O casamento foi lindo. Leninha estava linda,
Marcelo ajudava na missa e no casamento e a todo o momento dava uma olhada na
menina. Os cabelos com um laço de fita da cor do vestido, os sapatinhos de meio
salto davam-lhe um ar de moça.
Depois da cerimônia teve um almoço ao ar
livre com churrasco e muita bebida.
Tarzan não saía do lado da prima, cuidava
dela como se fosse uma irmãzinha. Por um momento ela sonhou que era o seu
próprio casamento, só que tinha três noivos, Marcelo Tarzan e Leonardo. Abriu
os olhos e seu primo segurava as suas mãos. Eram mãos firmes. Ele era muito bonito,
ela sentiu uma enorme vontade de abraçá-lo. Encostou a cabeça em seu ombro, ele
lhe fez um pequeno carinho no rosto e ela se sentiu tão bem.
“Pena que ele é tão velho.” – pensou.
No domingo inauguraria o berçário, deu tido
certo e as mães poderiam assistir a missa em paz.
Ia ser inaugurada também uma linha de ônibus
ligando a cidade a Boa Unia. O ônibus sairia às seis horas e voltaria às
dezoito horas, seria bom demais. A cidade estava crescendo.
Fariam também uma estrada subindo até a
pedreira, porque lá seria instalada uma antena de televisão. Na cidade só
tinham dois aparelhos televisão, que ficava na casa de Eliza e do Rui, dono da
Eletrônica.
Leninha um dia pediu a Eliza para ligar e ela
viu um tanto de formiguinha.
--- Será que dá mesmo pra gente ver aí? –
perguntou para a amiga.
--- Dá sim, eu já vi na casa da minha tia lá
de Belo Horizonte. – respondeu Eliza.
--- Você já foi a Belo Horizonte?
--- Fui, você esqueceu? Foi quando fui tirar
as amídalas.
--- Ah, é verdade. Você até trouxe uma
pulseirinha com o meu nome. Eu era tão pequena que nem me serve mais.
As coisas corriam, dona Santa foi para Boa
União ganhar neném.
O dia do pagamento chegou, dona Elza foi
buscar o dinheiro. Leninha gostava quando a mãe viajava, pois ela trazia maçã e
pão sovado, que ninguém sabia fazer.
À noite quando voltou, aquele homem do chapéu
grande foi até a casa deles. Dona Elza foi receber.
--- Entre sr. Sebastião, vou buscar um
cafezinho.
Leninha e Cirino ficaram quietos no quarto
ouvindo a mãe atender o homem.
--- O que esse homem vem fazer aqui? –
perguntou Leninha.
--- Você não sabe até hoje?
--- Não, se soubesse não perguntaria.
--- Vem buscar dinheiro, a mamãe deve a ele.
--- A mamãe deve a ele também?
--- É, a mamãe deve muito dinheiro.
Dona Elza sofria com esses cobradores, às
vezes ela chorava baixo.
Quando sr. Sebastião foi embora ela entrou no
quarto onde os filhos estavam. Pegou o resto do dinheiro do pagamento e separou
o que devia a cada um.
--- Mamãe, porque nunca sobra dinheiro? –
perguntou Leninha.
--- Essas dívidas não são minhas, minha
filha.
--- Então porque a senhora paga? São de quem?
--- Eu nunca quis ver vocês passando falta
das coisas. Quando o pai de vocês foi embora, ele pegou dinheiro emprestado com
muita gente daqui, eu não sabia das intenções dele e assinei umas promissórias
que ele trouxe dizendo que estava comprando um caminhão para fazer viagens. Eu
fiquei alegre porque seria um meio de termos mais coisas, ele pegou o dinheiro
dizendo que ia viajar para comprar o caminhão e tem sete anos que ele está
comprando o caminhão.
Leninha não sabia daquela história, nem
pensava no pai, porque quase não se falava sobre ele naquela casa. Cirino
sabia, mas não gostava de tocar no assunto.
--- Porque ele fez isso?
--- Não sei, minha filha. Só sei que vivo
para vocês e não estou conseguindo pagar as contas, os juros só estão
crescendo. Preciso ver o que eu faço para conseguir dinheiro. Este homem que
saiu daqui até ameaçou tomar a casa, que é a única coisa que temos. Foi herança
do meu pai.
Leninha estava com os olhos cheios de água.
--- Eu vou ajudar, não fique triste..
A força que aquela garotinha tinha dentro
dela era incrível, conseguiu acalmar a mãe com um simples abraço.
Dona Ruth estava sentada na porta do quaro
deles e também tinha os olhos cheios de lágrimas.
Uma coisa que as crianças tinham agora para
passar o tempo, era sentar na praça em frente à Prefeitura e esperar o ônibus
chegar às dezoito horas.
Foi instalada a antena de televisão, ouve
comício e falação no alto-falante. Colocaram um aparelho de televisão no
palanque, todos queriam ver, até os primos vieram.
Não deu para ver nada direito, só alguns
fantasmas, mas mesmo assim foi aplaudido.
Na casa do Rui a imagem ficou até boa, ele
também era entendido de eletricidade e sabia mexer com as peças. Leninha foi até a casa dele
junto com sua mãe. Ele tinha uma casa grande cheia de peças de rádios
espalhadas por toda a casa. Ele e sua esposa, Suely tinham duas filhas e estavam
esperando mais um.
Dona Elza era amiga deles há muito tempo. Rui
era amigo de Pedro, estudaram juntos.
--- Quando Pedro volta, dona Elza? –
perguntou Rui.
--- Ele mandou uma carta dizendo que vem
passar as férias em casa.
--- Estou com saudades dele.
--- Eu quase não durmo pensando nele, é a
primeira vez que fica tanto tempo longe de casa. Mas, é bom para ele, eu não
posso dar muito conforto.
--- Que bobagem, dona Elza. – disse Suely
entrando na conversa. – todos na cidade sabem dos seus problemas e te
respeitam, porque sabem que a senhora é uma boa mãe.
Dona Elza suspirou.
Estava passando um concurso de Miss Brasil,
não dava para ver direito, mas Leninha ficou
fascinada.
Quando voltaram para casa, ela estava com a
cabeça nas nuvens. “Vou ser Miss” – pensou.
Capitulo catorze
A igreja Batista estava em festa, ia vir um
pastor para ficar no comando da igreja.
Quando ele chegou teve festa e muita música
na igreja, até os católicos foram na recepção. Sua casa ficava pero da casa de
Leninha, quase de frente. Ela viu a mudança chegar em um caminhão grande. Nunca
tinha visto tanta coisa bonita: sofá, televisão, tinha até geladeira.
Quando vieram, ela ficou da janela da sala
olhando. O pastor tinha três filhos, duas filhas, sendo uma moça e uma menina
pequena que devia ter três anos.
“Vieram da capital, devem ser metidos” –
pensou Leninha olhando.
A notícia espalha rápido pela cidade, a irmã
de Eliza, a Elvira estava grávida e ia ter que casar rápido com Raul.
--- Viu só, Leninha. Não te disse que eles
estavam fazendo bobagem? – disse Eliza para Leninha na hora do recreio.
As duas estavam sentadas na porta da cantina
fazendo um lanche, nisso vinha chegando Cláudia e Sônia.
--- Eu não contei nada a ninguém. – disse
Leninha.
--- Eu sei, você é uma amigona. Mas, mamãe
estava desconfiada, ela estava vomitando muito.
--- Fazer bobagem faz vomitar? – perguntou
Leninha.
--- Não, mas faz neném e neném dá enjôos. –
disse Eliza rindo da inocência da amiga.
--- Agora eles vão ter que casar? – perguntou
Cláudia.
--- Ele não está querendo muito não, mas teve
a maior briga lá em casa. Eu fiquei até com medo, papai disse ao pai de Raul
que se ele não casar com Elvira, não casa com mais ninguém, que ele mata antes.
– disse Eliza.
--- Nossa senhora! – disse Sônia. – Eu nunca
quero casar assim.
--- Nem eu. – disse Eliza.
O circo de Cirino fazia o maior sucesso. Aos
sábados às três horas tinha espetáculo de mais ou menos quarenta minutos.
Leninha cantava “Boiadeiro” tão bem que até gente grande ia ver o circo.
As férias estavam chegando. Dona Elza ia
viajar duas semanas para fazer um curso e tratar dos papéis de sua
aposentadoria. Ia aprender a dar aulas pra pessoas adultas, para poder abrir
uma escola do Mobral, aproveitaria para ganhar mais dinheiro. Tinha um cômodo
em sua casa que ficava desocupado, a prefeitura ia dar algumas carteiras e ela
daria aula à noite. Seria bom, podia dar mais assistência em casa. Já fazia
vinte e sete anos que era professora, tinha começado a dar aulas com dezenove
anos, já estava na hora de aposentar.
Ia deixar Leninha na casa da madrinha, a mãe
não dava conta de correr atrás da menina o dia inteiro.
Os dias que dona Elza estava fora passavam
voando, Leninha sentia a ausência da mãe, mas gostava de ficar na casa da
madrinha, lá tinha muito conforto, tinha bife todos os dias e ela aproveitava
pra brincar muito. Tinha muitas árvores no quintal e uma plantação enorme de
milho que já estava seco. Leninha adorava brincar de Tarzan. Lili era a Jane,
Soraya a Chita e os milhos eram os índios e bandidos.
--- Mim Tarzan, you Jane.
Era assim o dia inteiro. Coitados dos pés de milho.
A madrinha gostava muito dela, ensinava as
obrigações de moça, o jeito de andar, sentar e conversar com as pessoas.
Depois da aula ela foi na casa de Eliza, Lili
foi também. Daniel ia dar aulas para Eliza duas vezes por semana na casa dela,
para ver se ela conseguia passar de ano.
--- Será que isso vai dar certo, Eliza? –
perguntou Leninha.
--- Vai sim, pedi a mamãe. Preciso de verdade
tomar vergonha na cara e passar de ano. Não vou mais precisar que você copie
pra mim. Espere aqui um pouco. – deixou as meninas no quarto e foi até o quarto
da mãe.
--- Isto aqui é para você. – trouxe um
embrulho e entregou a Leninha.
--- Para mim? – pegou o embrulho e abriu,
Lili também estava curiosa.
Era a bolsa, a bolsa tão sonhada, igualzinha
a de Eliza. Leninha até chorou. Abraçou a amiga.
--- Obrigada, Eliza. Obrigada mesmo.
--- Você merece.
--- E então Eliza, e o seu namoro com o
Daniel, como é que fica? – perguntou Lili.
--- Contei para a mamãe. Prometi nunca ver
ele escondido, para não acontecer o mesmo que aconteceu com a Elvira.
--- Me conta uma coisa, que horas ele vem dar
aula?
--- Depois do serviço dele, só por uma hora.
Mamãe fica por perto.
--- Então, não deu nem para um beijo?
Eliza sorriu e Leninha ficou calada prestando
atenção.
--- Se eu contar, fica só entre nós?
--- Claro. – responderam em coro.
--- Outro dia enquanto a mamãe foi buscar um
lanche, ele chegou bem perto de mim, me fez um carinho no rosto e encostou a
boca na minha.
--- Na boca? – espantou Lili.
--- Claro, sua boba.
--- Você gostou? – perguntou Leninha.
--- Achei um pouco estranho, fiquei
quietinha, ele abriu meu lábios devagarzinho com a língua, eu tremi toda, não
sabia o que fazer.
--- E aí?
--- Eu abri um pouco a boca e chupei a língua
e a boca dele.
--- Que nojo! – resmungou Lili.
--- Que nojo nada. No princípio achei esquisito, mas depois não
queria mais parar. Ele sabe das coisas.
Leninha prestava atenção na conversa.
--- Vocês fiquem mais atentas, daqui a pouco
estão moças como eu e vão ter que beijar. É muito fácil, é só não ter medo.
Leninha deu uma risadinha.
--- É, tem razão. – disse Lili. – Olhe os
meus seios como estão durinhos. – levantou a blusa da escola e pegou a mão de
Eliza para sentir os mamilos que estavam duros para crescer.
--- É mesmo, os meus começaram assim, olhem
só como já estão grandes. – levantou a blusa e ficou com os seios empinadinhos
e mamilos cor-de-rosa de fora.
--- Que bonitos. Deixa-me ver os seus
Leninha.
Leninha achou aquilo esquisito, mas deixou as
amigas passarem as mãos em seus seios lisos. A sensação era gostosa, mesmo sem
seios, sentiu cócegas.
Eliza abaixou a calcinha e mostrou a vagina
cheia de pêlos. Lili era bem assanhada, correu para passar a mão.
--- Passe a mão Leninha, olha que gostoso.
--- Quer beijar meus seios, Lili? – perguntou
Eliza passando a mão dentro da calcinha da Lili.
Lili beijou os seios de Eliza, Leninha também
quis experimentar. A sensação era boa, quente. Leninha sentiu quentura nas
pernas.
--- Vem cá, Leninha. Deixa eu te ensinar como
que faz bobagem.
Leninha deixou Eliza colocar as mãos na sua
vagina, ela também passou a mão em Lili e Eliza. Ela nunca tinha passado por
aquilo.
--- Você vai fazer isso com o Daniel? –
perguntou Leninha.
--- Não, com ele é só depois de casar. Senão,
eu fico grávida.
Leninha vestiu a roupa rápido, ouviu passos
no corredor do quarto.
--- Vamos embora, Lili. Já é tarde.
--- Olhe, meninas. Isso que fizemos é
segredo. Ta certo? – disse Eliza.
Elas foram embora, Leninha estava sentindo diferente, um pouco
desconfiada. Tinha a impressão que nunca mais seria a mesma, mas se sentia tão
bem.
Aprendeu tantas coisas naqueles dias, que por
um momento até pediu a Deus para não trazer mais a sua mãe, porque assim
viveria na riqueza o resto da vida. Depois, arrependeu e passou na igreja pra
pedir perdão a Deus.
Marcelo a viu entrar. A igreja estava vazia,
quando ela saiu, ele a chamou para tomar um suco na casa paroquial. Ele era tão
bom para ela.
Marcelo era um jovem italiano, veio para o
Brasil já havia muitos anos, mas conservava o sotaque.
--- Quando você vai virar padre? – perguntou
Leninha entrando com ele na casa. Não havia ninguém lá, o padre Mario tinha ido
jogar cartas na casa de um amigo.
--- Você vai me deixar ser padre? – respondeu
levando Leninha até a cozinha para pegar um suco.
Tinha um suco geladinho e até biscoito, ele a
pegou pelos braços e a sentou na mesa. Ela não sentia medo, confiava nele.
--- Como assim? – perguntou Leninha.
--- Nada não, esquece. É que você é tão
bonita e meiga, que se eu achasse uma moça que nem você, até me casaria.
--- Mas, eu já sou quase uma moça. --
respondeu Leninha arrumando os cabelos e levantando os ombros.
--- Eu sei, pequenina, eu sei.
A abraçou com tanto carinho, que Leninha
sentiu aquela quentura que sentiu quando Eliza pegou em seus seios.
Capitulo quinze
Leninha foi para o ponto de ônibus receber a
mãe. Dona Elza chegou cheia de malas. Foram para casa, depois dona Elza passou
na casa da madrinha para agradecer e pegar as coisas de Leninha.
Trouxe maçã, pão sovado, um colar com o nome
de Leninha gravado. Ela gostou tanto. “Maria Helena”, o nome inteiro, se sentiu
grande. Queria tanto ficar grande depressa.
Já ia fazer dez anos. O irmão chegaria na
próxima semana a tempo de cantar parabéns para ela.
Elvira se casou com Raul e foram morar na
casa dele até a casa deles ficar pronta.
As carteiras foram entregues bem cedo, a mãe
ia dar aulas para um tanto de gente à noite em casa. Limparam e arrumaram tudo.
Ia ser ótimo, não precisava mais dormir tão cedo.
--- Sônia, você acha que eu já devia usar
sutiã? – perguntou Leninha um dia à Sônia.
--- É, eu acho que devia. Já dá para vê-los
pela transparência da blusa.
“Engraçado eles começarem crescer de uma hora
para a outra, desde que deixou colocarem as mãos neles” – pensou Leninha
Ela contou para Sônia o que tinha feito com
as meninas. Sônia deu um risinho e disse que Eliza já tinha feito com ela
também.
--- Você gostou?
--- Demais, depois vamos fazer?
--- Mamãe disse que não devemos deixar
ninguém passar a mão na gente, porque tem uma florzinha que não pode deixar
abrir. – explicou Leninha.
--- É só passar a mão, Leninha. Não machuca
ninguém. Pede a sua mãe e vem tomar banho de chuveiro comigo.
--- Depois eu peço. Tchau, Sônia.
capitulo dezesseis
Pedro chegou à cidade. Leninha, Cirino, dona
Elza e até dona Ruth foram esperá-lo na praça do ônibus.
Ele estava tão diferente, de barba, mais
magro. Abraçou a mãe, a avó, a irmã e o irmão e eles foram para casa cheios de
curiosos atrás.
Pedro trouxe presentes para todos. Para
Cirino trouxe um olho de boi que quando a gente esfregava no chão e encostava
nas pessoas, queimava. Para Leninha trouxe calcinhas com renda, trouxe um
cachimbo novo para a avó e uma linda blusa para a mãe.
Quando acordou no dia seguinte, estava com a
aparência melhor.
--- Que saudades disso tudo aqui. – disse à
mãe.
--- Também sentimos a sua falta.
--- Vou dar uma volta, ver os amigos.
--- Rui perguntou por você.
--- Vou lá, ver o que ele está inventando
agora.
--- Deixa eu ir com você? – perguntou
Leninha.
--- E o que você vai fazer lá?
--- Vou brincar com as meninas, aproveito e
assisto televisão.
--- Então, vamos.
Cirino foi jogar bola com alguns amigos na
praça da igreja perto da casa do Rui.
À tarde iam buscar o boletim para ver quem
passou e quem ia ficar de recuperação.
Leninha como sempre passou em todas as
matérias, Eliza também conseguiu graças às aulas de Daniel.
Estava acontecendo alguma coisa diferente na
cidade, todos passavam cochichando e andando rápido. O pastor da igreja Batista
passou dentro de um jipe com o prefeito e mais dois homens e entraram na
igreja.
As mães gritavam, mandando as crianças
entrarem rápido em casa e trancavam as portas.
A madrinha viu Leninha na rua e mandou ela
chamar Cirino e ir rápido para casa. Ela não entendeu nada, mas correu para casa.
Quando chegou lá, dona Elza não estava em casa.
--- Mamãe pediu para ficarmos quietinhos e
que depois conta o que está acontecendo. – disse Pedro.
Pedro era um rapaz magro, de olhos pretos
como os de Leninha, era o filho mais velho e sendo assim, eles o respeitavam
muito.
--- Que bom que você está em casa. – disse
Leninha. – Você ainda vai voltar para o seminário?
--- Mamãe quer que eu seja padre.
--- E você quer ser? – perguntou Cirino
mexendo em um bodoque.
--- Ainda não sei. – respondeu com a cabeça
baixa.
Era muito obediente, estava com dezenove
anos, nunca tinha feito nada que contrariasse a mãe, tinha pena dela, vontade
de ajudar, mas ela achava que se formasse padre, teria um ótimo futuro.
Leninha estava olhando pela janela o movimento
na casa do pastor. Dois filhos dele, mais ou menos da idade de Cirino já tinham
feito amizades. Eles eram diferentes dos meninos dali, andavam sempre
limpinhos, de tênis e meia, cabelos sempre penteados. Leninha achava engraçado.
--- Sua mãe disse que não é para ficar
olhando janela. – disse dona Ruth já com a correia nas mãos.
--- Não vovó, eu não estou fazendo nada de
errado. – disse ela correndo para perto de Pedro. – Ela só fica querendo me
bater, Pedro. O que é que eu faço?
--- Ela acha que é assim que corrige.
--- Mas ela só bate e mim, o Cirino pode
fazer tudo e eu não posso fazer nada.
--- Ela pensa que mulher tem que ser quieta e
quer que você seja uma boa moça, para encontrar um bom marido.
--- Será que ela fez isso com a mamãe?
--- Deve ter feito.
--- Mas a mamãe não encontrou um bom marido.
--- Mamãe não deu sorte. Venha ver os livros
que eu trouxe para ler.
--- Deixa eu ler alguns?
--- Claro, venha.
Dona Elza estava demorando, as pessoas já
estavam chegando para a aula.
Pedro cuidou de ir passando alguns deveres
enquanto mamãe não vinha.
Aquele pessoal tinha tanta vontade de
aprender a ler e escrever, que não mediam esforços para irem às aulas. Dona
Elza era uma boa professora, tinha conseguido milagres ensinando. Quando ela
chegou agradeceu a Pedro e continuou a aula.
Capitulo dezesete
Só no outro dia Leninha ficou sabendo dos
segredos pelos cantos da cidade.
--- O filho de dona Rita está tendo
problemas. – explicava dona Elza. – Temos que rezar muito por ele.
--- Que tipo de problemas, mamãe? – perguntou
Pedro.
--- Eu não sei direito, ontem eu demorei
porque fizemos uma roda de oração por ele. Ele está quebrando tudo que vê pela
frente, xinga, chuta e está babando.
--- Qual dos filhos de dona Rita? – perguntou
Leninha.
--- O Vandinho.
--- Mas ele é tão alegre, nunca foi dessas
coisas. – disse Pedro.
--- É por isso que estamos rezando, pra ele
voltar a ser como antes.
--- De onde está vindo a força dele? Ele nem
é forte.
--- Dizem que nem o pai mais três homens
estão conseguindo segurá-lo.
--- Vou lá ver ele. – disse Pedro.
--- Não, meu filho. Não vá, ele está muito
mal. Só padres e pastores que podem ajudar.
--- Mas eu estou estudando pra ser padre.
--- Mesmo assim é perigoso. Hoje vamos orar,
você vai comigo.
Leninha ouvia sem entender muito bem.
“Babando, quebrando tudo. O que será que ele
tem?”—pensou Leninha.
