou Leninha.
   Foi um dia tão esperado, mas também tão rápido, quando assustou já estavam em casa, contando as novidades para a avó.
   Graças a Deus dona Elza estava firme e forte, o domingo prometia ser um dia cheio de visitas. Leninha foi logo cedo para a missa agradecer a Deus pela saúde da mãe e também pedir a Deus para cuidar de Vandinho.
   Depois da missa das crianças, como sempre o catecismo. Marcelo disse que ia prepara –los para receberem a primeira comunhão no domingo de páscoa.
   ---Oba!---Ouviu-se um grito em coro.
   ---Mas para isso, ---recomendou---quero ver todos vocês rezando o credo a salve rainha, sem errar.
    ---Isso e moleza!---Disse Sonia.---Eu rezo todos os dias ao levantar e ao deitar.
    ---Muito bem. __ Disse Marcelo—Espero que todos estejam assim. Domingo que vem vou perguntar um por um. Esta bem?
    ---Claro.---Responderam juntos.
    Marcelo achou leninha ainda mais bonita, estava com um vestido cor de rosa com a palinha toda feita de casa de abelha.Dona Elza era pobre, mas era muito cuidadosa com os filhos nem parecia que passava por tantas dificuldades.
   Todos foram embora, leninha continuou sentada no banco da igreja. Sonia foi ate a porta e voltou para chamá-la.
   ---Vem Leninha, vamos brincar de roda um pouco antes de irmos para casa.
   Ela fez o nome do pai, e acompanhou a amiga.
   Todos fizeram uma grande roda na porta da igreja, ate Marcelo entrou na farra, segurando a mão de Leninha.
   Eles cantavam tão alto, que quase toda a cidade ouvia.
   Sonia estava bem disposta, ainda bem que a crise dela parecia ter ido embora.]
    Dona Elza foi dar aula normal na segunda-feira, ela disse que o medico falou que seria bom para ela distrair, só não deveria ficar muito tempo de pé.
    Quando foi chegando a noite os alunos que ela ensinava em casa foram chegando e cada um trazia uma lembrança para ela, pó de café, arroz, feijão, carne, farinha, frutas... Dona Ruth levou tudo para a cozinha. Ficou tão emocionada que quase começou a chorar
   Dona Elza ficou sem saber como agradecer, só ficou pedindo a Deus para retribuir em dobro tudo para eles.
   Mais um mês estava acabando. Já era hora de ir receber o pagamento e Pedro recebeu o seu primeiro salário. Correu a colocar tudo na mão de sua mãe.
  --Não meu filho. Tudo não. Você trabalhou duro, e eu não tenho o direito de lhe tirar tudo.
  ---Claro que tem mamãe.---Dizia Pedro.---Eu disse que ia trabalhar exatamente para conseguir sair desse buraco.
   ---O único jeito de sairmos desse buraco, é vendermos essa casa.---Disse dona Ruth entrando no assunto.
   ---Não mamãe não posso fazer isso com a Sra. Quem colocou todos nessa enrascada foi eu, quem mandou eu me meter com aquele jogador miserável.---Falou chorando.
   Leninha e Cirino a tudo ouviam sem poder fazer nada.
   ----Eu não queria te contar nada Elza, pois você estava no hospital e mal, mas aquele Sr. Sebastião esteve aqui semana passada e disse que no final desse mês que entra agora, quer receber todo o dinheiro, disse que você esta fugindo dele e não esta cooperando.
  Dona Elza ate sentou pois sentiu um calafrio que lhe cortou a alma.
   ---Então mamãe, você fica com meu salário ou não?
   ---Vou ficar, ate ver o que faço. Mas tira um pouco para você cortar o cabelo e comprar um calçado, porque daqui a pouco não tem nem como você ir trabalhar.
   Ele obedeceu, aproveitou o horário de almoço e foi ao salão fazer um corte no cabelo. Quando saiu do serviço a tarde sentou na pracinha da prefeitura ainda era dia, largava as cinco horas. O expediente da prefeitura acabava cedo. Mas estava tudo calmo, sentou para pensar um pouco no que fazer. Tinha que voltar aos estudos. Só naquele emprego não faria nada pela mãe.Queria muito ficar perto da família, voltar ao seminário não queria de jeito nenhum. Não se arrependeu hora nenhuma de ter voltado para casa. Mas só ficar ali trabalhando não iria acrescentar nada.E Izabel? Tinha que fazer alguma coisa, ele gostava dela, tinha que ser alguém para um dia poder casar com ela.


XXXV


    Pelo que Leninha entendera Marcelo iria embora logo depois da páscoa. Porque ele tinha vindo para catequizar as crianças e estas já estavam quase preparadas.De vez em vez vinha um estudante para fazer isso, mas igual Marcelo não havia tido.
   Ela já começava a sentir saudades dele, antes dele ir, e ainda faltava três semanas para ser celebrada a primeira comunhão daquela turminha.
    E Marcelo então nem se fala, ate noites de sono perdia pensando que não queria ir embora.
     Queria compreender melhor as coisas afirmar as idéias e ver se realmente o que queria era ser padre. Queria ter a mesma coragem de Pedro e decidir que não queria mais ir para o seminário. Mas ao mesmo tempo sentia muita a presença de Deus e Deus o chamando para cuidar de uma paróquia. Se ele voltasse para o seminário logo depois da primeira comunhão daquela turminha, depois de um ano ele já se ordenaria padre. E isso também o enchia de orgulho, era tão bonito ver a fé daqueles pequenos e principalmente Leninha.Maria Helena! Que menina adorável! Que sonho! Ela era muito especial
   Marcelo as vezes se perguntava se seria fácil ainda nesse mundo encontrar uma criaturinha assim. Não sabia definir ao certo o que sentia por ela. Só sabia que tinha ciúmes ao vê-la olhar e falar de Tarzan.Mas também não tinha lógica ele era apenas uma criança. Talvez nem Tarzan ainda sentisse amor por ela. Só brincava falando que quando ela crescesse se casaria com ela. E ela levava isso a serio, tanto que quase nem olhava para Leonardo.
   Mas tudo muda tanto com o passar do tempo, talvez nenhum deles seria a pessoa certa para Leninha. È só esperar, pra que a pressa?
  Marcelo conversou com padre Mario sobre o horário da cerimônia da primeira comunhão e ficou tudo acertado para o domingo de páscoa depois da missa da oito horas da manhã, seria um domingo cheio de alegrias.
   Leninha não cabia em si de contente. O vestido seria branco, a madrinha Santa já providenciara tudo queria vestir Leninha e Lili iguais.Dona Elza nunca saberia o que fazer para agradecer aquela comadre, só deus para iluminar toda a vida dela. Aquela mulher meiga e tão carinhosa como madrinha de batismo ela assumiu mesmo o papel de segunda  mãe de Leninha.
   E os padrinhos para a eucaristia.—“ Que difícil?’---Pensava leninha, só tenho alguns dias para decidir.Tarzan? Não claro que não. Não poderia ser padrinho, já pensou ficar pedindo benção para ele.
    ---Mamãe, irmão pode ser padrinho?---Perguntou Leninha a mãe logo que ia deitar.
    ---Pode filha, porquê?---Falou dona Elza trocando a roupa para deitar.
 
    ---Será que seria bom eu chamar o Pedro para ser meu padrinho?
    ---Não sei filha, não seria melhor uma pessoa casada?
    ---È mamãe, ai eu chamaria o Pedro e a Izabel, eu sei que um dia eles vão se casar mesmo.
   ---Que isso filha, de onde você tirou essa idéia.
   ---nada mamãe, é que eu fico olhando o jeito deles se olharem.
      Dona Elza acabou de trocar de roupa deitou ao lado da filha e sorriu.
   ---Sabe Leninha, eu acho que você é uma menina muito esperta. Agora mudando de assunto de Pedro e Izabel. Acho melhor você chamar o Rui e a esposa dele. Acho que eles iriam adorar.
    ----È vou pensar mamãe.
  Respondeu Leninha virando para o canto, sentiu sono.Amanha cedo teria aulas. Melhor dormir. E a Suely e o Rui seriam bons padrinhos. Pensou: “amanha vou falar e perguntar a eles se querem entrar comigo na igreja”.
   Cirilo e Leonardo de repente viraram grandes amigos. Não que já não fossem, mas estavam mais agarrados, estavam na mesma sala este ano e assim a amizade se solidificou mais.
    Ele foi com Cirilo depois da aula pra biblioteca da prefeitura pois tinham um trabalho da escola para fazerem.
   Cirilo aproveitou para ver Pedro e pedir a ele para lhe indicar um livro policial pois queria ler.
   ---Mas Cirilo, porque você não começa por alguma coisa mais leve.---Retrucou Pedro.
   ---Mais leve como assim?---Perguntou Cirilo.
   ---E que eu acho que você poderia ler alguma coisa como, aventuras ou mesmo um romance.
   ---Não Pedro, eu já li, Julio Verne e conheço muitos de Monteiro Lobato, agora eu quero ler Ágata Cristy
   ---Ta bem. ---Pedro foi na ultima prateleira e trouxe um da coleção de Ágata para ele.
   Ele agradeceu ao irmão, e foi escrever com Leonardo sobre a pesquisa da escola.
   ---Porque você quer ler livro policial? Quer desvendar algum mistério?---Perguntou Leonardo.
  ----Quero e você vai me ajudar.
  ---Eu? Ajudar em que?
  ---Vamos descobrir quem matou Raul.
  ---Meu Deus! Mas como?
  ---Ainda não sei, mas e só seguir o rastro. Quem sabe não e a mesma pessoa que matou aquele outro cara logo após as eleições.
  ---Eu topo Cirilo, mas silencio este caso e complicado, e eu tenho medo. Afinal fui eu que vi o corpo primeiro. Estava todo ensangüentado e parecia me olhar, os olhos estavam abertos e a boca também.Penso e ate arrepio.
   ---E primeiro temos que checar o que Raul fazia naqueles lados de madrugada. Lá não era o lado da casa dele e alem do mais ele e a Elvira estavam casados há pouco tempo.O que ele estaria fazendo àquelas horas fora de casa.
  ---Para sabermos isso vamos ter que pedir a colaboração de uma certa pessoa...---Disse Leonardo.
  ---Sei. Leninha.---Disse Cirilo.
  Eles terminaram a pesquisa e foram conversar na praça da prefeitura. Pedro lá de dentro ficou observando a animação da conversa dos dois, e até gostou, pois o irmão estava crescendo e precisava ter um amigo.
  Cirilo ia pedir a irmã para ver se Eliza sabia o que Raul fazia fora de casa na noite anterior do assassinato, mas precisava achar uma maneira sem que a irmã levantasse suspeita que ele estava querendo dar um de detetive.
   Mas detetive ainda estava Leninha. Sem querer, pois a porta da sala de sua casa estava aberta, foi entrando depois de brincar no quintal da frente e sua mãe não percebeu e estava conversando com a comadre Antonia com a porta do quarto só encostado.
   Dona Ruth estava no quintal jogando água nas plantas e Leninha entrou para lavar as mãos. Ao ouvir a voz da mãe chorando sentiu um medo e sentou no degrau que ligava a porta da sala com a cozinha e dava para ouvir o choro que vinha do quarto. Teve vontade de ir ver o que estava acontecendo, mas ouviu a voz de dona Antonia e ficou quase sem respirar prestando atenção no que diziam.
  ---Fique calma comadre. Nunca mais vamos deixar aquele homem te encontrar.—Dizia dona Antonia.
  ---Tenho tanto medo comadre.Ele quer o dinheiro de qualquer jeito, não sei o que fazer.—Soluçava.
  ---Porque você não pede ajuda aos seus primos.
  ---sempre me ofereceram, mas meu orgulho nunca deixou eu aceitar.
  ---Então comadre, comadre ta na hora. Antes que esse seu Sebastião te faça mais mal ainda. E como você esta se sentindo depois de tudo que lhe aconteceu?
   ---Um bagaço, comadre, fiz uma coisa que mulher nenhuma tem o direito de fazer.
   ---Mas comadre, já não ficou tudo explicado. O medico disse que não foi o chá que te fez abortar. Que foi que você não tinha mais condição nenhuma de ter filho.
   ---E comadre, mas mesmo assim, me sinto mal, quase morri.
   ---Em parte foi bom agora você não vai mesmo nunca mais ter filho. Afinal estava com mioma e nem sabia.
   ---E arrancaram todo o meu útero, tiraram tudo de mim.
   Leninha ouvia aquelas palavras e não entendia muito bem, só prestou atenção nas palavras, mioma e aborto. O que seria isso? Devia ser alguma coisa muito ruim, pois a mãe chorava e sofria muito. Ouviu passos no terreiro, era a vó que vinha entrando na cozinha. Fez de conta que estava chegando também àquela hora e foi lavar as mãos.
   Dona Elza ouviu o barulho e convidou a comadre para irem tomar um café.
   Leninha lavou as mãos, e foi para fora continuar a brincar.
   Brincava sozinha. Ficou triste de repente sem entender muito o porque.
   Sentou perto de uma trilha de formiguinhas que trabalhava cortando umas gramas e se enterteu vendo que elas irem ate suas cazinhas.


XXXVI

    Leonardo estava muito cabisbaixo, ficava olhando Leninha de longe na hora do recreio, ela nunca mais tinha chegado perto dele, estavam crescendo, pareciam  não saberem mais brincar como antigamente, nem tanto tempo havia se passado desde o ano passado, mas ela parecia tão mudada. E sempre linda.
    Ficava sentada perto de Eliza, Lili e Sonia, que já havia retornado as aulas.
    Cirilo procurou um meio e sentou na ponta da escada perto das meninas. Todas pareciam tristes, nem conversavam, só comiam a merenda da escola parecendo que estavam no mundo da lua.
  Dona Elvira preparava a merenda da escola com tanto carinho que nem parecia merenda, parecia mais comida de restaurante, cada dia ela fazia um prato diferente, hoje tinha arroz de carreteiro cheio de legumes e pedacinhos de carne.
  Cirilo fez sinal para Leonardo e este também veio sentar perto das meninas. Ao se aproximar seu olhar cruzou com o de Leninha.
   ---Oi! –Disse ele timidamente.
   ---Oi. –Respondeu ela.
    Sentou com o prato na mão. Cirilo queria ver se havia um jeito de conversar. Tentou tirar um assunto.
   ---E ai Eliza, como esta sua irmã Elvira.---Perguntou de sopetão.
   ---Vai bem, já esta mais conformada. Também ela descobriu que Raul não estava merecendo o amor dela.
  ---Como assim? –Perguntou Lili curiosa.
  Cirilo viu que fez a pergunta certa, piscou para Leonardo que prestava atenção.
  ---Não quero ficar falando nisso não. Mamãe pediu para não ficar acrescentando, que Deus escreve certo por linhas tortas e que Raul parecia estar traindo a Elvira. Estava saindo muito a noite.
    ---Meu Deus! –Exclamou Sonia.
    ---Por favor, gente não fiquem falando isso por ai, mamãe me mata, se souber que eu disse isso para alguém.
    Todos juraram esquecer o assunto. Só Cirilo pensou.—“nesse mato tem coelho”.—
     Convidou Leonardo para se encontrarem na porta da igreja depois que fizessem os deveres. Lá pelas três horas.
   ---O que vamos fazer?---Perguntou Leonardo.
    ---Vamos dar umas voltas lá pelos lados da entrada da cidade.
    ---então avisse sua mãe e venha almoçar lá em casa, assim fica mais fácil, porque eu moro lá perto onde o crime aconteceu.
    ---Legal Leo, você e mesmo esperto.
    Dona Elza consentiu e lá foram eles.
    Leonardo foi pelo caminho que sempre faziam, pararam de frente ao local do crime que ainda estava marcado por barbante ao redor e tinha sangue em alguma parte da grama.
   Era de arrepiar. Cirilo quis saber o nome de todos as pessoas que moravam naquele lugar, não eram muitas, pois Leonardo morava em um sitio e no final da rua que era a entrada da cidade havia muito era fazendas, tinham três com muitas terras e gado.
     Os pais de Leonardo receberam Cirilo muito bem, já o conheciam e gostavam muito de dona Elza.Ela dava aula noturna para dois de seus empregados, admirava muita aquela mulher que sem marido e com muita dificuldade conseguia educar seus filhos e muitos outros.
   Almoçaram, fizeram o dever de casa e depois foram andar pelas redondezas.
   O sitio era grande, havia plantações de café, cana e mandioca, a mãe de Leonardo fazia rapaduras para vender. Era tudo limpo e bem cuidado.
   ---Lá na fazenda de meu primo Antonio também tem um tacho desse grande que sua mãe faz rapaduras.---Comentou Cirilo pegando um pedaço para comer.
   Andaram bastante, foram reparando todo mundo, foram fazer visita nas outras fazendas, não acharam nada suspeito.
   Os filhos do visinho mais próximo de Leonardo eram colegas deles na escola, tinha uma mocinha que logo cuidou de esconder assim que eles chegaram. Também era conhecida deles. Cirilo logo estranhou, pois aquela mocinha era sempre alegre e comunicativa. Porque ela correu logo que eles chegaram.Lembrou que este ano ela nem tinha ido ainda na escola. Perguntou a um dos irmãos dela o motivo e a resposta foi que ela andava doente.
  Ficou só nisso mesmo.O pai de Leonardo mandou um empregado buscar os meninos de carroça de burro, pois Cirilo tinha que ir embora e já estava quase escurecendo.E o mesmo levou Cirilo em casa.Ele adorou a carona, pois já estava cansado de andar.
    Leninha estava ansiosa para o irmão chegar.
   ---Que demora Cirilo. Agarrou na casa de Leo?
   ---Que é fofa ficou com ciúmes?---Disse ele com as mãos na cintura e imitante um rebolado.
   ---Nada é que você é bobo e podia se perder.---Respondeu ela debochando.
   Cirilo correu atrás dela ate caírem no chão.
   Dona Ruth logo veio com as chinelas na mão.
   ---Vamos parar com essa bagunça? Trate logo de ir tomando banho, viu seu Cirilo. Onde já se viu sair da escola e ir direto pra casa dos outros. Tenho que passar água nesse uniforme, como você vai a aula amanhã com essa sujeira toda?
   ---Que é isso vovó, eu to limpo olha só.---Levantou do chão e mostrou a camisa toda suja de terra e ate pedaço de macarrão com molho estava agarrado.
   Leninha  não agüentou levantar do chão de tanto que ria do irmão.
   Dona Elza já tinha chegado do grupo. Estava deitada veio ver o porque de tanta risada. Quando leninha lhe contou também riu. Não podia rir muito, pois ainda sentiu dor no local da cirurgia.Mas não resistiu do olhar de Cirilo. Depois ficou seria.
---Anda Cirilo, obedeça a sua avó.
  Ele foi rápido cuidar do banho. Leninha foi atrás dele ajudar ele a tirar água da cisterna para temperar com  água que fervia no fogão a lenha.
   ---E o fogão a gás que mamãe ia ganhar do prefeito que nunca chega!—resmungou Cirilo.
   ---E mesmo Cirilo, já até tinha esquecido. Será que a mamãe esqueceu também?
   ---Parem de falar. –Chegou do Ruth.---Vocês sabem que o prefeito ajudou demais sua mãe com essa operação, ela ainda vai ter coragem de cobrar tal coisa. Até emprego pro Pedro ele arranjou.
   ----Chi...é mesmo Cirilo, esquecemos disso, além do mais nem tem fogão a gás pra vender na loja do sr. Pedro.
   Cirilo ficou calado, e foi pro banho.Quando já estava pronto lá estava leninha esperando por ele.
   ---E ai quer me explicar porque você não sai do meu pe desde a hora que eu cheguei.—Perguntou nervoso.
  ---Ué, é que eu estava com saudades de você, afinal ficou longe o dia todo.
  ---Grande coisa, até parece que a gente fica grudada o dia todo, tem dias que eu quase não te vejo, tava tão bom quando pensei que ia mesmo estudar em horário diferente de você.
  ---Sabe Cirilo, é que hoje é um dia muito especial.
  ---Especial?
  ---É, hoje nos vamos matar aquela aranha.
  ---Ra, ra, ra ,ra.---Riu Cirilo.---tem quase um ano que tentamos. Porque hoje vamos conseguir?
  ---Pode rir debochado.—Fez beicinho.---Mas eu estou presentinho que hoje vai ser o grande dia. É lua cheia e ela sai porque o terreiro fica claro.
   ---Ta bom sua nojentinha, vamos colocar bastante água pra ferver e depois que os alunos da mamãe chegar nos vamos esquentar a maldita.
   Leninha deu saltos de alegria. Pedro já havia chegado estava em seu quarto e ouvia os planos dos irmãos. Gostava muito de ver eles conversando e não entrava no assunto.
   Estava lendo Dom Casmurro e sonhava com Izabel.
   Coitada daquela aranha caranqueija, hoje seria seu ultimo dia de vida.Leninha pegou o balde de água quente e Cirilo um pau, ficaram olhando pela fresta da porta da sala.
  Dona Ruth pediu para tomarem cuidado, mas o pulo foi um só.
  ----Morre danada.---Gritou Cirilo ao mesmo tempo em que abaixava o pau na cabeça da pobre aranha tonta pela água quente.
   ---Nossa que grandona! –Leninha pulava de contente.
   Pedro veio correndo.
   ---Que barulho foi esse?Ouvi o estalo lá do quarto.
   Dona Ruth ficou estacada, ouvira falar na aranha, mas nunca a tinha visto.
   ---Vou colocar- lá em um vidro.---Disse Cirilo.
   ---Não ela é minha. ---Retrucou Leninha.
   ---Pode ser sua, mas vou colocar em um vidro assim mesmo.---Confirmou Cirilo.
   ---Deixa Leninha, é só por um pouco de álcool assim ela conserva mais tempo.---Ajudou Pedro.
   ---é bobona e assim você pode mostrar pra todo mundo, e não foi só você que matou, se não fosse eu ela ia se recuperar e ir embora.
   Leninha concordou estava emocionada.
    ---ainda bem que vocês não atrapalharam a aula da mamãe.Depois vou levar pra mostrar os alunos dela.
    Cirilo buscou um vidro de azeitona vazio e Pedro lhe deu um pouco de álcool. A aranha ainda se mechia um pouco, mas com um pauzinho conseguiram colocá-la no vidro e cuidaram de tampar rápido.
    ---E cuidem de tampar o buraco que ela saiu, pois essa deve ser a mãe ou o pai e com certeza ai deve ter outras  que vão logo, logo querer saber o paradeiro dessa.
    Pedro concordou e correu a buscar umas pedras e um tijolo, não queria depois ser picado por um bicho daqueles.
   ---Sábado eu vou fazer massa de cimento e tapar esse buraco definitivamente.
    ---Coitadas!---Resmungou Leninha. Vão morrer sufocadas.
    ---Engraçado! Como você não teve medo de jogar água quente na cara dela.—Disse dona Ruth.
    ---É, mas eu joguei de medo, nem eu também sei como consegui, já há muito tempo e eu nunca tinha conseguido.
    ---credo! Ta falando até embolado.—Riu Cirilo.
    ---É minhas pernas estão bambas, eu corri um risco, já pensou se ela me atacasse.
    ---Agora, chega disso.---Disse dona Ruth.—Vamos entrar, aqui fora esta frio.E vamos cuidar  de descansar, que amanha temos que levantar cedo.
    ---Vou esperar a mamãe acabar de dar aula e vou contar pra ela.---Disse Leninha.
    ---Tá certo, mas vamos entrar.
    Dona Ruth foi fechando a porta da sala e sentiu um arrepio, tratou logo de fazer o sinal da cruz.
    Leninha beliscou no Cirilo e sorriram, um sorriso de cumplicidade.
    “Ainda bem que com essas pequenas coisas as crianças esqueciam os problemas maiores”.----Pensava Pedro, mas eles estavam ali e precisavam ser resolvidos. Tinha visto o Sr. Sebastião a tarde na praça e sabia que ele não demoraria a procurar a mãe.Resolveu que ia à fazenda do primo Antonio no domingo e ia ver se tinha coragem de pedir ao primo que procurasse um meio de ajudar sua mãe.Todos os outros cobradores esperavam com paciência, pois sabiam que na verdade dona Elza não tinha culpa pelo marido, afinal ela não fugira estava ali arcando com as conseqüências de um crime que não cometera.
    




XXXVII




      Rui topou de cara ser padrinho de Leninha, ele disse que Suely ia ficar muito contente em acompanhar ela em sua primeira comunhão.
      Leninha saiu da oficina do Rui pulando de alegrias e foi falar direto com Suely. Entrou pelo corredor da casa que ficava ao lado da oficina. Suely brincava com o neném que já começava a ensaiar os primeiros passos.
    ---Ei Suely.---Disse entrando na sala.
    ---Leninha! Que bom que você veio aqui, vem, vem ver Diego já esta começando a andar.
     ---Nossa Suely, que gracinha ele está. Deixa-me pegar nas mãozinhas dele.
     Pegou e começou a cantar.
     ----Dan-dá, neném, dan-dá neném!
     ---Sabe Leninha, acho que você já pode casar, tem jeito com crianças.---Disse Suely.
     Leninha sorriu, disse o porque da visita, esta ficou superfeliz.
      ----Claro que eu quero ser sua madrinha, quem não gostaria.
      ---Então esta acertada. Vocês vão ter que ir um domingo antes no catecismo comigo, que o Marcelo vai explicar tudo direitinho.
     ---Está bem, no dia você passa aqui e vamos juntos, pena que depois disso tudo o Marcelo vai embora.---Acrescentou Suely.
     ---E eu nem queria que esse dia chegasse rápido, só por isso.---Disse leninha com os olhos cheios de água.
     ---Você gosta tanto dele assim?
     ----E quem não gosta ele é uma gracinha de rapaz.
     ----Pena que vai ser padre.
     ----Pena não, a vovô diz que é uma benção, que Deus só escolhe as pessoas boas para servirem á  ele.
     ---Sua avó tem razão Leninha, a gente fala que é uma pena no modo de dizer, porque ele é um rapaz tão bonito e daria um ótimo marido.
     Leninha balançou a cabeça e sorriu.
     ----Tenho que ir vou na casa da Wanda, ela não pode ir a aula hoje e vou passar o dever pra ela.
     ---Ta bem, mas antes vá lá na geladeira e tome um pouco de refrigerante que eu sei que você gosta.
    ---Oba!---Disse Leninha soltando a mão do pequeno Diego e enchendo um copo de refrigerante.
    Dona Elza já estava bem, não sentia muitas dores na operação, mas a cabeça não quietava. Depois do grupo, parou na casa da comadre Antonia.
    ----Ah! Comadre podia tudo ser tão mais fácil.---Reclamava sentada na mesa da cozinha da comadre e amiga.
    ---Faz o que deve ser feito comadre, pede ajuda a quem tem para te ajudar.---Dona Antonia enquanto falava coava um café que cheirava a casa toda.
    ----Os primos né, você esta falando dos primos.
    ---Pois é comadre o primo Antonio, quero dizer, seu primo Antonio. Ele tem condições de te ajudar, não vai sacrificar em nada.
    ----Eu vou pensar comadre, mas o problema é que vou continuar devendo do mesmo jeito. Eu acho que o melhor a fazer é o que mamãe vive mandando eu fazer. Vender a casa e depois com trabalho consigo outra.
    ---É comadre também não é uma má idéia.
    Claro, a melhor solução seria essa. Melhor que aquele homem rondando e tentando fazer mal a ela. Completou dona Antonia.
    Leninha ficou muito tempo na casa de Wanda, até ela copiar os deveres. Wanda até que tinha melhorado a aparência um pouco desde que começou a ajudar Leninha no berçário, cuidava mais de suas roupas. Sua irmã ate achava engraçado que nunca mais a tinha visto de pe no chão.
    Silvia era uma moça bonita, Leninha a ficava olhando enquanto wanda copiava os deveres.
    ---sabe leninha, às vezes fico pensando.---Disse Silvia chegando ate a mesa onde elas estavam sentadas.---Você tem a mesma idade que Wandinha e parece mais velha, é responsável com as coisas, mamãe mesma fica comentando isso aqui em casa.
    ----Ah! Não Silvia não implica. –Pediu Wanda.
    ----Não estou implicando, só estou querendo ajudar. Pra você ficar mais esperta.
    ---Deixa a Wandinha, Silvia, ela é inteligente, a professora até faz elogios a ela.
    ---Nossa essa eu queria e pagava pra ver.
    ----Leninha, não do papo pra ela, ela é chata. Acha que é a tal só porque é mais velha e já pode namorar.---Disse Wanda.
    Leninha escutava calada.
    ----É mesmo, e falando em namoro, Leninha, ---Sentou mais perto de Leninha.---Como é que vai aquele seu primo gostosão.
      O sangue de Leninha subiu até suas faces.
    ----Qual? ---Perguntou com ar de inocência.
    ----Aquele que você fica andando de mãos dadas.
    ---Ela ta falando do Tarzan, Leninha.---Falou Wanda.
    ---Tarzan não, do Douglas. ---Disse Silvia.----Quer um rapaz com nome mais bonito, não sei como essa menina teve coragem de colocar um apelido tão feio em uma pessoa tão bonita. Tarzan, Tarzan dos macacos.—Disse e riu de Leninha.
   Leninha não aquentou.Ficar elogiando Tarzan na frente dela, e ainda por cima como ela sabia o nome dele. Douglas
    ---Como você sabe o nome dele?---perguntou leninha ficando em pé com ares de moça defendendo o namorado.
    ---Ora e quem não sabe, eu até já estudei com ele.
    ---É leninha, a Silvia disse que quando estudava com ele, nunca tinha percebido como ele tinha ficado tão bonito. Outro dia ela viu ele saindo com você e agora só fica me perguntando por ele.---Explicou Wanda.
    ---E porque?---Perguntou leninha com o nariz em pé.
    ---O que tem eu perguntar. Quem sabe o dia que ele vier em sua casa, você não me chama pra ir lá e tomar um café.
    ---E porque eu faria isso?
    ---Ora, porque  eu sou irmã de uma amiga sua e ele é seu primo, o que custa você me levar ate sua casa quando ele estiver lá.
    Leninha sentou de novo. Não deu resposta. Silvia não entendeu bem aquilo. Se era um sim ou um não.
    ---E então Leninha posso contar com você?
    Leninha fechou a cara, fechou os cadernos e saiu dando Tchau para Wanda que já tinha acabado os deveres.
   Voltou triste para casa, não ia poder fazer nada, Silvia era linda, e se Tarzan soubesse que ela tinha interesse nele, ela não sabia o que fazer. Também que droga, porque ela não crescia mais rápido!
    Silvia ficou na porta da rua, olhando Leninha ir embora.
    ----O que deu nessa menina?---perguntou para Wanda.
    ---Não sei, ela deve ter ficado com ciúmes de Tarzan.
    Silvia riu, um riso debochado. Wanda não gostou, sabia das maldades da irmã.
    Leninha chegou em casa e foi direto para o quarto. Dona Ruth nem viu ela entrar. Deitou de bruços na cama e ficou chorando baixinho.
    Cada novo catecismo em vez de alegria parecia que a tristeza crescia dentro de Marcelo. Ele não queria transmitir, queria mostrar alegria e pedia a Deus para lhe dar forças. Mas olhar a carinha de cada criança catequizante lhe enchia de paz.
    Leninha sentia a tristeza de Marcelo e tentava lhe consolar com um sorriso a cada olhada que ele dava.
     Pedro disse a mãe que iria à fazenda do primo Antonio logo depois da missa da manha daquele domingo.
     Leninha também queria ir, mas lembrou que tinha muitas coisas para fazer no domingo. O catecismo, o berçário e muito interessante teria filme novo estreando.
   ---O que você pretende fazer lã hoje Pedro?---Perguntou dona Elza.
   ---Nada mamãe, vou conversar um pouco com Tarzan.
       Ele ia conversar com o primo a respeito da mãe e pediria a Tarzan para conversar com o pai  e ver o que eles poderiam fazer para ajudar.
    Leninha passou quase o tempo todo depois do catecismo, um pouco suspensa. Queria muito que Tarzan viesse para a matine de domingo junto com Pedro, mas também estava com medo dele vir e a Silvia começar a dar em cima dele.
    E não deu outra, ele não veio para a matine, mas veio para assistir a sessão da noite. Leninha estava acabando de entregar o ultimo bebe a mãe depois da missa das cinco e la estava ele todo arrumado esperando ela na janela do berçário.
   Ele estava tão bonito, nem mesmo leninha tinha reparado tanto brilho nos olhos dele ao lhe olhar. Ela levou um tremendo susto quando ele lhe disse.
   ----E ai como vai a minha priminha preferida?----Ele a estava observando cuidar dos bebes com tanto carinho.
   ----Nossa Tarzan! Que susto!
   E foi susto mesmo. Que bom que ele estava ali.
   ---Vim te buscar.
   ---Você chegou agora? ---perguntou ela ansiosa, enquanto ajudava Lili e Claudia arrumar as coisas pra fechar o berçário.
   ----E tem mais ou menos uma meia hora.A prima Elza falou que você foi a matine e eu queria saber se o filme valeu a pena.
   ---Nossa se valeu! Foi demais. O Roberto tava demais.
   ---E Roberto Carlos é sempre muito bom.]
   ---Como e o nome do filme mesmo?
    ---Roberto Carlos em ritmo de aventuras.
   ---Quer ir ver de novo comigo?—Perguntou Tarzan.
    E ele tinha alguma duvida que ela queria.
    ---Será que da tempo de eu ir lá em casa pegar um agasalho e comer alguma coisa? Estou morta de fome.
    ---Claro, vamos.—Lili e Claudia foram fechando a porta e foram acompanhando eles.
    ---Vocês vão lá em casa?---Perguntou leninha.
    ----Não eu vou levar a Claudia lá em casa e deixar ela assistir o filme da sala de projeção.
   ---Respondeu Lili pegando a mão de Claudia.
   ----Ta bom, então a gente encontra lá daqui a pouco.—Respondeu leninha. Apertando o passo junto com Tarzan.
    ---Não demorem falta sô meia hora pra sessão.---Acrescentou Lili.
    ----Reserva um lugar pra gente Lili?---Pediu Tarzan.
    ---Tá bom eu sento lá em baixo com a Claudia ate vocês chegarem.
    ---Valeu garota!---Respondeu Tarzan.
    Leninha era pura felicidade. Ir ao cinema com Tarzan e ainda por cima de mãos dadas.
    Chegou correndo em casa, sua mãe estava deitada, estava sentindo um pouco de dor, mas não transpareceu para a filha.
    ---Mamãe, eu vou ver o filme de novo com Tarzan, Posso?
    ---Claro minha filha, ele já tinha me pedido. Mas tome cuidado e só fique perto dele.
    ---Claro mamãe, não se preocupe. Vou pegar uma blusa porquê o tempo esta esfriando.
        Pegou uma blusa de capuz, calçou um sapatinho de saltinho que já estava ficando apertado, mas ela precisava ficar mais alta, e ajeitou os cabelos.
      Quando ela chegou na sala, Tarzan deu um assobio.
       ----Fiu...fiu...Que gata!
       Ela ficou corada, mas adorou. Deu tchau para a mãe e avo, ouvindo as recomendações de ambas. Cirilo e Pedro estavam na praça da igreja esperando a hora de começar a sessão. Eles também iriam ao filme.Cirilo tinha vendido muita couve e taioba naquela manha e podia pagar para ele e Pedro.
    Leninha estava tão feliz que ate esqueceu que estava com fome.Só não gostou quando chegou na fila do cinema e deu de cara com Silvia, com um decote tão grande que quase lhe aparecia os bicos dos seios.
    ---Leninha, que legal você também veio, a Wanda também veio, va la sentar perto dela.
    Leninha entendeu que ela queria era ficar perto de Tarzan, só que este apertou ainda mais sua mão e respondeu para ela.
   ---Não, ela veio comigo e vai ficar o tempo todo só comigo.
   ---Irmãozinho mais velho, que legal em leninha, mais um para te proteger.---Disse Silvia com ar de deboche.
   ----Pra defender sim, mas irmão não.---Disse Tarzan serio e já com as entradas na mão, levou Leninha para a sala de cinema.
   ---Essa garota é um saco! ---Disse Tarzan.
   ---Você a conhece, então?---Perguntou Leninha.
   ----Já, eu estudei com ela, ela não é garota de se ser amiga, ela é...---Ia dizer a toa, mas respeitou Leninha.
    ---É o que Tarzan?
    ---É nada, só isso, não quero ver você conversando com ela, ela não é legal, só isso.
    ---Eu também não gosto dela.
    ---Melhor assim, assim você evita aborrecimentos.
    Leninha ia dizer que era amiga só da irmã dela, mas preferiu não render mais assunto sobre aquela tal.
    Tarzan levantou um pouco do lugar que Claudia e Lili tinham reservado para eles e voltou com um saco de pipoca e uma garrafinha de refrigerante.Nossa!Leninha aceitou com o maior prazer.
   Nunca tinha assistido filme em companhia de Tarzan e aquele foi o melhor filme que viu em sua vida. Nunca seria esquecido.
   Pedro não teve coragem de falar com primo Antonio, mas teve coragem de pedir ajuda a Tarzan, e este prometeu fazer o que fosse possível.
   Na segunda – feira dona Elza não foi ao grupo, tinha feito tanto esforço depois da operação que precisou pedir mais dois dias para descansar. Ela tinha direito, afinal quase não tinha aproveitado os dias que tinha direito a licença medica.
   Leninha levou o bilhete para a diretora e esta colocou uma professora substituta para a classe de dona Elza.
   Ela precisava desses dois dias para pensar o que fazer. E só pensou em uma solução mesmo. Pediu Tarzan para levar um bilhete para primo Antonio pedindo a ele encarescidamente para vir vê-la.
   Esta atendeu prontamente logo cedo, enquanto leninha estava na escola. A esposa dele também veio e aproveitou para visitar a prima que não tinha visto desde a operação.
    ---Entra Antonio.—Atendeu dona Ruth.---Vou chamar a Elza.
    ---Quanto tempo Tia Ruth.---Cumprimentou dona Ana.
    ---É Ana, desde o ano passado. Mas não faça cerimônia, venham, acabei de passar um café fresquinho.
    ---Isso é bom.---Disse o primo Antonio tirando o chapéu e tratado de ficar bem a vontade.
    ---Dona Elza ouviu as vozes e saiu do quarto indo abraçar os primos.
    3entaram-se à mesa da cozinha. Antonio já sabia do que se tratava, porque Tarzan lhe contou a conversa que teve com Pedro.
    ---Pois é primo.---disse dona Elza---Estou disposta a aceitar a ajuda de vocês.
   ---Já não era sem tempo.—Disse prima Ana.—Se nos sendo seus primos e temos condições. Nada mais justo.
      Dona Ruth ouvia tudo calada.
   ---Mas o que quero de vocês, primo Antonio, é um pouco além.
   Primo Antonio provou do biscoito de polvilho que dona Ruth tinha acabado de fritar.
   ---Pois não prima, diga.
   ---Você uma vez me disse, que seu filho Lucas que esta morando em Vitória, mas o sonho dele é comprar uma casa aqui para vir passear de vez enquanto.
   ---É isso mesmo.---Disse prima Ana.—A mulher dele não esta gostando muito de Vitória e eles estão querendo vir para cá, nem que seja só nas férias dele.
   ---Então primos, a gente resolve dois problemas.Eu quero vender a casa.
   ---Esta casa? ---Perguntou assustado primo Antonio.
   ---É primo, eu alugo uma menor e pago minhas dividas, pelo menos as mais altas.
   ---mas, prima, isto não é justo com você, a tia Ruth e as crianças.
   ---É sim.—disse dona Elza entrando no assunto.---assim podemos dormir.
   ---mas eu posso emprestar o dinheiro pra você acertar as dividas que aquele miserável te deixou.
   ---è isso primo você pode me emprestar, e eu quero e sair dos empréstimos.
    ---Ela esta certa Antonio.—Disse Ana depois de pensar um pouco. Ela vai continuar devendo, mesmo sendo com nos, ela vai se sentir devedora, a divida só vai mudar de endereço.
    ---mas eu não vou cobrar, só se um dia ela puder me pagar.
    ---Oh! Primo, vocês são uma família boa que Deus me deu, mas se o Lucas puder me comprar a casa já esta me ajudando demais.
    ---Claro que ele pode, é só passar um telegrama, que lê vem correndo. Ele adora essa sua casa.
     ---Pois é primo, a casa é boa, o terreno grande, só precisa de umas melhorias.
-          --Modernizar.---.Disse Ana.—o povo da cidade gosta de luxo.
     ---Pois então, vocês fazem isso por mim?
     ---Claro, se não tem outro jeito.---Respondeu primo Antonio.
     Dona Ruth levantou as mãos pro céu e disse alto.
      ----Louvado seja o senhor Jesus!
      ---Para sempre seja louvado.—Respondeu todos juntos.
      ---Então vou entrar em contato com Lucas, e pedir para ele vir acertar as coisas com vocês.---Disse primo Antonio.
      ---Tem uma outra coisa que quero de vocês primos.
      ---Pois não.
      ---Quando o dinheiro chegar, eu te peço que procure o sr. Sebastião e resgate as promissórias que estão em poder dele.
     ---Sei.---Disse Antonio coçando a cabeça em tom de preocupação.---Claro se você quiser eu acerto com todos é só me dar os nomes.
    ---O resto eu mesmo acerto. Eu preciso de ajuda dó com esse, ele é muito estúpido e pode querer me passar a perna e estou um pouco fraca pra brigar.
    Ficou tudo combinado. Os primos não quiseram ficar para almoçar estava de jipe, e iam mandar o telegrama para Lucas e resolver uns problemas na cidade.
    Quando foram embora, dona Ruth abraçou a filha sentindo um grande alivio, parecendo que todo peso tinha ido embora.
    Cirilo até gostou da idéia, apesar de terem de mudar, mas sair daquele pesadelo ia ser o Maximo.
    Leninha subiu na sua mangueira e sem sua mãe perceber chorou muito abraçando a amiga querida que ela mesma plantara.Mas se era para o bem de todos. Mas que era um absurdo isso era.Ter que mudar só porque o pai fez aquela cachorrada toda.
   Pedro abraçou a mãe sem dizer muita coisa. Também não precisava, o que eles tinham a fazer agora era procurar um lugar para mudar.
   Lucas respondeu ao telegrama do pai dizendo que dentro de quinze dias viria para lavrar a escritura, e mandou cinqüenta por cento do imóvel, também pediu para a prima não mudar antes dele chegar.
   Sr. Antonio cuidou de tudo, foi procurar sr. Sebastião e voltou com todas as promissórias, aqueles cinqüenta por cento da casa ficou todo por lá, só sobrou para dona Elza acertar o armazém e o que estava devendo para o pai de Eliza. Mas que alivio, que sonho, há muito um jantar não tinha tanto sabor.
   ---vamos ora todos, que sei que Deus é nosso fiel protetor.—Pediu dona Ruth.
   ----Eu nunca duvidei disso.---Disse dona Elza.
   A família toda rezou de mãos dadas.Leninha sentiu toda a força que o espírito santo podia dar a ela.