As férias são sempre uma ótima coisa, mas os
dias ficam tão compridos. Dona Elza depois do almoço saiu com Pedro, pediu pra
dona Ruth não deixar Leninha e Cirino saírem de jeito nenhum, até aquele
problema com Vandinho ficar esclarecido.
Leninha queimava de curiosidade. Encheu o
tanque de água e entrou dentro para ver se as horas passavam mais depressa.
Pediu à avó para ir buscar a Sônia, mas esta lhe disse que se fosse ia apanhar
de correia.
“Tenho que fazer alguma coisa, não agüento
mais.” – pensou Leninha.
Aproveitou que a avó foi no banheiro e
combinou com Cirino para fingirem que iam dormir, colocaria travesseiros nas
camas e sairiam caladinhos.
Cirino não concordou, disse que estava com
medo do que estava acontecendo.
--- Também, você não é de nada! – gritou
Leninha voltando para o tanque de água.
Dona Elza tinha ido para a igreja com Pedro.
Todos estavam ansiosos pelos acontecimentos. Nunca ninguém tinha passado por
tal situação.
Padre Mário, Marcelo e todos os
freqüentadores da igreja estavam lá. Pediam a Deus para tirar o mal de
Vandinho.
O pastor da igreja Batista pediu para
reunirem à noite na igreja deles, pois rezariam juntos. Iriam levar Vandinho lá
para sentir a força da oração.
Dona Elza passou em casa para tomar banho e
jantar antes de ir à reunião.
--- Por favor, mãe. Me deixa ir, eu prometo
ficar quieta. – pedia Leninha.
Leninha conseguiu iria ver o que estava
acontecendo. Sentiu uma coisa ruim ao entrar na igreja Batista, o ar estava
pesado, difícil de respirar, sentiu medo, mas a vontade de ver as coisas era
maior.
--- Onde ele está, mamãe? – perguntou Leninha
segurando firme na mão de sua mãe.
--- Deve estar lá dentro com o pastor.
--- Podemos ir lá?
--- Por enquanto, não. Fica quieta.
Leninha e todos na igreja estavam em oração,
vez por outra se ouviam gritos estranhos.
--- Mamãe, vou lá fora um pouco.
--- Tá, mas não vai longe.
Leninha foi calada tentar ver pela janela de
fora o que dava pra ver lá dentro, encontrou Eliza e Daniel caladinhos tremendo
de medo.
--- O que vocês estão fazendo aqui? –
perguntou Leninha assustada.
--- Estamos tentando ver, e o que vimos nos
deu medo.
--- O que vocês viram?
--- Olhe pelo buraco da janela, olhe se você
tem coragem. – disse Daniel.
Leninha levantou nas pontinhas do pé e pôde
ver um bando de homens, dentre eles o pastor, o pai de Eliza, o pai de
Vandinho, até o pai da Sônia estava lá, deveria ter pelo menos umas quinze
pessoas dentro do quarto.
Vandinho estava deitado em um banco com o
corpo todo torcido, algumas pessoas seguravam nele.
Ele gritava umas palavras que Leninha não
entendia. De repente, pareceu que Vandinho havia olhado na direção de Leninha,
ela arrepiou toda. Ele deu uma tremenda risada.
Leninha desceu rápido da janela.
--- Afinal, o que é isso? – perguntou.
--- Meu pai disse que ele está falando inglês
e até russo. É incrível, um rapaz que ainda nem fez a quinta série direito e
que já foi reprovado. – disse Eliza.
--- Vou voltar para a igreja e ficar junto da
mamãe, estou com medo.
--- Eu vou também. Tchau, Daniel. – Eliza deu
um beijo rápido nele e foi de mãos dadas com Leninha para dentro da igreja.
Sentaram em um banco na frente e começaram a
rezar junto com outras pessoas.
Leninha teve medo de ir ao banheiro sozinha
quando chegaram em casa. Ficou toda quieta, só foi dormir quando dona Elza foi.
Não teve aula para o Mobral aquela noite.
A cidade estava sem brilho, parecia que o sol
estava apagado, todo mundo falava pouco.
--- Mamãe, hoje eu posso ir na casa da Sônia?
– pediu Leninha logo cedo.
--- Pode, depois do almoço eu te levo lá.
--- Precisa me levar? É tão perto.
---É só por precaução. Eu te levo e marco a
hora de te buscar.
--- Tá bom. – Leninha concordou, afinal, era
melhor que nada.
capitulo dezesete
O primo Tarzan chegou para almoçar com eles.
Veio ver Pedro, morria de saudades dele, afinal, não o via há tanto tempo.
Chegou montado em uma bicicleta, não se
esquecendo de trazer um frango para dona Elza. Pegou Leninha pelos braços e a
levantou até em cima, ela adorava aquela força toda.
--- Ta ficando pesada. – disse ele colocando
ela no chão. – Ta virando mocinha.
Leninha enchia toda quando a tratavam de
moça. Almoçaram.
--- Eu vou brincar na casa da Sônia, você
ainda vai ficar aqui, não é? – perguntou Leninha.
--- Eu vim para resolver umas coisas para o
papai, talvez eu durma aqui e só vou amanhã bem cedo.
--- Assim é melhor, porque depois a gente
pode jogar dama, o Pedro trouxe um jogo lá do seminário.
--- Combinado! Então à noite a gente joga.
Dona Elza levou Leninha até a casa de Sônia,
pediu a dona Neném para não deixar ela sair sozinha, às cinco horas iria
buscá-la.
Sônia estava no quarto brincando da casinha
sozinha. O fogãozinho, as panelinhas, a mesinha, as camas das bonecas estavam
todas arrumadinhas.
--- Que bom você ter vindo, isto aqui estava
tão triste. – disse Sônia.
Dona Neném fechou a porta do quarto dela e
pediu para as duas brincarem quietinhas, iria fazer bolo para elas.
--- Do que você está brincando? – perguntou
Leninha.
--- De casinha. Vamos fazer de conta que você
é minha comadre e veio me visitar.
As duas brincaram horas e horas.
A comadre Sônia estava grávida e tinha que ir
ao médico ganhar neném. O neném era uma boneca que elas enrolavam em panos e
colocavam por baixo do vestido. Na hora do médico fazer a operação para tirar o
neném, Leninha passava a mão em Sônia esta ficava quietinha só sentindo o
carinho. Depois era a vez de Leninha ser a grávida e assim passavam a tarde até
dona Neném trazer o bolo com suco de groselha.
Leninha não falou nada sobre o Vandinho com
Sônia, pensava que ela não sabia de nada.
--- Leninha, sua mãe veio te buscar. – gritou
dona Neném chamando Leninha.
--- Já vou.
Despediu-se de Sônia olhando com um olhar de
cumplicidade.
“Que cheiro bom” -- pensou Leninha ao chegar em casa, até que
enfim teriam um jantar com carne de frango que o primo trouxera da fazenda.
Dona Elza preparou o banho de Leninha.
--- Por favor, mamãe, não me deixe sozinha.
Estou com medo.
--- Medo de quê?
--- De ficar sozinha.
--- Você sempre tomou banho sozinha e de
porta fechada.
--- Fica, mamãe. Eu não demoro.
Dona
Elza entendeu e ajudou a filha a se lavar.
Leninha às vezes lembrava do olhar do
Vandinho e sentia um arrepio. Dona Elza não foi à igreja aquela noite, tinha
que dar aula para os velhos, por isso, serviu o jantar mais cedo.
O primo Tarzan estava no quarto de Pedro
conversando com ele. Leninha toda perfumada foi perturbá-los. Eles estavam
conversando sobre Vandinho.
Leninha sentou quietinha perto dos dois.
--- Então você acha difícil ele sarar? –
perguntou Tarzan a Pedro.
--- Vamos ter que rezar muito. – respondeu
Pedro.
--- Ele olhou pra mim. – disse Leninha com um
arrepio no corpo.
Os dois seguraram nas mãos de Leninha, um de
cada lado.
--- Ele tinha os olhos vermelhos e estava
babando. Tive tanto medo. – continuou Leninha.
--- Onde você o viu? – perguntou Pedro.
--- Eu e s Eliza olhamos da janela da igreja.
--- Você não devia ter feito isso. – disse
Tarzan.
--- Fiquei curiosa. Vocês acham que ele está
realmente doente?
Os dois ficaram calados.
---- Vamos arrumar o jogo para depois do
jantar? – perguntou Tarzan mudando de assunto.
--- Vamos. Mamãe chamou para o jantar.
Cirino já estava na mesa esperando o frango
ensopado com quiabo e angu. Parecia manjar dos deuses. Dona Ruth fez limonada,
Cirino foi até a casa dos novos amigos, os filhos do pastor.
As férias prometiam ser tão boas, mas com
aquele problema na cidade tudo estava tão quieto.
“Tenho que fazer alguma coisa.” – pensava
Leninha. “Só o circo e o berçário não bastam.”
capitulo dezoito
O primo tinha ido embora bem cedo. Leninha
levantou da cama com o cheiro de café. Cirino tinha dormido com ela para dar
lugar ao primo, por isso, quando Leninha acordou ainda tinha gente no quarto.
Ela correu para a cozinha.
--- Mamãe, posso sair hoje? – perguntou
Leninha sentando-se à mesa.
--- E onde você pretende ir?
--- Só na casa da Cláudia ou da Lili.
--- Pode ir, mas não quero você andando
sozinha pro lado do Grupo. Pelo menos até tudo acalmar.
--- Tá bom, mamãe. Vou lá na casa da
madrinha, tem mais espaço e eu brinco com a Lili e com a Soraya e aproveito e
vejo o neném.
--- Vou pedir para o Cirino te levar.
Cirino chegou na cozinha com cara de sono.
--- Logo eu, mamãe? Eu quero mexer no
quintal, arrumar o circo. – reclamou Cirino ao ouvir sua mãe pedir para levar
Leninha até a casa de dona Santa.
--- Deixe, mamãe. Eu levo – disse Pedro
ouvindo os resmungos do irmão. – Vai, Leninha. Escove os dentes, lave o rosto e
venha tomar café rápido. Eu te levo.
Cirino respirou aliviado.
Dona Elza estava inquieta, preocupada, o
natal estava chegando e ela sabia que seria difícil
comprar
presentes para os filhos.
Dona Elza aproveitou que Cirino estava no
jardim e Leninha e Pedro haviam saído para
conversar com a mãe.
--- Não sei o que fazer, tudo que eu quero
comprar tem que ser para pagar depois e isso está complicando.
--- Explique para eles que você não vai poder
dar presentes.
--- É muito chato, mamãe. O aniversário da
Leninha é depois de amanhã e eu não posso fazer nada, já está chegando natal,
ano novo. E o pior é que ela ainda acredita em Papai Noel.
--- Eu tenho um trocado do vidro de xarope
que vendi, vê se dá para comprar uma boneca para ela. Eu sei que o que ela mais
quer é aquela que chora.
--- Eu sei, mamãe. Eu vejo o brilho nos olhos
dela quando a gente passa em frente à loja da Rosa. Vou pedir para a Rosa
guardar uma para mim. Se o dinheiro não der, eu pago depois.
--- Eu faço mais xarope e vendo.
Dona Elza gostava muito da mãe, não sabia se
teria conseguido Aprumar-se se ela não
tivesse dado tanto apoio.
Dona Ruth já caminhava devagar, as pernas não
estavam mais tão firmes, mas tinha uma mente lúcida, sabia das coisas.
--- E o aniversário dela? O que vamos fazer?
--- Eu faço um bolo, compro suco e chamo uns
coleguinhas. Eles brincam no circo e o tempo passa.
--- Pelo menos não passa em branco.
Leninha aguardava o dia de seu aniversário
cheio de ânimo. Brincou o dia inteiro com Lili e Soraya. O assunto maior além
de seu aniversário, era a doença de Vandinho.
--- Doença nada! – dizia Lili. – Ele está com
a coisa ruim no corpo.
--- Também já pensei nisso. – Dizia Leninha.
A madrinha as chamou para tomarem suco, já
tinham almoçado há muito tempo, deveriam estar com sede.
--- Fala com a comadre Elza que eu vou lá na
casa de vocês depois de amanhã. Não se preocupe com nada, que o bolo eu vou
levar.
--- Oba! – gritou Leninha correndo para
abraçar a madrinha. – Obrigada madrinha.
Dona Santa adorava aquela menina. Via nela
muita disposição para a vida e faria de tudo que estivesse ao seu alcance para
vê-la feliz.
--- Madrinha. – chamou leninha depois que
tomou ao suco.
--- Oi.
--- Será que o Vandinho está mesmo com o
coisa ruim no corpo?
A madrinha ficou séria, não fugiu do assunto.
Lili e Soraya prestavam atenção na conversa.
--- Ainda não se pode dizer nada, minha
filha. Temos que rezar muito para afastar os maus pensamentos. Vandinho é um
menino muito levado, mas vai ficar bom.
--- Se depender de nós ele vai ficar bom, a
gente está rezando muito por ele. – Disse Lili.
--- Pois está bom. Agora vão se limpar que
leninha não pode ir embora de noite.
--- Eu já vou madrinha, eu tomo banho lá em
casa.
--- Então vai, eu fico olhando você virar a
esquina da sua casa.
--- Não tem perigo, mamãe pediu pra eu não
ir lá no grupo, e pra lá eu não vou.
Chegando em casa, Leninha contou à mãe que a
madrinha ia levar o bolo para o seu aniversário.
Dona Ruth ficou aliviada, pois assim tinha
certeza que a neta teria um bolo de aniversário.
Todas as noites as famílias continuavam
rezando por Vandinho. No último encontro na igreja, ele ficou sentado em um
banco da frente, estava mais calmo. Leninha não gostava do jeito que ele olhava
pra ela, sentia um arrepio na espinha, como se algo muito ruim tocasse a sua
alma.
“Deus é um ser tão bom que não vai deixar
nada de ruim me acontecer. Eu quero fazer tanta coisa em minha vida, quero
conhecer a cidade grande, ser tão feliz. Jesus proteja a minha alma e meu
espírito e afaste este mal para bem longe de mim e de todos aqui presentes.” --
pedia Leninha.
Capitulo dezenove
Ela não conseguia acreditar que aquilo estava
acontecendo. Não tinha convidado ninguém , porque sabia que a sua mãe não
estava em condições de preparar uma festa. Sabia que a madrinha ia, mas todo
mundo chegando assim junto a deixou emocionada.
Foi chegando Marcelo, Eliza, Sônia, Leonardo,
Daniel, Cláudia, a madrinha, as filhas e até o Tarzan com o irmão.
Os olhinhos dela brilhavam e ela agarrou o
pescoço de Tarzan e começou a chorar.
Eles preparam uma verdadeira surpresa para
Leninha. Ninguém esquecia o aniversário daquela garotinha que todos adoravam.
Chegaram cada um com um embrulho na mão e um prato de doce e salgado, até
refrigerante tinha.
Foram os dois amigos de Cirino, os filhos do
pastor que levaram os refrigerantes, estavam geladinhos.
Ela ganhou tanto presente que nem acreditava,
parecia um sonho. Leonardo lhe deu um relógio, o primeiro relógio da vida dela.
Ganhou panos para fazer roupa e até uma saia plissada pronta.
“Que noite linda! É claro que Deus existe.” –
pensava a aniversariante.
Dona Elza não sabia como agradecer a todos
tanta alegria que eles estavam dando à sua filha.
Agora, graças a Deus era pensar em preparar a
noite de Natal. Ia ter presépio feito por dona Elza e sua amiga e comadre
Antônia.
Dona Antônia tinha a cintura tão fina que até
parecia uma tanajura, era esse o pensamento de todos. Ela era a esposa do
eletricista da cidade, era muito distinta, uma dama, de uma educação rara.
Sabia fazer tantas coisas bonitas, era ela que sempre tinha as idéias para a
decoração de quase todas as festas da cidade.
Ela tinha uma filha única com dezesseis anos,
uma menina fina igual à mãe, tanto no corpo, quanto na educação. Ela era linda,
tinha os cabelos loiros e lisos, cortados até os ombros, só andava de saia ou
calça bem apertada na cintura para ficar ainda mais bonita. Ela estava sempre
junto da mãe. Dona Elza tinha batizado a menina, por isso, gostava muito dela,
além de ser amiga da sua mãe. Era com essa comadre que ela conseguia conversar
sobre todos os seus problemas de uma forma clara, além de sua mãe, é claro.
Elas estavam na igreja planejando os arranjos
do presépio, Pedro e Leninha também tinham ido.
Leninha reparava o quanto Pedro olhava para
Izabel, parecia que não a via há tanto tempo. Eles foram praticamente criados
juntos.
“Será que eles estão querendo namorar? Ela
finge que não está olhando, mas quase toda hora fica dando uma olhadinha por
baixo.” – pensava Leninha.
Pedro pegou um papel e ficou desenhando mais
ou menos os pensamentos da mamãe e de dona Antônia para o presépio, ia ser
muito bonito.
No domingo, Marcelo propôs aos meninos do
catecismo para ensaiarem um tema e fazer um teatro à meia-noite no dia vinte e
quatro. Eles gostaram muito da idéia, Leninha ia ser Maria.
Até que enfim parecia que ia ter paz naquela
cidade. O pastor conseguiu quebrar o mal que atormentava Vandinho.
Leninha lembrava daquela noite de arrepios:
“Foram todos à igreja Batista, até Marcelo e
o padre estavam lá. Vandinho parecia calmo, de repente levantou e começou a
torcer no chão. Falava umas coisas que ninguém entendia, correram cinco homens
para segurá-lo, mas ele jogou seu pai por cima do banco, quase quebrando sua
coluna e o pastor começava a gritar:
--- Saia desse corpo, venha para o meu,
porque sou mais forte de espírito e tenho armas para te combater. Saia dessa
criança, criatura do mal.
As mulheres começavam a cantar hinos
católicos. Leninha ajoelhou em um canto, pôs as mãos a posto, rezava tanto em
sua mente, que por um momento sentiu-se como se seu corpo tivesse levantado
dali e ido para um lugar distante, cheio de luz e paz. Pediu a Deus para levar
o mal embora dali e que desse paz a todos. Quando abriu os olhos, Vandinho e o
pastor estavam desmaiados um enfrente ao outro, como se tivessem acabado uma
luta.
Todos na igreja estavam petrificados, dona
Elza chegou perto da filha e a abraçou com força, parecia algo acontecera, mas
Leninha não entendeu porque no momento exato estava de olhos fechados.
O prefeito pegou a Comby da Prefeitura e
levou Vandinho e o pastor para o hospital de Mantena. Eles estavam
desacordados.
Foram todos para casa. Mais tarde, Leninha
ficou sabendo que quando o pastor pediu para o mal ir para ele, porque ele era
mais forte, houve uma espécie de explosão entre os dois e um calor vermelho
saiu pelo teto da igreja.”
Leninha tentou descrever a história em sua
imaginação.
“Será que tudo isso ocorreu enquanto eu
rezava?” – pensava Leninha -- “Mas, é claro que eu consegui, Deus me ouviu, eu
sou forte, Deus é meu amigo. Eu sei que posso conseguir tudo, é só ter o
pensamento forte. Não vou falar isso pra ninguém, vou deixar todo mundo achando
que foi o pastor que conseguiu arrancar aquilo do Vandinho. Eu sei que foi eu e
meu amigo do céu.”
--- Obrigada, Senhor. – falava Leninha
sozinha.
A coisa mais bonita que existe nesse mundo é
a época de Natal. As pessoas ficam felizes, parece que o mundo entra numa só
harmonia, tudo parece cair do céu e chegar às pessoas com mais facilidade.
Aquela cidadezinha estava assim, Vandinho
ficou mais uns dias no hospital, mas, a notícia que se tinha é que ele estava
bem, estava meio bobão, mas quase conseguia conversar direito. O pastor estava
pronto pra outra, pelo menos, era o que os moradores dali diziam. Ele já estava
fazendo seus cultos com a igreja cheia de novos protestantes que o consideravam
um herói.
A missa do galo ia ser depois da
apresentação de teatro. As crianças fizeram tudo direitinho. Foi uma maravilha
quando voltaram para casa, o presente de Leninha estava em cima de sua cama.
--- Ele lembrou de mim! – correu pegando o
embrulho.
Cirilo foi correndo atrás dela.
--- Ele quem?
--- Papai Noel. Ele trouxe presentes. Olha!
Corre! Vamos abrir!
--- Não foi Papai Noel, sua boba. Foi a
mamãe, eu vi ela comprando na loja da Rosa.
Dona Elza veio entrando e ouvindo a
conversa. Os olhos de Leninha estavam cheios de lágrimas.
--- É mentira! É mentira! Eu sei que foi o
Papai Noel.
Dona Elza abraçou a filha repreendendo Cirilo.
--- Não chore, minha filha. Você sabe que se
não fosse Papai Noel, não teríamos condições de comprar estes brinquedos.
Vamos, abra. Vamos ver o que é.
Ela enxugou os olhos, abriu o pacote. A
boneca, ra a mesma boneca que ela sonhava tanto e com um lindo vestido feito
por dona Ruth, todo de renda. Ela não agüentou de felicidade, que até esqueceu
o que Cirilo tinha falado. Dormiu abraçada com “sua amiga”.
Cirilo ganhou um caminhão de madeira que dava
para brincar de rolimã, feito por Pedro. E Pedro ganhou uma Bíblia nova, que o
bispo mandou entregar.
Capitulo vinte
Dona Ruth andava muito cabisbaixa, estava
preocupada com a filha, as coisas estavam apertando muito de novo, ela entendia
que Pedro não parecia querer voltar para o seminário.
--- Vovó, eu queria tanto ficar aqui e
ajudar a mamãe. Sou um homem, posso trabalhar no cartório ou na prefeitura,
este ano que estive no seminário aprendi datilografia e muitas outras coisas
que poderia ser útil. – dizia ele.
--- Sabe, Pedrinho – falava pacientemente
dona Ruth. – é por isso mesmo que sua mãe quer que você volte pra lá, é para
você estudar e poder mais tarde ser alguém na vida.