XXXVIII




       O dia da primeira comunhão chegou.
        Que lindas estavam as meninas! Todas de branco. A igreja estava lotada. Leninha toda de branco mais parecia uma noiva. Disse Tarzan abraçando a prima logo depois da cerimônia.
        Leninha sentiu tão bem em receber a primeira comunhão que ainda se sentiu mais moça, estava alta quase da altura de sua mãe.
        Dona Elza disse que a filha não demoraria a virar moça, porque ela já estava com onze anos era uma moça feita.
       O triste em tudo isso foi quando eles despediram de Marcelo, ele ia ficar até quarta-feira, mas teve uma festa de despedida logo após a cerimônia da eucaristia. Todos queriam tirar foto com ele.Quando chegou a vez de leninha esta colou o rosto no dele e ficou quietinha até o flash bater.Só que a lagrima incistiu em bater logo depois.
       ---Nunca, nunca vou esquecer de você.---Disse leninha apertando ainda mais o abraço.
       Tarzan ficou olhando e também chorou.
        A igreja ficou vazia, triste.Iriam todos para a fazenda dos pais de Eliza, eles iriam oferecer um almoço em comemoração a primeira comunhão de Eliza e todos os outros eram convidados.
      Cirilo grudou em Leonardo, a fazenda era bem perto da casa dele. E ele e aproveitar a carona dos pais de Leonardo.E claro ficariam atentos a qualquer assunto sobre o assassinato de Raul.
    A fazenda do Sr. Joaquim Dantas era um luxo só. Leninha foi na caminhonete da família junto com Sonia, Wanda, Lili e Tarzan que não saia de perto.Teve carona para todos.
    A mesa grande foi preparada na porta da frente, tinha de tudo gostoso e cheio de frutas.O churrasco enchia a boca de água de todos que estavam com fome.
     Parecia que o povo todo da cidade estava ali, também a maior parte tinha feito a primeira comunhão e eram convidados.]
    Elvira estava assentada um pouco tristonha com a filha no colo.
    Dona Elza se aproximou e pediu para segurar um pouco o neném.
    ---Ela esta linda Elvira.—Comentou.
    ---É, ela é a cara do Raul.—Disse tristonha.
    Dona Elza era uma pessoa muito sensível, mas disse:
    ----Você tem que superar isso Elvira.
    ---É difícil dona Elza, o Raul estava muito ligado em mim, quer dizer eu nele.---Disse abaixando os olhos.
    ---Você é jovem Elvira, vai conversar um pouco com seus amigos, deixa sua filhinha comigo, eu cuido dela um pouco.
    ---Hoje eu dei folga a menina que me ajuda, coitada ela também fez a primeira comunhão.Precisa se divertir, eu acho que não deveria ter uma festa, afinal Raul morreu tem tão pouco tempo...Mas papai disse que a vida passa rápido e a gente esquece.
    ----Seu pai esta certo.Vá eu faço ela dormir.
    ---Ta bom, só vou tomar um pouco de ar. Se ela dormir é só colocar de lado no berço daquele quarto.---Apontou. Ela vai dormir no mínimo umas duas horas.
    ---Pode deixar filha, vai se divertir um pouco.
    Elvira deu um beijo na filha e saiu cabisbaixa. Dona Elza ficou olhando ela caminhar, tadinha era só uma menina.
    As meninas estavam numa barulhada só, brincavam de: roda, dançar, a dança das cadeiras e tudo o que aparecia, estavam felizes demais. Eliza quase não brincava ficava era de beijinho com Daniel toda hora que ninguém olhava.Leninha as vezes olhava pra eles e dava uma piscadela.
    ---Leninha, vem cá.—Chamou Eliza.
    Ela veio rápido.
     ---Cadê Tarzan? ---Perguntou.
     ---Deve estar comendo churrasco, ele estava com Pedro e Marcelo.
     ---Ah! É que Daniel esta querendo conversar um pouco com os meninos e eu preciso ir ao banheiro, estou suada, queria me lavar. E você também deveria lavar a cara esta toda suada. Vem comigo?
    ---Vou, deixa-me chamar a Sonia, ela já me pediu pra ir ao banheiro tem um tempão.
    ---Ta, chama logo.Vá lá Daniel, daqui dá pra ver o Pedro e Tarzan.
    ---Depois você vai pra lá, ta legal/--Pediu Daniel.
    ---Vou sim. ---Deu um beijo nele.
    Lá foram as treis pro banheiro.
    ----Aonde as meninhas vão?---Perguntou dona Elza logo que viu elas entrando na casa.
    ----Só no banheiro, mamãe.---Respondeu Leninha.---Vamos lavar o rosto estamos suadas.
    ---Também não param de pular.
    Elas riram e seguiram de mãos dadas.
    A filhinha de Elvira dormiu e dona Elza cuidou de colocá-la no berço, não descuidando de olhar de vez enquando.
    Leninha já tinha ido na casa da fazenda, mas nunca entrara, ficou assustada com o tamanho do banheiro, tinha ate uma banheira grande, chuveiro, toalhas pra todo lado.
    ----Nossa Eliza, que exagero. É maior do que o da sua casa da cidade.---Comentou leninha.
    ---É papai é exagerado mesmo. Ele disse que o fim da vida dele vai ser aqui. Por isso tudo é tão caprichado.
   ----Será que dá pra gente tomar um banho nessa banheira?---Perguntou Sonia toda entusiasmada.
   ----Dá, vocês querem?---Perguntou Eliza já cuidando de ligar a água.
   ---Não! A gente vai demorar e a mamãe com certeza vai implicar.
   ---Deixa de ser do contra leninha é rápido. Vem sorria e coloque a touca e tome cuidado para não molharem os cabelos. Porque assim ela não vai desconfiar que tomamos banho.
    Sonia cuidou logo de tirar a roupa toda. Era toda lisinha e branca, Eliza ficou nua também, os peitos duros apontavam para cima.
  ---Anda Leninha é só uma molhadinha, vê já tem bastante água é só tirar o suor, ou você esta com vergonha do seu novo corpo.
   Leninha não resistiu, cuidou de pendurar o vestido novo, colocou uma touca e entrou na água.
    ---Vê Sonia, como o corpo dela esta bonita, já tem seios.---Disse Eliza.
    ---Eu já tinha visto.---Disse Sonia.
    ----Eu também, só que agora, eles estão maiores. Deixa-me beijar.—Respondeu Eliza, aproximando de Leninha e cuidando de beijar seus seios.
    Leninha sentiu um frio na espinha, gostava da sensação.
    ----Finja que eu sou o Tarzan, que eu finjo que você é o Daniel.
    ---E eu?---Resmungou Sonia, finjo que sou quem.
     ---Não seja ciumenta Sonia, vem cá também.
    Leninha gostava daquela sensação do carinho das amigas, mas não sabia dizer ao certo, mas também não se sentia bem em fazer aquilo.
   Sonia foi chegando e beijando nos meios das pernas de Eliza, esta por sua vez foi fazer o mesmo em  Leninha, esta se esquivou.
   ---Vamos gente, já demoramos muito, daqui a pouco mamãe vem ver o que estamos fazendo.---Leninha cuidou de sair da banheira e se enrolar rápido na toalha.
    Sonia parecia nem estar ai.
    ---Deixa de ser chata Leninha, vem cá, deixa eu te ensinar a beijar.
    Leninha sorriu.Mas no fundo pensou: “Isso eu quero aprender com Tarzan”.
     ---Anda Eliza, esqueceu do Daniel, ou vai me dizer que prefere estar aqui, do que com ele?
     Eliza deu um pulo.
     ----Nossa é mesmo!Vamos Sonia, vamos enxugar e vestir a roupa.
     Nisso bateu na porta.
     ---leninha!---Era sua mãe.---O que aconteceu agarrou ai?
     ---Já vamos mamãe.---Respondeu acabando de calçar e ageitar os cabelos.
     ---Abra a porta Leninha, pode deixar ela entrar.---Disse Eliza já vestida.
     ---Entre mamãe.Já vamos descer.---Disse abrindo a porta.
     ----O que vocês estavam fazendo? Que demora? Daniel já te procurou Eliza.Esta com um prato de comida com churrasco pra você lá na mesa da copa.
     ---Estávamos tirando o suor.---Disse Sonia arrumando os cabelos.
     ---Mas precisavam tomar banho?
     ---Não recistimos mamãe, olha só o tamanho da banheira.
     ---Descem eu enxugo isso aqui.
     Elas desceram as escadas correndo e dona Elza cuidou do banheiro, mas não sem antes dar um olhar severo para Leninha.
     Ela sabia que a mãe não gostava dela presa em banheiro com ninguém.
   Tarzan também estava na copa, tinha feito um prato para Leninha e Sonia.
    ---Daniel olhou para Eliza e ela cuidou logo de lhe dar um beijo.
    ---Desculpa, não resisti a um banho.
    ---mas valeu a pena, esta tão cheiros.---Disse ele retribuindo o beijo.
    Leninha olhou o beijo e abaixou os olhos.Tarzan olhava para ela sentindo um carinho imenso.
    Sonia sentou e começou a comer estava faminta.
    ---Cadê Marcelo?—Perguntou leninha.
    ----Esta com Pedro.---Respondeu Tarzan.
    Cirilo e Leonardo pareciam dois detetives, só ficavam pelos cantos. Subiram pela laje na caixa d’água tentando ver até onde a vista alcançava.
   ---Daqui da pra ver ate sua casa, Leo, Olhe! Sua mãe deve estar fazendo alguma coisa, esta saindo fumaça pela chaminé.Em se falando nisso, porque ela não veio?
   ---Minha mãe não gosta muito de sair de casa. E além do mais os convidados são só os que fizeram a primeira comunhão hoje, até eu estou aqui de enxerido.
   ---Você é meu convidado e de Leninha.
   ---Ta certo.
   Leninha já tinha acabado de almoçar e passeava com Tarzan e Sonia, tinha tanto lugar para andar que era ate perigoso perdes.
    ---O que esses meninos estão fazendo lá em cima, vamos ver?---Convidou Tarzan.
    ---E ai molecada o que perderam aqui?---Perguntou Sonia.
    Eles levaram um susto.Estavam distraídos.
    ----Olhe Sonia a casa de Lindalva.---Disse leninha.
    ---É mesmo, porque será que ela não apareceu mais na escola?---Perguntou Sonia.
    ---Os irmãos dela disseram que ela esta doente.---Disse Leonardo.
    ----Doente, coitada, precisamos ir visitar.
    ---Acho melhor não.Mamãe tentou ir lá outro dia e eles não a deixaram entrar. ---Disse Leonardo.
    ---Será que é doença que pega?---perguntou Sonia.
    ---Não sabemos.
    ---Já sei, vou pedir pra mamãe ir lá. ---Disse leninha.
    O dia correu tranqüilo.Pedro ficou quase o tempo todo com Marcelo. Falaram sobre um futuro próximo.
   ----Sabe Marcelo, vou fazer a cabeça da mamãe e vou ver se ela concorda de a gente pegar a estrada.
   ---Como assim Pedro?
   ---Já tentei muita coisa, aqui não temos futuro, no máximo vou ficar o resto da vida trabalhando na prefeitura e não vou ter nada para oferecer pra ninguém.
    ----Você quer dizer, para Izabel.
    ---É isso mesmo.Preciso estudar, ser alguém e vir buscá-la.
    ---Não to te entendendo, você estava estudando no seminário e não quis continuar, disse que precisava ajudar sua mãe.
     ---No seminário eu não ia conseguir ajudar ninguém, lá é uma prisão. Desculpe-me, sei que você vai ser padre, mas eu não consigo viver preso. Lá eu me senti numa verdadeira prisão sem grades.
      ---Agora eu te entendo Pedro. Você quer uma vida comum, constituir família, mas primeiro você tem que conquistar a menina.Eu não sei bem essas coisas, mas eu sei que você não a esta namorando. E sem querer botar lenha na fogueira, se você acha que tem alguma chance com ela, faz alguma coisa, porque eu vi o filho do pastor arrastando as asas pra ela.
    Pedro se assustou, ficou corado de raiva.
    ---o que? Você tem certeza?
    ----É mais ou menos. Outro dia ele se ofereceu para carregar umas compras para ela, eu estava no coreto e vi os dois conversando.
     ---Nossa! Cara!Obrigado, você é mesmo um amigão.Eu sei que ela gosta de mim. Mas não sei o que acontece toda vez que eu chego perto dela, eu quase não consigo falar.
    ---Então não fale. Laquê um beijo nela logo de uma vez.
    ---Credo Marcelo, você para ser um seminarista esta muito saidinho.
    Marcelo deu uma risada alta, estava precisando.
    Leninha ficou lá em cima da laje com Tarzan.
    Sonia, Leonardo e Cirilo desceram para pegar refrigerantes.
    A laje era grande, ficava em cima de um cômodo separado da casa, só para a caixa d’água que era muito grande. O cômodo servia para guardar ferramentas e coisas necessárias na fazenda.
    ---isso aqui é bonito.---Comentou Tarzan.
    ---É muito. ---disse Leninha um pouco tímida.—
    Engraçado, nunca tinha sentido timidez perto dele, mas talvez por estar tão arrumada, estava se sentindo um pouco desconfortável.
    ---Tarzan não era bobo, Chegou pertinho dela.
    Estavam debruçados olhando lá em baixo. A aproximação dele fez o coração dela disparar. Terminantemente aquela sensação era bem melhor do que os abraços de Eliza.
     Ele segurou suas mãos com ternura e as beijou.
      ---Leninha, ---disse emocionado.---Quando você crescer mais um pouco, será que ainda vai gostar de mim?
      Ela não soube o que responder, como ele sabia que ela gostava dele, ela nunca tinha tido a ele.
      Leninha se sentiu uma moça, olhou com firmeza para os olhos dele.
      ----É só disso que tenho certeza em minha vida.Do tanto que eu gosto de você.
      Com todo aquele tamanho, Tarzan se sentiu um menino.
       Inclinou um pouquinho, o coração dela disparou, claro ela esperou um beijo. E ele deu um beijo na testa dela com todo carinho.
       Claro que ela esperava um pouquinho mais, mas o abraço que veio depois reconfortou e deu certeza do que eles sentiam um pelo outro.
       Chegou a tarde e o domingo terminou, a semana prometia muitas emoções. Pedro descidiu procurar Izabel e afirmar o namoro que só existia nos olhares dos dois.




XXXIX





           Lucas chegou a cidade para pagar o resto da casa e propôs a prima para ficar na casa ate o final do ano.Porque ele só poderia começar a reforma no final do ano e não tinha motivo para a casa ficar fechada sem ninguém, e enquanto isso teria certeza que ela estaria sendo bem cuidada.
          Dona Ruth só faltou dar saltos de alegrias.
          ---Esses primos não existem.—Comentou com dona Elza.
          ---É mamãe. E a sra ainda não sabe da maior. Claro que eu sempre desconfiei, mas não sabia como agir.
           ---O que minha filha.
           ---Ontem Tarzan veio falar comigo.
           ---Tarzan teve aqui ontem? Como não vi.
           ---Não, mamãe, aqui em casa não. Ele foi à escola. Estava sem graça. Me pediu para namorar leninha.
            ---Meu Deus! Leninha é uma menina. Apesar de que com treze anos eu já estava casada.Ela falta ainda muito pra treze.
            ---Eu sei mamãe, mas os tempos agora são outros, ele é sério, ele disse que claro que não quer namorar ela assim igual se ela já fosse moça feita, ele sabe que ela é só uma menina.Ele veio só dizer que ama a Leninha e queria muito ser o futuro namorado dela.
           ---E o que você respondeu.
           ---Eu disse qua não sabia o que dizer. Que eu sentia a Leninha tendo um carinho por ele, mas não podia responder por ela.Só ela crescendo, amadurecendo e vendo se aquilo era amor mesmo.
           ---Apesar da minha idade, eu acho que você agiu certo e não devemos falar isso com ela.Porque ela pode ficar iludida e esquecer os estudos.
           ---Isso mesmo mamãe não fale isso com ela.Eu pedi ao Tarzan para ficar me ajudando na educação dela, mas com muito respeito, o resto só o tempo dirá.
            ----Ele já deu provas o suficiente, até hoje que é um rapaz de respeito. Mas ele é tão mais velho!—Disse dona Ruth.
            ---Nem tanto né, mamãe ele só tem 17 anos.
            ---E a Leninha quase onze. –Disse desolada dona Ruth.
            ---Quando ela fizer vinte anos e ele tiver vinte e sete, já não será uma diferença tão grande assim.
             ----Pensando assim, mas até lá, será que este amor vai existir.
             ---Ai, só Deus sabe.---Respondeu dona Elza indo para o quarto preparar a aula dos alunos da noite.
             Leninha estava na casa de Sonia preparando a pesquisa sobre Tiradentes, elas teriam que apresentar.Parecia ate um milagre, mas Sonia estava corada, parecia ate estar engordando.
            A mãe de Sonia estava numa alegria só. As meninas estavam na copa usando a mesa grande para fazer os cartazes, Claudia escolhia gravuras, Sonia cortava e Leninha escrevia as frases.
           ---Sua mãe ta que é uma felicidade só em! Sonia.---Comentou Claudia sentindo cheiro de bolo e ouvindo dona Neném cantarolar.
             ---É mamãe disse que a avó de Leninha é uma feiticeira.
             ---Feiticeira, a vovó!----Protestou Leninha parando de escrever.
             ---´E Leninha, no modo de dizer, quer dizer uma feiticeira boa, que cura.
         ---Ah!---Resmungou Leninha.
         ---A sua avó esta me curando. Com os remédios dela.Nem medico conseguiu.Devo minha saúde a ela.
         ---Eu sei, lá em casa ninguém toma remédio de medico, claro, a mamãe foi caso serio, caso de operação, ai só com medico, mas sem ser isso, é só os remédios da vovó.
          ---Nossa Leninha! Mudando de assunto, mas você tem razão de ficar só olhando o Tarzan.Ele ta cada dia mais bonito.—Disse Claudia.
          ---E não é?---Leninha não gostava de ninguém elogiando Tarzan.---E eu vi você bem assanhada olhando meu irmão.
          ---Isso é mesmo.---Disse Claudia.—Cirilo ta ficando um menino tão bonito!
          ---E eu acho que eu vou acabar ficando pra titia.---Disse Sonia—Não sobra ninguém pra mim.
           Dona Neném chamou para o lanche. Claudia foi correndo na frente. Quando foram embora dona Neném embrulhou um bolo e biscoitos para Leninha levar para a vó.Dona Ruth recebeu com satisfação, correu a coar um cafezinho fresco.
           Leninha ficou sabendo que não precisaria mais mudar até o fim do ano, deu pulos de alegrias e foi subir no pe de goiaba para pegar umas goiabas que começavam a amadurecer, ela gostava demais de goiaba de vez com sal.
           ---leninha, não fique no quintal quando escurecer.---Recomendou sua mãe.—Ontem eu vi uma cobra daquelas verdes ai no pé de uva.
           ---Ta bom mamãe, eu já vou descer.---Disse Leninha descendo com os bolsos do vestido cheio de goiaba.
           Sentou perto da pia que ficava na varanda grande da cozinha. Pediu a avó para trazer um pouco de sal.
           ---Desse jeito você vai ficar encalhada.---Disse dona Ruth rindo.
           Cirilo chegou da escola, todo eufórico tinha tirado as melhores notas da turma.
            Leninha ria por dentro, sentiu uma paz tão grande, nunca tinha estado em tal felicidade, tudo estava bem, as pessoas de sua casa pareciam flutuar. “Nossa meu Deus, será que o dinheiro traz tanta felicidade”. Pensava - “mas nem dinheiro sobrou da casa e mamãe nem conseguiu Pager algumas pessoas”—Continuava.— “Mas seja como for, meu Deus deixa tudo assim como esta, que ta tão bom, meu Deus! E o Marcelo, me esqueci dele”.Levantou do chão correndo.
        ----- Mamãe, mamãe. –Chamava Leninha entrando correndo no quarto onde a mãe acabava  de prender os cabelos para iniciar a aula. Os alunos já estavam chegando.
        ---Nossa leninha acalma, o que foi? ---Perguntou a mãe olhando serenamente para a filha.
        ---Marcelo mamãe, me esqueci dele, não sei direito o dia que ele falou que ia embora.---falou aflita leninha acabando de mastigar a ultima goiaba.
         ---Ele já foi.---Disse Cirilo entrando no  quarto e intrometendo na coversa.
         ---Como assim?  ---Perguntou leninha engasgando com os olhos cheios d”água.
         Dona Elza correu a abraçar a filha.
          ---Calma Leninha.---Pediu sua mãe.---Era assim mesmo que ele estava tentando evitar.
         ---Todos sabiam e não me disseram nada.---Reclamou.
         ---Ele não queria despedidas, pediu tanto porque ele disse que não considerava que estava indo embora, só foi completar o ultimo ano que falta para ele se ordenar.
          ---Será que depois ele vem para cá?—Perguntou leninha já um pouco mais calma.
           Cirilo olhava a mãe, e a irmã e também sentia um pouco de tristeza com a ida de Marcelo, mas não queria transparecer.
             ---Vai ser um pouco difícil filha, porque aqui na paróquia já temos o padre Mario, mas eu tenho certeza que toda vez que ele puder ele vem aqui.
             Leninha se conformou afinal não tinha mais nada a se fazer.
             Pedro andava de um lado para outro na pracinha depois do serviço, por fim sentou, precisava achar uma desculpa para falar com Isabel.
            “ Mas que diabos”.---pensava. “Porque tenho que arranjar desculpas, porque não crio coragem e  vou a casa dela de uma vez, é isso mesmo, vou lá em casa, tomo um banho e vou na casa dela falar com ela, e vai ser hoje mesmo”.
           Levantou e foi a passos largos para casa.A mãe até estranhou o silencio dele.Estava calado, com certeza no mundo da lua.
            Tomou um banho frio, fazia calor, procurou a melhor roupa.
             ---Vai sair Pedro?—Perguntou dona Ruth estranhando ele se arrumar assim já de noite em um dia de semana.
            ---Vou dar umas voltas na praça.
            ---E precisa ir tão bonito assim?
            --Arrumar de vez em quando faz bem pra alma. Não é assim que a sra mesmo diz.
            Dona Ruth concordou, gostava de ver o neto assim e com certeza tinha moça no meio dessa historia.—Pensou.
            Ele tomou um café com o bolo que dona neném tinha mandado, escovou bem os dentes e saiu.
            Agora é que seria difícil.Ia passar pela rua de Izabel e ver se ela estava na janela.Graças a Deus.---Pensou Pedro.----Lá estava Izabel com as mãos no rosto olhando a rua.Como ela era bonita!
            ---Izabel.----Cumprimentou aproximando.
            ---Oi Pedro.---Respondeu demonstrando alegria.---Aonde você vai tão bonito?
Ele ficou sem graça.Mas teve coragem.  
             ---Vim te ver.
               ----Me ver?---Perguntou um pouco ansiosa.
              ---Você pode vir aqui na varanda falar comigo um pouco.
              ---claro, espere ai que eu vou abrir a porta da sala.
              Foi rápido.
               ---vem, vamos entrar.---Disse abrindo a porta da sala.---Pedro já estava na varanda da sala.
                ---Não. Você pode sentar aqui fora um pouco? Aqui esta fresquinho. Esta muito calor.---Disse Pedro balançando a camisa. E realmente estava suando de nervoso.
                 Ela sentou na varanda, um pouco tímida, não sabendo o que falar perguntou por sua mãe.
                 ----Ela esta lá dentro preparando o jantar. Janta com a gente?—Perguntou Izabel bem rápido.
                  ---Não sei, se não for incomodar...
                  ---Claro que não, vou falar com mamãe que temos convidado.
                  Um convidado inesperado.---Pensou Pedro.
                   Ele até se sentiu bem jantando com Izabel, a casa dela era tão arrumada parecia casa de boneca, dona Antonia tinha uma senhora que morava com elas, cuidava da casa, era tudo limpinho.
             O pai de Izabel tinha ido viajar por três dias para fazer um curso de eletricidade, era eletricista.O único da cidade cuidava de tudo, ganhava bem.
             Pedro pensava, aquilo que era vida, tudo em ordem, sofá novo, televisão, os quartos co colcha nova, parecendo domingo em pleno déia de semana. Mas com aqueles pensamentos ele mais parecia um idiota, não podia comparar a sua vida de sacrifícios sem pai com a de Izabel, onde tinha um chefe que cuidava de tudo, lembrou da mãe e por um momento sentiu tristeza.
            ---E ai Pedro. Como vai o trabalho.---Perguntou dona Antonia quebrando o silencio.
            ---Bem, estou aprendendo muito.
            ---E quem sabe um dia você não se candidata a prefeito.---Brincou Izabel.
            ---Não, eu acho que não.---Respondeu serio.---Eu ainda quero estudar muito, talvez eu consiga ser um administrador de empresas, ou um engenheiro.
             ---muito bem Pedro, mas para isso você tem que sair da cidade. Infelizmente o Maximo que conseguimos aqui é o segundo grau.
            Izabel olhou um pouco cabisbaixa para ele.
             ----Vou buscar um cafezinho, alguém aceita?—Levantou dona Antonia percebendo que eles precisavam ficar a sos.
             ---vamos sentar no alpendre, você aceita um café Pedro?---Disse Izabel.
             ---Se não incomodar.
             ---Claro que não, lá esta mais fresco, ou você quer ver um pouco de televisão na sala.---Perguntou Izabel, sem saber o que seria melhor.
             ---Só vou tomar o café e tenho que ir, já fiquei muito, amanha pego serviço cedo.
             ---Que isso Pedro, ainda é cedo. A lua esta tão clara.---Disse dona Antonia se retirando até a cozinha.
             Izabel levantou e chamou Pedro para sentarem na sala. Ela sentou de um lado e ele de outro.
             ---Sua televisão é bonita.---disse meio sem graça.
             ---É papai trouxe da ultima vez que foi a cidade, pena que só pega um canal.
             ---mas o Rui vive indo lá na torre, coitado não deve estar conseguindo grande coisa.
              ---É. –respondeu Izabel.
              Quando os olhos deles se encontraram pareciam faíscas de tanto brilho. Pedro não sabia o que fazer era sempre a mesma coisa, ensaiava, ensaiava, chegava perto de Izabel e se sentia tão pequeno.
              ---Cafezinho fresquinho.—Apareceu dona Antonia.
              Ele agradeceu, Izabel não quis.Tomou o café e levantou para se despedir.
              ---vá com ele até o portão Izabel.
              Ela mais que depressa saiu a sua frente. Dona Antonia ligou a televisão e ficou olhando umas imagens distorcidas.
             ---Depois você volta Pedro?---perguntou Izabel um pouco sem graça.
             ---Claro.—Respondeu rápido.—se não incomodar, com certeza.
             ---Você nunca incomoda.
             ---Ela disse isso tão baixinho, que ele não teve como evitar e a virou meigamente para ele, ela sentiu um calafrio, mas o beijo que veio foi tão doce numa mistura de café com sobremesa de doce de leite que eles pareciam embriagados num melado.
            Pedro não conseguia desgrudar a boca da boca de Izabel e ela cuidou de se aninhar bem nos braços dele.
            Um barulho de botão sendo desligado os trouxe a realidade.Ela se soltou rapidamente e começou a rir.
            Era dona Antonia desligando a televisão e eles ainda estavam no primeiro degrau da sala para o alpendre.
            ---Ate amanha.---Disse ele segurando suas mãos, com um sorriso que não saia da cara. Parecia estar nas nuvens.
           ---Ate amanha meu amor.---disse ela ficando nas pontas dos pés para alcançar sua boca e lhe dando um beijo rápido.
           Ele ia e olhava para traz, quase tropeçando no próprio calcanhar.
           Izabel o olhou ate sumir na esquina.
           Quando Pedro chegou em casa, sua mãe estava terminando a aula. Leninha e Cirilo já tinham ido dormir.]
            Dona Ruth foi ao seu encontro.
            --Você demorou Pedro, venha vou esquentar a janta.
            --Já jantei vovó.
            ---O que! Onde?
            ---na casa de Izabel, a sra acredita?
            ---Você endoidou de vez?
            Não vovó, eu estou apaixonado.---Disse abraçando a vó.---Vou dormir, para eu não acordar desse sonho.Hoje foi o dia mais feliz da minha vida.
            Dona Ruth sentou numa cadeira próxima a mesa.”É estou mesmo velha”. –Pensou.
           