--- Mas isso, eu posso fazer aqui, eu estudo
à noite e trabalho de dia, o seminário é uma prisão, não sei se agüento voltar
para lá.
Pedro não sentia nenhuma vocação para ser
padre, ficar trancado o dia todo, aliás, o tempo todo. Ainda mais com uma
menina tão bonita ali por perto, Izabel, como ela estava bonita, que vontade
ele sentiu de pegar na mão dela, beijar aquela boca. Como uma pessoa que queria
ser padre poderia pensar em uma mulher daquele jeito? Sentia vontade de trocar
idéias com Marcelo, mas também sentia reprimido, tinha medo de magoar sua mãe.
Enquanto isso, tudo estava ótimo para
Leninha. Como ela estava sentindo diferença em seu corpo. Encheu o tanque para
tomar banho, tirou a blusa, olhou para os seus seios e levou um susto, eles
estavam mais duros, passou a mão e sentiu uma dorzinha, resolveu tomar banho de
blusa, não queria que ninguém a visse nua, sentiu vergonha.
Dona Elza gostava muito do ano novo,
preparou um frango recheado com farofa, ganhou dois patos dos primos e recheou.
Iam todos para a fazenda, à noite os primos estouravam fogos de artifício e
faziam aquela festa.
Leninha calçou o sapatinho de salto, lavou
os cabelos e vestiu seu vestido novo que a madrinha deu no seu aniversário.
Ela se sentia como uma princesa, ficar ao
lado do primo Tarzan era sua maior alegria. Queria que ele notasse como ela
estava crescida, como já tinha ar de moça.
Pedro convidou Marcelo para ir com eles, o
padre Mário reclamou um pouco, mas concordou, pois afinal, o rapaz precisava
sair e se divertir um pouco também.
Eles iam dormir lá mesmo.
À meia-noite teve estrondo dos foguetes.
Pedro estava elétrico, tinha bebido uma mistura que os primos fizeram. Leninha
sentou entre Tarzan e Marcelo para a ceia. Eles a tratavam como uma verdadeira
princesa. A mesa estava repleta de coisas gostosas.
A prima Ana, mãe de Tarzan, era uma mulher
muito caprichosa, tinha uma mão para fazer as coisas que dava gosto.
Eles colocaram luzes no quintal da frente da
fazenda perto do riacho, enfileiraram quatro mesas. Os filhos estavam todos
reunidos, aquilo que era felicidade! Dona Ruth que não quis ficar no sereno, ficou
olhando para eles da varanda, mas se sentia muito bem, gostava de ver a filha e
os netos felizes, pelo menos ali dona Elza esquecia dos sofrimentos da vida.
Tinha até música. “ Que noite boa.” –
pensava Cirino.
Leninha não tirava os olhos de Tarzan,
sentou bem pertinho dele, queria tanto que ele pegasse em suas mãos e a tirasse
para dançar. De vez em quando o braço dele roçava no braço dela, ela sentia uma
coisa tão boa, como se estivesse uma formiguinha em todo o seu corpo.
Definitivamente, ela compreendeu que por tudo o que Sônia lhe contava de
romances, ela estava apaixonada por Tarzan.
Encostou a cabeça em seus ombros, sempre que
fazia isso ele passava a mão em seus cabelos e a carinhava.
--- Está com sono? – perguntou
carinhosamente.
--- Ainda não, vou ficar acordada até o sol
aparecer.
--- Você não agüenta.
--- Quer apostar?
Ele a olhou nos olhos, ela sentiu que o
olhar dele estava diferente, seu corpo tremeu, sentiu o cheiro de se hálito bem
perto do rosto dela, ele ia lhe beijar... e a beijou, um beijo carinhoso na
testa.
Marcelo observava como se entendesse tudo
aquilo. Pedro continuava alegre, já estava até dançando. Dona Elza pediu ao
primo para não dar mais bebida a ele, pois ele era fraco e poderia passar mal.
E não deu outra, quando todos resolveram se recolher lá estava Pedro quase
jogando as tripas pela boca.
Cirino morria de rir.
--- Lá vai ele chamar o Juca. Juca! – gritou
Cirino.
A prima Cida correu a fazer um café amargo
para ele beber foi um custo, mas conseguiu.
Por fim, todos conseguiram dormir. Dona Elza
e a prima não dormiram muito, acordaram cedo e cuidaram de tudo. Quando o
pessoal conseguiu levantar já tinha café fresco, leite morno, queijo, biscoito
de polvilho e pão feito em casa.
--- Melhorou, Pedro? – perguntou Marcelo
vendo ele andar meio bambo.
--- Maia ou menos, minha cabeça está
rodando.
--- Vamos dar uma volta, tomar ar puro. –
convidou Marcelo.
--- Tomem café primeiro. – recomendou a
prima.
Nisso veio chegando Tarzan.
--- Vou andar com vocês também.
--- Posso ir com eles, mamãe? – pediu
Leninha.
--- Não, filha. Eles são homens, precisam
conversar e vão longe.
--- Que pena! – protestou Leninha.
Tarzan a pegou por debaixo do braço e a
jogou lá em cima.
--- Depois eu te levo para andar de cavalo.
--- Oba!
Dona Elza observava o carinho dos dois,
sentia aliviada por saber que sua filha era tão querida.
Aquele era o primeiro dia de um ano que ia
começar e as esperanças a raiar junto com ele.
A família de dona Elza ficaria com os primos
até depois do almoço, depois iriam embora de caminhonete.
Capitulo vinte e um
Pedro desabafa com Marcelo, eles conversaram
muito tempo, Tarzan ficou ouvindo e entendia como era difícil para ele ter que
seguir uma vocação que não tinha.
--- Conversa com sua mãe, eu sei que ela vai
entender. – dizia Tarzan.
--- É tão difícil, Tarzan, vou te chamar
assim, já que Leninha o batizou assim. Afinal, qual é o seu nome? – perguntou
Marcelo.
--- Douglas.
--- Puxa, é até um nome bonito.
--- É que a Leninha desde pequenininha via
os filmes de Tarzan e me acha parecido com ele. Ela diz que eu sou selvagem,
mas muito doce. Vê se pode uma coisa dessas.
--- E você até que gostou, né? – riu
Marcelo.
--- Pois é, o apelido pegou. Ninguém mais me
chama de Douglas, nem meus pais. Agora, voltando ao assunto do seminário, deixa
Pedro, eu vou pedir ao papai, ele tem jeito. Vou explicar a ele que você não se
acha pronto para ser um religioso, sei que ela vai deixar você ficar.
--- Tem que ser rápido, senão vou ter que
viajar daqui a três dias.
--- Hoje mesmo resolvemos.
--- Obrigado, Tarzan. Além de primo, você é
um amigão.
--- E você, Marcelo, tem vocação para padre?
--- Não sei, para ser sincero até hoje eu
não sei. Eu fui para o seminário porque meus pais morreram, o padre me tirou do
orfanato e cuida de mim desde garoto. Não quero decepcioná-lo.
--- Aí é que está o problema, Marcelo. –
disse Pedro sentando mais à vontade perto do riacho.
--- A gente – continuou – preocupa muito em
não magoar quem cuida da gente, mas e depois se fizermos agora o que os nossos
protetores , com certeza vamos fazer o mesmo com os nossos filhos, pois vamos
quere que eles sejam alguma coisa que não conseguimos ser e aí vai embora.
--- Te
entendi, aí todos nós acabamos tristes, infelizes, sem realizar nossos sonhos.
--- É isso aí.
--- Agora me dizem uma coisa vocês dois. ---
disse Tarzan. --- E mulher? Vocês pensam ou não nelas?
--- Pedro disse que está apaixonado. – disse
Marcelo.
--- Tá vendo? E você Marcelo?
Marcelo riu sem graça.
--- Penso sim, mas não quero.
--- Dois marmanjos que nunca tiveram mulher
nos braços. – riu Tarzan.
--- E você? Teve quantas? – perguntou Pedro.
---
Eu... eu... – engasgou.
--- Tá
vendo? Não fala de nós. Você não é padre e nem por isso teve mulher.
--- Já tive, sim. – disse sem graça.
Marcelo e Pedro se interessaram.
--- Foi uma menininha meio doida, que veio
passar as férias na casa da minha irmã o ano passado, essa meninas de cidade
grande, vocês sabem como é. Acabou me puxando pro meio do mato.
--- No mato? – perguntou Pedro
superinteressado.
--- E aí? – perguntou Marcelo.
Tarzan pegou um capim ,começou a comer,
deitou na grama.
--- E aí que eu virei homem, ué!
Marcelo e Pedro riram dele.
--- Isto é ser homem? – perguntou Marcelo.
--- Pelo menos é assim que eu escuto, que
nunca seremos homens sem conhecer mulher.
--- Eu nunca quero assim. – disse Pedro. –
Quero uma mulher, mas que eu a ame.
--- Eu também quero, Pedro, por isso, tinha
vergonha de contar isso, não foi bom, acho que fazer sexo sem amor é sujo. É a
mesma coisa que ficar olhando cachorro trepando em cadela.
--- Que comparação, Tarzan! – disse Marcelo.
--- Mas, é isso mesmo! Um dia você repara,
ele chega, cheira e manda brasa. Nem conhece, depois pega outra e ela também
aceita outro. É muito feio.
--- Nós três aqui, estamos parecendo mulher
quando se junta. Acho que estamos tendo uma conversa de virgenzinha. – riu
Pedro.
--- Mas, é isso mesmo. Homem também pensa na
primeira vez. Às vezes, na pensa porque é posto diante de uma mulher e tem que
provar sua macheza. – disse Marcelo. –
Ouvi isso do padre Mário um dia.
--- Gostei. -- disse Tarzan. – Às vezes,
arrependo de ter acompanhado aquela menina pro mato, mas eu esqueço. É só não
ficar lembrando. Quero casar e cuidar bem da minha menina.
--- Leninha? – perguntou Marcelo.
--- Que déia! – disse Pedro. – O que a minha
irmã tem a ver com isso?
--- Nada, é que parece que ela olha Tarzan
tão deslumbrada.
--- Você fica com ciúmes, Marcelo? –
perguntou Tarzan.
--- Não, só que você vai ter que cuidar
muito bem dela.
--- Não estou entendendo, vocês estão
olhando pra minha irmã? Falando dela assim na minha frente. Um estudante de
padre, outro meu primo. Leninha é só uma menina, tem dez anos. – protestou
Pedro.
--- Está crescendo. – disse Tarzan – É
linda, além do mais eu sou primo distante.
--- Então, você pensa mesmo nela. – disse
Marcelo com um sorriso triste.
Tarzan não respondeu, levantou e foi
andando.
--- Vamos andando também, senão não dá tempo
de falar com papai sobre Pedro.
Eles levantaram e o acompanharam. Marcelo
passou a mão pelo rosto enxugando uma lágrima que teimava em cair.
Até
que enfim Pedro suspirou aliviado. A mãe concordou dele ficar e arrumar um
emprego, se não desse certo eles pensariam em fazer outra coisa.
Capitulo vinte e dois
Que pena! Mas o dia acabou e à tarde eles
voltaram para casa.
Domingo Leninha, Sonia, Claudia e Eliza
deixavam tudo limpinho para receber os bebês que as mães deixavam com elas
enquanto assistia a missa.
Cada bebezinho mais fofinho que chegava,
elas ficavam deslumbradas, aqueles quarenta minutos a uma hora de missa era o
sonho delas. Enquanto cuidava das crianças elas aproveitavam para brincar que
elas eram a mãe deles.
Uma menininha chegou na porta e ficou
olhando lá pra dentro.
--- Leninha, não vire rápido, mas tem uma
menina suja na porta, o que vamos fazer?—perguntou Sonia para a amiga.
Leninha virou devagar.
--- Oh! Meu Deus é a Delícia!—exclamou.
--- Delícia!—assustou-se Sonia.
--- É uma menina que mora na favela?--veio
chegando perto Claudia.
--- Coitada, ela é muito pobre.--disse
Eliza--E eu também a conheço, ela também já foi lá em casa pedir coisas.
Elas chegaram perto da menina.
--- O que você quer?--perguntou Claudia.
--- Nada, só estou olhando vocês.—respondeu
de cabeça baixa.
--- Sabe Delícia, eu não vou mandar você
entrar, porque você esta um pouco suja e os bebes estão quietinhos e
limpinhos.--disse Leninha.
--- Eu sei ,não tem importância. Eu só quero
ver vocês mesmo.
--- Está bem, domingo que vem se você tomar
banho eu deixo você entrar um pouquinho.
--- Deixa mesmo?
---- Deixamos.—responderam em coro as
meninas.
Mais uma idéia tinha parado na cabeça de
Leninha, só que ela ia precisar pensar uma maneira de fazer a mãe deixar ela
realizar isso.
Alguma coisa estava acontecendo, musica alta
assim tão cedo.
Cirilo e Leninha correram para a praça da
igreja para ver que novidade era aquela. A meninada toda da cidade estava lá em
volta da caminhonete. Era uma caminhonete toda cheia de desenhos, com
altos-falantes. Eles anunciavam que ia chegar um circo na cidade. Vieram ver
que lugar poderia ser armado a lona e se o prefeito autorizava a armação para o
espetáculo.
O coração de leninha quase soltava do peito
de tanta alegria era isso que estava faltando em suas férias.
Eles foram correndo atrás da caminhonete até
a prefeitura. Enquanto o dono do circo conversava com o prefeito, ele faziam a
maior festa ao som da musica. E claro que o prefeito autorizou, o circo seria
armado num terreno atrás do grupo, lá tinha um espaço enorme.
Boa chance para Leninha dar uma fugidinha e
ir até a casa de Delícia. Ela pediria a mãe para ver o circo ser armado,
pediria a Lili para ir com ela, e descobririam a casa da menina.
Dona Elza resmungou, mas acabou deixando
Leninha ir ver o circo ser armado.
Veio chegando tanta coisa, dois caminhões
grandes, cheios de coisas. Leninha ainda não sabia como se chamava, mas depois
acabou descobrindo que aquilo que a caminhonete puxava era um trailer, uma casa
de rodas, onde os donos do circo dormiam.
Cirilo estava junto com Wagner, um dos filhos
mais velho do pastor que conhecia muitas outras cidades. Eles sentaram perto de
Lili e Leninha e ia respondendo tudo que os meninos perguntavam, era muito
inteligente e respondia calmamente.
--- Porque eles usam tanto ouro assim no
pescoço? ---quis saber Leninha.
--- Eles são meio aciganados. --respondeu
Wagner.
---Como assim?—perguntou lili.
--- É que esse povo de circo viaja muito e
viajantes assim sem um lugar fixo acaba sendo cigano mesmo. Repara como eles
conversam uns com os outros, a gente não entende nada.
Leninha ficou quieta para ouvir um pouco.
Tinha uma média de dez pessoas adultas e umas cinco crianças.
Pareciam meio sujas, as mulheres usavam saias
rendadas e cheias de babados, tinha duas mais moças com blusas caídas nos
ombros, cabelos compridos, muito bonitas. Os homens estavam sem camisas, tinham
músculos, eram fortes, certamente seriam trapezistas. As crianças também
ajudavam a descer coisas do caminhão. Realmente Leninha não conseguiu entender
nada do que eles falavam uns com os outros, pareciam que falavam cantando. Até
o homem que veio na frente falar com o prefeito estava falando diferente.
--- É realmente engraçado.—disse Leninha.
--- São meio
italianos, por isso falam cantando.
--- Então o
Marcelo sabe o que eles falam?---perguntou Cirilo.
--- É bem capaz
que não, porque o italiano deles e misturado com outras línguas. É um código
que eles mesmos inventaram para ninguém
entender quando estão entre si.
---Então quer dizer que eles não gostam da
gente?--perguntou Lili.---Então, por que trabalham em circo?
--- Eles gostam é de dinheiro e são
trabalhadores. Agora a gente que tem tomar cuidado porque eles gostam de vender
ouro, muitas vezes falso.
---Vamos embora , Leninha. –pediu Lili um
pouco com medo.
---Vamos ficar mais um pouquinho, daqui a
pouco a gente vai.
Cirilo e Wagner foram olhar do outro lado
onde eles já tinham começado a furar o chão para armar uma barraca para eles.
Leninha chamou Lili par irem andando até o
morro, ela concordou e elas foram andando. Hoje ela ia descobrir a casa de
Delicia.
Rodearam o grupo, correram um pouco,
começaram a subir o morro, passaram de frente a cadeia correndo, avistaram de
longe a casa onde ficava as mulheres que dançam. Haviam duas na porta, uma
estava só de calcinha sem blusa, com os peitos de fora, a outra dançava com um
cabo de vassoura. Riam alto. Leninha sentiu medo, segurou firme a mão de Lili e
continuaram o caminho.
Era longe e o morro não acabava. Passaram
por trás do cemitério para encurtar o caminho, começou a aparecer umas poucas
casinhas feitas parecia só de barro e eram pequenas. Haviam uns meninos
brincando na rua, descalços, com os narizes escorrendo catarro amarelo. Lili
pediu para sentar um pouco, estava cansada.
Um menino aproximou dela.
----Vocês estão perdidas aqui?
----Não, a gente veio procurar a Delicia,
você conhece ela?----perguntou Leninha.
---Conheço todo mundo aqui.---respondeu o
menino.---Vocês são amigas dela?
----Somos.
---- É a terceira casa, aquela que tem margaridas
na porta.
---Obrigada, vamos lá.
---Eu levo vocês.
Elas levantaram e foram. A porta da casa
era limpinha e tinha um canteiro com flores e uns pés de cebolinha. Bateram
palmas.
---Chegou na janela uma senhora com um lenço
na cabeça.
---Delicia está?--perguntou Leninha.
---Estou.---respondeu uma voz lá de dentro.
Ela chegou a cara na janela.
--- Mamãe, é a menina que eu falei com a
senhora. É minha amiga, a Leninha e a Lili.
Correu a abrir a porta. Ela estava que era
sorriso puro e a mãe mandou as meninas entrarem. Tinha só dois cômodos, eles
dormiam na sala e tinha uma cozinha com um fogão a lenha, tudo asseado,
branquinho. “ Com certeza eles usam barro branco”. –pensou Leninha.
Delicia ficou tão feliz de ver as meninas que
acordou o irmãozinho que dormia de barriga para cima. Tinha um nenenzinho
embrulhado nos cobertores, tão pequenino que mal dava pra ver que era um neném.
---Nossa, você tem mais um irmãozinho? ---perguntou Lili.
---Não, é uma menininha. Nasceu tem uns
quinze dias, mamãe ainda está um pouco fraca.
---Posso ver? –pediu Lili.
A mãe de Delicia pegou o neném e trouxe para
perto das meninas.
---Que gracinha, como se chama?—perguntou
Leninha.
---Ainda não coloquei nome.
----Tomara que não seja Primor. ---riu
Leninha.
---Dona Maria riu também.
---É que não tenho muita cabeça para nomes,
vou deixar Delicia dar o nome para ela.]
---Eu ia pedir para ser Maria Helena, porque
é a menina mais linda e boa que eu
conheço.
Leninha riu sem graça.
--- A gente te ajuda a colocar um
nome.---disse Lili.
---Por que, Lili? Ficou com ciúmes dela ter
o meu nome?
----Não, é que vai ser difícil aguentarmos
duas Leninhas.
Elas riram.
Dona Maria ofereceu café com leite para as
meninas, elas aceitaram para não fazer desfeita.
---Temos que ir, está ficando tarde e é
longe.
---Eu vou com vocês até no grupo. –ofereceu
Delicia.
As casas daquela pequena vila ficavam quase
dentro umas das outras, o único espaço que tinha Delicia fez um canteiro. A mãe
dela explicou que ela achou tão bonito o canteiro da casa de Leninha que acabou
fazendo um e aproveitou para plantar cebolinhas que podia vender e ganhar o
dinheiro do pão.
Lili disse que ia pedir a mãe umas roupas do
irmãozinho para dar a irmãzinha de Delicia.
---Vou pedir a mulher do Rui também, Lá tem
neném.
Dona Maria agradeceu o carinho das meninas.
Foram andando. Tinha tanto menino naquele
lugar, que Leninha ficou assustada.
--- Por que vocês não vão à escola? ---perguntou Leninha.
--- A gente começa o ano, mas depois
desanima. Fica com vergonha, às vezes não temos calçado nem para ir a escola,
ai e melhor ficar em casa mesmo, e sair na rua pedindo.
---Mas vocês têm que fazerem alguma coisa
para melhorar isso, se não o que serão quando crescerem?
----Não sei, é tão difícil, Leninha, você
nem imagina. Às vezes a gente acorda, não tem nada para comer.
----Eu sei sim, eu também sou pobre. Mas eu
vou a escola.
----Sua mãe é professora.
Leninha calou, apesar das dificuldades em
casa, não podia reclamar tanto da vida.
----Você sabe ler?---perguntou Lili a
Delicia.
---Não, não sei nada.
----Você não tem medo de passar perto da
casa daquelas mulheres?
----Não, elas são amigas da gente.
----Amigas?
---perguntou Lili.
----E você nem imaginam o quanto elas ajudam
a gente.
---Então elas não são ruins?----perguntou
Leninha.
---A mamãe disse que elas foram moças que os
pais tocaram de casa porque os namorados fizeram mal a elas e não casaram.
Leninha não entendia muito disso, nem Lili,
nem mesmo Delicia. Só ouviam o que os mais velhos diziam e não perguntavam
mais.
Andaram depressa para chegarem no grupo. Os
pés doíam.
----Até amanhã, Delicia. ---despediram-se e
foram embora depressa, o dia estava quase acabando. Passaram perto do circo, a
barraca já estava de pé e Cirilo e Wagner já tinham ido embora.
Despediu de Lili de frente da casa dela e
correu para casa..
---Cadê Cirilo? ---perguntou dona Elza.
---Estava com Wagner.
---E você?
---Com Lili.
---Acabaram de montar o circo?
----Só a barraca deles. A lona do circo é
grande, devem gastar uns dois dias para furar os buracos.
---Ah bom! Vou esquentar sua água. Está
suja, vai tomar um banho.