              
XL




            Logo de manhã antes de sair do quarto Leninha perguntou a sua mãe.
            ---Mamãe, que dia a sra pode ir visitar aquela menina que mora perto do sitio da Eliza.
           ---nossa Filha! É mesmo me esqueci, vou chamar a comadre Antonia, e vamos ver se domingo podemos ir lá.
          ---Oba! Posso chamar a Lili e a Sonia para irmos juntos.
           ---Acho que pode.Diga a elas que se ficar tudo combinado vamos logo depois do almoço.
           --Podíamos almoçar lá.
           ---Não minha filha, depois pegamos as pessoas desprevenidas e é chato.
           ---Ta certo mamãe.
           Leninha vestiu o uniforme e foi tomar café para ir junto com a mãe para o grupo.
           ---Eu mamãe, o Pedro já foi para o serviço?---Perguntou dona Elza sentindo falta do Filho na mesa de café.
           ---Não ele entrou no banho agora, esta igual um passarinho que aprendeu a voar.
           ---O que esta acontecendo com meu filho que a sra não me contou?
           ---nada fique sossegada, é que ontem fomos dormir primeiro que você. Mas depois ele te conta.
           Nisso Pedro veio chegando abotoando a camisa.
           Dona Ruth fingiu que nem tinha visto e saiu de fininho.
           ---Tem alguma novidade Pedro?---perguntou discretamente dona Elza.
           Ele sorriu amplamente não conseguia esconder a felicidade da mãe. Leninha tomava o café pacientemente esperando para ouvir o assunto.Cirilo ainda dormia, não tinha pressa não teria aulas naquele dia.
          Nada mamãe, é só que eu acho que estou namorando a Izabel.
          Dona Elza engasgou, Leninha sorriu baixinho.
          ---meu Deus! O que! ---Disse dona Elza assustada.
          ---Mas você é só uma criança, como pode assumir um responsabilidade dessas meu filho?
          ---Que responsabilidade mamãe, nem sei se realmente é um namoro.
          ---Meu filho, agora que estamos saindo de uma enrascada, você quer se meter em outra, aquela menina é de família seria e de futuro.
          ----E eu mamãe, a sra quer dizer que a nossa família não presta?      
          ---Não meu filho, longe de min. Mas é que somos tão pobres, tão cheios de dividas...
          Dona Elza ao dizer isso se sentiu engasgada, não de susto, mas de vontade de chorar. Leninha levantou para abraçá-la.
         ----Deixa ele mamãe, Pedro também é um rapaz de família, é sério e tem futuro.
         ---Claro minha filha. Eu tenho certeza disso.---Disse beijando a filha e olhando com carinho para o filho.---Você gosta mesmo dela Pedro?
         ---Claro mamãe, eu amo aquela menina.---Disse e abaixou os olhos.
         ---Então não se envergonhe filho, levanta a cabeça e lute por ela.
         Ele levantou a cabeça e sorriu, um sorriso feliz e orgulhoso de sua mãe e irmã.
          Dona Elza levantou deu um beijo na testa de Pedro pegou o material e foi para  a escola junto de Leninha.
          Pedro tomou o café e nisso dona Ruth que escutava tudo da varanda da cozinha se aproximou e deu um tapinha de leve nas costas do neto.
          ---De agora em diante você vai matar sua mãe de ciúmes.—Disse caminhando para o terreiro da sala e sorrindo.—Ele também  uma risadinha.
          “Essa minha avó é mesmo muito esperta”
           Leninha combinou com Lili e Sonia para irem a casa de Lindalva, elas aceitaram.
           Dona Antonia também aceitou o convite da comadre para irem ver a menina, iria aproveitar para conversar com ela sobre o namoro dos filhos.
           Tudo certo Leninha colocou um chapeuzinho de aba na cabeça para proteger do sol ficou parecendo chapeuzinho vermelho, Sonia também estava de chapéu e Lili levou a sombrinha. O domingo estava bonito e elas teriam que caminhar quase uma hora. Mas isto ela tiravam de letra. Almoçaram mais cedo e já estavam a caminho.
         Aa três meninas iam um pouco mais na frente.
         ----Izabel não quis vir comadre?---Perguntou dona Elza.
         ---Não comadre, ela disse que ia dormir um pouco para estar corada quando Pedro viesse para irem ao cinema.
         Dona Elza ficou desconcertada.Deu um suspiro.
         ---O que foi comadre?---Perguntou dona Antonia.—Não sabia que eles estão namorando e parece firme?
         ---Ele me disse, mas apesar da nossa amizade eu temo por eles, Pedro ainda tem muito que fazer para ficar a altura de Izabel.
         ---Acho que isso ele não tem muito que fazer não comadre, ele já é bem mais alto que ela.----Disse isso e segurou a comadre pelo braço para caminharem dando uma risadinha.
        Dona Elza compreendeu a brincadeira da amiga.
         ---Você esta preocupada com o futuro deles.---Acrescentou dona Antonia caminhando de braços dados com dona Elza.---Mas eles são jovens demais não vamos assustar os meninos, pois assim eles perdem o momento mais gostoso de uma paixão.
          ---Você mi surpreende comadre.—Disse dona Elza.
          ---Porque comadre?
          ---Porque você sempre demonstrou ser dura, cheia de moral, quero dizer sua filha foi criada com mimo, sempre protegida por vocês.
           ---É comadre, e eu sou assim como você disse mesmo, só que eu conheço você desde menina, crescemos juntas e eu sei como você criou seus filhos e como eles são, por isso acho que minha filha esta no caminho mais certo que Deus poderia dar a ela.
            Dona Elza não aquentou a demonstração de carinho da comadre parou para abraçá-la.
             ---Afinal também você é madrinha de batismo de minha filha Izabel e eu sei que você não deixaria nada de mal acontecer a ela.—Acrescentou dona Antonia.
            ---Claro comadre, claro.
            Sonia olhou para trás e viu as duas paradas.
            ---E ai gente as senhoras vão ficar ai paradas de conversa?---falou alto esperando por elas.
             Elas riram e começaram a correr para alcançar as meninas.
              Dona Elza graças a Deus conseguiu tirar aquela ruga de preocupação da testa e começou a pensar como chegaria no sitio do pai de Lindalva.
              Chegaram no terreiro da casa dos pais da menina, o primeiro a vir cumprimentar foi um cachorro magro de nome Faísca. 
              --Passa pra dentro Faísca.---Ouviu-se uma voz lá de dentro da varanda, era dona Clara que veio dar as boas vindas as visitas. Ela já conhecia dona Elza por causa da escola dos meninos e conhecia dona Antonia por causa da igreja.
             ---Como vai gente, vamos entrando.
              Veio logo mostrando simpatia.
               Lili, Sonia e Leninha foram as primeiras a sentarem no banco da varanda, estavam bufando de cansadas, e com sede.
               O sr. Emilio fumava um cigarro feito de palha, levantou para cumprimentá-las
                ---E então donas o que devemos a honra da visita.
                 Dona Elza sentiu um pouco de medo e reconheceu que aquele homem não gostava muito de conversa.
                 ---Nada de importante.---Cuidou logo de responder dona Antonia, ---Estávamos andando até o sitio do pai de Leonardo e resolvemos ver os Meninos.
                 ---O que tem meus meninos?---Perguntou dando uma tragada.
                 ---Sentimos falta de Lindalva na escola, ela esta bem? –Perguntou dona Elza.
                 ---Porque? Alguém disse que nossa fia ta doente?
                 ---Não, claro que não.Também nem é de nossa conta, mas é que realmente ela esta fazendo falta na escola, ela é uma menina tão prestativa.---Disse dona Elza tentando relaxar.
                 ---Podemos brincar com Lindalva? Cadê ela?---Perguntou curiosa lili.
                  ---Ela não esta.---Cuidou logo de responder dona Clara.
                ---Que pena! A sra podia dar um copo de água então para a gente.---Pediu Sonia.
                 ---Claro filhas.Desculpem-me não ter oferecido antes, vou buscar uma limonada acabei de fazer.
                 ---Foi entrando pala sala ate a cozinha.
                 Dona Antonia cuidou de sentar um pouco, chegou perto do muro que dava para os fundos da casa e fingiu levantar o corpo para sentar na beirada dele e sem querer viu três crianças cuidando de passar para o paiol que ficava próximo da casa.Ela não deixou de perceber a diferença que estava Lindalva. Afinal conhecia a menina desde pequena.
                Ficou um pouco pálida.Olhou rápido para a comadre Elza.Ela entendeu que algo havia acontecido.
                 ---E então se Emilio os meninos estão passeando?—Perguntou leninha.
                 ---è eles foram passar o domingo na casa da minha mãe, e quanto a Lindalva, ela não quer mais ir a escola.Por isso não foi este ano.Mas o ano que vem se Deus quiser ela volta a estudar.
                 ---Não pode deixar não seu Emílio, ela estava indo tão bem nos estudos.---Disse dona Elza.
                 ---Depois ela continua, ela ainda é muito nova. Tudo vai dar certo.
                 Dona Antonia não soube o que falar tomou um copo e limonada que dona Clara serviu com bolo.
                Elas se refrescaram, lancharam e cuidaram logo de irem embora. Não sabia o que comentar. Seu Emilio não falou mais nada, continuou fumando o cigarro de palha olhando a fumaça ir pelos ares.
                  Dona Clara acompanhou elas ate a porteira.
                  ---Daqui a pouco Lindalva volta para a escola. Ela é muito nova só tem catorze anos. Dá tempo de recuperar o tempo perdido.
                   Dona Elza sem saber de nada brincou:
                    ---Isso deve ser fase, deve ser algum namoro.
                     ---Vala-me Deus o Emilio mata quem chegar perto dela.---Resmungou dona Clara.
                      Dona Antonia beliscou o braço da comadre e a puxou para irem embora. Rápido.
                       Leninha quebrou junto com as meninas umas canas no meio da estrada para levarem para casa e enquanto isso aproveitavam para brincar de cavalinho com as canas.
                       Levaram um susto quando de repente do meio do mato pulou Cirilo e Leonardo.
                       ---Ua!---Gritaram pregando um susto nas meninas.
                        Leninha gritou.
                         Dona Elza ralhou.
                         ---Vocês estão doidos? O que fazem por aqui?
                         ---Estamos resolvendo uns assuntos.—Disse Cirilo
                         ---Que assunto?---Quis saber a mãe de Cirilo.
                         ---Nada de importante,e então mamãe conseguiu ver a Lindalva?
                         ---Que nada! Os pais dela disseram que ela foi com os irmãso na casa da avó.
                          ---Que mentira!---Disse Leonardo.
                          ---Porque eles mentiriam.
                          ---Eu vi, eu e o Cirilo vimos eles entrando no paiol, logo que vocês entraram na varanda da casa.
                          ---O que -, o que esta acontecendo naquela casa?---perguntou sem entender nada dona Elza.
                         Dona Antonia cuidou logo de abaixar os olhos, já sabia ou palo menos julgava saber, mas não podia falar na frente das meninas.
                          ---Não sei não mamãe, mas eu achei a Lindalva tão gorda, parecia inchada.
                          Dona Antonia mais uma vez puxou o braço da comadre.
                          ---Vamos embora daqui rápido.Disse apertando o passo.
                          Saíram andando rápido. Sem perceber exatamente o motivo, talvez porque ali bem perto tinha sido o local onde Raul tinha sido assassinado.
                           Chegaram a cidade todos suados.
                            ---Mamãe posso ir na casa da Lili um pouco antes de escurecer.
                            ---Poder, pode, mas você está toda suada, esqueceu que hoje tem missa e que vocês tem que tomarem conta do berçário? Marcelo foi embora, mas a responsabilidade ficou.
                            ---Chi!!!, É mesmo meninas. Vamos tomar banho e daqui a pouco a gente se encontra na porta da igreja.
                             ---Me espera então Leninha, eu vou pedir a mamãe, pego uma roupa e tomo banho com você. Pode dona Elza?
                              ---Dona Elza disse que sim, que fosse rápido, que elas esperariam por ela.
                               Lili correu a chamar a mãe.
                               ---Oba! Leninha.Posso fazer o mesmo?---Perguntou toda asanhada Sonia.
                                --Mas nos vamos tomar banho no tanque, será que sua mãe deixa.
                                ---Claro você não sabe que já sarei.—Disse sorrindo.
                                Leninha retribuiu o sorriso. Nisso voltou correndo Lili com sua sacolinha acompanhada de sua mãe.
                                 ---Não acredito que minha comadre,vai passar pela minha porta e não vai entrar.—Veio falando lá de dentro a mãe de Lili.
                                  ---Oh! Comadre não é nada disso, é só que estamos cansadas, viemos de longe.—Dasculpou-se dona Elza.
                                  --Eu sei a Lili me contou que vocês iriam visitar Lindalva, e então ela esta doente mesmo?
                                  ----Não comadre, pelo visto não, apesar de não a termos visto. Doente ela não esta.
                                  ---Então melhor assim. Agora venha comadre, venha com dona Antonia pelo menos tomem um cafezinho comigo, acabei de coar e tem pão fresquinho.
                                  ---Ta bem comadre. Mas não podemos demorar. Disse  dona Elza.
                                  ---Não mesmo, deixei Izabel sozinha e ela deve estar preocupada com minha demora.
                                  ---É mesmo só um café viu comadre, outro dia eu venho fazer um visita de verdade com mamãe.
                                  As meninas disseram que iriam à frente para tomarem banho.
                                  Dona Elza concordou.
                                   Elas ficaram sozinha tomando café, as duas irmãs de Lili brincavam na varanda.
                                  ----Eu vou falar com vocês duas que eu confio muito, mas não quero que mais ninguém fique sabendo. Pelo menos por enquanto.---Disse dona Antonia precisando desabafar.
                                 ---O que comadre, você está seria demais desde a hora que voltamos.
                                  ---É sobre o que vi.
                                  Dona Santa prestava atenção não sabia direito do assunto.
                                  ---Eu quase posso afirmar com certeza de Lindalva não estar indo as aulas.
                                  Fez-se silencio até ela tomar mais um gole de café.
                                   ---Gravidez.
                                   ---o que?---Perguntou assustada dona Elza.
                                   ---Eu vi Lindalva correndo com os irmãos  para se esconderem no paiol, e ela usava um vestido de gestante com um barriquinha bem grande.
                                   ---Meu Deus!---Será isso que eles escondem?---Ficou abismada dona Elza.
                                    ---É comadre no mínimo eles não querem que ninguém fique sabendo que ela deve ter ficado grávida de algum namorado.
                                  ---O que temos a fazer então?—Perguntou dona Elza.
                                  ---Por enquanto nada, acho que isso não é assunto para nos a não ser que eles resolvam pedir ajuda.
                                  ---não sei direito o que ocorre, mas Antonia esta certa.---Deu um palpite dona Santa.
                               Antonia e Elza se despediram e foram embora cada uma para sua casa e em silencio.
                               Leninha já tinha pegado água quente no fogão a lenha e tinha começado o banho.
                               Dona Ruth recomendou para não demorar, pois a água iria esfriar rápido e elas poderiam pegar friagem principalmente Sonia.
                               Cirilo estava na escada da igreja sentado com Leonardo, viu sua mãe passar e disse que daqui a pouco iria embora.
                              Lili não aquentava de assanhamento era só ficar pelada que logo começava a passar a mão pelo corpo.Tirou a roupa toda e sentou no tanque. Sonia fez o mesmo, Leninha não quis tirar a calcinha entrou de calcinha na água.
                           ---Você é boba mesmo.Em Leninha.—Dizia Sonia.—Como vai ficar limpa tomando banho de roupa?
                          ---Eu lavo a calcinha junto, não tem problema, e alem do mais conheço vocês duas, já pensou se mamãe ou a vovó chegam aqui sem a gente ver?
                         
                         ---O que tem a gente ta sentada na água, ninguém ta vendo a gente.—Disse Lili colocando a mão no corpo de Sonia, ela ficava quietinha.
                        --Vamos fingir que eu sou um homem bem gostoso, vem ca meu amor.—Disse Sonia fingindo que ia beijar a boca de Leninha.
                         Leninha sorria, mas desviava, não queria brincar daquilo, mas também não queria mostrar indiferença com as amigas.
                       Entrou um pouquinho na brincadeira fingindo que ia morder nelas.
      ---andem meninas falta pouco para começar a missa.—Disse dona Ruth da porta da cozinha.
     Elas saíram rápido do tangue, rindo felizes, apostando quem vestia a roupa primeiro.
     Foram as três de mãos dadas cuidarem do berçário.
     Delicia esperava por elas toda arrumadinha de fita no cabelo e com um vestido que já tinha sido de Leninha. Elas não aquentaram e abraçaram junta a menina, convidando ela para ajudar a cuidar dos meninos que chegavam.
      Dona Antonia chegou em casa e já encontrou a filha toda arrumadadinha sentada no alpendre esperando por Pedro para irem juntos a missa.
       ---A sra vai a igreja mamãe?---Perguntou Izabel.
       ---Hoje eu fui cedo, filha. Estou cansada vou tomar um banho e deitar um pouco. Não demore muito depois da missa, e tenha juízo.Pedro é um bom rapaz, mas é homem.---Disse dando um beijo na testa da filha.
       ---Não se preocupe mamãe, eu tenho juízo.
       Eu sei por isso confio em você.
       Elas eram grandes amigas dona Antonia apesar da aparência conservadora era muito segura ao conversar com a filha sobre assuntos de homem e mulher não media palavras explicava tudo.
        Entrou e não demorou muito. Pedro chegou e os dois foram de mãos dadas para a igreja.
        Dona Elza contou o que tinha acontecido para a mãe. Ela só respondeu:
         ---Daqui a pouco fico sabendo de tudo, todos me procuram na hora do parto.
         ---É mamãe, mas e se eles resolverem fazer tudo sozinhos.
         ---Não tem jeito, quanto mais que foi eu que ajudei todos eles a nascerem.
         È dona Ruth era uma parteira famosa, só que agora a maioria dos partos eram feitos no hospital, mas os que eram feitos em casa, lá estava dona Ruth era só aguardar.
          A lua começava a aparecer no céu, Pedro e Elvira voltaram para o alpendre da casa dela, Leninha foi deixada em casa por eles primeiro, Sonia também foi embora.
          Leninha sentou na porta da sala abservando o jardim que começava a sentir a chegada de outono. Soprava um ventinho fino, apesar da lua tão branca a noite estava fria.
          Ela pegou uma flor amarela daquelas que soltava as pétalas e começou a bem- me- quer, mal me quer.Deu bem- me- quer.
          Ela sorriu e deu um beijo na flor, fechou os olhos um pouco, Pensou em Tarzan, como seria um beijo na boca de Tarzan. Queria tanto experimentar o que fazer para ele perceber que ela já estava preparada para aquele momento, ou não talvez ainda era muito criança. Mas mesmo assim queria, queria muito. Abriu os olhos levou um susto ao ver quase a sua frente Vandinho.Levantou os olhos rápidos, ele colocou a mão na boca como a pedir para ela não ter medo, ela engoliu em seco. Sentiu as pernas tremerem, como não ter medo, sozinha na porta da sala e de testemunha  só a noite. Ele segurou a mão dela, a mão dele era gelada, ela viu o brilho nos olhos dele pareciam ter sangue no lugar da bolinha preta. Ela acordou pela manha e estava deitada em sua cama, e sua mãe dormia feito uma fada.
        Dona Elza acordou com o arranco que Leninha deu na cama ao sentar-se.
         ---Como eu vim parar aqui mamãe?
         ---Ah! É isso minha filha.---Disse dona Elza calma passando a mão na cabeça da filha e ajeitando para dormir mais um pouco.
        ---È mamãe como eu vim pra cama? Eu estava sentada na porta da sala, Vandinho entrou e eu não vi mais nada.
        ---O que filha? Você sonhou, só pode ser, seu irmão chegou e você estava sentada dormindo na porta encostada quase caindo para dentro, ele disse que você dormia como um anjo.
        ---É mamãe, eu não me lembro de nada, só lembro do olhar vermelho de Vandinho.
        ---Você ainda esta muito impressionada minha filha.É impossível Vandinho ter vindo por esses lados, ele depois do que aconteceu só sai acompanhado, vive mais é dopado de remédios.
        Ela sentiu um arrepio enorme, fechou os olhos e preferiu pensar que aquilo realmente teria sido um sonho.Começou a rezar um terço contando nos dedos.
        Dormiu sem acabar de rezar ainda era cedo, faltava um pouquinho para o dia clarear.
        Na escola sentiu vontade de contar para Lili e Sonia o que tinha acontecido, mas com certeza ririam dela, preferiu passar um dia normal e tentar esquecer.
        Sabia que por traz do olhar de Vandinho existia uma força parecendo chamar por ela, mas ela nunca ia se sentia dominar, sabia que Deus era seu protetor e mal algum poderá penetrar em sua alma.
    
                         
                               