“Ufa!—pensou Leninha---ainda bem que a mãe
não disse que tinha demorado”. Depois ia contar que tinha ido na casa de
Delicia, mas tinha que ser depois....porque tinha medo de ficar de castigo.
Dona Ruth tinha saído, tinha ido na casa de
Sonia fazer um chá, ela estava gripada. “De novo” ---pensou Leninha.
E o dia tinha sido de emoções. Aprendeu
tanto.
A mãe ia dar aula e o jantar estava
cheirando. Não tinha carne, mas aquele cheirinho de feijão afogado era tão bom,
sopa de taioba com fubá e ovo. Que delicia!.
O que salvava muito aquele povo era a
bondade do pai de Eliza que deixava os mais pobres pegar um litro de leite
todas as manhãs na porta da casa dele. Tinha um empregado que trazia a carroça
da fazenda com leite fresco.
---- Este homem era o merecedor do céu.--
dizia dona Ruth todo dia quando pegava o leite.
Todo dia antes de ir para a porta da casa
de Eliza ele deixava dois litros para dona Elza. Era ordem do patrão e ele
cumpria orgulhoso, estudava com dona Elza á noite e estava aprendendo muito.
A maioria dos alunos de dona Ruth era gente
simples que não teve oportunidade de estudar e agora se esforçavam para
aprender a ler e escrever e dona Elza era a bondade em pessoa para fazer isso.
Capitulo vinte e quatro
Eliza estava cada dia mais bonita, já era
uma moça por completo. Leninha escutou isso da boca de sua madrinha. Foi
passear com Sonia na casa de Lili.
---Chegaram dois filmes novos---disse Lili
---- Quais?—quis saber Leninha.
---Um faroeste e o outro não sei ainda,
papai vai começar a passar domingo.
----Oba! Quero ser uma das primeiras a ver.
Cinema era uma coisa que Leninha mais
gostava.
Elas ficaram brincando. Sônia parecia um
pouco sem cor.
---Ontem tive febre, mamãe deixou eu vir só
um pouco.---Disse Sonia.--- Ela disse que seria bom para pegar um ar, mas não
posso ficar muito, tenho que tomar remédio.
---Tomara que você não tenha que ir ao
hospital.—disse Lili.
---Tomara mesmo.
---Será que da para irmos na casa de Eliza um
pouco?---Perguntou Leninha.
---A Eliza ta tão chata, ontem eu fui lá ela
nem quis brincar, a mãe dela disse que ela estava de repouso, estava com
cólicas.
---Cólicas?---Perguntou Leninha.
--E eu perguntei a mamãe o que era isso, e
ela me disse que era coisa de moça. Eliza tinha ficado moça.
---Moça então não pode mais brincar com a
gente.
---Só três dias, depois ela fica boa.
---Quando eu ficar moça, vou ficar de cama
também.---disse Sonia.
Elas riram não entendiam muito.
XXX
Depois da aula daquele dia bateram na
porta.
---Será que algum aluno esqueceu alguma
coisa?---Perguntou dona Elza levantando da cadeira que acabara de sentar.
Leninha e Cirino já tinham ido dormir. Dona
Ruth estava perto da filha e Pedro não tinha chegado do cinema.
---Vou ver quem é.—Disse Dona Ruth.
---Deixa mamãe, eu abro. Vai deitar, já é
tarde.
Dona Ruth caminhou até seu quarto e fechou a
porta, estava cansada.
Dona Elza foi até a porta da sala, estava
medo.
Abriu a aporta era o sr. Sebastião.
---Boa- noite. Desculpe o adiantado da hora,
mas preciso conversar com a senhora.
Ela já sabia que ele estava atrás de
dinheiro, não pôde pagar os juros daquele mês.
---Não tem importância, entre.
Ele entrou estava com um cheiro forte de
álcool.
Ela o levou ate a sala de aula para não
acordar as crianças.
Quando Pedro chegou, ele já tinha ido
embora. Dona Elza tentava arrumar as coisas na sala de aula, os olhos estavam
roxos de tanto chorar.
---O que a sra tem mamãe, estava chorando?
---Não, meu filho, só estou com sono e muita
dor de cabeça. Vou deitar. Boa-noite.
“Alguma coisa aconteceu”---pensou Pedro.
No outro dia ficou observando a mãe que
parecia estar numa mais completa agonia com ela mesma.
XXXI
Sonia mais uma vez foi para o hospital.
Desta vez parecia bem pior. Parecia que tinha desmaiado e os pais não estavam
conseguindo fazer ela voltar a si.
Leninha ficou sabendo da noticia de novo por
Vanda.
---Será que ela vai morrer? ---perguntou
Leninha a Vanda.
---Eu ouço dizer que ela não vai ficar
moça, que morre antes.
Leninha sentiu um arrepio e começou a
chorar.Vanda falava as coisas com simplicidade, parecia nem sentir o que
falava.
---Você não pode falar assim.—Disse Leninha.
---Eu escutei minha mãe falando com a mãe
dela, não tenho culpa, também gosto da Sonia, mas ficar vendo ela sofrer assim
é bem pior.
Leninha entendeu Vanda e a abraçou.
Desta vez ela ficou uma semana no hospital.
Voltou com uma carinha abatida e um sorriso
triste.
---Vou lá na casa de Sonia.---Disse para a
Avó
---Tome cuidado, não fica em cima dela,
depois você pega essa doença e sua mãe não tem recurso para correr com você
para o hospital igual a família dela.---Disse a avó para Leninha.
Ela saiu batendo a porta.
Ela entrou e Sonia estava sentada na cama
Abriu os braços para abraçar Leninha, ela lembrou da recomendação da avó, mas
abraçou assim mesmo.
---Você está melhor?—perguntou sentando perto
de Sonia na cama.
---Estou. Olhe só meu braço, tomei tanto
soro, tanta injeção. Não quero voltar nunca mais para o hospital. Desta vez eu
saro, você vai ver só.
Leninha ficou feliz.
---Então você vai poder ir ao circo?
–perguntou Leninha.
---Ai eu não sei. Tenho que ver com mamãe.
No sábado, ate que enfim o circo ia
estrear.
Eles levantaram a lona e montaram tudo
rápido, mas demorou dez dias para inaugurarem.
A caminhonete passava toda hora, tocando
musica e anunciando as horas do espetáculo.
---Nós podemos ir, mamãe?---perguntou Cirilo
e Leninha juntos.
---Não sei , não sei se o dinheiro vai dar.
---Deixa dona Elza, eu os levo e
pago.---Chegou Marcelo Pedro entrando no assunto.
---Oba!---Leninha pulou no pescoço de
Marcelo.
Este a abraçou de uma maneira especial. Ela
já estava tão crescida que ele só teve que levantar ela um pouco para ficar da
sua altura.
Dona Elza concordou.
Ela vestiu o melhor vestido, colocou fita nos
cabelos.
---Estou precisando comprar um soutien para
leninha.—Comentou com Dona Ruth assim que os filhos saíram.
---Minha, filha .—Disse pausadamente dona
Ruth.
---O que, mamãe.
---Desde aquela noite que o sr Sebastião
esteve aqui, noto você diferente. Aconteceu alguma coisa?
---Nada, mamãe. Só pedi a ele mais um prazo.
Vou ter que arrumar um outro empréstimo.
---Não, minha filha. O que será de nós!
---Não se preocupe mamãe, eu resolvo as
coisas. Deus me ajuda e eu vou conseguir.
Sonia não pôde ir ao circo Dona Neném não
deixou porque ela estava muito agitada.
Leninha contou tudo para ela, eles iam ficar
uns três meses na cidade, ia dar tempo dela ver o espetáculo depois.
Faltava pouco para recomeçar as aulas.
Afinal teve muita emoção naquelas férias.
Leninha ficou amiga de uma trapezista, ajudava ela limpar o circo e conseguia
entrar de graça.
Dona Elza não gostava, mas Lili estava
sempre com ela. Ouviam dizer que ciganos roubam crianças, mas elas acabaram
percebendo que isso era só boato.
XXXII
Leninha estava tão preocupada. Tinha certeza
que alguma coisa aconteceu com sua mãe, podia notar sua tristeza nos olhos.
Mas ela
não tinha coragem de perguntar nada sabia que era coisa de gente grande.
“Gente grande”.—Que bobagem pensava ela, só
fazia era complicar as coisas, tudo podia ser tão simples, pra que tanto
esforço para não chegar a nada, trabalho, trabalho, canseira e no final das
contas sempre a mesma coisa. Pra que? No final e tudo morte mesmo, tudo acaba,
não sobra nada.
Ela raras vezes sentia medo de alguma coisa,
desde aquilo que viu acontecer com Vandinho percebeu a grandeza da mente.
Queria ter o controle, se forte, assim como o Super_homem. Ficava horas e horas
tentando e pedindo a Deus para lhe dar alguma super força. Era ate engraçado
ela pegava os olhos com as pontas dos dedos e apertava com tanta força, ate ver
estrelas, daquelas estrelas ela mergulhava a onde queria, descobria coisa fazia
plano. Por isso sempre que sentia alguma coisa estranha ela fugia por esse
caminho. Quando voltava a realidade não é que parecia que alguma coisa mudava?
---Mamãe! Mamãe! Entrou gritando Pedro.
---Que é filho? Que gritaria é essa?
---Consegui emprego.
---O que?
---É mamãe, vou trabalhar na prefeitura, o
Sr. Joaquim pai da Eliza, me arrumou trabalho com o sr. Prefeito.
---Oh mau Deus!como posso agradecer esse
homem?---Dizia dona Elza.
Leninha ouviu tudo do quarto onde estava
deitada e pensava.”---Obrigada meu Deus, eu sabia que o sr nunca iria me
faltar”.
Saiu correndo do quarto e foi abraçar o
irmão.
---Oba! Pedrinho, agora você vai poder me
pagar uma entrada no cinema de vez em quando.
---Claro meu amor! Claro!.—Dizia ele enchendo
ela de beijos.
Dona Ruth também ria satisfeita sentada na
cadeira perto da porta da cozinha.
Pedro iria trabalhar na secretária da
prefeitura, tinha uma letra muito bonita e sabia datilografia.
As aulas recomeçaram, este ano dona Elza só
ia trabalhar pela manhã, estava esperando a aposentadoria, a tarde ia dar umas
aulas particulares e a noite continuaria a ensinar os mais velhos.Tinha que
juntar tudo que podia para saldar aquelas dividas que a atormentava.
O medico pediu para dona neném deixar Sonia
mais quieta, por isso dona Elza ia dar aulas para ela em casa, assim ela não
perderia o ritmo até voltar as aulas novamente.
Leninha iria estudar pela manhã.
A turminha estava toda de volta.
Claudia, Lili , Leonardo, Eliza....
Leninha...
Leonardo continuava a insistir em querer
ficar perto de Leninha. “Ele agora estava tão diferente”. Pensava
leninha.—Tinha ido para a quinta série, estava mais alto, os olhos verdes dele
pareciam ter outra cor.
Mas ela não queria ficar pensando nisso,
gostava mesmo era de Tarzan, tinha certeza.
Eliza estava mais linda que antes, também
tinha crescido, parecia mesmo uma moça de capa de revista, só andava bem
aprumada, cabelos escovados e os dentes eram um brilho só.
---Nossa Leninha! Que saudades! Parece que
faz tanto tempo que não nos vemos.---Disse Eliza abraçando Leninha.
---É mesmo, também tem um bom tempo que não
vou a sua casa. Mas você está tão bonita! –Disse leninha retribuindo o abraço a
amiga.
---Você também permanecer linda! Passe lá em
casa depois da aula, tem um presente para você.
---Porque?não é meu aniversario?—Perguntou
leninha.
---Não tem importância se não é seu aniversario, e que eu comprei
umas coisas novas para mim e separei umas coisas para você.
---Que legal! Aposto que é coisa
legal---disse leninha.
---É sim, se a Lili quiser ir com você pode
levar ela também.
---Ta legal.
Foram para a sala de aula. Tinha professora
nova.Uma normalista que tinha vindo da cidade vizinha, só para dar aulas para a
turma da quarta série até a sétima série, seria a nova professora de português.
Leninha estranhou pois agora tinha dois professores diferentes, sempre tivera
uma só, mas a diretoria queria que eles já fossem acostumando, queria métodos
novos na escola, assim quando chegassem na quinta série não estranhariam um
professor para cada matéria.
Cecília era o nome da professora nova. Ia
ficar morando na pensão de dona Inês, tinha mais umas duas moças que também
daria aulas para outras turmas. A outra professora cuidaria do restante das
matérias só a professora de português era exclusiva, que cuidaria também de
ortografia e redação.
Todas as crianças gostaram da novidade,
pareciam que estavam em outro lugar.
Cecília devia ter uns vinte anos, bonita,
meiga, logo conquistou a todos.
Leninha estava contente, se sentia orgulhosa
de estar na quarta série, se sentia uma mocinha, os cabelos soltos, os olhos
mais brilhantes que tudo, ate seu jeito de sentar e conversar parecia estarem
diferentes, ela mesma as vezes se sentia estranha.
Já não pensava mais tanto em brincar, estava
gostando de se olhar no espelho.
Dona Elza já havia notado diferença na
filha, pó isso as recomendações agora eram maiores.
XXXIII
Foram a casa de Eliza depois da aula, esta
lhe deu muitas roupas que já não serviam mais.
---Este aqui é pra você usar quando ficar de
seios, ele tem umas pinças de lado e só fica bonito de soutien.---Disse Eliza.
---Nossa! Que bonito.---Disse Lili.—deixa-me
experimentar?
---Pode, mas este é da Leninha.
---Eu sei só quero ver se fico bonita.
---Ta bem pegue um soutien meu.
Leninha correu na gaveta de calcinha e de
soutien de Eliza , ela também quis experimentar um.Eliza passou batom nelas,
ela experimentaram todos os vestidos em Leninha serviu todos, até uma calça
comprida ela ganhou.
Leninha ficou
tão feliz que não sabia o que dizer.
---Eliza, será
que eu posso dar um desses para a Delicia?---Perguntou com medo de ofender.
---sabe Leninha
eu estou dando pa você e você pode fazer o que quizer com eles, só acho que
seria melhor você dar os seus que não te servem mais, porque estes não vão
servir nela, ela é bem menor. ---Disse Eliza calmamente.
Eu também penso assim.---Disse lili.
Leninha concordou.
Chegou em casa toda feliz, dona Ruth foi ver
as roupas e gostou achou todas de bom gosto.
---Vovó, será que a mamãe deixa eu dar alguns
dos meus vestidos que não servem mais para a Delicia?
---Claro minha filha, claro, a gente deve
sempre ajudar as pessoas, quanto mais bem a gente faz, mais bem a gente recebe.
---A sra me ajuda?
---Ajudo, vamos lá olhar suas gavetas. Depois
você vai fazer seus deveres esta bem?
---Hoje não teve dever, foi o primeiro dia.
---É mesmo tinha me esquecido.
Dona Ruth as vezes era tão legal! “ Pensava
leninha,”. Nem parecia tão velha, tinha tanta força de viver parecia que não ia
morrer nunca, ia ser eterna. Mas as vezes quando ela ralhava com ela, ela já
não gostava tanto da avó, mas agora nesse momento ela estava gostando muito
dela.
A vida poderia ser tão boa! –Leninha pensava
depois de ter separado os vestidos e sentada debaixo do pe de manga.---O céu
tão azul, a avó mexendo nos pés de couve, o irmão trabalhando na prefeitura,
Cirilo na escola, que alivio! Ela de manhã, ele de tarde, a casa ficava
tranqüila.
A mãe tinha ficado o dia inteiro no grupo por
se o primeiro dia de aula.
Deus tanto podia fazer um milagre e dona Elza
não ter que pagar aqueles juros tão altos, de um divida que ela não tinha nada
com isso.
---Ajude a mamãe meu Deus!..---Pedia Leninha.
---Leninha! Leninha!---gritou lá de frente da
casa.
---Já vou respondeu leninha.
Era Sonia de chapéu e sombrinha se protegendo
do sol.
---Sonia, que surpresa.—correu a abraçar a
amiga.
---Vim te buscar para lanchar e brincar
comigo.
---Posso vovó.---pediu leninha.
---Pode filha, mas não demore.
---Ta bom vovó, tchau.
Pegou a mão de Sonia e foram as duas pelo
caminho.
----Que milagre e esse Sonia, você fora de
casa.
----Mamãe deixou eu vir, estou melhorando.
Preciso andar um pouco.
---Hoje a aula foi tão boa, conheci
professores novos, tava todo mundo bonito.
----Que legal! Estou com saudades da turma.
Tomaram o lanche e brincaram ate começar a
escurecer.leninha foi para casa correndo. Ainda sentia um pouco de medo do
escuro, também depois de ter presenciado aquele ataque de Vandinho. Será que
ele tinha sarado mesmo? Melhor nem pensar.
---Mamãe ta demorando, vovó, será que
aconteceu alguma coisa?---Perguntou leninha vendo os alunos do curso da noite
chegando.
---vou mandar Cirilo correr ate o
grupo.---respondeu dona Ruth.
Não foi preciso. Dona Elza chegou parecendo
apressada.]
---Vai lá mamãe, distraia os alunos um pouco
só vou lavar o rosto e tomar um café.
---O que aconteceu filha? ---Perguntou dona Ruth aflita entre os
olhares de Cirilo e de Leninha.
---Nada mamãe, eu fiquei conversando com a
comadre Antonia, e não vi o tempo passar.
Dona Ruth percebeu os olhos vermelhos da
filha não disse mais nada e foi receber os alunos.
Leninha não conseguiu ficar acordada ate a
aula terminar, queria muito conversar com a mãe, mas não deu tempo, pela manha
falaria com ela no caminho da escola. Não teve muita certeza se era sonho ou se
realmente ouvira a mãe falando com a avó que estava com medo, que estava
atrasada. E ouviu a avó falando que já tinha desconfiado do que o sr. Sebastião
falava com ela aquela noite que ela não quis comentar nada.
Mamãe atrasada.Coitada não tinha conseguido
pagar os juros do mês, Pensava leninha.
Mas não era nada disso, infelizmente o sr.
Sebastião quase matou dona Elza aquela noite, forçando ela a lhe fazer carinhos
em silencio para não acordar os filhos. Ela não teve coragem de contar a mãe,
só contou a comadre, mas agora as coisas se agravaram a gravidez era evidente.
Dona Elza não conseguiu dormir aquela noite,
a mãe logo cedo cuidou de lhe preparar um chã que a “curaria” daquele mal.
Leninha ficava olhando a cara da mãe tomando
aquele negocio coada com café amargo.
---Posso tomar um poço mamãe?---Perguntou
leninha vendo a cara da mãe e querendo ajudar.
Dona Ruth abraçou a neta e não respondeu
nada.
Pedro e Cirilo só observavam e pensavam que
a mãe deveria estar com uma gripe muito forte.
---Acho que a sra não devia ir da aulas hoje
mamãe.---Disse Pedro, eu aviso lá na escola e eles colocam uma substituta.
---Também fico em casa hoje, e ajudo a vovó
cuidar da sra.—disse leninha.
---nada disso, vão todos pro
trabalho.---Retrucou dona Ruth, a mãe de vocês precisa andar e fazer
exercícios, ficar de repouso vai é piorar as coisas.
Dona Elza entendeu pegou o material a mão da
filha e foi em direção ao grupo.
---Pedro foi pro serviço preocupado com a
mãe.
Quando chegaram a escola tinha uma roda de
meninos esperando o portão abrir eo sinal bater.
---leninha beijou a mãe e foi-se juntar a
turma.
O assunto era um só, encontraram mais um
homem morto no mato na saída da escola.
Quem viu o defunto foi Leonardo. Ele estava
todo tremulo, contou ao delegado que cuidou logo de ir ver quem era o morto.
Leonardo não sabia quem era, tinha passado
rápido, era o caminho que fazia ate a escola, pois morava em um sitio logo na
saída da cidade.
“Credo quem será que anda matando tanta
gente”---pensava leninha.
Logo bateu o sinal, os professores cuidaram
logo de acalmar os meninos, pedindo para não ficarem tão agitados pois isso era
um problema que só a policia podia resolver.
Claro ninguém podia fazer nada!
Logo à tarde ficaram sabendo que o defunto
era nada menos que o marido da irmã de Eliza.
Dona Elza não deixou Leninha ir na casa de
Eliza, teve medo dos comentários e tinham que ver o que tinha acontecido.
---mas mamãe, Eliza é minha amiga, coitada
deve estar arrasada, coitada da Elvira, casou tem tão pouco tempo. Quem será
que matou Raul?
---Deixa disso filha, não e assunto para nos,
depois vamos ficar sabendo mesmo.
Dona Elza tentava convencer a filha e ao
mesmo tempo segurava a parte de baixo da barriga, parecendo sentir dor.
---o que foi mamãe/
---Nada filha, vou deitar um pouco, cadê sua
avó.
---não sei mamãe, deve ter ido em algum
visinho.
Segurou na mão da mãe e caminhou com ela ate
a cama, sua mãe torcia de dor.
“deve ser dor de barriga” —pensou leninha.—
“Também não sei pra que foi tomar tanto xá de manha”.
---Vou procurar a vovó.---Disse correndo
para a porta da sala.
---Se você não achar ela. Vê se acha a
comadre Antonia, preciso falar com ela.
Dona Elza recostou na cama, torcia toda
sentindo uma cólica danada.O xá da mãe parecia fazer efeito. Também o atraso
dela estava só de poucos dias, Deus podia ajudar e abençoar que aquele problema
fosse resolvido urgente, pois não podia ficar passando por aquilo na idade e
situação dela.
A mãe chegou quase junto com dona Antonia.
Elas cuidaram de fechar a porta e mandaram
Leninha ir cuidar dos deveres. Ela não era tão boba assim e logo cuidou de sair
de perto, aquilo era assunto de gente grande
Escutou o choro da mãe que parecia sentir
muita dor.
A avó saiu do quarto e foi ferver água para
dona Elza tomar um banho.
Leninha sentou perto da mesa, fingiu estar
fazendo alguma coisa, mas ainda não tinha dever, sabia que o melhor a fazer era
ficar quietinha.
XXXIV
Pedro estava bem no serviço, o prefeito
gostava muito do serviço dele eo considerava muito. Ele esforçava para ser uma
pessoa bem informada, para cooperar com tudo e também crescer no emprego para
poder ajudar a mãe.
O maior sonho daquela família era sair
daquela dificuldade toda.
Depois da três horas o comercio fechou todo,
todos foram para o velório de Raul.
Elvira não pode ir de tanto mal que passara,
também tinha pouco tempo que seu filho nasceu. Eliza passou na casa de Leninha
e pediu dona Ruth para ela fazer companhia a ela no velório do cunhado.Dona
Elza estava ditada, não pode ir por isso resolveu deixara a filha ir,
recomendando muito para não ficar com perguntas que não havia respostas.
Leninha colocou um vestido de bolinha preta e
branca, e foi com Eliza ate o velório que estava sendo feito no salão da
prefeitura.
Pedro logo veio falar com ela.
---cadê mamãe?---perguntou logo que viu a
irmã sozinha.
---Ela não esta aquentando nem ficar de pe,
esta com muita dor de barriga.---Respondeu leninha baixinho no ouvido do irmão.
---Meu Deus! O que será que ela tem.
---Não sei direito, dona Antonia esta la com
ela.
---Izabel também?---Interessou logo Pedro.
---Não. Só dona Antonia e vovó estam lá em
casa.
O salão da prefeitura estava cheio, todos
queriam ver o morto.
Leninha não tinha medo de gente morta, chegou
perto, o corpo estava cheio de rosas brancas, um cheiro forte, os lábios do
rapaz estava muito roxo. Mesmo assim continuava bonito, tão moço.
A família dele estava nervosa queria logo
descobrir quem havia feito aquilo com o filho. Um moço tão bom nunca tinha
feito mal a ninguém.
“Só a Elvira”.—Pensou Leninha lembrando de
ter visto eles juntos atrás da igreja naquele dia do comício.
Pedro disse para Leninha ficar quietinha
pois aquele lugar não era para ficar falando muito.Ele ia andar um pouco
trabalhou a manha toda e precisava tomar um ar e comer alguma coisa.
Saiu de fininho cumprimentou Marcelo que
chegou e explicou que voltava logo.
Saiu com as mãos no bolso pensando numa
maneira de aproximar de Izabel. A moça estava sentada num banco de frente da
sua casa.
Pedro fez de conta que estava distraído e
logo cuidou de dizer alo.
---Oi Pedro, não lembra mais de mim?---Disse
levantando parecendo tomar coragem.
---Oi Izabel! Como vai!---Desculpe estava
distraído.—Disse fingindo surpresa de ver a moça.
--Minha mãe esta na sua casa, pediu pra mim
ficar aqui quieta ata ela voltar.
---Você não esta com medo? Esta escurecendo
e com essas mortes misteriosas da ate mais medo ainda.
---Oh! Não! Medo eu não tenho. Ninguém ia
querer me matar, não faço mal a ninguém.---Disse ela com o narizinho arrebitado
e muito gracioso.
Pedro ficava doido de ver aqueles pequenos
lábios se movimentarem. Izabel era tão delicada que era ate difícil pensar e
segurar aquela cinturinha, parecia que ia quebrar de tão fina e linda.
---E então Pedro, _--Continuou Izabel.---você
esta gostando do emprego?
Pedro levou um susto, não pensava que Izabel
fosse tão conversadeira, afinal sempre estava caladinha perto da mãe.
---Muito. ---respondeu logo—é muito bom, lá
estou aprendendo muitas coisas.
---Que bom Também vou trabalhar logo. Quero
dizer logo assim que terminar o normal.
--Você se forma este ano?
---Formo e vou trabalhar, se mamar deixar
vou viajar para fazer faculdade quero ser bem informada, e você vai estudar
mais?
---Vou sim, eu vou voltar para a cidade e
vou ver se passo no vestibular quero ser advogado. Mas este ano e talvez no
próximo ainda tenho que ajudar a mamãe.
---Sei, todo mundo sabe das dificuldades de
sua mãe, se eu puder assim que conseguir a trabalhar também vou ajudar sua mãe.
---Izabel falou isso com tanta meiguice que
os olhos de Pedro encheram de água, a menina sentiu uma emoção tão grande que
fez um carinho no rosto do rapaz que logo cuidou de pegar sua mão e dar um
beijo na palma da mesma.
Por um momento ficaram em silencio olhando
um no olho do outro.
Ficaram se graça.
---Vou chegar lá em casa para ver mamãe.
---me espera vou fechar a porta e vou com
você.
Entrou e fechou a casa, ligou a luz da sala
para quando voltar não ficar no escuro e acompanhou Pedro em silencio ate sua
casa.
Foi uma noite muito triste, dona Elza
precisou ser levada para o hospital da cidade vizinha. Quem levou foi o
motorista da prefeitura na ambulância da prefeitura. Ninguém sabia ao certo o
que ele tinha falavam que era apendicite aguda, só sua mãe e dona Antonia
sabiam a verdade.
Leninha dormiu na casa da madrinha, estava
com medo por causa da morte e triste pela mãe.
Dona Santa a tratava muito bem, ela ficou com
Soraya e Lili no quarto. Ninguém conseguiu pegar no sono.
Ela pensava na saúde da mãe, tinha muitas
vezes pedido a Deus para ser rica e poder cuidar de tudo que ate besteira tinha
pensado, que se sua mãe morresse ela poderá morar com gente rica e ter tudo,
mas agora ela resava de verdade para Deus dar saúde a sua mãe, o que havia
acontecido realmente?
Tudo chegava a crer que o dia seguinte seria
um dia pesado, cheio de choros, o enterro de Raul seria às dez horas, porisso
não teria aulas naquele dia a cidade ficaria de luto ate as três hora.
Cirilo estava inquieto, dona Ruth não dormiu
nada, ficou a noite toda com o terço na mão rezando.
---E se a mamãe morrer vovó? O que
faremos?---Perguntou Cirilo com os olhos cheios de lagrimas.
---Não meu filho. Deus existe, ele olha por
nos, fique tranqüilo.---disse dona Ruth passando as mãos nos cabelos de Cirilo.
–Agora vai chamar o Pedro e traga o pão vou fazer um café fresquinho para
esperarmos noticias.
Cirilo enxugou os olhos e foi no quarto do
irmão.
Pedro estava sentado com a bíblia nas mãos.
---Vou buscar o pão, vovó mandou chamar você
para tomar café.---Disse Cirilo baixinho.
---Eu já vou.—Respondeu Pedro.—Senta aqui um
pouco Cirilo.
Cirilo sentou na cama perto do irmão, já se
sentia um rapazinho. Pedro o olhou carinhosamente e deu-lhe um abraço.
---Mamãe vai ficar boa Cirilo, fique calmo,
deita aqui um pouco na minha cama eu mesmo vou buscar o pão
---Cirilo sentiu um pouco mais protegido.
---Então vamos nos dois, eu também quero sair
um pouco. Quem sabe o motorista da ambulância já chegou com noticias da mamãe.
----É mesmo, então vamos logo.
Não foi preciso nem levantar lá de dentro já
se ouvia o barulho da buzina, era o sr. Nicolau gritando.
---Anda gente acorda.
Dona Ruth veio lá de dentro correndo quase
caindo.
Sr. Nicolau desceu da ambulância e foi
entrando casa adentro sentindo o cheiro de café.
--E então. –Perguntou dona Ruth.
---Oba! Cafezinho, estou mesmo precisando
viajei a madrugada toda.
---Fala homem de Deus.---pediu dona Ruth
aflita.
---Esta tudo bem dona Elza vai ficar de
repouso ate sábado. Ela foi operada. E ate mandou falar para vocês irem buscar
ela comigo.
Pedro abraçou correndo o irmão, a avó e ate
o sr. Nicolau ganharam um beijo.
---Vou correndo a casa de dona Santa dar a
noticia a Leninha.—disse Cirilo.
---Tome cuidado meu filho! Lembre que daqui
a pouco tem enterro na cidade.---recomendou dona Ruth.
---É mesmo. –Lembrou Cirilo.---Então vou
tomar café primeiro, porque assim já fico lá para o enterro.
---Eu também vou.---Disse Pedro.---Afinal
Raul era meu amigo.
Credo!---pensava leninha, nunca tinha visto
um enterro tão com cara de enterro daquele jeito, a barra esta pesada, a
família de Elvira e de Raul só ficava pensando em como vingar do assassino, o
menino tão bom como alguém poderia ter feito aquilo.
Mas se de um lado havia gente triste do
outro por lá no fundo do coração Leninha estava feliz com a noticia que sua mãe
estava boa e outra melhor ainda ia viajar, ia conhecer a cidade vizinha tão
sonhada, tão imaginada, e Tarzan! Tarzan estava lá também ao lado de Marcelo e
Pedro , carregando o caixão de Raul junto com o pai dele.
Tarzan era tão bonito, aquelas mãos grandes,
aquele cabelo preto pele queimada, até que ele parecia mesmo era um índio,
pensava leninha.Mas de qualquer jeito ela tinha certeza que era dele que ela
gostava, ela sentia um frio na espinha cada vez que olhava pra ele e mesmo
disfarçado por causa da tristeza do enterro ele ainda conseguia lhe dar um
piscadinha despistado.
Depois daquilo tudo, Tarzan foi pra casa de
Leninha. Dona Ruth não foi ao enterro as pernas não aquentavam a subida do
morro ate o cemitério.
Assim que todos entraram ela mandou que
tomassem banho e tirassem as roupas de ir a enterro. Tarzan não tinha trazido
roupa e Raul lhe emprestou uma.
---Nossa tia Ruth a sra é barra mesmo, o que
tem almoçar com a roupa que fomos lá, coitado do Raul, que Deus o tenha.
---Disse Tarzan benzendo o nome do Pi, do Filho, e do Espírito Santo Amém.
Leninha foi a primeira a tomar banho, queria
aproveitar o Maximo que Tarzan estava em sua casa.
---Cadê Cirilo?---Perguntou Pedro.
---Ainda não chegou, eu vi ele conversando
com Leonardo.---Disse leninha.
---Tomar que eles não estejam inventando
nada, não.meninos quando juntam só fazem besteira.
---Deixa ele Pedro, coitado quase não dormiu
essa noite preocupado com sua mãe, é bom que distai um pouco, quando ele volta
eu esquento o almoço dele.---Disse compreensiva dona Ruth.
---É vó, só a sra mesmo.---Disse Pedro.
Tarzan já tinha tomado banho, leninha correu
a lhe buscar um pente, pediu para ele sentar e foi lhe pentear os cabelos. Ele
achou engraçado mas aceitou.
Sentou em um banquinho na varanda. Ela era
tão meiga que ele até fechou os olhos.
----Pronto, vou buscar o espelho pra você
ver.---Disse Leninha tirando o espelho que ficava pendurado na parede perto do
banheiro.
----O que já acabou? Tava tão bom! –disse
Tarzan.
Ela lhe mostrou o rosto no espelho e ele fez
beicinho.
---Nossa meu amor, como estou bonito! Vou te
levar lá pra casa pra você ser minha cabeleira.
Disse isso puxando Leninha para o seu colo e
lhe beijando a cara toda.
Ela ficou quietinha que ate a boca de Tarzan
roçou a sua, Ela queria que aquele momento não acabasse mais.
---Venham almoçar.---Gritou da cozinha dona
Ruth.
Ele a pegou no colo e a levou para dentro.
---Nossa Tarzan, tire essa menina do
colo.---Disse dona Ruth não gostando daquele assanhamento.
Leninha pulou logo do colo de Tarzan, se
ajeitou e foi ajudar a avó servir o almoço.
---Precisa ter modos leninha, você já esta
uma mocinha.
---Mas a sra acabou de me chamar de
menina.---Resmungou Leninha.
---É menina . Mas também já esta grande. O
primo Tarzan é um homem, e homem, é homem.
Leninha achou engraçado o jeito da avó,
pegou o prato e correu para sentar perto de Tarzan.
O sábado chegou rápido, estavam todos
prontos para a viagem de ir buscar a mãe.
Dona Ruth ficou em casa.
Cirilo, Pedro e Leninha foram até a
pracinha esperarem a Kombi. Seu Nicolau veio chegando.
----E então moçada, vamos nessa!
Claro que a viagem seria mais emocionante
se fossem de ônibus, mas a mãe tinha que vir mais confortável e lá na Kombi
tinha um banco que inclinava e virava cama, tinha até um colchão.
Prometia ser um sábado emocionante para
Leninha e Cirilo, eles nunca tinham ido ate outra cidade. Cada virada que a
Kombi dava ela achava engraçado, ainda bem que a estrada estava seca não chovia
há um bom tempo.
Ela achava tudo bonito, passou pela fazenda
do pai de Elisa, já tinha ouvido falar, era grande demais, era terra que não
acabava mais, tudo limpo cheio de gado, e porco, eles criavam para o abate.”
Como Elisa é rica”.—Pensava Leninha e mesmo assim era tão boa.
Era tudo tão verde, cheio de arvores, capim
e que bonito as montanhas, de vez em quando vinha outro carro e enchia eles de
poeira, mesmo assim leninha curtia muito a viagem.Pedro viajava na frente.—
“Pena que Tarzan não tinha vindo” —Pensava Leninha, seria tão bom estar aqui
sentada perto dele.
Chegaram a cidade, tinha muitas casas,
lojas, uma pracinha linda. Seu Nicolau parou a Kombi perto de um hotel de
conhecidos seus e pediu a dona para encaminhar os meninos para tomarem banho, não
podiam irem ao hospital sujos de poeira daquele jeito.
Leninha ficou encantada com o hotel, cheio
de quartos, e tinha uma sala cheia de mesas para as refeições, veio um cheiro
bom de comida da cozinha. A barriga já reclamava de fome.Mas a avó tinha mandado
um lanche, pois não tinham dinheiro para gastar com comida na estrada. Mas qual
não foi o espanto de Pedro, Cirilo e Leninha, ao saírem do banho, o Seu Nicolau
os chamou para almoçarem.
---Não se preocupem é tudo por conta da
prefeitura, afinal sua mãe ajudou muito o prefeito nas eleições.
Não precisou falar mais nada, eles correram
a sentar-se à mesa que já estava preparada para eles.
---Que delicia!—Disse Cirilo.
---Ótimo! –Concordou Pedro.
Leninha comportou igual uma mocinha.
Terminaram e foi direto ao hospital buscar a
mãe, tinham que voltar ainda com dia claro.
Dona Elza estava esperando por eles de
frente ao hospital.
---Como demoraram.---Disse e levando uma
explicação boa das crianças. Ela ficou feliz por eles, pena não poderem andar
um pouco pela cidade. Mas prometeu assim que as coisas melhorassem passar uma
semana com eles ali.
Levou os meninos para conhecerem o hospital,
e pegar suas coisas que ainda estavam no quarto.
Qual não foi a surpresa de Leninha ao caminhar
um pouco mais e dar de cara com Vandinho.Ela não sabia que ele estava ali. A
mãe dele estava ao lado dele segurando o seu braço.Vandinho parecia não ter
muita força para caminhar.Leninha ficou parada os olhos de Vandinho não saia
dos dela. Ele foi até ela amparado pela mãe.
Ninguém entendeu muito bem a reação do rapaz
que esticou a mão para Leninha. Ela teve medo, mas mesmo assim estender a
mãozinha e o cumprimentou. Ele disse baixinho num tom que quase só ela
entendeu.
---Obrigado.
---Vem leninha.---Gritou Cirilo já da porta
do quarto de dona Elza.
Leninha sorriu para Vandinho, soltou suas
mãos e correu para o irmão. Pedro observou a cena, mas não disse nada, sentiu
uma emoção.
Vandinho estava internado se recuperando
desde a vez que teve a crise de possessão. Mas estava bem só com um ar de
tristeza e cansaço.
O hospital era bonito ficava na parte alta
da cidade. Lá de cima dava pra ver tudo lá em baixo parecia pequeno e tão
longe, mas tão bonito.---Pensou Leninha.
Foi um dia tão esperado, mas também tão
rápido, quando assustou já estavam em casa, contando as novidades para a avó.
Graças a Deus dona Elza estava firme e
forte, o domingo prometia ser um dia cheio de visitas. Leninha foi logo cedo
para a missa agradecer a Deus pela saúde da mãe e também pedir a Deus para
cuidar de Vandinho.
Depois da missa das crianças, como sempre o
catecismo. Marcelo disse que ia prepara –los para receberem a primeira comunhão
no domingo de páscoa.
---Oba!---Ouviu-se um grito em coro.
---Mas para isso, ---recomendou---quero ver
todos vocês rezando o credo a salve rainha, sem errar.
---Isso e moleza!---Disse Sonia.---Eu rezo
todos os dias ao levantar e ao deitar.
---Muito bem. __ Disse Marcelo—Espero que
todos estejam assim. Domingo que vem vou perguntar um por um. Esta bem?
---Claro.---Responderam juntos.
Marcelo achou leninha ainda mais bonita,
estava com um vestido cor de rosa com a palinha toda feita de casa de
abelha.Dona Elza era pobre, mas era muito cuidadosa com os filhos nem parecia
que passava por tantas dificuldades.
Todos foram embora, leninha continuou
sentada no banco da igreja. Sonia foi ate a porta e voltou para chamá-la.
---Vem Leninha, vamos brincar de roda um
pouco antes de irmos para casa.
Ela fez o nome do pai, e acompanhou a amiga.
Todos fizeram uma grande roda na porta da
igreja, ate Marcelo entrou na farra, segurando a mão de Leninha.
Eles cantavam tão alto, que quase toda a
cidade ouvia.
Sonia estava bem disposta, ainda bem que a
crise dela parecia ter ido embora.]
Dona Elza foi dar aula normal na
segunda-feira, ela disse que o medico falou que seria bom para ela distrair, só
não deveria ficar muito tempo de pé.
Quando foi chegando a noite os alunos que
ela ensinava em casa foram chegando e cada um trazia uma lembrança para ela, pó
de café, arroz, feijão, carne, farinha, frutas... Dona Ruth levou tudo para a
cozinha. Ficou tão emocionada que quase começou a chorar
Dona Elza ficou sem saber como agradecer, só
ficou pedindo a Deus para retribuir em dobro tudo para eles.
Mais um mês estava acabando. Já era hora de
ir receber o pagamento e Pedro recebeu o seu primeiro salário. Correu a colocar
tudo na mão de sua mãe.
--Não meu filho. Tudo não. Você trabalhou
duro, e eu não tenho o direito de lhe tirar tudo.
---Claro que tem mamãe.---Dizia Pedro.---Eu
disse que ia trabalhar exatamente para conseguir sair desse buraco.
---O único jeito de sairmos desse buraco, é
vendermos essa casa.---Disse dona Ruth entrando no assunto.
---Não mamãe não posso fazer isso com a Sra.
Quem colocou todos nessa enrascada foi eu, quem mandou eu me meter com aquele
jogador miserável.---Falou chorando.
Leninha e Cirino a tudo ouviam sem poder
fazer nada.
----Eu não queria te contar nada Elza, pois
você estava no hospital e mal, mas aquele Sr. Sebastião esteve aqui semana
passada e disse que no final desse mês que entra agora, quer receber todo o
dinheiro, disse que você esta fugindo dele e não esta cooperando.
Dona Elza ate sentou pois sentiu um calafrio
que lhe cortou a alma.
---Então mamãe, você fica com meu salário ou
não?
---Vou ficar, ate ver o que faço. Mas tira
um pouco para você cortar o cabelo e comprar um calçado, porque daqui a pouco
não tem nem como você ir trabalhar.
Ele obedeceu, aproveitou o horário de almoço
e foi ao salão fazer um corte no cabelo. Quando saiu do serviço a tarde sentou
na pracinha da prefeitura ainda era dia, largava as cinco horas. O expediente
da prefeitura acabava cedo. Mas estava tudo calmo, sentou para pensar um pouco
no que fazer. Tinha que voltar aos estudos. Só naquele emprego não faria nada
pela mãe.Queria muito ficar perto da família, voltar ao seminário não queria de
jeito nenhum. Não se arrependeu hora nenhuma de ter voltado para casa. Mas só
ficar ali trabalhando não iria acrescentar nada.E Izabel? Tinha que fazer
alguma coisa, ele gostava dela, tinha que ser alguém para um dia poder casar
com ela.
XXXV
Pelo que Leninha entendera Marcelo iria
embora logo depois da páscoa. Porque ele tinha vindo para catequizar as
crianças e estas já estavam quase preparadas.De vez em vez vinha um estudante
para fazer isso, mas igual Marcelo não havia tido.
Ela já começava a sentir saudades dele,
antes dele ir, e ainda faltava três semanas para ser celebrada a primeira
comunhão daquela turminha.
E Marcelo então nem se fala, ate noites de
sono perdia pensando que não queria ir embora.
Queria compreender melhor as coisas
afirmar as idéias e ver se realmente o que queria era ser padre. Queria ter a
mesma coragem de Pedro e decidir que não queria mais ir para o seminário. Mas
ao mesmo tempo sentia muita a presença de Deus e Deus o chamando para cuidar de
uma paróquia. Se ele voltasse para o seminário logo depois da primeira comunhão
daquela turminha, depois de um ano ele já se ordenaria padre. E isso também o
enchia de orgulho, era tão bonito ver a fé daqueles pequenos e principalmente
Leninha.Maria Helena! Que menina adorável! Que sonho! Ela era muito especial
Marcelo as vezes se perguntava se seria
fácil ainda nesse mundo encontrar uma criaturinha assim. Não sabia definir ao
certo o que sentia por ela. Só sabia que tinha ciúmes ao vê-la olhar e falar de
Tarzan.Mas também não tinha lógica ele era apenas uma criança. Talvez nem
Tarzan ainda sentisse amor por ela. Só brincava falando que quando ela
crescesse se casaria com ela. E ela levava isso a serio, tanto que quase nem
olhava para Leonardo.