XLI




                                
  Cirilo tagarelava com Leonardo em um certo canto.
   ---Já desvendamos o caso ou não?—Perguntou Cirilo.
   ---Se for o que estávamos pensando já esta tudo explicado. A Lindalva esta grávida, e com certeza é filho de Raul, ai o pai dela foi lá com uma faca ou foice e acabou com a vida dele.
    ---Você que esta dizendo, eu não posso falar nada.
    ---É eu lembrei que já vi Raul muitas vezes conversando com Lindalva no meio dos milhos.
    ---Conversando.Você quer dizer namorando, se agarrando.
    ---Por favor, em Cirilo! Eu nem tinha imaginado que poderia ser isso, mas depois que vi a barriga dela lembrei desse detalhe. Mas por favor, não conte isso pra ninguém isso pode dar confusão dos diabos.
     ---vamos então esquecer isso tudo, já que o vagabundo morreu, porque era covarde, traindo a mulher.
      ---É Cirilo vamos mudar de caso, este por enquanto esta resolvido.
      ---Por nos, mas não esqueçamos que a policia ainda vai desvendar esse caso.
      ---Serà! Com esse delegado banana que só sabe dormir e prender putas lá da casa da luz vermelha.
     Cirilo não aquentou de rir. Nisso o sinal do recreio tocou, e eles entraram para a sala.
      Leonardo passou por Leninha e a ofereceu uma bala. Ela aceitou com um sorriso.
      Sonia deu uma beliscadinha nela.
      ----Assanhada.
      ---Que é isso Sonia, é só uma bala.
      ---Mas e Tarzan?
      ---Credo Sonia, é só uma bala.---Incistiu dando a bala para Lili.
      ---Oba! Obrigada.---Agradeceu Lili colocando a bala na boca.
      Era só uma bala, mas aquele sorriso ficou na memória de Leonardo todo o resto da aula, como ele gostava de Leninha. Leninha era a menina dos sonhos dele.
      O tempo voava nem bem recomeçou as aulas e já estava quase chegando as férias de julho de novo, pensava Leninha enquanto escrevia uma poesia que Eliza lhe pedira para mandar para Daniel.
       Ela estava sentada na penteadeira do quarto de Eliza, Sonia sentada na cama arrumando os cabelos de Eliza.
       ---Eu estou com tanta saudade de Marcelo.—Disse quebrando o silencio.
       ---É mesmo, ele sumiu mesmo.—Responde Sonia.
       Leninha continuou escrevendo a poesia enquanto pensava:- --Já estavam no mês de maio estava tão frio. E Tarzan já tinha quase um mês que ela não o via sentia saudades.---
       ---Eliza e Daniel?---Perguntou Leninha, assim se mais nem menos.
       ---O que tem ele?---Perguntou Eliza se ajeitando na cama e atrapalhando todo o cabelo que Sonia tinha arrumado. Sonia sorriu com o pente e a escova na mão.
       ---Nada.---Disse Leninha parando de escrever e indo sentar na cama com as amigas.---É só que eu queria aprender a namorar.
      ---Você lembra aquela vez que eu comecei a ensinar a vocês a beijar?---Perguntou Eliza.
     ---Não Eliza, não é isso, eu não quero que você me ensine a beijar, eu quero que você me diga como é  namorar.
      ---Eu sei.---Disse Sonia toda assanhada.
      ---Sabe, sabe demais, não sei como? Se você nunca namorou.---Disse Eliza gozando a amiga.
      ---Você é boba, e os livros que eu já li/
       ---Livro é uma coisa, o negocio é namorar de verdade e ver como é.
       ---E como é?---Leninha estava mesmo interresada no assunto se perceber que a porta do quarto estava entreaberta e que Elvira esta ouvindo a conversa delas.
       ---Sabe como é Leninha?—Disse Elvira entrando e sentando de frente da menina parecendo uma mãe que ia dar aula para uma filha.
       Leninha levou um susto, mas ouviu calmamente.
       ---em primeiro lugar, tem que ter muito amor, amor.Você sabe o que é isso?---Perguntou Elvira.
      ---Acho que sei, pelo menos acho que sei.
       Sonia deitou na cama com as mãos segurando a cara, Eliza sentou e começou a escovar os cabelos calmamente, os olhos de Leninha estavam cheios de emoção.
       ---Que bom que você admite que acha que sabe.Porque meu bem, amor é uma coisa que a gente só sabe se tem e existe olhando nos olhos da pessoa que você julga amar.É aquela vontade de estar sempre juntos, fazer as coisas juntos, as vezes ate dar a mesma resposta as perguntas que os outros fazem ao mesmo tempo, amar é um entrosamento, é vontade de beijar, fazer carinho até dormirem juntos.
     Ela dizia isso e segurava as mãos de Leninha, leninha não agüentou se deixar um lagrima rolar.
     ---Era isso que você sentia por Raul/--perguntou receosa se estava fazendo a pergunta certa na hora certa.
    ---È Leninha, é isso que eu sentia e ainda sinto por ele, não sei se ele sentia isso tudo por min ou se só foi obrigado a se casar comigo por causa do bebe.
   Disse isso levantando e limpando o choro que teimava em descer.
   ---E você, me diga, porque esse interesse todo por namorar, amor...---Neste instante o semblante de Elvira já havia se transformado e mostrava um sorriso meio fraco, mas franco.
   Sonia como sempre enxerida.
   ---É que Leninha já tem um amor, o primo dela Tarzan.
   ---Tarzan? Meu Deus! O Tarzan lá da fazenda que era amigo de Raul?
    ---Esta mesmo.—Disse Leninha com os olhos baixos, enroscando os dedos.
    ---Que bom gosto em amiga? Morenaço, meio índio, e ele gosta de você?
    ---Que pergunta Elvira, todos na cidade sabem que Tarzan só tem olhos pra Leninha.---Disse Eliza.
     ----Ao que parece eu ando fora dos assuntos da cidade mesmo. Vocês namoram d verdade? Mas você é tão novinha Leninha, apesar de já ter corpo de moça.
     ----Não a gente não namora, esse namoro igual de Eliza de beijo, abraço, essas coisas, por isso estou querendo saber como é?
     ----Entendi, mas isso é muito fácil, não tenha medo, esse primeiro beijo vai chegar, ele deve estar é esperando a hora certa pra você. Ele é mais velho, deve ser esperto e sabido, deve estar te preservando só pra ele.
      ---Preservando?---Leninha não entendeu a palavra.
      ----É Leninha, preservando.E te digo uma coisa, seja paciente deixe as coisas acontecerem com naturalidade, não tenha pressa, se vocês tiverem de ser um do outro nada vai separar vocês.---“ Só a morte”.---Disse comum pouco de raiva. Nosso veio entrando a pequena Vânia que começava a engatinhar.
      Elvira correu para pegar a filha.
      ---Ela é linda.---Disse Sonia.
      ---Quando eu casar com Tarzan quero ter três filhos.---Afirmou Leninha.
      Elvira pegou a filha e deixou as meninas acabarem o que estavam fazendo.
      Sonia depois que Elvira saiu foi brincar de namorar co Eliza Enquanto Leninha concluía a poesia.
      Dona Ruth ficou assustada quando uma certa manhã acordou co alguém batendo de levinho na janela de seu quarto, abriu e deu de cara com a mãe de Lindalva.
      Dona Clara colocou a mão na boca pedindo para ela não fazer barulho. Ela foi ate  a porta da cozinha e mandou ela entrar.
     ---Não, venha até aqui no quintal conversar comigo.—Pediu ela com aflição.
     ---O que foi dona Clara.Aconteceu alguma coisa?
     ---Desculpe as horas, mas estou precisando muito do serviço de parteira da sra.
     ---Aconteceu alguma coisa? Quem vai ter neném?---perguntou dona Ruth, claro já sabia da resposta.
     Dona Clara contou a ela bem devagar pedindo para ela ir fazer o parto da Lindalva e que fosse no mais absoluto segredo. Ela ia fingir que tinha achado a crinça na estrada e iria criar o neto ou neta como filho. Para Lindalva não cair na língua do povo e poder ter uma vida descente.
    Dona Ruth correu a avisar dona Elza que já esperava por aquilo e pediu a mãe para ter cuidado, pois Lindalva era só uma criança. Ela não teve medo pois já tinha feito parto de mulheres bem mais nova que Lindalva.
    Graças a Deus correu tudo bem, contou dona Ruth a filha logo depois da aula da noite.
    Lindalva deu a luz a um belo garotão, ela era muito sadia e foi parto normal, sem complicação.
     Ao avos iriam adotar a criança e a primeira vista tudo seria resolvido.
      ---Dona Clara não te disse nada sobre o pai da criança, mamãe?
      ---Disse filha, mas é tão complicado que tenho até medo de falar.
      ---Porque mamãe, é homem  casado?
      ---Casado e morto.---Disse seco dona Ruth.
      ---Meu Deus, será de quem eu desconfio.
      ---É filha, é mesmo de Raul marido de Elvira.
      ---Então o pai da Lindalva matou o Raul.
      ---Não sei depois que dona Clara teve a confiança de me contar essas coisas eu me calei, tive ate medo de suspirar. Aquele cara teve o fim que merecia, abusou de duas moças, uma mais rica que foi obrigado a se casar com ela e a outra maia pobre e pelo visto ele já namora a Lindalva na mesma época que casou com Elvira, só que ela engravidou primeiro.
    ----Sabe mamãe, tive medo agora por leninha.
    ---Você esta certa filha, esta cheia de Raus por ai afora e eles gostam de aproveitarem e de menininhas sem experiência.
   ---Precisamos prestar mais atenção no que Leninha anda fazendo pó ai.
   ---porinquanto não precisamos preocupar tanto ela só anda com meninas e o Tarzan custa a parecer.
    ----Mas a Eliza, ela tem namorado e pode botar muita coisa na cabeça de Leninha, e olha que ela vive enfiada lá na casa dela.
   ---è só proibir um pouco mais as idas dela lá.
   ---Vamos fazer isso, e eu vou ter uma conversa com ela, qualquer dei desses.
    Dona Elza foi deitar e ficou um bom tempo olhando o sono da filha que vez ou outra mecha e dava uns gemidos profundos.
    Sentiu vontade de acordar a filha para ver se era algum pesadelo, mas de repente o sono dela ficou mais leve e ela só deu um beijo na testa da filha.
    Ia começar a reforma da casa e Lucas mandou um empreiteiro, para ampliar a casa, mas sem mecher com a prima, que só ia ficar na casa até o fim do ano.
    Eles não iam mexer dentro da casa, só iam fazer uns tubulões para poder fazer um segundo andar. Ele queria fazer duas varandas de fora a fora na casa. E por tudo que o moço olhou ,teriam talvez de derrubar a casa que estava velha e não aguentaria tudo que planejavam.
    Os olhos de Leninha encheram de água quando pensou que aquela casa daqui a pouco não existiria mais.
XLII
  

    
  
   Férias!Como chegou rápido. Julho era mês das pipas, só se ouvia barulho de papel e taquara, Cirilo era o mestre de fazer pipa, sempre conseguia um dinheirinho vendendo para os amigos.
    O cheiro chegou forte nas narinas de Leninha, ela, ela sentia ate o cheiro dele no ar.
     ---Cadê o povo desse casa? ---Entrou Tarzan porta adentro.
     Leninha estava sozinha sentada na varanda da porta da cozinha, dona Elza e dona Ruth tinham ido levar remédio para Sonia que mais uma vez infelizmente tinha caído de cama.
      Ela levantou como se fosse levada por uma onda mais forte e caiu nos braços dele, foi um abraço tão forte que ela ate sentiu os músculos dele de encontro ao seu corpo.
     ---Minha gatinha! ---Disse ele enchendo a cara dela de beijos, um quase roçou os lábios dela.
     Tinha três meses que não se viam ele estava cuidando de uma boiada em outras terras pra seu pai, estava mais queimado, mais bonito. E ele estranhou o comprimento de Leninha, notou os seios dela. Deu uma olhada de baixo para cima mandando ela dar uma volta,
     ---Menina, você cresceu. Pode parar, desse jeito vai ficar mais alta que eu.
     ---Claro que não.---Disse ela tornando a abraçar o primo.---Que saudades.
     ---É eu que quase morri.---Cade a prima velha, e a mais nova.---Perguntou sentando com Leninha no colo.
     ---Mamãe e vovó foram na casa de Sonia.
     Percebendo então que eles estavam sozinhos, ele cuidou de tirar Leninha do colo. E ate mudou o jeito tinha prometido a dona Elza que ia cuidar de Leninha.
     ---Você esta aqui sozinha?
     ---Só um pouco, mamãe já deve estar voltando. Foi só ajudar vovó levar um banho pra Sonia.Você acredita que ela piorou de novo?
     Começaram a conversar igual gente grande, ele sentou do seu lado na beirada da varanda. Ela contou sobre o namoro de Pedro e Izabel, Sobre a reforma da casa. Nisso dona Elza chegou, viu a porta da sala aberta e entrou devagarzinho ouvindo a voz de Tarzan, achou tão bonito o carinho que ele prestava atenção em Leninha conversar.
    ---E ai gente boa, sumiu.---Disse dona Elza entrando.
    ---Nossa prima, que susto!---Disse Tarzan levantando para cumprimentar a prima.
    ---Você sumiu.
    -----Trabalho, estava trabalhando muito. Olha lá debaixo da mesa da cozinha o que eu trouxe pra vocês.
   ---Presente.---Disse Leninha correndo para ver o que era.
   ---Ela não viu você entrar.
   ---Não ela estava sentada aqui e eu fui entrando.
   ----Meu Deus! Olha quanta carne, lingüiça, feijão, milho verde, mamãe assa pra min?
   Leninha estava eufórica adorava milho assado.
   ---E uma pra min.---Pediu Tarzan.
   ---Nossa primo, não precisava tanto. Vou guardar essa carne antes que estrague, vou fritar e guardar na gordura.
   ---O toucinho e a lingüiça você pode pendurar encima do fogão. É bom que fica defumado.
    ---Boa idéia.
    Colocaram o milho pra assar e foi cuidar da carne.Dona Ruth chegou sentindo o cheiro da carne. Sentiu tão bem já tinha mais de um semana que não tinham carne naquela casa. Deus que aumente para o primo, agradeceu.
   Tarzan ia dormir ali, tinha coisas para resolver no outro dia.
    Leninha comeu o milho, tomou um banho e foi com Tarzan esperar Pedro sair do trabalho para vê-lo antes dele ir encontrar com Izabel.
    ---Ele vai todo dia namorar.---perguntou Tarzan.
    ---Quase.
    ----Deve estar apaixonado mesmo.
    ---É.
    Leninha ficou calada. Tarzan só andava com ela de mãos dadas. Ela gostava, sentia uma força, uma quentura boa no corpo, um prazer tão grande.
   ---Tarzan, meu amigo.---Disse Pedro logo que fechou a porta da prefeitura, e viu eles sentados no banco da praça.
    Foi dar um abraço no primo e amigo.
    ----E ai como vai essa força?---Perguntou Tarzan.
    ----Bem e você?---respondeu Pedro.
    ---To sabendo da novidade e ai vai ver a garota hoje?
    ---Não, hoje não, ela ia ajudar a mãe numas coisas lá da costura.
    ---Então vamos ali tomar um sorvete, que assim botamos a conversa em dia.
    Tomaram sorvete e foram para casa.
     Dona Elza não tinha aulas, estava de férias também a noite. Fez um jantar delicioso. Leninha conversou ate tarde, mas o sono tomou conta dela.
      Tarzan e Pedro ficaram sentados na sala de aula conversando ate tarde. Dona Ruth preparou um café com leite e deixou eles lá a sós, Cirilo também foi dormir.
     ---Então eles já começaram a reforma da casa pro meu irmão.---Perguntou Tarzan depois que tinha visto alguns sacos de cimento encostado atraz da porta.
    ---É eles estão furando uns buracos dos lados. Mas porinquanto é só, reforma mesmo eles devem começar lá pra setembro.
     ---Ai vocês vão ter que mudar.
     ----Alias já deveríamos, afinal seu irmão salvou a minha mãe, que iria comprar um casa desta numa cidade pequena sem futuro?
     ----Sem futuro não.Mas também o que ele ta querendo e uma casa mais pra passar fins de semana.Duvido que algum dia eles venham morar aqui.
     ----Se qualquer jeito o preço que ele pagou foi só coisa de família pra ajudar.
     ----Sem modéstia, mas minha família é muito boa.---Disse Tarzan dando um tapinha na cabeça do primo.---E ai fala da Izabel.
     ---No cara. Nem te conto. Ela é demais. Tenho que fazer alguma coisa. Tenho que casar com ela.
      ----Já?
      ---Não, não é isso!----Respondeu Pedro percebendo a malicia de Tarzan.___Eu falo que eu tenho que casar com ela porque eu a amo, ela é demais.
      ----Ah! Você me assustou cara!
      ---Lembra aquela vez que disse que ia embora daqui para ganhar mais dinheiro?
      ---Lembro.
      ---Pois é não mudei de idéia, eu vou mesmo, vou na frente, arranjo emprego, casa e busco a mamãe, caso com Izabel.
      ----Não Pedro, não faça isso.
      ---Não tem outro jeito, Tarzan eu tenho que fazer faculdade, eu não vou conseguir nada aqui. Ainda continuo precisando ajudar a mamãe.
        ----E a Izabel?
        ----Ela me espera, já ate falei pra ela.
        ----Ela deixou?
         ---Chora toda vez que toco no assunto, mas ela deixou, disse que me espera.
        ----Você tem certeza, com tanta gente de olho nela?
        ---Mas ela só tem olhos pra mim. É fogo cara, ela é demais.---Disse com uma vontade imensa de contar detalhes do namoro para Tarzan. Tarzan se acomodou direitinho em uma carteira e prestou atenção.---Você precisa ver os beijos que damos, parece que meu corpo vai explodir todo.
        ----E o que você faz depois?
        ---O que você também faz, eu dou meu jeito.
        ---Ce vai à zona?---Perguntou Tarzan assustado.
        ---Não. Porque você vai?
        ---Claro que não. É que você falou de uma maneira...
        ---Eu falava é do jeito que eu resolvia meu tesão sosinho.
        ---É barra cara, precisa casar.
        ---E você?
         ---Eu to esperando Leninha crescer.
         ---Brincadeira, um baita marmanjo deste de olho em uma menina, e ainda por cima minha irmã.
         ---de menina ela só tem a pureza e algumas manhas, já viu como ela já esta com corpo de moça e o olhar então eu tremo todo quando ela olha pra min.
         ----Que é isso Tarzan ta brincando.
          ----Verdade, sua irmã vai ser uma grande mulher, e se Deus quiser vai ser minha esposa.
          Pedro preferiu mudar de assunto, sentia respeito pela irmã e não queria falar sobre aquilo.
          Foram dormir tarde para levantarem cedo. Pedro iria trabalhar e Tarzan resolver uns assuntos da fazenda.
          Saíram antes de Leninha acordar, eram férias e ela acordava tarde. Ficou feliz, pois Tarzan só iria embora de tarde poderiam conversar ainda muito tempo.
          Ele trouxe três cortes de vestido para Leninha sem esquecer da prima velha, sabia puxar saco.
          Leninha agradeceu os panos pulando no pescoço dele.Sempre que ela fazia isso perto da avó ele cuidava logo de afastar para mostrar respeito.
          Trouxe também uma caixa que ela abriu eufórica, era um tamanquinho de madeira que estava na moda. Ela experimentou.
          ---Como você sabia meu numero?---Perguntou surpresa.
          ---O que eu não sei de você.---Disse dando uma piscadinha.
          Dona Ruth ficava observando os dois sentia o peito cheio de orgulho. Pois sabia que amor crescia era assim mesmo.
         ---Sábado ou domingo vamos fazer pic-nic lá na gruta da pedreira você vem com a gente.---Perguntou Leninha a Tarzan.
         ---Que pena Leninha, sou doido pra fazer pic-nic com vocês, mas tenho um serviço pra fazer com papai, não vou prometer, mas se der eu apareço. Você não tem certeza do dia?
         ---Se você disser que vem mesmo eu marco o dia certo.
         ---Ta bom vou fazer força pra vir no domingo.
         ---Vou te esperar.
         ---Não. Vocês vão porque talvez eu atrase e eu sei que vocês gostam de irem cedo. Eu encontro vocês lá.Deixe as frutas que eu levo.
         ---Legal.
         Tudo combinado para o pic-nic.Pena que Sonia não podia ir, e a enxerida da irmã de Wanda tava doida pra ir.Mas as meninas não aceitaram disseram que ela não fazia parte da “turma”. “Legal”, pensou Leninha.
        Foi visitar Sonia, sentiu pena da amiga. Ela estava debaixo do cobertor quente com aquele sol lá fora, apesar de ser tempo de frio, aquele cobertozão suaria qualquer pessoa.
       Leninha sentou em uma cadeira perto da cabeceira de Sonia.
       ---leninha?—Chamou a menina acordando e vendo a amiga ali lendo uma revistinha. –Tem muito tempo que você esta aqui?
       ----Não cheguei agora. Só li duas folhas, não quis te acordar, você dormia tão gostoso.
       ---è só o que tenho feito, tem um tempão.---Disse com olhos cheios de lagrimas.
       ---Ce vai sarar Sonia.
       ---Vou sarar, vou ficar doente, vou sarar e ficar doente de novo, até eu não aquentar mais e morrer.
       ---Não!---Disse Leninha brava levantando da cadeira para abraçar a amiga.---Morrer não.---Ela disse com tanta raiva que pareci mais um trovão.
       ---Gostaria de ter esse certeza. O pior é se eu morrer agora, morro virgem.
       Leninha não aquentou, não sabia se ria ou chorava da bobeira de Sonia.
       ---Você não quer morrer virgem?---perguntou leninha rindo.
       ---Não de jeito nenhum. Eu quero ter um príncipe igual ao seu.
       ---O meu não é príncipe é o rei das selvas.
       ---Quem sabe eu não encontre o Mogli.
       Leninha mais uma vês não conseguia parar de rir.
       Contou a Sonia que iriam fazer pic-nic, mas depois correria para contar tudo a ela.
      
       
XLIII
  
    Chegou a carta de aposentadoria permanente de dona Elza. Ela iria viajar por um dia para assinar os papeis. Iria na segunda-feira.
          A turma estava toda pronta para o passeio, delicia também iria, estava linda nem parecia uma menina de favela, Eliza toda aprumada se sombrinha e chapéu com Daniel do lado. Cirilo e Leonardo sempre cochichando nos cantos, Pedro e Izabel iriam para tomar conta dos meninos, Lili, Wanda e Carlos que estava de olho em Lili, a irmã de Leonardo que quase não aparecia, mas era a cara dele era um pouco mais nova. Sandro, Beth, um dos irmãos de Lindalva. E lá foram eles morro acima. Leninha de chapéu de chapeuzinho vermelho e um vestido de bolinha vermelhas com um short curto do mesmo tecido. O vestido mais parecia uma blusa para aparecer a beiradinha do short.A ansiedade dela era saber se Tarzan vinha ou não.
      Leonardo estava todo feliz planejava uma maneira de ficar perto de Leninha, sem saber dos planos da garota.
      Dona Elza estava sosinha em casa, a mãe tinha ido a missa. Qual foi o susto dela quando bateram palmas na porta da sala e ela se deparou com nada mais nada menos do que o sr Sebastião.
      ---O sr deseja alguma coisa?—perguntou assustada. O homem segurava o chapéu nervoso.
      ---Posso falar com a sra?
      ---Ma, eu já te paguei tudo.
      ---Não é sobre isso. Por favor, não vou fazer mal a Sra.
      Dona Elza preferiu fingir que não estava só. Deixou ele entrar, mas manteve a porta aberta.
     ---A mamãe ta lá dentro, o sr querendo mando trazer um café.
     ---Não é preciso.
     ---então diga o que o sr deseja. Por favor, eu tenho compromisso na igreja.
     Enquanto isso leninha já suada chegava a porta da pedreira, a água fresca que minava e formava uma piscina era a primeira coisa que eles pensavam em fazer:beber. “Mas cadê Tarzan”.---Será que ele não vinha.
     Leonardo encheu um copo d’ água e cuidou logo de oferecer a Leninha, ela agradeceu procurando em todos os lugares por Tarzan.
     Tomou um susto quando caiu uma flor que não pertenci a arvore que sombreava seu rosto.Caiu em sua cabeça. Olhou para cima e lá estava ele.
     ---Min Tarzan.---Disse cuidando de descer e oferecer a outra flor que estava em sua mão para leninha. Leonardo não gostou do sorriso que a menina deu para Tarzan.
     ---Pensou que eu não vinha, em!---Já faz mais de uma hora que estou aqui, venham já até limpei debaixo daquela mangueira pra vocês deixarem os lanches.
     Todos seguiram Tarzan, ele estava de calça jeans bem surrada e com a camisa enrolada na cintura.
     A calça dobrada feito pescador, e de bota de boiadeiro.
     Leninha achava ele o Maximo. Achou engraçada a sensação que sentiu, pois sempre via Tarzan como um homem grande e hoje ela percebeu que ele não era também assim tão grande era só um rapaz virando homem, assim como ela uma menina virando moça.
      Pedro não desgrudava de Izabel. A todo o momento que se olhava lá estavam eles de boca grudada. Eliza e Daniel sempre de mãos dadas e Cirilo toda hora mostrava para Leonardo a calcinha de Wanda que incistia em aparecer toda vez que o vento soprava, a menina já não aquentava mais segurar o vestido. Arrependeu de não ter ido de short por baixo.
      Enquanto dona Elza dava um jeito de se livrar do sr Sebastião este oferecia o mundo para ela,
     ---Estou arrependido pelo que fiz com a Sra. ---Explicava ele segurando o chapéu sem olhar para frente.
     ---Por favor, eu não quero falar nisso.
      ---Mas eu preciso. Eu amo a Sra. Me perdoa, por favor.
      Dona Elza não sabia o que responder. Sentia medo. Será que aquele homem estava mesmo arrependido.
    A sra sabe, sou viúvo, sou bem de vida, posso cuidar da Sra.
    ---Não, por favor, me deixa em paz, eu sou casada.
---- A sra é largada, seu marido não volta.
     Dona Elza sentiu vergonha, aquela palavra largada pesava muito.Ela não era largada, ela tinha colocado o canalha do marido dela na rua.
     ---Eu sei o que sou, não preciso de homem para viver.---Disse levantando nervosa.
     ---a Sra não entendeu, eu to dizendo que quero a Sra para ser minha mulher, ir morar na minha casa, ser dona de tudo que é meu.
     ---O sr é que não entendeu, eu não quero nada com o Sr. O sr não sabe o mal que me fez.---disse lembrando da humilhação que ele a fez passar.
     -----Peço perdão, a Sra, mas o que fiz foi uma força maior, afinal a Sra tem que entender que eu sou homem, não consigo me conter perto de uma mulher bonita feito a Sra e ainda por cima sosinha, esta precisando de um companheiro tanto quanto eu de uma companheira.---Disse aproximando tentando segurar dona Elza pelo braço.
      ---Por favor, o Sr não se aproxime.
      ---É larga ela agora mesmo.---disse uma voz de homem vindo da porta da sala que se encontrava aberta.
      Era o Sr Joaquim Dantas pai de Eliza que vinha acompanhando dona Ruth da igreja.
      Sr. Sebastião levou um susto, quando se virou e deparou com aquele hoem com uma faca enorme na mão.
       Dona Elza caiu sentada em uma cadeira e dona Ruth correu a abraçar a filha.
       Sr> Sebastião viu o brilho da faca. Pegou o chapéu e disse.
       ---Eu só vim pedir a ela para se casar comigo.
       ---A força?---Perguntou Sr Joaquim, guardando a faca na algibeira.
       ---Ela não quer, o Sr não sabe quando uma mulher não quer uma coisa?
       ---E que às vezes elas dizem não, querendo dizer sim.
       ---Ai o Sr avança.___Perguntou dona Ruth em tom de desafio.
        ---Sou homem.
       ---Não o Sr é um verme.---Disse dona Elza brava.---E, por favor, vai se embora.
       ---Eu vou, mas continuo com meu pedido de casamento, a Sra mudando d idéia é só me procurar.--Disse indo embora como se fosse realmente um homem que sabia o que queria.
        Quando ele fechou o portão do jardim e pegou o cavalo para ir embora dona Elza sentiu –se melhor.
        ---Este homem é doido!—Disse sr Joaquim.
        Elas até esqueceram que era a primeira vez que o pai de Eliza ia na casa delas.Era um homem muito prestativo, mas nunca tinha pisado em sua sala. Ele tinha acompanhado dona Ruth. Disse que precisava conversar com as duas.
      Como sempre Cirilo era o primeiro a entrar na gruta, e Leninha sempre temerosa tinha medo dos morcegos, vez ou outra se escutava o barulho de um.
     ---Acho melhor sair daqui.
     ---Não precisa ter medo.—Disse Tarzan.
      ---É que esta tão escuro, quem falou que ia trazer lanterna?
      ---Eu.---Respondeu Daniel entrando com uma na mão dando uma boa claridade lá dentro.
     ---Quem tinha coragem atravessava os sete salões e caia na água para se lavar. Delicia quis ir, mas Leninha beliscou na menina dizendo baixinho que aquilo era coisa só de homem, porque podiam nadar a vontade.
    ---Nos também podemos.---Disse Delicia.—Quem disse que só os meninos podem se divertir.
    ---É mesmo!—Disse Lili.---Se você tiver mesmo coragem eu vou com você, sou doida pra fazer isso.
    ---Então eu também vou.---Disse Leninha, desamarrando o chapéu e entrando no segundo salão agarrada a mão de Lili e Delicia. Wanda não podia ir estava de vestido, mas também não tinha muita coragem.
     Quando elas saíram pelo buraco final, os meninos levaram o maior susto ao veles, estavam todas sujas parecendo que tinham passado carvão na cara.
     O riso foi geral, até Tarzan já limpo não aquentou e riu e deu parabéns pela coragem das meninas.
     Eliza toda aprumada estava sentada na sombra, nem mesmo no primeiro salão se atreveu a ir.
      Leninha, Delicia e Lili correram a se lavar naquela água gelada da pedreira, mas, que foi refrescante foi.O tempo estava um pouco frio, mas, o sol brilhava no céu, e só com um pouco de balanço num instante estavam todos limpos e secos, elas enfiaram na água de roupa e tudo não havia outro jeito.
    Daniel chamou todos para comerem, afinal a fome apertou, muitos acharam uma grama limpa para tirarem um cochilo, Eliza deitou no colo de Daniel e este acariciava seus cabelos.
      Pedro e Izabel cuidaram de ficar atraz de uma pedra para trocarem beijos.Delicia. Leonardo, Cirilo e lili conversavam animados sobre filmes que já haviam vistos.
     Tarzan chamou Leninha para uma sombra pegando uma sacola que tinha trazido com frutas, ofereceu laranja, e banana a todos.Mas. Reservado uma fruta lá no fundo que era para Leninha.
    Ele sentou ao lado dela e mandou abrir a sacola. Ela supercuriosa abriu logo.Seus olhos brilharam estava linda com duas rosas no rosto feitas pelo calor do sol.
    ---Você lembrou?
    ---E eu ia esquecer?---Ele havia prometido a ela que a primeira fruta d cacau que desse no pé que ele plantou traria para comer junto com ela. Promessa feita há muito tempo, quando um dia ela foi à fazenda e viu um pe de fruta diferente, ele explicou a ela que era cacau e era com aquilo que se fazia chocolate.
     ---Como se come?----Perguntou Leninha cheirando a fruta. Ele sentado de frente pra ela.Ele ainda estava com a camisa amarrada na cintura. Ela sem o chapéu com os cabelos balançando ao vento.
    ---Assim, olha.---Abriu a fruta e tirou um gomo colocando na boca de Leninha.
    ---Gostoso!
    ---Quem?Eu ou a fruta.---Brincou Tarzan.
    ---Os dois.---Respondeu Leninha sem pensar.
    A boca de Leninha ficou toda lambuzada pela fruta, ela ia passar a mão. Quando Tarzan chegou bem de mansinho perto dela e encostou a boca bem perto da dela dando uma pequena lambidinha quase na boca dela. Leninha sentiu u super arrepio com aquele contato que pareceu ate ter descido uma água em sua calcinha.---Pensou logo:” Será que eu fiz chichi”.
    Foi uma coisa tão  gostosa o contato da língua dele em seu rosto que ela corou mais ainda.Ele olhou os olhos dela e disse:
   ---Essa fruta é das boas. Quando amadurecer mais te levo para comer no pé.
   ---Ai não vai sobrar nada pra fazer chocolate.
   ---Só um pé não vai dar mesmo.
   ---Porque não planta mais.
   ---Um dia vou ter uma fazenda só de cacau. Ai você vai me ajudar a plantar.
    Ela gostou da proposta, não respondeu nada, Ele ajudou ela comer os últimos caroços da fruta porque não podiam assanhar os outros, só tinha uma fruta.
    Leninha já se sentia uma quase verdadeira namorada. “Porque ele não aproveitou e me beijou de verdade”.---Pensava enquanto levantava para se juntarem ao grupo. Leonardo observava os dois um pouco tristonho.
    ----Porque você não namora Lili?---Perguntou Cirilo vendo os olhares que a menina dava para o amigo.
    ----Porque eu ainda estou esperando a Leninha.---Disse com coragem.
    ---Ao que parece Leninha já tem dono.
    ---Que nada! Eu espero ela ver que ele é velho pra ela.
    ---Nem tanto, olha como ele parece criança.
    Tarzan brincava com as meninas de pegador. 
    