Mas tudo muda tanto com o passar do tempo,
talvez nenhum deles seria a pessoa certa para Leninha. È só esperar, pra que a
pressa?
Marcelo conversou com padre Mario sobre o
horário da cerimônia da primeira comunhão e ficou tudo acertado para o domingo
de páscoa depois da missa da oito horas da manhã, seria um domingo cheio de
alegrias.
Leninha não cabia em si de contente. O
vestido seria branco, a madrinha Santa já providenciara tudo queria vestir
Leninha e Lili iguais.Dona Elza nunca saberia o que fazer para agradecer aquela
comadre, só deus para iluminar toda a vida dela. Aquela mulher meiga e tão carinhosa
como madrinha de batismo ela assumiu mesmo o papel de segunda mãe de Leninha.
E os padrinhos para a eucaristia.—“ Que
difícil?’---Pensava leninha, só tenho alguns dias para decidir.Tarzan? Não
claro que não. Não poderia ser padrinho, já pensou ficar pedindo benção para
ele.
---Mamãe, irmão pode ser
padrinho?---Perguntou Leninha a mãe logo que ia deitar.
---Pode filha, porquê?---Falou dona Elza
trocando a roupa para deitar.
---Será que seria bom eu chamar o Pedro
para ser meu padrinho?
---Não sei filha, não seria melhor uma
pessoa casada?
---È mamãe, ai eu chamaria o Pedro e a
Izabel, eu sei que um dia eles vão se casar mesmo.
---Que isso filha, de onde você tirou essa
idéia.
---nada mamãe, é que eu fico olhando o jeito
deles se olharem.
Dona Elza acabou de trocar de roupa
deitou ao lado da filha e sorriu.
---Sabe Leninha, eu acho que você é uma
menina muito esperta. Agora mudando de assunto de Pedro e Izabel. Acho melhor
você chamar o Rui e a esposa dele. Acho que eles iriam adorar.
----È vou pensar mamãe.
Respondeu Leninha virando para o canto,
sentiu sono.Amanha cedo teria aulas. Melhor dormir. E a Suely e o Rui seriam
bons padrinhos. Pensou: “amanha vou falar e perguntar a eles se querem entrar
comigo na igreja”.
Cirilo e Leonardo de repente viraram grandes
amigos. Não que já não fossem, mas estavam mais agarrados, estavam na mesma
sala este ano e assim a amizade se solidificou mais.
Ele foi com Cirilo depois da aula pra
biblioteca da prefeitura pois tinham um trabalho da escola para fazerem.
Cirilo aproveitou para ver Pedro e pedir a
ele para lhe indicar um livro policial pois queria ler.
---Mas Cirilo, porque você não começa por
alguma coisa mais leve.---Retrucou Pedro.
---Mais leve como assim?---Perguntou Cirilo.
---E que eu acho que você poderia ler alguma
coisa como, aventuras ou mesmo um romance.
---Não Pedro, eu já li, Julio Verne e
conheço muitos de Monteiro Lobato, agora eu quero ler Ágata Cristy
---Ta bem. ---Pedro foi na ultima prateleira
e trouxe um da coleção de Ágata para ele.
Ele agradeceu ao irmão, e foi escrever com
Leonardo sobre a pesquisa da escola.
---Porque você quer ler livro policial? Quer
desvendar algum mistério?---Perguntou Leonardo.
----Quero e você vai me ajudar.
---Eu? Ajudar em que?
---Vamos descobrir quem matou Raul.
---Meu Deus! Mas como?
---Ainda não sei, mas e só seguir o rastro.
Quem sabe não e a mesma pessoa que matou aquele outro cara logo após as
eleições.
---Eu topo Cirilo, mas silencio este caso e
complicado, e eu tenho medo. Afinal fui eu que vi o corpo primeiro. Estava todo
ensangüentado e parecia me olhar, os olhos estavam abertos e a boca
também.Penso e ate arrepio.
---E primeiro temos que checar o que Raul
fazia naqueles lados de madrugada. Lá não era o lado da casa dele e alem do
mais ele e a Elvira estavam casados há pouco tempo.O que ele estaria fazendo
àquelas horas fora de casa.
---Para sabermos isso vamos ter que pedir a
colaboração de uma certa pessoa...---Disse Leonardo.
---Sei. Leninha.---Disse Cirilo.
Eles terminaram a pesquisa e foram conversar
na praça da prefeitura. Pedro lá de dentro ficou observando a animação da
conversa dos dois, e até gostou, pois o irmão estava crescendo e precisava ter
um amigo.
Cirilo ia pedir a irmã para ver se Eliza
sabia o que Raul fazia fora de casa na noite anterior do assassinato, mas
precisava achar uma maneira sem que a irmã levantasse suspeita que ele estava
querendo dar um de detetive.
Mas detetive ainda estava Leninha. Sem
querer, pois a porta da sala de sua casa estava aberta, foi entrando depois de
brincar no quintal da frente e sua mãe não percebeu e estava conversando com a
comadre Antonia com a porta do quarto só encostado.
Dona Ruth estava no quintal jogando água nas
plantas e Leninha entrou para lavar as mãos. Ao ouvir a voz da mãe chorando
sentiu um medo e sentou no degrau que ligava a porta da sala com a cozinha e
dava para ouvir o choro que vinha do quarto. Teve vontade de ir ver o que
estava acontecendo, mas ouviu a voz de dona Antonia e ficou quase sem respirar
prestando atenção no que diziam.
---Fique calma comadre. Nunca mais vamos
deixar aquele homem te encontrar.—Dizia dona Antonia.
---Tenho tanto medo comadre.Ele quer o
dinheiro de qualquer jeito, não sei o que fazer.—Soluçava.
---Porque você não pede ajuda aos seus
primos.
---sempre me ofereceram, mas meu orgulho
nunca deixou eu aceitar.
---Então comadre, comadre ta na hora. Antes
que esse seu Sebastião te faça mais mal ainda. E como você esta se sentindo
depois de tudo que lhe aconteceu?
---Um bagaço, comadre, fiz uma coisa que
mulher nenhuma tem o direito de fazer.
---Mas comadre, já não ficou tudo explicado.
O medico disse que não foi o chá que te fez abortar. Que foi que você não tinha
mais condição nenhuma de ter filho.
---E comadre, mas mesmo assim, me sinto mal,
quase morri.
---Em parte foi bom agora você não vai mesmo
nunca mais ter filho. Afinal estava com mioma e nem sabia.
---E arrancaram todo o meu útero, tiraram
tudo de mim.
Leninha ouvia aquelas palavras e não
entendia muito bem, só prestou atenção nas palavras, mioma e aborto. O que
seria isso? Devia ser alguma coisa muito ruim, pois a mãe chorava e sofria
muito. Ouviu passos no terreiro, era a vó que vinha entrando na cozinha. Fez de
conta que estava chegando também àquela hora e foi lavar as mãos.
Dona Elza ouviu o barulho e convidou a
comadre para irem tomar um café.
Leninha lavou as mãos, e foi para fora
continuar a brincar.
Brincava sozinha. Ficou triste de repente
sem entender muito o porque.
Sentou perto de uma trilha de formiguinhas
que trabalhava cortando umas gramas e se enterteu vendo que elas irem ate suas
cazinhas.
XXXVI
Leonardo estava muito cabisbaixo, ficava
olhando Leninha de longe na hora do recreio, ela nunca mais tinha chegado perto
dele, estavam crescendo, pareciam não
saberem mais brincar como antigamente, nem tanto tempo havia se passado desde o
ano passado, mas ela parecia tão mudada. E sempre linda.
Ficava sentada perto de Eliza, Lili e
Sonia, que já havia retornado as aulas.
Cirilo procurou um meio e sentou na ponta
da escada perto das meninas. Todas pareciam tristes, nem conversavam, só comiam
a merenda da escola parecendo que estavam no mundo da lua.
Dona Elvira preparava a merenda da escola com
tanto carinho que nem parecia merenda, parecia mais comida de restaurante, cada
dia ela fazia um prato diferente, hoje tinha arroz de carreteiro cheio de
legumes e pedacinhos de carne.
Cirilo fez sinal para Leonardo e este também
veio sentar perto das meninas. Ao se aproximar seu olhar cruzou com o de
Leninha.
---Oi! –Disse ele timidamente.
---Oi. –Respondeu ela.
Sentou com o prato na mão. Cirilo queria
ver se havia um jeito de conversar. Tentou tirar um assunto.
---E ai Eliza, como esta sua irmã
Elvira.---Perguntou de sopetão.
---Vai bem, já esta mais conformada. Também
ela descobriu que Raul não estava merecendo o amor dela.
---Como assim? –Perguntou Lili curiosa.
Cirilo viu que fez a pergunta certa, piscou
para Leonardo que prestava atenção.
---Não quero ficar falando nisso não. Mamãe
pediu para não ficar acrescentando, que Deus escreve certo por linhas tortas e
que Raul parecia estar traindo a Elvira. Estava saindo muito a noite.
---Meu Deus! –Exclamou Sonia.
---Por favor, gente não fiquem falando isso
por ai, mamãe me mata, se souber que eu disse isso para alguém.
Todos juraram esquecer o assunto. Só Cirilo
pensou.—“nesse mato tem coelho”.—
Convidou Leonardo para se encontrarem na
porta da igreja depois que fizessem os deveres. Lá pelas três horas.
---O que vamos fazer?---Perguntou Leonardo.
---Vamos dar umas voltas lá pelos lados da
entrada da cidade.
---então avisse sua mãe e venha almoçar lá
em casa, assim fica mais fácil, porque eu moro lá perto onde o crime aconteceu.
---Legal Leo, você e mesmo esperto.
Dona Elza consentiu e lá foram eles.
Leonardo foi pelo caminho que sempre
faziam, pararam de frente ao local do crime que ainda estava marcado por
barbante ao redor e tinha sangue em alguma parte da grama.
Era de arrepiar. Cirilo quis saber o nome de
todos as pessoas que moravam naquele lugar, não eram muitas, pois Leonardo
morava em um sitio e no final da rua que era a entrada da cidade havia muito
era fazendas, tinham três com muitas terras e gado.
Os pais de Leonardo receberam Cirilo muito
bem, já o conheciam e gostavam muito de dona Elza.Ela dava aula noturna para
dois de seus empregados, admirava muita aquela mulher que sem marido e com
muita dificuldade conseguia educar seus filhos e muitos outros.
Almoçaram, fizeram o dever de casa e depois
foram andar pelas redondezas.
O sitio era grande, havia plantações de
café, cana e mandioca, a mãe de Leonardo fazia rapaduras para vender. Era tudo
limpo e bem cuidado.
---Lá na fazenda de meu primo Antonio também
tem um tacho desse grande que sua mãe faz rapaduras.---Comentou Cirilo pegando
um pedaço para comer.
Andaram bastante, foram reparando todo
mundo, foram fazer visita nas outras fazendas, não acharam nada suspeito.
Os filhos do visinho mais próximo de
Leonardo eram colegas deles na escola, tinha uma mocinha que logo cuidou de
esconder assim que eles chegaram. Também era conhecida deles. Cirilo logo
estranhou, pois aquela mocinha era sempre alegre e comunicativa. Porque ela
correu logo que eles chegaram.Lembrou que este ano ela nem tinha ido ainda na
escola. Perguntou a um dos irmãos dela o motivo e a resposta foi que ela andava
doente.
Ficou só nisso mesmo.O pai de Leonardo mandou
um empregado buscar os meninos de carroça de burro, pois Cirilo tinha que ir
embora e já estava quase escurecendo.E o mesmo levou Cirilo em casa.Ele adorou
a carona, pois já estava cansado de andar.
Leninha estava ansiosa para o irmão chegar.
---Que
demora Cirilo. Agarrou na casa de Leo?
---Que é fofa ficou com ciúmes?---Disse ele
com as mãos na cintura e imitante um rebolado.
---Nada é que você é bobo e podia se
perder.---Respondeu ela debochando.
Cirilo correu atrás dela ate caírem no chão.
Dona Ruth logo veio com as chinelas na mão.
---Vamos parar com essa bagunça? Trate logo
de ir tomando banho, viu seu Cirilo. Onde já se viu sair da escola e ir direto
pra casa dos outros. Tenho que passar água nesse uniforme, como você vai a aula
amanhã com essa sujeira toda?
---Que é isso vovó, eu to limpo olha
só.---Levantou do chão e mostrou a camisa toda suja de terra e ate pedaço de
macarrão com molho estava agarrado.
Leninha
não agüentou levantar do chão de tanto que ria do irmão.
Dona Elza já tinha chegado do grupo. Estava
deitada veio ver o porque de tanta risada. Quando leninha lhe contou também
riu. Não podia rir muito, pois ainda sentiu dor no local da cirurgia.Mas não
resistiu do olhar de Cirilo. Depois ficou seria.
---Anda Cirilo,
obedeça a sua avó.
Ele foi rápido cuidar do banho. Leninha foi
atrás dele ajudar ele a tirar água da cisterna para temperar com água que fervia no fogão a lenha.
---E o fogão a gás que mamãe ia ganhar do
prefeito que nunca chega!—resmungou Cirilo.
---E mesmo Cirilo, já até tinha esquecido.
Será que a mamãe esqueceu também?
---Parem de falar. –Chegou do Ruth.---Vocês
sabem que o prefeito ajudou demais sua mãe com essa operação, ela ainda vai ter
coragem de cobrar tal coisa. Até emprego pro Pedro ele arranjou.
----Chi...é mesmo Cirilo, esquecemos disso,
além do mais nem tem fogão a gás pra vender na loja do sr. Pedro.
Cirilo ficou calado, e foi pro banho.Quando
já estava pronto lá estava leninha esperando por ele.
---E ai quer me explicar porque você não sai
do meu pe desde a hora que eu cheguei.—Perguntou nervoso.
---Ué, é que eu estava com saudades de você,
afinal ficou longe o dia todo.
---Grande coisa, até parece que a gente fica
grudada o dia todo, tem dias que eu quase não te vejo, tava tão bom quando
pensei que ia mesmo estudar em horário diferente de você.
---Sabe Cirilo, é que hoje é um dia muito
especial.
---Especial?
---É, hoje nos vamos matar aquela aranha.
---Ra, ra, ra ,ra.---Riu Cirilo.---tem quase
um ano que tentamos. Porque hoje vamos conseguir?
---Pode rir debochado.—Fez beicinho.---Mas eu
estou presentinho que hoje vai ser o grande dia. É lua cheia e ela sai porque o
terreiro fica claro.
---Ta bom sua nojentinha, vamos colocar
bastante água pra ferver e depois que os alunos da mamãe chegar nos vamos
esquentar a maldita.
Leninha deu saltos de alegria. Pedro já
havia chegado estava em seu quarto e ouvia os planos dos irmãos. Gostava muito
de ver eles conversando e não entrava no assunto.
Estava lendo Dom Casmurro e sonhava com
Izabel.
Coitada daquela aranha caranqueija, hoje
seria seu ultimo dia de vida.Leninha pegou o balde de água quente e Cirilo um
pau, ficaram olhando pela fresta da porta da sala.
Dona Ruth pediu para tomarem cuidado, mas o
pulo foi um só.
----Morre danada.---Gritou Cirilo ao mesmo
tempo em que abaixava o pau na cabeça da pobre aranha tonta pela água quente.
---Nossa que grandona! –Leninha pulava de
contente.
Pedro veio correndo.
---Que barulho foi esse?Ouvi o estalo lá do
quarto.
Dona Ruth ficou estacada, ouvira falar na
aranha, mas nunca a tinha visto.
---Vou colocar- lá em um vidro.---Disse
Cirilo.
---Não ela é minha. ---Retrucou Leninha.
---Pode ser sua, mas vou colocar em um vidro
assim mesmo.---Confirmou Cirilo.
---Deixa Leninha, é só por um pouco de
álcool assim ela conserva mais tempo.---Ajudou Pedro.
---é bobona e assim você pode mostrar pra
todo mundo, e não foi só você que matou, se não fosse eu ela ia se recuperar e
ir embora.
Leninha concordou estava emocionada.
---ainda bem que vocês não atrapalharam a
aula da mamãe.Depois vou levar pra mostrar os alunos dela.
Cirilo buscou um vidro de azeitona vazio e
Pedro lhe deu um pouco de álcool. A aranha ainda se mechia um pouco, mas com um
pauzinho conseguiram colocá-la no vidro e cuidaram de tampar rápido.
---E cuidem de tampar o buraco que ela
saiu, pois essa deve ser a mãe ou o pai e com certeza ai deve ter outras que vão logo, logo querer saber o paradeiro
dessa.
Pedro concordou e correu a buscar umas
pedras e um tijolo, não queria depois ser picado por um bicho daqueles.
---Sábado eu vou fazer massa de cimento e
tapar esse buraco definitivamente.
---Coitadas!---Resmungou Leninha. Vão
morrer sufocadas.
---Engraçado! Como você não teve medo de
jogar água quente na cara dela.—Disse dona Ruth.
---É, mas eu joguei de medo, nem eu também
sei como consegui, já há muito tempo e eu nunca tinha conseguido.
---credo! Ta falando até embolado.—Riu
Cirilo.
---É minhas pernas estão bambas, eu corri
um risco, já pensou se ela me atacasse.
---Agora, chega disso.---Disse dona
Ruth.—Vamos entrar, aqui fora esta frio.E vamos cuidar de descansar, que amanha temos que levantar
cedo.
---Vou esperar a mamãe acabar de dar aula e
vou contar pra ela.---Disse Leninha.
---Tá certo, mas vamos entrar.
Dona Ruth foi fechando a porta da sala e
sentiu um arrepio, tratou logo de fazer o sinal da cruz.
Leninha beliscou no Cirilo e sorriram, um
sorriso de cumplicidade.
“Ainda bem que com essas pequenas coisas as
crianças esqueciam os problemas maiores”.----Pensava Pedro, mas eles estavam
ali e precisavam ser resolvidos. Tinha visto o Sr. Sebastião a tarde na praça e
sabia que ele não demoraria a procurar a mãe.Resolveu que ia à fazenda do primo
Antonio no domingo e ia ver se tinha coragem de pedir ao primo que procurasse
um meio de ajudar sua mãe.Todos os outros cobradores esperavam com paciência,
pois sabiam que na verdade dona Elza não tinha culpa pelo marido, afinal ela
não fugira estava ali arcando com as conseqüências de um crime que não
cometera.
XXXVII
Rui topou de cara ser padrinho de
Leninha, ele disse que Suely ia ficar muito contente em acompanhar ela em sua
primeira comunhão.
Leninha saiu da oficina do Rui pulando de
alegrias e foi falar direto com Suely. Entrou pelo corredor da casa que ficava
ao lado da oficina. Suely brincava com o neném que já começava a ensaiar os
primeiros passos.
---Ei Suely.---Disse entrando na sala.
---Leninha! Que bom que você veio aqui,
vem, vem ver Diego já esta começando a andar.
---Nossa Suely, que gracinha ele está.
Deixa-me pegar nas mãozinhas dele.
Pegou e começou a cantar.
----Dan-dá, neném, dan-dá neném!
---Sabe Leninha, acho que você já pode
casar, tem jeito com crianças.---Disse Suely.
Leninha sorriu, disse o porque da visita,
esta ficou superfeliz.
----Claro que eu quero ser sua madrinha,
quem não gostaria.
---Então esta acertada. Vocês vão ter que
ir um domingo antes no catecismo comigo, que o Marcelo vai explicar tudo
direitinho.
---Está bem, no dia você passa aqui e
vamos juntos, pena que depois disso tudo o Marcelo vai embora.---Acrescentou
Suely.
---E eu nem queria que esse dia chegasse
rápido, só por isso.---Disse leninha com os olhos cheios de água.
---Você gosta tanto dele assim?
----E quem não gosta ele é uma gracinha de
rapaz.
----Pena que vai ser padre.
----Pena não, a vovô diz que é uma benção,
que Deus só escolhe as pessoas boas para servirem á ele.
---Sua avó tem razão Leninha, a gente fala
que é uma pena no modo de dizer, porque ele é um rapaz tão bonito e daria um
ótimo marido.
Leninha balançou a cabeça e sorriu.
----Tenho que ir vou na casa da Wanda, ela
não pode ir a aula hoje e vou passar o dever pra ela.
---Ta bem, mas antes vá lá na geladeira e
tome um pouco de refrigerante que eu sei que você gosta.
---Oba!---Disse Leninha soltando a mão do
pequeno Diego e enchendo um copo de refrigerante.
Dona Elza já estava bem, não sentia muitas
dores na operação, mas a cabeça não quietava. Depois do grupo, parou na casa da
comadre Antonia.
----Ah! Comadre podia tudo ser tão mais
fácil.---Reclamava sentada na mesa da cozinha da comadre e amiga.
---Faz o que deve ser feito comadre, pede
ajuda a quem tem para te ajudar.---Dona Antonia enquanto falava coava um café
que cheirava a casa toda.
----Os primos né, você esta falando dos
primos.
---Pois é comadre o primo Antonio, quero
dizer, seu primo Antonio. Ele tem condições de te ajudar, não vai sacrificar em
nada.
----Eu vou pensar comadre, mas o problema é
que vou continuar devendo do mesmo jeito. Eu acho que o melhor a fazer é o que
mamãe vive mandando eu fazer. Vender a casa e depois com trabalho consigo
outra.
---É comadre também não é uma má idéia.
Claro, a melhor solução seria essa. Melhor
que aquele homem rondando e tentando fazer mal a ela. Completou dona Antonia.
Leninha ficou muito tempo na casa de Wanda,
até ela copiar os deveres. Wanda até que tinha melhorado a aparência um pouco
desde que começou a ajudar Leninha no berçário, cuidava mais de suas roupas.
Sua irmã ate achava engraçado que nunca mais a tinha visto de pe no chão.
Silvia era uma moça bonita, Leninha a
ficava olhando enquanto wanda copiava os deveres.
---sabe leninha, às vezes fico
pensando.---Disse Silvia chegando ate a mesa onde elas estavam sentadas.---Você
tem a mesma idade que Wandinha e parece mais velha, é responsável com as
coisas, mamãe mesma fica comentando isso aqui em casa.
----Ah! Não Silvia não implica. –Pediu
Wanda.
----Não estou implicando, só estou querendo
ajudar. Pra você ficar mais esperta.
---Deixa a Wandinha, Silvia, ela é
inteligente, a professora até faz elogios a ela.
---Nossa essa eu queria e pagava pra ver.
----Leninha, não do papo pra ela, ela é
chata. Acha que é a tal só porque é mais velha e já pode namorar.---Disse
Wanda.
Leninha escutava calada.
----É mesmo, e falando em namoro, Leninha,
---Sentou mais perto de Leninha.---Como é que vai aquele seu primo gostosão.
O sangue de Leninha subiu até suas faces.
----Qual? ---Perguntou com ar de inocência.
----Aquele que você fica andando de mãos
dadas.
---Ela ta falando do Tarzan,
Leninha.---Falou Wanda.
---Tarzan não, do Douglas. ---Disse
Silvia.----Quer um rapaz com nome mais bonito, não sei como essa menina teve
coragem de colocar um apelido tão feio em uma pessoa tão bonita. Tarzan, Tarzan
dos macacos.—Disse e riu de Leninha.
Leninha não aquentou.Ficar elogiando Tarzan
na frente dela, e ainda por cima como ela sabia o nome dele. Douglas
---Como você sabe o nome dele?---perguntou
leninha ficando em pé com ares de moça defendendo o namorado.
---Ora e quem não sabe, eu até já estudei
com ele.
---É leninha, a Silvia disse que quando
estudava com ele, nunca tinha percebido como ele tinha ficado tão bonito. Outro
dia ela viu ele saindo com você e agora só fica me perguntando por
ele.---Explicou Wanda.
---E porque?---Perguntou leninha com o
nariz em pé.
---O que tem eu perguntar. Quem sabe o dia
que ele vier em sua casa, você não me chama pra ir lá e tomar um café.
---E porque eu faria isso?
---Ora, porque eu sou irmã de uma amiga sua e ele é seu
primo, o que custa você me levar ate sua casa quando ele estiver lá.
Leninha sentou de novo. Não deu resposta.
Silvia não entendeu bem aquilo. Se era um sim ou um não.
---E então Leninha posso contar com você?
Leninha fechou a cara, fechou os cadernos e
saiu dando Tchau para Wanda que já tinha acabado os deveres.
Voltou triste para casa, não ia poder fazer
nada, Silvia era linda, e se Tarzan soubesse que ela tinha interesse nele, ela
não sabia o que fazer. Também que droga, porque ela não crescia mais rápido!
Silvia ficou na porta da rua, olhando
Leninha ir embora.
----O que deu nessa menina?---perguntou
para Wanda.
---Não sei, ela deve ter ficado com ciúmes
de Tarzan.
Silvia riu, um riso debochado. Wanda não
gostou, sabia das maldades da irmã.
Leninha chegou em casa e foi direto para o
quarto. Dona Ruth nem viu ela entrar. Deitou de bruços na cama e ficou chorando
baixinho.
Cada novo catecismo em vez de alegria
parecia que a tristeza crescia dentro de Marcelo. Ele não queria transmitir,
queria mostrar alegria e pedia a Deus para lhe dar forças. Mas olhar a carinha
de cada criança catequizante lhe enchia de paz.
Leninha sentia a tristeza de Marcelo e
tentava lhe consolar com um sorriso a cada olhada que ele dava.
Pedro disse a mãe que iria à fazenda do
primo Antonio logo depois da missa da manha daquele domingo.
Leninha também queria ir, mas lembrou que
tinha muitas coisas para fazer no domingo. O catecismo, o berçário e muito
interessante teria filme novo estreando.
---O que você pretende fazer lã hoje
Pedro?---Perguntou dona Elza.
---Nada mamãe, vou conversar um pouco com
Tarzan.
Ele ia conversar com o primo a respeito
da mãe e pediria a Tarzan para conversar com o pai e ver o que eles poderiam fazer para ajudar.
Leninha passou quase o tempo todo depois do
catecismo, um pouco suspensa. Queria muito que Tarzan viesse para a matine de
domingo junto com Pedro, mas também estava com medo dele vir e a Silvia começar
a dar em cima dele.
E não deu outra, ele não veio para a
matine, mas veio para assistir a sessão da noite. Leninha estava acabando de
entregar o ultimo bebe a mãe depois da missa das cinco e la estava ele todo
arrumado esperando ela na janela do berçário.
Ele estava tão bonito, nem mesmo leninha
tinha reparado tanto brilho nos olhos dele ao lhe olhar. Ela levou um tremendo
susto quando ele lhe disse.
----E ai como vai a minha priminha
preferida?----Ele a estava observando cuidar dos bebes com tanto carinho.
----Nossa Tarzan! Que susto!
E foi susto mesmo. Que bom que ele estava
ali.
---Vim te buscar.
---Você chegou agora? ---perguntou ela
ansiosa, enquanto ajudava Lili e Claudia arrumar as coisas pra fechar o
berçário.
----E tem mais ou menos uma meia hora.A
prima Elza falou que você foi a matine e eu queria saber se o filme valeu a
pena.
---Nossa se valeu! Foi demais. O Roberto
tava demais.
---E Roberto Carlos é sempre muito bom.]
---Como e o nome do filme mesmo?
---Roberto Carlos em ritmo de aventuras.
---Quer ir ver de novo comigo?—Perguntou
Tarzan.
E ele tinha alguma duvida que ela queria.
---Será que da tempo de eu ir lá em casa
pegar um agasalho e comer alguma coisa? Estou morta de fome.
---Claro, vamos.—Lili e Claudia foram
fechando a porta e foram acompanhando eles.
---Vocês vão lá em casa?---Perguntou
leninha.
----Não eu vou levar a Claudia lá em casa e
deixar ela assistir o filme da sala de projeção.
---Respondeu Lili pegando a mão de Claudia.
----Ta bom, então a gente encontra lá daqui
a pouco.—Respondeu leninha. Apertando o passo junto com Tarzan.
---Não demorem falta sô meia hora pra
sessão.---Acrescentou Lili.
----Reserva um lugar pra gente
Lili?---Pediu Tarzan.
---Tá bom eu sento lá em baixo com a
Claudia ate vocês chegarem.
---Valeu garota!---Respondeu Tarzan.
Leninha era pura felicidade. Ir ao cinema
com Tarzan e ainda por cima de mãos dadas.
Chegou correndo em casa, sua mãe estava
deitada, estava sentindo um pouco de dor, mas não transpareceu para a filha.
---Mamãe, eu vou ver o filme de novo com
Tarzan, Posso?
---Claro minha filha, ele já tinha me
pedido. Mas tome cuidado e só fique perto dele.
---Claro mamãe, não se preocupe. Vou pegar
uma blusa porquê o tempo esta esfriando.
Pegou uma blusa de capuz, calçou um
sapatinho de saltinho que já estava ficando apertado, mas ela precisava ficar
mais alta, e ajeitou os cabelos.
Quando ela chegou na sala, Tarzan deu um
assobio.
----Fiu...fiu...Que gata!
Ela ficou corada, mas adorou. Deu tchau
para a mãe e avo, ouvindo as recomendações de ambas. Cirilo e Pedro estavam na
praça da igreja esperando a hora de começar a sessão. Eles também iriam ao
filme.Cirilo tinha vendido muita couve e taioba naquela manha e podia pagar
para ele e Pedro.
Leninha estava tão feliz que ate esqueceu
que estava com fome.Só não gostou quando chegou na fila do cinema e deu de cara
com Silvia, com um decote tão grande que quase lhe aparecia os bicos dos seios.
---Leninha, que legal você também veio, a
Wanda também veio, va la sentar perto dela.
Leninha entendeu que ela queria era ficar
perto de Tarzan, só que este apertou ainda mais sua mão e respondeu para ela.
---Não, ela veio comigo e vai ficar o tempo todo
só comigo.
---Irmãozinho mais velho, que legal em
leninha, mais um para te proteger.---Disse Silvia com ar de deboche.
----Pra defender sim, mas irmão não.---Disse
Tarzan serio e já com as entradas na mão, levou Leninha para a sala de cinema.
---Essa garota é um saco! ---Disse Tarzan.
---Você a conhece, então?---Perguntou
Leninha.
----Já, eu estudei com ela, ela não é garota
de se ser amiga, ela é...---Ia dizer a toa, mas respeitou Leninha.
---É o que Tarzan?
---É nada, só isso, não quero ver você
conversando com ela, ela não é legal, só isso.
---Eu também não gosto dela.
---Melhor assim, assim você evita
aborrecimentos.
Leninha ia dizer que era amiga só da irmã
dela, mas preferiu não render mais assunto sobre aquela tal.
Tarzan levantou um pouco do lugar que
Claudia e Lili tinham reservado para eles e voltou com um saco de pipoca e uma
garrafinha de refrigerante.Nossa!Leninha aceitou com o maior prazer.
Nunca tinha assistido filme em companhia de
Tarzan e aquele foi o melhor filme que viu em sua vida. Nunca seria esquecido.
Pedro não teve coragem de falar com primo
Antonio, mas teve coragem de pedir ajuda a Tarzan, e este prometeu fazer o que
fosse possível.
Na segunda – feira dona Elza não foi ao
grupo, tinha feito tanto esforço depois da operação que precisou pedir mais
dois dias para descansar. Ela tinha direito, afinal quase não tinha aproveitado
os dias que tinha direito a licença medica.
Leninha levou o bilhete para a diretora e
esta colocou uma professora substituta para a classe de dona Elza.
Ela precisava desses dois dias para pensar o
que fazer. E só pensou em uma solução mesmo. Pediu Tarzan para levar um bilhete
para primo Antonio pedindo a ele encarescidamente para vir vê-la.
Esta atendeu prontamente logo cedo, enquanto
leninha estava na escola. A esposa dele também veio e aproveitou para visitar a
prima que não tinha visto desde a operação.
---Entra Antonio.—Atendeu dona Ruth.---Vou
chamar a Elza.
---Quanto tempo Tia Ruth.---Cumprimentou
dona Ana.
---É Ana, desde o ano passado. Mas não faça
cerimônia, venham, acabei de passar um café fresquinho.
---Isso é bom.---Disse o primo Antonio
tirando o chapéu e tratado de ficar bem a vontade.
---Dona Elza ouviu as vozes e saiu do
quarto indo abraçar os primos.
3entaram-se à mesa da cozinha. Antonio já
sabia do que se tratava, porque Tarzan lhe contou a conversa que teve com
Pedro.
---Pois é primo.---disse dona Elza---Estou
disposta a aceitar a ajuda de vocês.
---Já não era sem tempo.—Disse prima Ana.—Se
nos sendo seus primos e temos condições. Nada mais justo.
Dona Ruth ouvia tudo calada.
---Mas o que quero de vocês, primo Antonio,
é um pouco além.
Primo Antonio provou do biscoito de polvilho
que dona Ruth tinha acabado de fritar.
---Pois não prima, diga.
---Você uma vez me disse, que seu filho
Lucas que esta morando em Vitória, mas o sonho dele é comprar uma casa aqui
para vir passear de vez enquanto.
---É isso mesmo.---Disse prima Ana.—A mulher
dele não esta gostando muito de Vitória e eles estão querendo vir para cá, nem
que seja só nas férias dele.
---Então primos, a gente resolve dois
problemas.Eu quero vender a casa.
---Esta casa? ---Perguntou assustado primo
Antonio.
---É primo, eu alugo uma menor e pago minhas
dividas, pelo menos as mais altas.
---mas, prima, isto não é justo com você, a
tia Ruth e as crianças.
---É sim.—disse dona Elza entrando no
assunto.---assim podemos dormir.
---mas eu posso emprestar o dinheiro pra
você acertar as dividas que aquele miserável te deixou.
---è isso primo você pode me emprestar, e eu
quero e sair dos empréstimos.
---Ela esta certa Antonio.—Disse Ana depois
de pensar um pouco. Ela vai continuar devendo, mesmo sendo com nos, ela vai se sentir
devedora, a divida só vai mudar de endereço.
---mas eu não vou cobrar, só se um dia ela
puder me pagar.
---Oh! Primo, vocês são uma família boa que
Deus me deu, mas se o Lucas puder me comprar a casa já esta me ajudando demais.
---Claro que ele pode, é só passar um
telegrama, que lê vem correndo. Ele adora essa sua casa.
---Pois é primo, a casa é boa, o terreno
grande, só precisa de umas melhorias.
-
--Modernizar.---.Disse Ana.—o povo da cidade gosta de
luxo.
---Pois então, vocês fazem isso por mim?
---Claro, se não tem outro
jeito.---Respondeu primo Antonio.
Dona Ruth levantou as mãos pro céu e disse
alto.
----Louvado seja o senhor Jesus!
---Para sempre seja louvado.—Respondeu
todos juntos.
---Então vou entrar em contato com Lucas,
e pedir para ele vir acertar as coisas com vocês.---Disse primo Antonio.
---Tem uma outra coisa que quero de vocês
primos.
---Pois não.
---Quando o dinheiro chegar, eu te peço
que procure o sr. Sebastião e resgate as promissórias que estão em poder dele.
---Sei.---Disse Antonio coçando a cabeça
em tom de preocupação.---Claro se você quiser eu acerto com todos é só me dar
os nomes.
---O resto eu mesmo acerto. Eu preciso de
ajuda dó com esse, ele é muito estúpido e pode querer me passar a perna e estou
um pouco fraca pra brigar.
Ficou tudo combinado. Os primos não
quiseram ficar para almoçar estava de jipe, e iam mandar o telegrama para Lucas
e resolver uns problemas na cidade.
Quando foram embora, dona Ruth abraçou a
filha sentindo um grande alivio, parecendo que todo peso tinha ido embora.
Cirilo até gostou da idéia, apesar de terem
de mudar, mas sair daquele pesadelo ia ser o Maximo.
Leninha subiu na sua mangueira e sem sua
mãe perceber chorou muito abraçando a amiga querida que ela mesma plantara.Mas
se era para o bem de todos. Mas que era um absurdo isso era.Ter que mudar só
porque o pai fez aquela cachorrada toda.
Pedro abraçou a mãe sem dizer muita coisa.
Também não precisava, o que eles tinham a fazer agora era procurar um lugar
para mudar.
Lucas respondeu ao telegrama do pai dizendo
que dentro de quinze dias viria para lavrar a escritura, e mandou cinqüenta por
cento do imóvel, também pediu para a prima não mudar antes dele chegar.
Sr. Antonio cuidou de tudo, foi procurar sr.
Sebastião e voltou com todas as promissórias, aqueles cinqüenta por cento da
casa ficou todo por lá, só sobrou para dona Elza acertar o armazém e o que
estava devendo para o pai de Eliza. Mas que alivio, que sonho, há muito um
jantar não tinha tanto sabor.
---vamos ora todos, que sei que Deus é nosso
fiel protetor.—Pediu dona Ruth.
----Eu nunca duvidei disso.---Disse dona
Elza.
A família toda rezou de mãos dadas.Leninha
sentiu toda a força que o espírito santo podia dar a ela.
XXXVIII
O dia da primeira comunhão chegou.
Que lindas estavam as meninas! Todas de
branco. A igreja estava lotada. Leninha toda de branco mais parecia uma noiva.
Disse Tarzan abraçando a prima logo depois da cerimônia.
Leninha sentiu tão bem em receber a
primeira comunhão que ainda se sentiu mais moça, estava alta quase da altura de
sua mãe.
Dona Elza disse que a filha não
demoraria a virar moça, porque ela já estava com onze anos era uma moça feita.
O triste em tudo isso foi quando eles
despediram de Marcelo, ele ia ficar até quarta-feira, mas teve uma festa de
despedida logo após a cerimônia da eucaristia. Todos queriam tirar foto com
ele.Quando chegou a vez de leninha esta colou o rosto no dele e ficou quietinha
até o flash bater.Só que a lagrima incistiu em bater logo depois.
---Nunca, nunca vou esquecer de
você.---Disse leninha apertando ainda mais o abraço.
Tarzan ficou olhando e também chorou.
A igreja ficou vazia, triste.Iriam
todos para a fazenda dos pais de Eliza, eles iriam oferecer um almoço em
comemoração a primeira comunhão de Eliza e todos os outros eram convidados.
Cirilo grudou em Leonardo, a fazenda era
bem perto da casa dele. E ele e aproveitar a carona dos pais de Leonardo.E
claro ficariam atentos a qualquer assunto sobre o assassinato de Raul.
A fazenda do Sr. Joaquim Dantas era um luxo
só. Leninha foi na caminhonete da família junto com Sonia, Wanda, Lili e Tarzan
que não saia de perto.Teve carona para todos.
A mesa grande foi preparada na porta da
frente, tinha de tudo gostoso e cheio de frutas.O churrasco enchia a boca de
água de todos que estavam com fome.
Parecia que o povo todo da cidade estava
ali, também a maior parte tinha feito a primeira comunhão e eram convidados.]
Elvira estava assentada um pouco tristonha
com a filha no colo.
Dona Elza se aproximou e pediu para segurar
um pouco o neném.
---Ela esta linda Elvira.—Comentou.
---É, ela é a cara do Raul.—Disse
tristonha.
Dona Elza era uma pessoa muito sensível,
mas disse:
----Você tem que superar isso Elvira.
---É difícil dona Elza, o Raul estava muito
ligado em mim, quer dizer eu nele.---Disse abaixando os olhos.
---Você é jovem Elvira, vai conversar um
pouco com seus amigos, deixa sua filhinha comigo, eu cuido dela um pouco.
---Hoje eu dei folga a menina que me ajuda,
coitada ela também fez a primeira comunhão.Precisa se divertir, eu acho que não
deveria ter uma festa, afinal Raul morreu tem tão pouco tempo...Mas papai disse
que a vida passa rápido e a gente esquece.
----Seu pai esta certo.Vá eu faço ela
dormir.
---Ta bom, só vou tomar um pouco de ar. Se
ela dormir é só colocar de lado no berço daquele quarto.---Apontou. Ela vai
dormir no mínimo umas duas horas.
---Pode deixar filha, vai se divertir um
pouco.
Elvira deu um beijo na filha e saiu
cabisbaixa. Dona Elza ficou olhando ela caminhar, tadinha era só uma menina.
As meninas estavam numa barulhada só, brincavam
de: roda, dançar, a dança das cadeiras e tudo o que aparecia, estavam felizes
demais. Eliza quase não brincava ficava era de beijinho com Daniel toda hora
que ninguém olhava.Leninha as vezes olhava pra eles e dava uma piscadela.
---Leninha, vem cá.—Chamou Eliza.
Ela veio rápido.
---Cadê Tarzan? ---Perguntou.
---Deve estar comendo churrasco, ele
estava com Pedro e Marcelo.
---Ah! É que Daniel esta querendo
conversar um pouco com os meninos e eu preciso ir ao banheiro, estou suada,
queria me lavar. E você também deveria lavar a cara esta toda suada. Vem
comigo?
---Vou, deixa-me chamar a Sonia, ela já me
pediu pra ir ao banheiro tem um tempão.
---Ta, chama logo.Vá lá Daniel, daqui dá
pra ver o Pedro e Tarzan.
---Depois você vai pra lá, ta legal/--Pediu
Daniel.
---Vou sim. ---Deu um beijo nele.
Lá foram as treis pro banheiro.
----Aonde as meninhas vão?---Perguntou dona
Elza logo que viu elas entrando na casa.
----Só no banheiro, mamãe.---Respondeu
Leninha.---Vamos lavar o rosto estamos suadas.
---Também não param de pular.
Elas riram e seguiram de mãos dadas.
A filhinha de Elvira dormiu e dona Elza
cuidou de colocá-la no berço, não descuidando de olhar de vez enquando.
Leninha já tinha ido na casa da fazenda,
mas nunca entrara, ficou assustada com o tamanho do banheiro, tinha ate uma
banheira grande, chuveiro, toalhas pra todo lado.
----Nossa Eliza, que exagero. É maior do
que o da sua casa da cidade.---Comentou leninha.
---É papai é exagerado mesmo. Ele disse que
o fim da vida dele vai ser aqui. Por isso tudo é tão caprichado.
----Será que dá pra gente tomar um banho
nessa banheira?---Perguntou Sonia toda entusiasmada.
----Dá, vocês querem?---Perguntou Eliza já
cuidando de ligar a água.
---Não! A gente vai demorar e a mamãe com
certeza vai implicar.
---Deixa de ser do contra leninha é rápido.
Vem sorria e coloque a touca e tome cuidado para não molharem os cabelos.
Porque assim ela não vai desconfiar que tomamos banho.
Sonia
cuidou logo de tirar a roupa toda. Era toda lisinha e branca, Eliza ficou nua
também, os peitos duros apontavam para cima.
---Anda Leninha é só uma molhadinha, vê já
tem bastante água é só tirar o suor, ou você esta com vergonha do seu novo
corpo.
Leninha não resistiu, cuidou de pendurar o
vestido novo, colocou uma touca e entrou na água.
---Vê Sonia, como o corpo dela esta bonita,
já tem seios.---Disse Eliza.
---Eu já tinha visto.---Disse Sonia.
----Eu também, só que agora, eles estão
maiores. Deixa-me beijar.—Respondeu Eliza, aproximando de Leninha e cuidando de
beijar seus seios.
Leninha sentiu um frio na espinha, gostava
da sensação.
----Finja que eu sou o Tarzan, que eu finjo
que você é o Daniel.
---E eu?---Resmungou Sonia, finjo que sou
quem.
---Não seja ciumenta Sonia, vem cá também.
Leninha gostava daquela sensação do carinho
das amigas, mas não sabia dizer ao certo, mas também não se sentia bem em fazer
aquilo.
Sonia foi chegando e beijando nos meios das
pernas de Eliza, esta por sua vez foi fazer o mesmo em Leninha, esta se esquivou.