         
     
XLIV

                                

                           Se não fosse pelo susto de dona Elza, o domingo teria sido perfeito. Elas estranharam foi o pedido do Sr. Joaquim Dantas. Ele pediu a elas para comprarem alguns presentes para o bebe que dona Clara disse ter achado, apesar de se um homem caridoso e já havia dado provas disso, era estranho ele se importar com aquele bebe. Deixou dinheiro para dona Elza trazer roupinhas e o que fosse de mais necessidade para um bebe de dois meses.Dona Clara tinha anunciado o achado só havia uma semana esperou Lindalva se refazer na aparência, já estava tudo normal ela voltou a ser uma menina que podia andar pela cidade, só que o olhar era bem triste.
     ---Promete que não vai sumir.---Pediu Leninha ao se despedir de Tarzan na pracinha da igreja.
     ---Promessa feita.---Repondeu ele dando um beijo em sua testa e dando ate logo para todos. Precisava ir embora ainda tinha coisas a fazer na fazenda.
     Eram três horas, o domingo foi ótimo, cada um foi pra sua casa estavam juntos desde as seis horas da manhã. Leninha, Lili  e Delicia iriam descansar um pouco ainda tinham que ir a missa e tomar conta dos bebes.
    Dona Clara foi a missa com o netinho que ela tinha adotado como filho. Deixou o bebe no berçário e Lindalva ficou com as meninas para ajudar tomar conta.
    ---Que gracinha! ---Disse Lili ao pegar o menino no colo.---È tão pequeno.
    ---Só tem dois meses, é muito delicado.—Disse Lindalva com carinho.
    ---Que mãe teve coragem de jogar fora uma criaturinha tão linda!---Disse Wanda.
    ---È melhor não falarem nisso. Depois a mãe aparece e a mamãe não vai devolver.—Pediu Lindalva mudando de assunto.
    ---E você Lindalva sarou mesmo?---Perguntou Leninha.
    ---Eu não estava doente.
    ---Porque então sumiu das aulas?
    ---Não estava com vontade de estudar, precisava ajudar meu avô colher milho.
    ---Agora você vai voltar pra escola?
    ---Só no ano que vem, porque esse ano eu já perdi mesmo, mas gente cadê a Sonia.---perguntou para mudarem de assunto.
    ---A Sonia ta mal.—Respondeu Leninha com os olhos cheios de água, enquanto balançava um bebe que fazia beicinho querendo a mãe.
     ---Mal?
     ---È ela esta de cama de novo.
     ---Afinal que doença ela tem que só ataca de vez enquando?
     ---Não sei, a gente pergunta, mas ninguém diz nada.---Disse Wanda.
     ---Temos que rezar por ela.
     ---Me desculpa Comadre.---Disse dona Antonia rindo depois que dona Elza ter lhe contado da cena ocorrida pela manha em sua casa.---Mas que é uma tragédia engraçada.
     ----Engraçada e triste, passei um aperto quando vi o sr Joaquim com aquele facão nas mãos.
     Cirilo de dentro do quarto ouvia a mãe contar para a comadre.
      ---Ele é um homem corajoso.
      ---Corajoso demais enfrentar um homão daquele porte do Sr Sebastião. ---Cirilo prestava atenção no que a mãe dizia.---Mas seria bem feito se ele tivesse tomado uma facada.Só que o Sr. Joaquim com certeza não é homem de matar ninguém. Imagina o coração dele mandando eu comprar coisinhas de bebe para dona Clara. E olha que ele me deu bastante dinheiro.
     ---Falando nisso deixa eu ir embora, você precisa descansar, amanhã viaja cedo.
     ---Não se preocupe eu não estou cansada, estou até feliz, vou me aposentar, com uns atrasados que vou receber vou acabar com o resto de minhas dividas..
     ---E ficar sem nada!---Disse a comadre com a mão na cara sentada na mesa da cozinha.
     ---Pelo menos com a consciência tranqüila.
     ----Pensou por um momento em aceitar a proposta de casamento do homem.
     ---Ficou doida comadre!---Disse irritada dona Elza.
     ---Não comadre, só quis brincar.
     ---Não brinque com essas coisas, eu odeio aquele homem.
      Leninha chegou da igreja com cara de sono, cumprimentou dona Antonia, e reclamou que queria viajar com a mãe, esta explicou a filha que não iria passear e só iria cansar pois iria em muitas repartições para assinar papeis.
    Ela entendeu e disse a mãe que iria passar a tarde na casa de Sônia. A mãe só recomendou para ela não ficar muito tempo cansando a Sônia.
  ---Não acredito!---Dizia Sônia depois que Leninha contou sobre a lambida de Tarzan.---Ele te deu uma lambida no rosto e não te beijou a boca?
  Sônia esquentou tanto com o assunto que até sentou na cama.
  ---È maia foi tão gostoso. Só fiquei preocupada com o que senti.
 ---Conta, conta.—Pedia eufórica.
 ---Parecia que senti um molhado na minha calcinha, mas só que depois olhei, cheirei, mas não era chichi, parecia mais um óleo.
 Sônia não se conteve, caiu na gargalhada, nem parecia a menina doente de antes.
 ---Você ficou é com tezão.
 ---Tezão?
 ---È sua boba, isso é tezão, é o que sinto quando brinco de namorar a Eliza.
 ---Não tem graça você sentir isso por mulher!
 ---Mas, sinto ué, o que posso fazer? Nunca tive oportunidade de beijar e abraçar um garoto, então beijo ela, aperto ela, ela é tão gostosa, tão macia, você deveria experimentar sem medo.
  ----Eu não gosto, não me sinto bem.
  ---Então beija o seu Tarzan, pelo que você disse sentir deve ser um tezão.
  ---Tezão é amor?
  ---Deve ser, porque é tão bom.
  ---O pior é que dá formigamento, dá vontade de colocar a mão.
  ---Então coloca, ué.
  ---Mamãe disse que se a gente ficar mexendo na, você sabe no que, a gente não casa.
  ---Você quer dizer na perereca.Se ela ta coçando a gente tem que coçar.
  ---Você é doida.
  ---E você é boba. Nem parece que já esta quase uma moça. A sua mãe deve estar é com medo de você se perder, mas uma cocadinha não faz ninguém se perder.Um dia, hoje não, não quero te passar doença, deixa eu deitar encima de você, você vai sentir seu coração pulsar tão forte que nunca vai querer se soltar de min.
  ---Eu já vi você fazendo isso com Lili e Wanda.
  ---Eu sei, você não se junta direito a nos e só fica olhando de banda, não sabe o que ta perdendo.---Disse enfiando a mão dentro da calcinha e tirando os dedos molhados de lá.---Vê só de falar nisso como eu fico.—E você não sente nada? Era tão bom quando você me deixava te tocar um pouco, agora só pensa em Tarzan, Tarzan.Faz com ele então.
  ---Ele é homem, só posso fazer quando casar com ele.
  ---Então enquanto não casa faz com a gente uè.
  Leninha deu uma risadinha sem graça.---“ trocar um carinho de Tarzan por um bando de meninas sem vergonha”.Pensou e disse que ia na cozinha ver se dona Neném tinha acabado de fazer os pães de queijo que estava fazendo.



XLV
     
   
      
   Leonardo foi buscar Cirilo para jogarem bola na pracinha da igreja. Ele ficou batutando a cabeça depois que Cirilo contou sobre o Sr. Dantas.
  ___então me diga, o que o Sr. Joaquim Dantas tem a ver com o bebe de Lindalva?---Perguntava Leonardo.
  ----Fale baixo Leo.Todos acham que o neném foi achado.
  ---Eu sei, mas mesmo assim o que ele tem a ver.
  ---Também não sei, mas quem sabe ele ficou sabendo do que aconteceu e sentiu na obrigação de proteger, afinal Raul era seu genro.
  ----Neste mato tem coelho. Vamos descobrir.
  ---È melhor deixarmos para a policia.---Disse Cirilo.
  ---Você sabe que a policia não faz nada.Mesmo descobrindo, ela não leva ninguém pra cadeia.
  ---Não tem importância, só a gente descobrindo já ta bom.
  Pedro conversou mais uma vez com Izabel sobre sua decisão de ir embora arranjar q vida e depois buscar ela.A menina não concordava, mas por fim também achou que seria bom para o futuro dela.
   ---Também posso trabalhar dando aulas particulares e posso fazer faculdade.----Dizia Izabel.
   ---Pois é.---Respondia Pedro dando-lhe um beijo com carinho, a gente luta juntos e consegue um futuro melhor, porque aqui o Maximo que vou conseguir é ser um político e isto sinceramente não esta nos meus planos.
  ---Não sei se vou aquentar ficar longe de você.---Dizia fazendo beicinho.
  ----Não vou demorar, eu prometo arrumar emprego, lugar de morar e vir te buscar.
  ----Você tem que cuidar primeiro de sua mãe.
  ---Eu sei, mas, a mamãe vai ter a pensão dela, ela é nova, tenho certeza que vai fazer alguma coisa pra ganhar dinheiro. Na capital é mais fácil, ela sem dividas fica bem melhor.
  ---E você acha que ela vai querer ir.
  ---Vou convencê-la, afinal aonde vamos morar aqui.A casa esta vendida. Não temos dinheiro pra comprar outra.Se temos que arrumar uma outra casa pra morar o melhor é que seja em algum lugar que possamos ter futuro, Cirilo e Leninha são inteligentes já estão crescendo, precisam de uma chance.
    Izabel abraçou Pedro com carinho.
    ----Eu vou confiar no seu amor e te esperar.
    Pedro abraçou a menina. Sentia muita força para prosseguir tendo alguém que o amava tanto.
   Dona Elza trouxe presentes para todos da cidade. Tinha recebido pagamento e com estava pra sair algumas gratificações da aposentadoria se deu no luxo de comprar umas coisinhas pra cada um.Cirilo ganhou um sapato novo e uma caixa de bombom. Leninha dois prendedores de cabelos e uma blusa linda, também uma caixa de bombom.Pedro ganhou duas camisas de manga comprida para o serviço e dona Ruth um sapato para ir a missa.
   Leninha abriu correndo a caixa de bombom e ofereceu a todos menos para Cirilo que também tinha ganhado e tratou logo de esconder para não dar ninguém.
   ----Me da um Leninha.
   ----
   Ué, seu folgado e a sua caixa porque você não come dos seus.
   ---Quando eu abrir eu dou um pra cada um igual a você.
   ---Ta bom, mas eu escolho qual eu quero.
  ----Ta legal.
  Ele tirou um sonho de valsa.
  Por muito que Dona Ruth e dona Elza resmungaram, acabaram concordando com a ida de Pedro para a capital. Não tinha jeito mesmo, continuar morando ali não tinha futuro. Ela ia dar um pouco de dinheiro para a passagem e ele iria levar o que tinha acertado na prefeitura. O prefeito deu uma carta de recomendação para qualquer um que quisesse lhe empregar, dizendo que ele era um rapaz de caráter e trabalhador.
   ----Ele com poucos meses de emprego junto ao prefeito aprendeu muito, tinha o segundo grau e queria fazer uma faculdade de administração ou contábil.
   O dia que Pedro pegou o ônibus para ir embora foi um dia cheio de lagrimas.
   Já era final de agosto quando ele foi embora.
   Dona Elza procurou uma casa pequena para mudarem, pois já estava quase vencendo o prazo que o primo lhe dera e ela não ia ficar morando lá até o dia certo, pois já tinha abusado até demais.
    Foram morar perto da escola. Alugaram uma casa com dois quartos. Cirilo e Leninha dormiriam com a mãe, pois dona Ruth precisava ter um quarto sozinha, tinha suas manias.
   ---Não sei porque a vovó tem que dormir sozinha e nos três aqui apertados.---Resmungou Leninha.
   ---Você sabe sim, fica é fazendo charminho.---Dizia Cirilo.
   ---è porque ela ronca muito.
   ---è mamãe disse que ela tem umas manias, gosta de fumar cachimbo antes de dormir.
   ---Eu sei aquele cachimbo fedorento.
   ---Então porque ainda ta resmungando
   ---Mas que ela é folgada é.
   ----Ela tem direito né Leninha, trabalhou muito e cuida de nos ate hoje.
   ----Eu si, eu sei.---Falava bravo Leninha.
   “Aniversário! Falta pouco já vou fazer onze anos!” Pensava Leninha olhando no espelho. Tinha começado a usar soutien com blusas mais apertadas, pois os seios já estavam formados ou quase.
   Marcelo tinha dado noticias, estava na Itália, estava de férias e tinha ido visitar primeiro os pais, em dezembro seria sua ordenação para padre iria mandar convites a todos.
   Como o tempo muda as pessoas, ele tinha mandado estas palavras dentro de uma carta que escrevera para o padre Mário. Talvez ele nem queria ficar e nem deixar as pessoas sofrendo de saudades, também ele iria ser padre não podia ficar com muito sentimentalismo.
    Izabel toda tarde chamava Leninha para sentarem no banco da praça para esperarem cartas que chegavam no ônibus das seis horas.Tinham dado sorte naquele dia já era a terceira carta que ele escrevia dede que fora.
   Escrevia sempre para a mãe e Izabel.
   Nesta ultima carta a noticia era ótima estava fazendo um curso técnico de aperfeiçoamento a noite e trabalhava como auxiliar de contabilidade em uma fabrica de colchão. O chefe gostava muito dele e dizia que quando ele acabasse o curso que duraria três meses lhe daria um cargo melhor.Talvez até como o de chefe de escritório já que o que era chefe estava prestes a se aposentar.
    Dona Elza ao ler a carta não soube como agradecer a Deus. Também Pedro merecia aquilo tudo era um rapaz brilhante tinha um bom currículo.
  ----Vamos ficar ricos, mamãe?---Perguntou Leninha. Depois que a mãe leu as noticias.
   ----Ao que parece Pedro vai realizar o sonho dele.
   --- A sra não respondeu.
   ----Talvez filha, a vida da gente melhore um pouco, só que não podemos aproveitar do Pedro, esqueceu que ele só pensa em  conseguir as coisas para casar com Izabel.
  ---Mas, mamãe a sra não pode ficar dizendo isto, coitado ele disse que vai dar uma casa pra nos.
  ----Eu não posso cobrar isso dele.Sabe Leninha o que temos a fazer e também abrir nossos caminhos.
  ---E ir atrás dele?
  ---Não sei filha eu tenho medo, não sei se a mamãe se habituaria a morar em uma cidade diferente. E você, você gostaria de mudar daqui?
   Leninha encheu os olhos d’água, lembrou de Tarzan, das meninas...
   ----Não sei mamãe, mas se fosse pra gente ficar rico.
   Dona Ruth e Cirilo escutavam calados.
   ----Eu gostaria de ir mamãe, também preciso de uma chance. A gente vem sempre aqui nas férias.—Disse Cirilo entrando no assunto.
  ---E eu. Claro que vou com vocês.---Disse dona Ruth.
  Mudar de cidade, largar tudo, também não tinham tudo para largar. Dona Elza vendeu muita coisa quando mudou, pois não dava para levar quase nada, e como eles poderia passar o resto da vida dentro de três cômodos. Era muito humilhante, uma mulher que lutou a vida toda para ter as coisas, ter que desfazer de tudo para cobrir dividas de um safado que um dia fora seu marido.
  
   

XLVI

 

       Leninha sentou na porta da igreja, ficou olhando a pedreira.
       “O que ia doer era ficar longe de Tarzan, e se ele esquecesse dela, e se ele pedisse para ela ficar e casar com ele. Não, isso era impossível agora, não tinha idade para casar e queria muito conhecer outros lugares, sonhava muito em ficar rica, se casasse com ele ia ficar rica, mas ela queria ser alguém antes de disso, queria ser medica”. Pensava Leninha olhando para frente.
   A porta da igreja estava encostada, resolveu entrar, só tinha uma pessoa sentada bem na frente. Era Vandinho.
  “Ué Vandinho em uma igreja, então ele sarou mesmo”.
    Vandinho olhou para trás, viu Leninha, ela teve vontade de dar um passo para trás, mas não recuou por um impulso foi e sentou ao lado do rapaz.
    Ajoelhou fez o nome do pai, tudo observado por ele.
    Depois que ela sentou ele procurou pegar suas mãos e disse baixinho.
    ----Você vai conseguir, você é forte, é lutadora, não tenha medo de nada, haverá muitos tropeços, mas você vai conseguir, o rapaz que você ama é seu, passará muitos anos, mas você e ele são um só.
   Leninha não conseguia soltar a mão dela da de Vandinho. Ele acabou de falar, fez o nome do pai e saiu da igreja.
    A menina sentiu o corpo todo queimar, como ele podia saber tudo aquilo, como ele conseguiu falar se a língua dele era presa desde que ficou doente?
   Fez o nome do pai, rezou e pediu proteção a nosso senhor e se aquilo era obra de alguém do outro mundo que Deus lhe desse alguma explicação.
   Chegando em casa contou a mãe que Vandinho estava na igreja e mais uma vez sua mãe lhe disse que ela devia ter sonhado, pois Vandinho ainda continuava cheio de problemas.
   Ela só não contou a mãe o que o rapaz tinha dito. Também pra que? Ela não iria acreditar mesmo.
  O ano apesar de tudo passou normal, foram poucos o que tiveram repetência. Leninha e Cirilo sempre passavam com notas boas. Sônia estava recebendo aulas em casa, dona Elza foi autorizada a fazer um acompanhamento escolar e ela fez as provas finais tendo bons resultados. Só que a fraqueza da menina era vista a olhos. Ela emagreceu muito e quase não saia de casa. Estava sempre tomando remédio e os braços quase não tinha espaço entre uma agulhada e outra.
   Leninha não teria festa de aniversario, ela não quis, disse que naquela casa não tinha espaço para muita coisa.Tarzan mais uma vez estava naquelas viagens de meses para levar gado de uma cidade a outra.
  A madrinha Santa ofereceu um almoço para ela e a família, ela não admitia que a afilhada tivesse um dia de aniversario sem comemoração.
  Pedro escreveu uma carta mandando mil beijos e dizendo que se Deus quisesse no próximo aniversario dela eles estariam juntos em uma casa grande e bonita.
  Passado uma semana de seu aniversario Leninha ganhou um presente.”Ficou moça”.
  Levou um susto ao chegar no banheiro e ver a calcinha suja de um sangue meio preto.
  Teve medo.”Oh! Meu Deus! Que será que aconteceu, eu me machuquei! Não!...”
  ---Mamãe!---Gritou alto pela mãe.
  Dona Elza cuidava de preparar o almoço quando escutou o grito da filha.
  Ela abriu a porta do banheiro que ficava na porta da cozinha e entregou a calcinha para a mãe.
  Dona Elza já esperava por aquilo.
  Pediu Leninha para sair do banheiro esquentou água e mandou ela sentar para lavar com água morna.
  Explicou para a filha que aquilo não era machucado e que ela já devia ter ouvido colegas falarem, ele agora era moça, e que todo mês ficaria com sangue por três ou cinco dias, não precisava ter medo só que teria que tomar cuidado com as roupas para não vazar.
   Foi na farmácia comprou um pacote de modess daqueles cor de rosa na embalagem, ensinou a ela como usar.
   Leninha mais ou menos já tinha ouvido falar sobre este sangue menstrual, mas não gostou nem um pouco da sensação de andar com um pequeno travesseiro entre as pernas e ainda por cima tinha que lavar umas quatro vezes ao dia, pois o cheiro não era muito engraçado.
   ---Nossa Leninha, eu queria ser você.---Disse Sônia logo que soube da novidade.
   ---Credo! Você nem imagina como é ruim, ontem quando desceu foi só um pouquinho, hoje já esta um pouco mais.
   ---Eu sou quase dois anos mais velha que você e nem peito ainda tenho.---Disse Sônia um pouco triste.
   ---Calma Sônia, mamãe me levou hoje de manhã lá na farmácia e o sr João disse que algumas meninas ficam moças mais cedo e outras ate quinze ou dezesseis anos, mas é normal.
  ---Que mais ele disse.
  ---Que talvez mês que vem nem venha, mas é normal porque veio muito cedo pra mim. Mas a mamãe disse que também ela ficou cedo e que vinha normal ate o dia que ela precisou operar.
   ---E dor, dói mesmo?A Eliza disse morrer de cólicas.
   ---Não eu não senti dor, só um pouco de febre ontem, mas o sr João disse que qualquer coisa é só tomar umas gotinhas de novalgina.

XLVII

    Leonardo levou um tremendo susto ao vir vindo da cidade e dar de cara com o sr. Dantas, achou estranho parecia que ele estava saindo do meio dos milhos da fazenda de Lindalva. Fingiu não ver e continuou firme no caminho.
  Comentou com Cirilo e este disse que iria ficar de olho nele. 
  Domingo dona Elza chamou Cirilo e Leninha para irem passear na fazenda do primo Antonio.
   Os pés de Leninha saíram do chão ela correu para o quarto colocou o vestido que Tarzan tinha dado o pano pra fazer.
   A diferença em seu corpo era visível, estava da altura de sua mãe, se sentia livre uma verdadeira moça. Não colocou o chapéu de chapeuzinho vermelho, Pegou uma sombrinha e deixou os cabelo soltos ao vento.”Tomara que Tarzan já tenha voltado”.Pensava.
    Cirilo também tinha crescido bastante estava mais alto que a mãe, de vez em quando a voz saia grossa outras vezes fina.
  Dona Ruth não podia ir quase não conseguia corona dia de domingo e ela não aquentava a caminhada de quase duas horas.
   A primeira coisa que Leninha procurou com os olhos foi Tarzan, mas ao que parecia ele não estava. A mãe dele incistiu e eles tiveram que almoçar de novo, já tinham almoçado antes de irem, almoçaram cedo. Mas Cirilo bem que gostou tinha costelinha de porco a carne que ele mais gostava.
  ---E Tarzan que não desce para almoçar.---Disse a prima.
  ---Tarzan esta aqui?---Perguntou leninha um pouco mais feliz, mas sem demonstrar muito interesse, sabia que sua mãe não ia gostar de tanto assanhamento.
  ---Ele chegou ontem e já foi cedo lá pra cima.---Apontou com o dedo pela janela.---Ele esta acabando de fazer a caixa d’ água, sozinho deve estar com fome.Disse que ia acabar cedo que ia na matine.
   “Nossa se eu soubesse que ele iria na cidade nem precisava ter vindo aqui.”—Pensou Leninha.
   ---Se a sra quiser eu vou chamar ele,.—Prontificou Cirilo.
   ---Não é melhor levar a comida dele, vai ver ele nem quer vir almoçar pra acabar o serviço rápido pra ir pra cidade.
  ---Se a mamãe deixar eu levo a comida dele.—Prontificou também Leninha.
  ---Vão os dois.___Disse dona Elza sabendo do interesse da filha.
  ---Quando lá chegaram Tarzan se assustou.
  ---Eu ia a cidade ver vocês e vocês estão aqui, que bom!
  Estava quase acabando de colocar os encanamentos na caixa que já estava pronta.
  ---Você fez isso tudo sozinho?—perguntou Cirilo.
  ---Ficou uma beleza, não ficou? ---Dizia orgulhoso.
  ---Sai daí de dentro e venha comer, trouxemos comida pra você.—Disse Leninha.
  Tarzan saiu da caixa que tinha uns dois metros de altura por uns quatro de largura.
  Chegou perto de Leninha, olhou nos olhos da menina que faltava pouco pra ficar do seu tamanho e Cirilo já estava mais alto que ele. Deu um sorriso lindo pra Leninha que abaixou os olhos um pouco tímida.
  ---Você esta mais alta do que a ultima vez que te vi, desse jeito vai acabar mais alta que eu.---Brincou.
  Sentou em uma sombra e foi comer, estava realmente com fome, bebeu o refresco de uva que a mãe tinha mandado.
   Só vou ligar a água para ver se deu certo e vamos descer, se vocês quiserem podem ir na frente eu desço rápido, aqui o sol esta muito quente.
   ---Eu te espero aqui na sombra.---Disse Leninha.
   ---Eu vou descer o primo Antonio disse que eu posso andar de cavalos, vou aproveitar um pouco que a mamãe agorinha vai querer ir embora.---Disse Cirilo.
    ---Você vai pra matine mesmo.---Perguntou Leninha.
    ---Agora acho que não preciso ir, você já esta aqui.Eu levo vocês de noitinha no jipe de papai, vocês vão ficar é comigo, aqui temos mais coisas pra fazer, domingo que vem a gente vai pra matine.
   ---Você não vai viajar mais?---Perguntou curiosa Leninha.
   ---Porinquanto não.
   ---Ta bom então eu vou descendo, vou levar as vasilhas.
   Tarzan ligou a bomba d’água que fez um barulho de água entornando. Leninha olhou a água enchendo a caixa e ficou de boca aberta.
   ---Vai ter água nas torneiras agora?---Perguntou feliz.
   ---E no chuveiro também.
   ---Água quentinha? 
   ---È.
   Tarzan olhava Leninha parecendo que a via pela primeira vez, fez um carinho nela levantando os cabelos dela pela nuca.Ela sentiu um arrepio.
        ---Sua mãe ta pensando em mudar mesmo?---Perguntou com o semblante um pouco triste. Estavam sozinhos a uma boa distancia da fazenda num alto do morro rodeado de arvores e grama.
     ---Ao que parece, Pedro arrumou um bom emprego e disse que vai levar a gente.
     ---Você quer ir?---Perguntou Tarzan olhando nos olhos de Leninha< estava sem camisa o torso suado e de short feito de calça jeans cortada, estava descalço.
     ---Não sei.---Disse Leninha parecendo triste ao lembrar que indo embora pouco ia ver Tarzan.
     ___Também não é certo de irem, né?
     ---Não sei Tarzan, mas se for pro nosso bem, se for pra gente não ter mais dificuldades.
     ---Mas não ta tudo resolvido.Já não ta paga as dividas daquele seu pai miserável?
     ---Mas e o futuro Tarzan o futuro.
     ---O futuro é você casar comigo.
     Leninha não se conteve sorriu. Um sorriso lindo de moça, uma verdadeira moça.
       Tarzan sentiu uma firmeza to grande ao dizer aquilo e ver o sorriso dela que seus olhos encheram de lagrimas, o sol queimava seus rostos. A água enchia a caixa e seus lábios se aproximavam.Leninha ao sentir a boca de Tarzan com cheiro de suco de uva se aproximando foi tirando o sorriso. Esperou tanto por aquela boca e não soube qual reação tomar. Ficou quietinha Tarzan encostou a boca quente nos pequenos lábios de Leninha e ao sentir o gosto ela entreabriu os lábios e teve uma sensação gostosa do contato dele suave beijando-a de levinho como se beijasse um bebe.
  Ele a abraçou tão carinhoso, o cheiro do seu suor era forte, mas era um cheiro bom que Leninha não teve nojo, sentia que aquele era o cheiro de amor do amor que ela sentia por Tarzan.
   “Estamos namorando de verdade”.---pensou Leninha quando se sentiu beijada.
     Tarzan soltou Leninha devagar como se lembrasse que tinha que respeitar porque ela ainda era uma criança, mas mesmo sem saber bem ele sabia que pelos modos, Leninha não era mais uma Menina.
   ----Tenho um presente pra você. Disse brincando com seus dedos entrelaçados aos de leninha.
   ---Presente?---Perguntou Leninha surpresa.
   ----Esqueceu que nem fui no seu aniversario?
   Leninha balançou a cabeça, estava tímida.
   ---Eu não esqueci, deixa a caixa enchendo que vamos descer e eu vou te dar o presente.
   Ela levantou os olhos devagar e procurou um beijo, ele entendeu a entrega de sua boca e correspondeu carinhosamente.
   Dona Ruth estava deitada em sua cama rezando o terço, olhava de um lado para o outro. Sentia saudades da antiga casa. Da horta, os olhos enchiam de lagrimas, pedia força a Deus. Depois de velha e o tanto que trabalhou acabar assim em um barracão de três cômodos e ainda por cima alugado.”Meu Deus abençoa que minha filha e netos possam recuperar tudo que já tiveram” Estava tão distraída em suas orações que custou a ouvir as palmas que vinha da porta.
    ---O de casa.
    ---Já vou.---Respondeu calçando os chinelos para abrir a porta.
    ----Boa tarde dona Ruth.Desculpe vir incomodar assim no domingo.---Era dona Clara mãe de Lindalva.
   ----Que isso! Que nada! Entre.Que bom ter chegado alguém, estou sozinha, entre.
   ----Dona Clara entrou cuidando de fechar a porta da sala que dava direto pra rua.
   ----Cadê todo mundo?
   ---Ellza foi passear com os meninos na fazenda do primo Antonio.
   ---E porque a sra não foi?
   ----Não aquento a caminhada. Mas o que devo a visita, a sra quase nçao é de sair.
   ---Vim me despedir.
   ----Despedir?
   ----È dona Ruth, devo muito favor a sra que sempre foi fiel a minha confiança. Acho que só a sra e sua filha sabem da minha agonia.
   Dona Ruth ficou assustada.
   ----O que a sra pretende fazer?---Dona Ruth convidou dona Clara para sentar e pegou o bule de café feito a pouco servindo a visita.
   ---Nos vamos embora. Não podemos mais morar aqui. Se continuarmos aqui meu marido vai acabar fazendo uma tragédia.----Dona Ruth sentou perto de dona Clara e começou a tomar um gole de café, sabia que precisava ouvir.---Aquele homem que engravidou minha filha vai acabar engravidando ela de novo. Ele não da sossego.
    ----Mas eu não to entendendo, a sra não me disse que o filho era de Raul e que já estava tudo resolvido.
   ----Eu menti, pensei que depois de tudo, teríamos sossego, mas não o homem continua atrás de Lindalva.
  ---Por favor, me conta essa historia direito.
  ---Pois bem, minha filha se encantou com os presentes do sr Joaquim Dantas.---Dona Ruth engoliu quase engasgando ao ouvir o nome do pai de Eliza.---Ele passava sempre pelo nosso sitio.—Continuou dona Clara.---Lindalva parece que se apaixonou por ele e eu quase não dei conta disso, ela só me contou quando eu senti falta de sua menstruação, levei um choque.Raul coitado um dia passando por lá viu eles dois no meio do milharal, ameaçou contar tudo a família dele e ai o sr Joaquim Dantas não pensou duas vezes enfiou a faca nele e jogou o corpo onde a policia encontrou.
  Dona Ruth estava abismada.
  ----Porque não contaram a policia?
  ----Lindalva presenciou tudo, o sr Joaquim ameaçou dizendo que qualquer coisa que ela contasse pra nos ou pra policia iria desmentir que era pra ela falar se alguém descobrisse que o filho era de Raul. Porque se não ele falaria na policia que o pai dela tinha matado Raul.E disse que nunca mais iria aparecer, só que quando a criança nascesse ele sempre mandaria alguma coisa para ela.
  ---Entendi agora os presentes que ele mandou para seu filho, quero dizer neto.
  ---Filho, ele vai ser sempre meu filho.
  ---A sra sempre soube que era o sr Joaquim que tinha engravidado sua filha?
  ---Sim. Ela me contou, mas quem matou Raul ela só contou a semana passada quando ele voltou a lhe procurar, prometendo mundos e fundos, quer montar casa pra Lindalva na cidade. Ela teve forças pra contar pra mim. Ela tomou nojo dele, não quer ele de jeito nenhum.
  ----Meu Deus! Pensei que já tivesse visto tudo nessa minha idade.---Disse dona Ruth.
  ---Agora a sra percebe porque preciso ir embora? Meu marido é uma pessoa de bem, aquentar tudo calado. Eu não quero que ele vire um criminoso, não vou permitir, minha filha é nova vai viver muito ainda, e ainda por cima os meus filhos não sabem da tragédia, nunca perguntaram quem tinha engravidado Lindalva, tenho medo deles saberem calados, e quando crescerem buscarem vingança. Por isso vamos embora.
   ---Vão viver do que? E vão pra onde?---perguntou preocupada dona Ruth.
   ----Com o dinheiro da colheita vamos comprar uma casinha na cidade, o Emilio tem parentes lá ta tudo encaminhado, os pais de Leonardo vão comprar nosso sitio e vamos montar um armazém. Se Deus quiser vai dar tudo certo, tenho sorte de no meio desse mato ainda ter encontrado um homem compreensível feito Emilio, nunca condenou a filha, perdoou, aceitou calado, mas essas pessoas caladas são perigosas.
   ---Eu sei. Vou resar pra vocês serem felizes, tenho certeza que ainda vamos nos encontrar.
   ---Eu fiquei sabendo pela Lindalva, a Leninha disse a ela que vocês também vão embora. È verdade?
   ---Acho que ate no meio do ano que vem nos vamos.
   ---Vão mesmo. Aqui nessa terra só tem gente pra destruir nossas vidas.
   ---Depois do que eu fiquei sabendo hoje, confesso que não da pra confiar em ninguém, a Leninha vive enfiada na casa dele brincando com Eliza.
   ---As filhas dele não têm culpa d nada, tenho ate pena da Elvira, não merecia ter ficado viúva.
   ---Deus é grande, a sra é muito boa dona Branca, vou resar todos os dias por vocês.
   -----Eu agradeço. Despediu abraçando com carinho dona Ruth.
   ---Vou resar pela alma de Raul, coitado! Desejei tanto mal a ele quando fiquei sabendo da historia.
    Dona Branca não respondeu nada só abanou a cabeça e foi embora. Iriam sair cedo no outro dia estava tudo certo.
    Dona Ana abriu a torneira e ficou satisfeita de ver a água descendo com tanta força, agora teria água na pia da cozinha.
    Dona Elza ao ver a filha chegar com Tarzan parece ter notado algo de diferente nos olhos da filha, mas preferiu não dizer nada, talvez no fundo já soubesse.
   ----vamos embora Leninha?Daqui a pouco já é noite. Cadê Cirilo?---Disse dona Elza, preocupada com a volta.
   ---Cirilo foi andar de cavalo, e Tarzan disse que vai levar a gente de Jipe.
   ---Vou mesmo. E vocês só vão embora depois do café. Cirilo deve estar brincando com os filhos do meu irmão.
   ----Por falar nisso tenho que ir lá ver o Josè. Venho sempre aqui e nunca vou lá, ele sempre reclama.
   ---Isso mesmo nem parece que ele mora aqui mesmo no terreiro. Disse dona Ana.
   ---Vou tomar um banho rápido, enquanto isso vocês vão lá e a mamãe prepara um café. Não é mamãe?---Perguntou Tarzan abraçando a mãe pela cintura.
   ----Primeiro eu vou lá com ela ver o Jose, se não ele segura ela lá e eu fico aqui esperando feito boba.
    Tarzan cuidou de ir tomar banho e as três foram andar pela fazenda para visitar os outros primos.
    Leninha brincou um pouco com as meninas e nem percebeu Tarzan olhando ela igual uma criança feliz.
   Estavam brincando de roda e ele tratou logo de vir também dar as mãos para brincar, tinha muita criança por ali. Ele estava todo limpo de calça jeans e uma camisa justa enfiada na cintura estava de tênis e com o cabelo molhado e penteado. Leninha achou engraçado ele estava muito alinhado.
  Puxou ela pela mão e foram sentar na varanda grande da casa de Tarzan, dona Elza ajudava dona Ana a preparar o café e Cirilo estava agora andando de bicicleta com outro primo.
   Tarzan pegou uma caixinha pequena e entregou a Leninha.
   ----Seu presente.
   Ela abriu a pequena caixinha e ficou admirada com o brilho da correntinha que ganhou. Tarzan lhe deu uma correntinha de ouro com um pequeno camafeu de pingente. Ela correu a mostrar a todos sem esquecer de beijar Tarzan agradecendo. Deu um beijo nele rápido no rosto mesmo. Claro que ninguém podia ver ela beijando Tarzan na boca aquilo seria um segredo só deles, nem precisava ser dito ela e eles sabiam que tinham um compromisso um com o outro e só aquilo bastava.
    Dona Ruth contou pra filha o que dona Clara tinha tido e esta ficou boquiaberta. Como era difícil confiar nas pessoas de quem menos espera vem uma surpresa desse tamonho.
   Leninha desfilava pela cidade toda empinada com a correntinha no pescoço, nunca teve nada de ouro e aquilo era o Maximo, logo dada por quem.Foi passear na casa da madrinha para visitar Lili quase não tinha brincado com ela naquelas férias que já estavam quase acabando.
   ----Nossa Leninha, que linda!---Elogiou Lili mostrando a mãe.
   ----Que maravilha!---Exclamou madrinha Santa.
   ---vamos brincar?---Chamou Lili.
   ---Eu vim te ver e se a madrinha deixar a gente podia ir na casa de Sonia.
   ---Boa idéia, deixa mamãe?---pediu Lili.
   ---Pode, mas não demorem, venham almoçar aqui.
   ----Leninha adorou a idéia estava com saudades do tempero da madrinha.
   Sonia ficou super feliz de ver as meninas, já não estava mais de cama. Estava na sala lendo um livro não estava mais de cama. Estava na sala lendo um livro: Romeu e Julieta.
   ---Como eu queria morrer de amor!—Suspirou.
   ----O que Sonia/---Perguntou Lili.
   ----è igual Romeu e Julieta.
   ---Você é doida.---Disse Leninha.
   ---Vamos brincar lá no quarto?—Pediu Lili.
   Sonia topou, foram as três para o quarto.
   Dona neném gostou de ver as meninas. Sonia sempre melhorava mais quando recebia visitas.
   Lili toda assanhada correu a deitar na cama de Sonia.
   ---Vamos brincar de medico, eu vou ser a grávida.---Disse Lili.
   ---E eu o medico.---Disse Sonia.
   ---Então eu vou ser a secretaria.---Disse Leninha.
   ---Ah não!---Disse Lili.—Seja paciente também.
   ----è Leninha, você não brinca mais direito com a gente.
   Leninha torceu o nariz fingindo não entender.
   ----Todo consultório precisa de uma secretaria ué!
   ---E de uma enfermeira.---Disse Sonia.---Você vai ser a enfermeira. Você sempre gostou Leninha. Você sempre brincou assim com a gente e parecia gostar.
   ---Eu gosto Sonia, mas é que vocês exageram muito.
   ---Que nada, é tão bom.---Disse Lili.—E você Leninha já deixou a Eliza te passar a mão muitas vezes.---Falou Lili.
   ---Eu sei, mas é que agora cresci e não gosto disso mais.
   ---È Sonia, ela agora ta namorando.
   Leninha não conteve o riso, sentiu ate pena dos ciúmes das amigas.
   ----Ta bem eu brinco de enfermeira, mas não vou passar a mão em ninguém a não ser na barriga pra sentir o bebe.
   ---Ta bom!---Exclamou as duas a sorrir.
    
    
 

XLVIII
 
  

 
   Leninha aquela noite dormiu tão feliz segurando a correntinha que sonhou que brincava de medico e o medico era Tarzan, daquele sonho ela gostou, gostou tanto que ate assustou sua mãe com suas risadas altas acordando todo mundo.
   Pedro escreveu de novo.Mandou uma carta para Tarzan também.Dessa vez ele não escreveu para Izabel só mandou beijos para ela na carta de sua mãe.
  Tarzan viria no domingo para irem ao cinema, assim Leninha lhe entregaria a carta de Pedro.
  Seu Joaquim Dantas apareceu mais uma vez na casa de dona Elza. Ela levou um susto ao vê_lo batendo palmas. Queria saber noticias da família de Clara.
  Dona Elza não quis demonstrar saber de nada, apenas disse:
  ---Não sei deles eu nunca vou por aquelas bandas.
  ---È que ontem passei por lá de volta da fazenda e vi tudo quieto, um visinho disse que eles foram embora e eu fiquei interessado em comprar aquelas terras.---Explicou sr. Joaquim Dantas um pouco cabisbaixo.---Pensei que a sra pudesse saber o endereço deles, quem sabe.
   ---Infelizmente sr Joaquim eu não sei mesmo. Vou ate procurar saber o que aconteceu. Fiquei preocupada eles pareciam gente acomodadas.
   Dona Ruth serviu um café, quase sem dizer nada. Não queria demonstrar saber a verdade.
   ---Eu acho que os pais de Leonardo devem saber de alguma coisa.---Disse Cirilo ouvindo a conversa.
   Dona Ruth deu uma olhada atravessada para ele e o menino coitado não entendeu nada.
   ---È uma boa idéia.—Disse sr Joaquim levantando para ir embora.----Pois bem se vocês souberem de alguma coisa me avissem tenho interesse naquelas terras e de alguma forma posso comprar pagando mais para ajudar aquela gente.
  Quando ele foi embora dona Ruth e dona Elza se olharam com um pouco de medo nos olhos.Cirilo não entendeu muito bem pegou a bola e foi jogar na pracinha da igreja antes que sobrasse alguma coisa para ele.
    Aquela pequena cidade já estava ficando realmente muito pequena, pensava dona Elza, desde que Pedro viajou não era mais aquela coisa, ou seria por estarem morando em um lugar tão pequeno, dormindo apertado e agora sem nada para fazer estava aposentada, não podia tomar o lugar de alguém que precisava trabalhar já tinha o seu certo.Pegou a carta de Pedro e leu mais uma vez.
     “Aqui mamãe é tudo limpo, arejado, a cidade tem visa, tem muita gente pra conhecer, quase não se conhece ninguém, todos trabalham não tem tempo para ficarem de ti...ti....com a vida dos outros.” –Pulou e leu outro trecho.
      “Estou conseguindo ser feliz, mamãe não que não era feliz ai, sinto falta da comida da vovó, sei que vices virão logo, estou aguardando. Aqui na fabrica vai abrir uma creche pros funcionários deixarem as crianças enquanto trabalham, igual Leninha olha para as mulheres irem a missa, só que aqui é todos os dias de segunda a sexta e também tem que ter aula, são crianças que já estão prontas pra aprender a ler. Dei o nome da srs para lecionar aqui, expliquei para o dono da fabrica tudo o que a sra é, ele ficou muito impressionado. Vocês tem que vir o mais rápido possível, já pensou mamãe, eu chefe de escritório e a sra a diretora da creche. Teremos um vidão.
   Dona Elza lia aquela carta e sentia uma felicidade tão grande, só sentia que Pedro parecia se distanciar de Izabel mais e mais. Não disse a ela nada sobre ter recebido carta aqueles dias, sabia que ela ia ficar triste dele não ter lhe escrito.
   Não tinha muito a pensar, naquela cidade não restava mais nada a se feito. Ia organizar tudo e no final do ano com o décimo terceiro ia viajar coma mãe e os filhos para conhecerem o tal lugar abençoado, quem sabe já ficariam por lá.
   Tarzan ao ler a carta do primo sentado na mesa da cozinha de dona Elza coçou a cabeça. Mandou a prima ler aquela parte enquanto Leninha tomava banho para irem ao cinema.
    “ Tarzan, você precisa vir pra cá, aqui ta cheio de gatinhas, a gente pode namorar uma por dia, elas não são como as meninas daí que pra gente pegar na mão tem que pedir em namoro, ela já chegam abraçando a gente, é uma delicia cara!’
    Dona Elza franziu a testa.
    ---Era isso que eu desconfiava, ele esqueceu a Izabel.
    ----È disso que tenho medo, vocês irem embora e Leninha me esquecer.
    ----Mulher pensa diferente de homem.
    ----Diferente nada, a distancia faz todo mundo esquecer um do outro.
    ---Se a Leninha for firme como eu, ela nunca vai te trocar por outro.
    ----A sra diz isso por que ainda sofre por causa daquele bandido.
    ---Mais ou menos.---Disse dona Elza suspirando.---Não deixe Leninha ver essa carta, ela pode ficar triste e contar pra Izabel, ela pensa que ele vai vir casar com ela.
     ---Eu sei. Claro que não vou contar.
     ---Você é um rapaz de ouro.---Disse dando um beijo na testa do primo.
     Leninha veio toda bonita sem esquecer a correntinha.
     Tarzan segurou na mão da menina e foram para o cinema sem se esquecer de comprar pipoca e balas de hortelã.
     Leninha estava sentindo a vida muito bonita, tinha ate medo de pensar viu Izabel com algumas amigas no cinema, ela estava um pouco mais alegre do que os outros dias o filho do pastor andava por perto. Tarzan olhou e percebeu que mais cedo ou mais tarde ela esqueceria de Pedro, ao pensar nisso apertou a mão de Leninha com tanta força que quase machucou a mãozinha frágil.
   ----Desculpe, é que as vezes penso tanto no amor que sinto por você que ate dói.
    Leninha pediu para Tarzan depois do filme se ele não se importasse fosse com ela na casa de Vandinho, queria tirar uma duvida sobre a doença dele.Contou o que lhe tinha acontecido e que sua mãe não acreditava dizendo que Vandinho estava só dentro de casa e que nunca saia e nem sabia falar mais.
   ---Você não tem medo.
   ---medo eu tenho, mas preciso tirar essa duvida, e se foi sonho?
   ----È eu vou com você. Só não podemos demorar, lembre que sua mãe recomendou para não ficarmos pelos cantos se não os outros começam a falar mal de você e de min.
   ---Ninguém tem nada com nossas vidas. Não estamos fazendo nada errado. A mamãe só tem medo coitada, é porque ela cria a gente sem pai, mas que mal você poderia me faze?---Perguntou confiante olhando nos olhos de Tarzan.
   ---Que tal te beijar todinha?---Perguntou malicioso.-
   ---Ela não respondeu, apenas abaixou os olhos e sorriu timidamente.---Ate que não seria uma ma idéia.---Pensou.
   Foram à casa de Vandinho. Bateram na porta e a mãe dele veio atender. Levou um susto porque desde que aconteceu aquele problema quase ninguém vinha visitá-los.
  ---Podemos ver o Vandinho?—Pediu Leninha.
  A boa mulher disse que ele estava no quarto deitado, que podiam entrar mas não reparasse porque ele não reconhecia ninguém.
  Leninha espantou.
  ---Ele não tem saído de casa?
  ---Não, ele só fica olhando o espaço, tenho a impresão que ele nem vai viver muito mais, ele quase não come.
  ---Não pode ser, ele era ate um da minha turma na escola.Era um rapaz inteligente.—Comentou Tarzan.
   ---Pois é, agora esta assim. Graças a Deus que Não destrói mais as coisas, pois do jeito que ele estava era bem pior.
    Leninha tomou a frente do caminho onde a mãe de Vandinho disse que ele estava. Sentiu um arrepio ruim na carne, olhou para Tarzan, mas empurrou a porta do quarto de Vandinho.
  Estava tudo a meia luz, era mais ou menos cinco e meia da tarde, e ainda tinha sol, mas a cortina estava um pouco baixa. Leninha não gostou do viu, Percebeu tristeza, muita tristeza, talvez falta de asseio e compreensão.
  O lençol da cama do rapaz parecia não ter sido trocado a mais de um mês e o cheiro de enxofre do quarto era insuportável.
  ---Vandinho, olhe quem esta aqui.Tarzan e Leninha.
  Vandinho estava meio que deitado com os olhos quase fechados. Não se moveu.
   ---Tudo bem Vandinho?---Perguntou Tarzan.
   Continuou quieto.
   ---Não reparem ele só fica assim mesmo.---Disse a mãe.
   ---Posso abrir um pouco a janela?—Pediu Leninha.
   ----Acho que pode, só um pouco, ele não gosta de olhar lá fora fecha tudo.
   Leninha abriu um pouco a janela e respirou fundo para tirar aquele cheiro de enxofre do nariz.
   Tarzan fez o mesmo, fingindo olhar lá fora.
    ---Vou faze um café pra vocês.
    ---Não, não precisa se incomodar, ainda tenho que ir a missa  das seis, quantas horas Tarzan?---Perguntou Leninha assustada com as horas.—Meu Deus! Já deve ser quase seis horas. Esqueci que tinha que ir olhar as crianças.
   ----Não dá mais tempo, também só um dia, não tem mais ninguém pra olhar?---Perguntou Tarzan.
    ---Tem sim, a Lili abre o berçário, tem a Delicia e mais algumas meninas.
    ---Então não se preocupe daqui a pouco a gente passa lá.
    ---Então vou fazer o café.—Disse a mãe de Vandinho saindo do quarto.
    Leninha chegou perto da cama de Vandinho, não entendia como aquele rapaz estava no terreiro da casa dela e aquele dia na igreja, ficou assustado não eram a mesma pessoa.
    Tarzan se aproximou também da cama. Qual não foi o susto dos dois quando Vandinho segurou a mão de Leninha e a de Tarzan apertando entre as suas.
  ---Vocês são um só.---Disse baixinho.
  Nisso a mãe dele que voltava com as xícaras de café na mão levou tanto susto que deixou as xícaras caírem no chão.
   Tarzan foi socorrê-la.Leninha continuou segurando a mão do rapaz. Ele olhava fixamente para a menina e sorria, ela sorriu também, e deu-lhe um beijo carinhoso na testa.
  Saíram do quarto deixando Vandinho com um sorriso na boca. Foram para a cozinha pegar mais café. Leninha estava meio paralisada e todos mais.Vandinho levantou da cama e foi sentar devagarzinho perto dos três.
   A mãe lhe ofereceu uma xícara de café com leite e biscoitos ele aceitou e começou a comer parecendo faminto.
   ---Precisamos ir.---Disse Leninha por fim.---Tenho que passar na igreja.
   Levantou despedindo.Tarzan fez o mesmo.,A mãe de Vandinho agradeceu a visita e pediu desculpas pelo susto, mas é que fazia tanto tempo que não ouvia a voz do filho.
   Deram ate logo para Vandinho e ele respondeu com a cabeça, não parando de comer.
   Chegaram até o berçário da igreja sem falarem nada, iam de mãos dadas. Estava tudo correndo bem.Tarzan despediu de Leninha dizendo que precisava ir tinha serviço cedo e ira á pé não tinha trazido o jipe e nem a bicicleta tinha descido pra cidade de carona. Ia passar na casa de dona Elza para despedir e dizer que ela estava no berçário.
  ---Mas ainda é tão cedo.—Reclamou Leninha olhando Tarzan de frente.
  ---Tenho que ir mesmo. Volto qualquer dia da semana pra te ver.---Disso ela gostou.
  ---Não fique impressionada com Vandinho.---Pediu Tarzan fazendo um carinho arrumando os cabelos dela.
   ---Não fico, não se preocupe.
   ---Em vez de pensar nele pense em min. ---Ela sorriu. Ele olhou pros lados viu que não vinha ninguém lhe deu um beijo gostoso na boca.—Pediu pra ela entrar e foi embora.Ela ficou olhando ele pela janela ate virar a esquina.
   Delicia estava balançando uma criança no colo pra fazer dormir.
   A missa já estava acabando.
   Lili contou que o sr Joaquim Dantas tinha passado por ali, perguntado se tínhamos noticias de Lindalva, elas estranharam, ele disse que precisava informações sobre o sitio que queria comprar.
  ---Só não gostei do jeito que ele olhou pra Delicia, perguntou onde ela morava, quantos anos tinha. Disse que ela é muito bonita.Nunca tinha visto ele assim tão falador.---Explicou Lili.
  Leninha não deu muita importância a isso apenas continuou a pensar em Tarzan, mas dona Elza estava bastante preocupada com os últimos acontecimentos, logo que Tarzan contou que tinha deixado Leninha no berçário da igreja, resolveu ir buscar a filha, a missa quando terminava já estava tudo escuro. Leninha não estranhou a presença da mãe, at´e gostou, estava começando a fechar o berçário, despediu das meninas, dona Elza perguntou quem ia levar Delicia para casa, ela disse que a mãe estava na missa e que ate a pequena Maria Helena estava no berçário. Dona Elza nem tinha percebido que a pequena menina dormia nos braços da irmã e com isso a mãe deveria estar por perto, acompanhou Lili ate vê-la entrar em casa e as outras duas meninas também.
   Leninha estava tão feliz que nem reparou no comportamento da mãe. Seu Joaquim Dantas estava sentado na mesa do bar tomando uma cerveja, ela fingiu não ver e continuou andando.
  ---Foi ate bom ver o sr Joaquim ali que eu lembrei.—Dona Elza se assustou.
  ---Porque Leninha?
---As meninas disseram que ele esteve no berçário perguntando de novo pela Lindalva.
---Por favor Leninha, não quero nem pensar em você dando confiança pra esse homem e diga pras suas amigas pra não conversarem com ele.
 ---Porque mamãe?---Perguntou Leninha continuando a andar segurando o braço da mãe.
  ---Não tem porque, só eu acho que ele anda muito diferente daquele homem que sempre ajudou a gente emprestando dinheiro, vendendo fiado...Dando um litro de leite todos os dias.
  ---Ele fez alguma coisa pra sra ficar com raiva dele mamãe?
  ---Não Leninha, não é isso, é só que agora que você ficou mocinha a mamãe não quer você conversando demais com homem nenhum.E suas coleguinhas deveriam fazer o mesmo.—Consertou dona Elza para não ter que esticar muito o assunto e a curiosidade da filha.
  Leninha deixou o assunto pra lá, preferiu chegar em casa rápido pra jantar e dormir, sonhar com seu amor era melhor que pensar no pai de Eliza, também pra que?Não tinha nenhum assunto a conversar com ele.
  Izabel estava cabisbaixa reclamou com dona Elza sobre não receber mais cartas de Pedro. Ela explicou a menina que Pedro andava muito ocupado com os estudos e o trabalho e que pra ela ele estava escrevendo mais.E era verdade já estava no mês de setembro e pouco se recebia noticias de Pedro. A ultima carta só dizia que corria tudo bem e que a mãe deveria ir para a cidade no principio do ano e não no meio como haviam combinado.
  Dona Elza quase não tinha o que fazer arrumou uma sala de aula no grupo onde a diretora deixava ela continuar com as aulas a noite.Durante o dia às vezes substituía alguma professora que faltava para dar aulas.Estava realmente aposentada e pelo menos o salário da aposentadoria continuava o mesmo de quando lecionava.Pedro mandou algum dinheiro para a mãe pagar algumas contas pequenas e pedia a ela para não se iludir mudando para uma casa maior ou dando entrada para algum lote. Porque o futuro deles não era ali, eles precisavam ganhar o mundo e que esse mundo não se resumia àquela cidadezinha pequena que só sofrimento havia causado a eles.
   Leninha a medida que aproximava o final do ano ficava com mais medo. Queria ir embora, conhecer esse mundo que Pedro falava, mas e Tarzan. Como ficar longe dele.
  Seu Joaquim desistiu de pedir noticias de Lindalva. Cirilo e Leonardo quase tinham certeza que era ele o assassino de Raul. Cirilo ouviu uma noite a mãe e a avó comentando o caso, só que ele estava dormindo e só conseguiu ouvir parte da historia. Leonardo mais ajuizado falou:
   ---Sabe Cirilo na verdade nunca vamos poder fazer nada, vai ver Lindalva não foi a única a cair nos encantos dele e o pior é que ele ainda pode estragar a vida de muita menina por aqui.
  ---È na verdade, verdadeira não vamos poder mesmo fazer nada, ele é um homem que tem dinheiro, e só Deus pode cuidar desse caso.---Emendou Cirilo.
   ---Mas nos podemos ficar de olho nas meninas que conhecemos e sempre ver se ele não esta por perto.
 ---verdade, isso a gente pode fazer, porque a policia aqui é só pra prender as putas que na verdade não estão atrapalhando a vida de ninguém.
  ---Só que eles Cirilo, aproveitam prendendo elas para não pagarem e poder passar as mãos nelas.
  Cirilo riu maldoso.Era realmente isso o que acontecia e ia se sempre assim.Leonardo ainda falou da sorte que Pedro tinha de ir embora daquela falsidade, e Cirilo disse que também não era bem assim porque tinha muita gente boa e digna ainda por ali.
   Eliza resolveu ir na casa de Leninha saber porque ela nunca mais havia voltado em sua casa.
   Dona Elza recebeu bem a menina que entrou sala adentro toda emplumada num vestido de linho bordado a mão.
  ---Nossa dona Elza, cadê Leninha.---Entrou perguntando.
  ---Esta deitada. Vá lá ela só esta descansando.
  Ela empurrou a porta do quarto que estava encostada e foi logo falando.
  ---Anda prequisoça, sai dessa cama.---Leninha já estava sentada quando ouviu a voz da amiga.—Isso é coisa que se faça deve ter uns três meses que não te vejo além da escola. Hoje estava lá em casa pensando, você sabe que às vezes eu penso né?---Riu dela mesma---E fui fazer as contas de que você sumiu. Quero saber porque.
  Leninha abraçou a miga, claro que não podia dizer que sua mãe não queria ela enfiada lá por causa de seu pai.etc...
  ---Não foi nada Eliza, é só que desde que Sonia ficou doente tenho ficado mais com ela.
  ---Nem por isso, poderia me chamar e eu iria com você sempre na casa de Sonia.
  Leninha sorriu, explicou que estava planejando mudar e contou algumas novidades.
  Eliza sempre com o nariz empinada e mais linda que nunca escutava tudo atenta, não disse muita coisa, mas deu a entender para Leninha que onde ela estava morando não era lugar para eles.Leninha explicou que estavam economizando para viajarem assim que entrasse as férias, iriam onde Pedro estava, se gostassem ficariam de uma vez, afinal não tinham muito que levar mesmo.
   Depois foram visitar Sonia, a menina levou um susto ao ver Eliza, se abraçaram como namorados.
  ---E então Sonia vai ficar trancada o resto da vida?---Perguntou Eliza querendo animar a amiga.
  Sonia sorriu, Leninha não gostou de ver a palidez da menina, a ultima vez que vira ela ela não estava tão pálida.
  ---To quase boa.---Respondeu Sonia.
  Dona Neném chamou as meninas para tomarem suco na cozinha, Sonia não acompanhou continuou sentada no banco da sala.
  ---O que ela tem de verdade dona Neném.—perguntou Eliza vendo que Sonia não podia escutar.
  ---O problema dela é nos ossos.—Respondeu a mãe de cabeça baixa. Ela não vai aquentar muito tempo.—Continuou de cabeça baixa. Os olhos de Leninha e Eliza se encheram de água.
  ---Oh! Meu Deus!---Suplicou Eliza.
  ---Amanhã vamos levá-la para o hospital, ela quase não aquenta ficar mais de pé.
  ---Ela ontem parecia tão bem.---Disse leninha.
  ----È assim mesmo.—Disse dona Neném.
  As meninas tomaram o suco e foram conversar tentando animar um pouco a amiga.
  “Nossa! Graças a Deus que a vida passa rápido, se eu tivesse que crescer de novo, juro que nem sei se queria nascer”.---Pensou Leninha sentada de frente a um espelho do seu quarto.
   Um quarto bonito com papeis de parede, uma cama grande com uma colcha bonita cheia de bichinhos de pelúcia por todos os lados, um tapete na beira da cama, cortina bonita, o armário cheiio de roupas bonitas, na escrivania uma televisão colorida de 20 polegadas. Leninha olhava tudo estava acostumada aquela vida, mas ainda lembrava seu tempo de menina. Os cabelos agora não tão compridos mas ainda com o mesmo brilho, as unhas bem feitas, as pernas compridas bem torneadas, o busto agora tinha forma perfeita,era realmente uma moça bonita.
  Difícil lembrar da infância, e não chorar por Sonia. Sonia aquela menina tão cheia de vida e sem vida não passou dos 15 anos. Leninha não foi ao enterro da amiga, mas comunicava com ela sempre por cartas ate o ultimo minuto de vida dela.
 Só voltou aquela cidade uma vez para a mãe votar, mas esta transferiu o titulo rapidinho, dizia que não queria lembranças tristes, O mais engraçado, ainda lembrava Leninha é que Sonia não morreu virgem, mandou uma carta contando tudo para Leninha.Conhecera um rapaz, enfermeiro do hospital se apaixonaram e lá mesmo aos 14 anos virou mulher.Pelo menos esse sonho Sonia pode realizar, mas o resto foi sofrimento e dor que Deus a tenha.
    Delicia se casou, adivinha com quem?—Leonardo—Leninha foi convidada mas também não foi estava em época de provas na faculdade, mas uma foto de casamento dos dois estava no álbum que Leninha resolveu folhear. Delicia tinha se formado dava aulas no grupo onde dona Elza começara a vida, Leonardo ajudava na fazenda do pai que também era sua, eles já tinham uma linda menina com três meses de vida, pelo que contara na ultima carta a menina era linda a cara de Leonardo com incríveis olhos verdes.
   Eliza se casou com Daniel, não chegaram a ter filhos casaram muito cedo e o casamento não deu certo. Ela não morava mais lá tinha ido pro Rio de janeiro e as ultimas noticias que leninha tinha dela era através de Delicia que contava:- - “Sabe Leninha eu acho quase tenho certeza que Eliza descobriu que gosta mesmo é de mulher, é isso mesmo, ela é Sapatão, mora com uma mulher lá no Rio De Janeiro, também com o dinheiro que herdou do pai pode fazer o que quisera”.—
   Era uma pena o que tinha acontecido a família de Eliza como se diz dinheiro não é tudo na vida e não paga a felicidade. O mal que abateu a família de Eliza não era assim tão merecido, apesar do que o Sr Joaquim Dantas tinha feito de mal ele também tinha sido uma pessoa boa. Só que a carne dele foi fraca e ele caiu, caiu mesmo.Três anos depois que Leninha mudara ele foi encontrado morto no mesmo matagal que Raul fora assassinado de facadas.Seu Joaquim Dantas estava morto. Passou pouco tempo a família de Lindalva voltou para o sitio que nunca foi vendido ela não voltou tinha arranjado trabalho e se casou por aqui mesmo. Leninha tinha o endereço dela ia qualquer dia visitar. Mas não hoje, hoje tinha uma coisa mais importante para acontecer.

 
XLIX
 
     O filho de Pedro gritava lá fora, estava impaciente, chamava leninha. Que continuava imersa em lembranças.
   Pedro por fim acabou dono de um escritório de contabilidade, tinha carro do ano, morava em uma casa com piscina e tinha comprado aquela para a mãe. Ele descobriu quase tarde, que o amor da vida dele era realmente Izabel, tinham se casado já havia cinco anos e Vivian bem tinham um lindo filho, Quilherme de três anos. Cirilo ainda continuava estudando só teve duas namoradas que durou mais tempo. Estava se formando advogado ajudava muito o irmão no escritório.
   Dona Ruth, Deus a levou já havia cinco anos, Leninha na época tinha desesseis anos.
   Por mais que avó fingia, coitada, não era muito feliz por ali, sentia falta da horta e da paz de uma cidade pequena. Já ali tinha pouco o que fazer, ninguém plantava, espaço tinha, mas o progresso pede que todo mundo tenha jardins cheios de cimento. Poucas plantas conseguiam respirar o ar poluído. Tinha bem mais conforto não podia negar, mas sentia saudades.
   Também Leninha ao lembrar da avó pensava consigo mesma que ela até chegou a ser feliz e que parecia querer ver a filha bem para descansar, morreu feito passarinho como se diz, não sofreu muito.
   De Claudia e de sua família poucas noticias se tinha, só que tinha se casado.
   Wanda e  Silvia também ainda moravam por lá.Wanda tinha família e Silvia tinha dois filhos cada um de um pai diferente.
    Lili morava agora em uma fazenda, a madrinha Santa preferiu ir de vez para a fazenda, ela sempre passeava na casa de leninha, e Lili sempre passava férias pó lá, teve uma vez que ficou dois meses diretos com Leninha, e hoje estavam todos lá,
   Também na vida de Leninha qual dia poderia ser mais especial do que hoje.
   Engraçraçado Vandinho sarou mesmo. Lili contava que ele agora era um ótimo rapaz, ninguém mais lembrava o que tinha acontecido quando eram crianças, claro lembravam, mas não comentavam, aquilo foi passado e ele não teve culpa. Leninha ao lembrar sorriu:- -“Ele adivinhou tudo”.
  Se alguém visse dona Elza agora depois de onze anos dizia que ela tinha até feito plástica, estava muito mais remoçada. Era dona de um Jardim de Infância que ficava ao lado da sua casa. Leninha era uma das professoras adorava crianças, também tinha nascido com o dom. Dona Elza arrebatava corações, o homem de onde Pedro começou a trabalhar e tinham ajudado eles a mudar, Sr Valter continuava cortejando ela, só que ela sempre dizia que homem só tinha trazido sofrimentos para ela, e que ela não pretendia nunca mais se prender em nenhum. Mas ele nunca desistia estava sempre firme lá.
   “E Tarzan, meu Tarzan, vocês acham que me esqueci dele”, ria Leninha parecendo uma criança analisando sua vida, sua vida era feliz, ia se formar no próximo mês, o ano letivo tinha se acabado era só vinte de dezembro, faltava pouco para o natal, mas a festa de formatura seria dali uns dias mais ou menos oito de janeiro estava quase confirmado o baile de formatura, ia ser não já era médica pediatra, ajudava a mãe dar aulas para ganhar algum e ajudar nas despesas. Mas seu grande sonho o maior dele estava para se realizar.
   Bateram na porta com força.Era a madrinha Santa.
   ---Abre leninha, você esta ai tem um tempão estamos preocupados.
   Ela levou um susto olhou o relógio e correu a abrir a porta.
   ---Que foi Leninha, quer desistir na ultima hora.
   ---Não madrinha, claro que não,estava olhando um álbum de fotografia e parece que sai do ar.
  A madrinha abraçou a menina.
  ---Então vamos começar a arrumação a casa já esta cheia e você não pode atrasar. Aliás, só um pouquinho pode.___dona Santa piscou para a afilhada.
  Dona Eliza estava nervosa, já estava tudo preparado, ao redor da piscina. Estava cheio de mesinhas, com flores e luzes por todos os lados, os instrumentos da banda estavam no pequeno espaço improvisado. Três garçons estavam a postos, enfim tudo preparado para a recepção.
  E que recepção?
  Izabel nem parecia ser mãe, ainda era a mesma menina linda, de cintura fina, igual a mãe que estava igualmente linda. Todos foram para a igreja que era bem perto dali. Marcelo todo vestido de branco aguardava no altar, viera especialmente para realizar a cerimônia, resolvera mesmo se padre e era convidado especial de Leninha.
   A igreja era pequena, mas bonita e mais linda ainda ela se tornou quando começou a tocar a musica da marcha nupcial. Lá estava ela, mais linda que nunca a pureza toda em forma de branco e lá estava ele mais Tarzan do que criança.
    Douglas e Maria Helena, dois adultos apaixonados desde crianças, leninha acabara de fazer vinte e dois anos e Tarzan nem parecia tão mais velho, vinte e nove anos. Como dona Elza sempre dizia um dia a diferença de idade fica tão pequena o que vale é o amor e amor é o que tinha de sobra entre os dois. Leninha foi pra longe via pouco Tarzan, só nas férias quando ele vinha e ficava até ela retomar as aulas. Preservou a pureza da menina para um dia a tornar sua mulher. E este dia chegou, eles iriam morar em uma fazenda de cacau que era o sonho dos dois. Leninha não queria ficar o tempo todo na fazenda, pelo menos até começarem a vir os bebes que não seriam poucos “brincava”.
   Dona Elza chorou, quase a cerimônia toda ia ficar longe da filha. Mas era melhor, ela precisava ter a sua família e se Deus quisesse ser feliz, feliz, muito feliz com o seu Tarzan.

  


  

    
     FIM
   
    
  
   
   

  
  
  
    

                                        Aventuras de Leninha       Cirilo estava sentado no degrau da porta do quarto que dava para ...