---Vamos gente, já demoramos muito, daqui a
pouco mamãe vem ver o que estamos fazendo.---Leninha cuidou de sair da banheira
e se enrolar rápido na toalha.
Sonia parecia nem estar ai.
---Deixa de ser chata Leninha, vem cá,
deixa eu te ensinar a beijar.
Leninha sorriu.Mas no fundo pensou: “Isso
eu quero aprender com Tarzan”.
---Anda Eliza, esqueceu do Daniel, ou vai
me dizer que prefere estar aqui, do que com ele?
Eliza deu um pulo.
----Nossa é mesmo!Vamos Sonia, vamos
enxugar e vestir a roupa.
Nisso bateu na porta.
---leninha!---Era sua mãe.---O que
aconteceu agarrou ai?
---Já vamos mamãe.---Respondeu acabando de
calçar e ageitar os cabelos.
---Abra a porta Leninha, pode deixar ela
entrar.---Disse Eliza já vestida.
---Entre mamãe.Já vamos descer.---Disse
abrindo a porta.
----O que vocês estavam fazendo? Que
demora? Daniel já te procurou Eliza.Esta com um prato de comida com churrasco
pra você lá na mesa da copa.
---Estávamos tirando o suor.---Disse Sonia
arrumando os cabelos.
---Mas precisavam tomar banho?
---Não recistimos mamãe, olha só o tamanho
da banheira.
---Descem eu enxugo isso aqui.
Elas desceram as escadas correndo e dona
Elza cuidou do banheiro, mas não sem antes dar um olhar severo para Leninha.
Ela sabia que a mãe não gostava dela presa
em banheiro com ninguém.
Tarzan também estava na copa, tinha feito um
prato para Leninha e Sonia.
---Daniel olhou para Eliza e ela cuidou
logo de lhe dar um beijo.
---Desculpa, não resisti a um banho.
---mas valeu a pena, esta tão
cheiros.---Disse ele retribuindo o beijo.
Leninha olhou o beijo e abaixou os
olhos.Tarzan olhava para ela sentindo um carinho imenso.
Sonia sentou e começou a comer estava
faminta.
---Cadê Marcelo?—Perguntou leninha.
----Esta com Pedro.---Respondeu Tarzan.
Cirilo e Leonardo pareciam dois detetives,
só ficavam pelos cantos. Subiram pela laje na caixa d’água tentando ver até
onde a vista alcançava.
---Daqui da pra ver ate sua casa, Leo, Olhe!
Sua mãe deve estar fazendo alguma coisa, esta saindo fumaça pela chaminé.Em se
falando nisso, porque ela não veio?
---Minha mãe não gosta muito de sair de
casa. E além do mais os convidados são só os que fizeram a primeira comunhão
hoje, até eu estou aqui de enxerido.
---Você é meu convidado e de Leninha.
---Ta certo.
Leninha já tinha acabado de almoçar e
passeava com Tarzan e Sonia, tinha tanto lugar para andar que era ate perigoso
perdes.
---O que esses meninos estão fazendo lá em
cima, vamos ver?---Convidou Tarzan.
---E ai molecada o que perderam
aqui?---Perguntou Sonia.
Eles levaram um susto.Estavam distraídos.
----Olhe Sonia a casa de Lindalva.---Disse
leninha.
---É mesmo, porque será que ela não
apareceu mais na escola?---Perguntou Sonia.
---Os irmãos dela disseram que ela esta
doente.---Disse Leonardo.
----Doente, coitada, precisamos ir visitar.
---Acho melhor não.Mamãe tentou ir lá outro
dia e eles não a deixaram entrar. ---Disse Leonardo.
---Será que é doença que pega?---perguntou
Sonia.
---Não sabemos.
---Já sei, vou pedir pra mamãe ir lá.
---Disse leninha.
O dia correu tranqüilo.Pedro ficou quase o
tempo todo com Marcelo. Falaram sobre um futuro próximo.
----Sabe Marcelo, vou fazer a cabeça da
mamãe e vou ver se ela concorda de a gente pegar a estrada.
---Como assim Pedro?
---Já tentei muita coisa, aqui não temos
futuro, no máximo vou ficar o resto da vida trabalhando na prefeitura e não vou
ter nada para oferecer pra ninguém.
----Você quer dizer, para Izabel.
---É isso mesmo.Preciso estudar, ser alguém
e vir buscá-la.
---Não to te entendendo, você estava
estudando no seminário e não quis continuar, disse que precisava ajudar sua
mãe.
---No seminário eu não ia conseguir ajudar
ninguém, lá é uma prisão. Desculpe-me, sei que você vai ser padre, mas eu não
consigo viver preso. Lá eu me senti numa verdadeira prisão sem grades.
---Agora eu te entendo Pedro. Você quer
uma vida comum, constituir família, mas primeiro você tem que conquistar a
menina.Eu não sei bem essas coisas, mas eu sei que você não a esta namorando. E
sem querer botar lenha na fogueira, se você acha que tem alguma chance com ela,
faz alguma coisa, porque eu vi o filho do pastor arrastando as asas pra ela.
Pedro se assustou, ficou corado de raiva.
---o que? Você tem certeza?
----É mais ou menos. Outro dia ele se
ofereceu para carregar umas compras para ela, eu estava no coreto e vi os dois
conversando.
---Nossa! Cara!Obrigado, você é mesmo um
amigão.Eu sei que ela gosta de mim. Mas não sei o que acontece toda vez que eu
chego perto dela, eu quase não consigo falar.
---Então não fale. Laquê um beijo nela logo
de uma vez.
---Credo Marcelo, você para ser um
seminarista esta muito saidinho.
Marcelo deu uma risada alta, estava
precisando.
Leninha ficou lá em cima da laje com
Tarzan.
Sonia, Leonardo e Cirilo desceram para
pegar refrigerantes.
A laje era grande, ficava em cima de um
cômodo separado da casa, só para a caixa d’água que era muito grande. O cômodo
servia para guardar ferramentas e coisas necessárias na fazenda.
---isso aqui é bonito.---Comentou Tarzan.
---É muito. ---disse Leninha um pouco
tímida.—
Engraçado, nunca tinha sentido timidez
perto dele, mas talvez por estar tão arrumada, estava se sentindo um pouco
desconfortável.
---Tarzan não era bobo, Chegou pertinho
dela.
Estavam debruçados olhando lá em baixo. A
aproximação dele fez o coração dela disparar. Terminantemente aquela sensação
era bem melhor do que os abraços de Eliza.
Ele segurou suas mãos com ternura e as
beijou.
---Leninha, ---disse emocionado.---Quando
você crescer mais um pouco, será que ainda vai gostar de mim?
Ela não soube o que responder, como ele
sabia que ela gostava dele, ela nunca tinha tido a ele.
Leninha se sentiu uma moça, olhou com
firmeza para os olhos dele.
----É só disso que tenho certeza em minha
vida.Do tanto que eu gosto de você.
Com todo aquele tamanho, Tarzan se sentiu
um menino.
Inclinou um pouquinho, o coração dela
disparou, claro ela esperou um beijo. E ele deu um beijo na testa dela com todo
carinho.
Claro que ela esperava um pouquinho mais,
mas o abraço que veio depois reconfortou e deu certeza do que eles sentiam um
pelo outro.
Chegou a tarde e o domingo terminou, a
semana prometia muitas emoções. Pedro descidiu procurar Izabel e afirmar o
namoro que só existia nos olhares dos dois.
XXXIX
Lucas chegou a cidade para pagar o
resto da casa e propôs a prima para ficar na casa ate o final do ano.Porque ele
só poderia começar a reforma no final do ano e não tinha motivo para a casa
ficar fechada sem ninguém, e enquanto isso teria certeza que ela estaria sendo
bem cuidada.
Dona Ruth só faltou dar saltos de
alegrias.
---Esses primos não existem.—Comentou
com dona Elza.
---É mamãe. E a sra ainda não sabe da
maior. Claro que eu sempre desconfiei, mas não sabia como agir.
---O que minha filha.
---Ontem Tarzan veio falar comigo.
---Tarzan teve aqui ontem? Como não
vi.
---Não, mamãe, aqui em casa não. Ele
foi à escola. Estava sem graça. Me pediu para namorar leninha.
---Meu Deus! Leninha é uma menina.
Apesar de que com treze anos eu já estava casada.Ela falta ainda muito pra
treze.
---Eu sei mamãe, mas os tempos
agora são outros, ele é sério, ele disse que claro que não quer namorar ela
assim igual se ela já fosse moça feita, ele sabe que ela é só uma menina.Ele
veio só dizer que ama a Leninha e queria muito ser o futuro namorado dela.
---E o que você respondeu.
---Eu disse qua não sabia o que
dizer. Que eu sentia a Leninha tendo um carinho por ele, mas não podia
responder por ela.Só ela crescendo, amadurecendo e vendo se aquilo era amor
mesmo.
---Apesar da minha idade, eu acho
que você agiu certo e não devemos falar isso com ela.Porque ela pode ficar
iludida e esquecer os estudos.
---Isso mesmo mamãe não fale isso
com ela.Eu pedi ao Tarzan para ficar me ajudando na educação dela, mas com
muito respeito, o resto só o tempo dirá.
----Ele já deu provas o suficiente,
até hoje que é um rapaz de respeito. Mas ele é tão mais velho!—Disse dona Ruth.
---Nem tanto né, mamãe ele só tem
17 anos.
---E a Leninha quase onze. –Disse
desolada dona Ruth.
---Quando ela fizer vinte anos e
ele tiver vinte e sete, já não será uma diferença tão grande assim.
----Pensando assim, mas até lá,
será que este amor vai existir.
---Ai, só Deus sabe.---Respondeu
dona Elza indo para o quarto preparar a aula dos alunos da noite.
Leninha estava na casa de Sonia
preparando a pesquisa sobre Tiradentes, elas teriam que apresentar.Parecia ate
um milagre, mas Sonia estava corada, parecia ate estar engordando.
A mãe de Sonia estava numa alegria
só. As meninas estavam na copa usando a mesa grande para fazer os cartazes,
Claudia escolhia gravuras, Sonia cortava e Leninha escrevia as frases.
---Sua mãe ta que é uma felicidade
só em! Sonia.---Comentou Claudia sentindo cheiro de bolo e ouvindo dona Neném
cantarolar.
---É mamãe disse que a avó de
Leninha é uma feiticeira.
---Feiticeira, a
vovó!----Protestou Leninha parando de escrever.
---´E Leninha, no modo de dizer,
quer dizer uma feiticeira boa, que cura.
---Ah!---Resmungou Leninha.
---A sua avó esta me curando. Com os
remédios dela.Nem medico conseguiu.Devo minha saúde a ela.
---Eu sei, lá em casa ninguém toma
remédio de medico, claro, a mamãe foi caso serio, caso de operação, ai só com
medico, mas sem ser isso, é só os remédios da vovó.
---Nossa Leninha! Mudando de assunto,
mas você tem razão de ficar só olhando o Tarzan.Ele ta cada dia mais
bonito.—Disse Claudia.
---E não é?---Leninha não gostava de
ninguém elogiando Tarzan.---E eu vi você bem assanhada olhando meu irmão.
---Isso é mesmo.---Disse
Claudia.—Cirilo ta ficando um menino tão bonito!
---E eu acho que eu vou acabar
ficando pra titia.---Disse Sonia—Não sobra ninguém pra mim.
Dona Neném chamou para o lanche.
Claudia foi correndo na frente. Quando foram embora dona Neném embrulhou um
bolo e biscoitos para Leninha levar para a vó.Dona Ruth recebeu com satisfação,
correu a coar um cafezinho fresco.
Leninha ficou sabendo que não
precisaria mais mudar até o fim do ano, deu pulos de alegrias e foi subir no pe
de goiaba para pegar umas goiabas que começavam a amadurecer, ela gostava
demais de goiaba de vez com sal.
---leninha, não fique no quintal
quando escurecer.---Recomendou sua mãe.—Ontem eu vi uma cobra daquelas verdes
ai no pé de uva.
---Ta bom mamãe, eu já vou
descer.---Disse Leninha descendo com os bolsos do vestido cheio de goiaba.
Sentou perto da pia que ficava na
varanda grande da cozinha. Pediu a avó para trazer um pouco de sal.
---Desse jeito você vai ficar
encalhada.---Disse dona Ruth rindo.
Cirilo chegou da escola, todo
eufórico tinha tirado as melhores notas da turma.
Leninha ria por dentro, sentiu uma
paz tão grande, nunca tinha estado em tal felicidade, tudo estava bem, as
pessoas de sua casa pareciam flutuar. “Nossa meu Deus, será que o dinheiro traz
tanta felicidade”. Pensava - “mas nem dinheiro sobrou da casa e mamãe nem conseguiu
Pager algumas pessoas”—Continuava.— “Mas seja como for, meu Deus deixa tudo
assim como esta, que ta tão bom, meu Deus! E o Marcelo, me esqueci
dele”.Levantou do chão correndo.
----- Mamãe, mamãe. –Chamava Leninha
entrando correndo no quarto onde a mãe acabava
de prender os cabelos para iniciar a aula. Os alunos já estavam
chegando.
---Nossa leninha acalma, o que foi?
---Perguntou a mãe olhando serenamente para a filha.
---Marcelo mamãe, me esqueci dele, não
sei direito o dia que ele falou que ia embora.---falou aflita leninha acabando
de mastigar a ultima goiaba.
---Ele já foi.---Disse Cirilo entrando
no quarto e intrometendo na coversa.
---Como assim? ---Perguntou leninha engasgando com os olhos
cheios dӇgua.
Dona Elza correu a abraçar a filha.
---Calma Leninha.---Pediu sua
mãe.---Era assim mesmo que ele estava tentando evitar.
---Todos sabiam e não me disseram
nada.---Reclamou.
---Ele não queria despedidas, pediu
tanto porque ele disse que não considerava que estava indo embora, só foi
completar o ultimo ano que falta para ele se ordenar.
---Será que depois ele vem para
cá?—Perguntou leninha já um pouco mais calma.
Cirilo olhava a mãe, e a irmã e
também sentia um pouco de tristeza com a ida de Marcelo, mas não queria
transparecer.
---Vai ser um pouco difícil filha,
porque aqui na paróquia já temos o padre Mario, mas eu tenho certeza que toda
vez que ele puder ele vem aqui.
Leninha se conformou afinal não
tinha mais nada a se fazer.
Pedro andava de um lado para outro
na pracinha depois do serviço, por fim sentou, precisava achar uma desculpa
para falar com Isabel.
“ Mas que diabos”.---pensava.
“Porque tenho que arranjar desculpas, porque não crio coragem e vou a casa dela de uma vez, é isso mesmo, vou
lá em casa, tomo um banho e vou na casa dela falar com ela, e vai ser hoje
mesmo”.
Levantou e foi a passos largos para
casa.A mãe até estranhou o silencio dele.Estava calado, com certeza no mundo da
lua.
Tomou um banho frio, fazia calor,
procurou a melhor roupa.
---Vai sair Pedro?—Perguntou dona
Ruth estranhando ele se arrumar assim já de noite em um dia de semana.
---Vou dar umas voltas na praça.
---E precisa ir tão bonito assim?
--Arrumar de vez em quando faz bem
pra alma. Não é assim que a sra mesmo diz.
Dona Ruth concordou, gostava de ver
o neto assim e com certeza tinha moça no meio dessa historia.—Pensou.
Ele tomou um café com o bolo que
dona neném tinha mandado, escovou bem os dentes e saiu.
Agora é que seria difícil.Ia passar
pela rua de Izabel e ver se ela estava na janela.Graças a Deus.---Pensou Pedro.----Lá
estava Izabel com as mãos no rosto olhando a rua.Como ela era bonita!
---Izabel.----Cumprimentou
aproximando.
---Oi Pedro.---Respondeu
demonstrando alegria.---Aonde você vai tão bonito?
Ele ficou sem
graça.Mas teve coragem.
---Vim te ver.
----Me ver?---Perguntou um pouco
ansiosa.
---Você pode vir aqui na varanda
falar comigo um pouco.
---claro, espere ai que eu vou
abrir a porta da sala.
Foi rápido.
---vem, vamos entrar.---Disse
abrindo a porta da sala.---Pedro já estava na varanda da sala.
---Não. Você pode sentar aqui
fora um pouco? Aqui esta fresquinho. Esta muito calor.---Disse Pedro balançando
a camisa. E realmente estava suando de nervoso.
Ela sentou na varanda, um
pouco tímida, não sabendo o que falar perguntou por sua mãe.
----Ela esta lá dentro
preparando o jantar. Janta com a gente?—Perguntou Izabel bem rápido.
---Não sei, se não for incomodar...
---Claro que não, vou falar
com mamãe que temos convidado.
Um convidado
inesperado.---Pensou Pedro.
Ele até se sentiu bem
jantando com Izabel, a casa dela era tão arrumada parecia casa de boneca, dona
Antonia tinha uma senhora que morava com elas, cuidava da casa, era tudo
limpinho.
O pai de Izabel tinha ido viajar
por três dias para fazer um curso de eletricidade, era eletricista.O único da
cidade cuidava de tudo, ganhava bem.
Pedro pensava, aquilo que era
vida, tudo em ordem, sofá novo, televisão, os quartos co colcha nova, parecendo
domingo em pleno déia de semana. Mas com aqueles pensamentos ele mais parecia
um idiota, não podia comparar a sua vida de sacrifícios sem pai com a de
Izabel, onde tinha um chefe que cuidava de tudo, lembrou da mãe e por um
momento sentiu tristeza.
---E ai Pedro. Como vai o
trabalho.---Perguntou dona Antonia quebrando o silencio.
---Bem, estou aprendendo muito.
---E quem sabe um dia você não se
candidata a prefeito.---Brincou Izabel.
---Não, eu acho que
não.---Respondeu serio.---Eu ainda quero estudar muito, talvez eu consiga ser
um administrador de empresas, ou um engenheiro.
---muito bem Pedro, mas para isso
você tem que sair da cidade. Infelizmente o Maximo que conseguimos aqui é o
segundo grau.
Izabel olhou um pouco cabisbaixa
para ele.
----Vou buscar um cafezinho,
alguém aceita?—Levantou dona Antonia percebendo que eles precisavam ficar a
sos.
---vamos sentar no alpendre, você
aceita um café Pedro?---Disse Izabel.
---Se não incomodar.
---Claro que não, lá esta mais
fresco, ou você quer ver um pouco de televisão na sala.---Perguntou Izabel, sem
saber o que seria melhor.
---Só vou tomar o café e tenho que
ir, já fiquei muito, amanha pego serviço cedo.
---Que isso Pedro, ainda é cedo. A
lua esta tão clara.---Disse dona Antonia se retirando até a cozinha.
Izabel levantou e chamou Pedro
para sentarem na sala. Ela sentou de um lado e ele de outro.
---Sua televisão é bonita.---disse
meio sem graça.
---É papai trouxe da ultima vez que
foi a cidade, pena que só pega um canal.
---mas o Rui vive indo lá na
torre, coitado não deve estar conseguindo grande coisa.
---É. –respondeu Izabel.
Quando os olhos deles se
encontraram pareciam faíscas de tanto brilho. Pedro não sabia o que fazer era
sempre a mesma coisa, ensaiava, ensaiava, chegava perto de Izabel e se sentia
tão pequeno.
---Cafezinho fresquinho.—Apareceu
dona Antonia.
Ele agradeceu, Izabel não
quis.Tomou o café e levantou para se despedir.
---vá com ele até o portão
Izabel.
Ela mais que depressa saiu a sua
frente. Dona Antonia ligou a televisão e ficou olhando umas imagens
distorcidas.
---Depois você volta
Pedro?---perguntou Izabel um pouco sem graça.
---Claro.—Respondeu rápido.—se não
incomodar, com certeza.
---Você nunca incomoda.
---Ela disse isso tão baixinho,
que ele não teve como evitar e a virou meigamente para ele, ela sentiu um calafrio,
mas o beijo que veio foi tão doce numa mistura de café com sobremesa de doce de
leite que eles pareciam embriagados num melado.
Pedro não conseguia desgrudar a
boca da boca de Izabel e ela cuidou de se aninhar bem nos braços dele.
Um barulho de botão sendo desligado os
trouxe a realidade.Ela se soltou rapidamente e começou a rir.
Era dona Antonia desligando a
televisão e eles ainda estavam no primeiro degrau da sala para o alpendre.
---Ate amanha.---Disse ele
segurando suas mãos, com um sorriso que não saia da cara. Parecia estar nas
nuvens.
---Ate amanha meu amor.---disse ela
ficando nas pontas dos pés para alcançar sua boca e lhe dando um beijo rápido.
Ele ia e olhava para traz, quase
tropeçando no próprio calcanhar.
Izabel o olhou ate sumir na esquina.
Quando Pedro chegou em casa, sua mãe
estava terminando a aula. Leninha e Cirilo já tinham ido dormir.]
Dona Ruth foi ao seu encontro.
--Você demorou Pedro, venha vou esquentar a
janta.
--Já jantei vovó.
---O que! Onde?
---na casa de Izabel, a sra
acredita?
---Você endoidou de vez?
Não vovó, eu estou
apaixonado.---Disse abraçando a vó.---Vou dormir, para eu não acordar desse
sonho.Hoje foi o dia mais feliz da minha vida.
Dona Ruth sentou numa cadeira
próxima a mesa.”É estou mesmo velha”. –Pensou.
XL
Logo de manhã antes de sair do
quarto Leninha perguntou a sua mãe.
---Mamãe, que dia a sra pode ir
visitar aquela menina que mora perto do sitio da Eliza.
---nossa Filha! É mesmo me esqueci,
vou chamar a comadre Antonia, e vamos ver se domingo podemos ir lá.
---Oba! Posso chamar a Lili e a Sonia
para irmos juntos.
---Acho que pode.Diga a elas que se
ficar tudo combinado vamos logo depois do almoço.
--Podíamos almoçar lá.
---Não minha filha, depois pegamos
as pessoas desprevenidas e é chato.
---Ta certo mamãe.
Leninha vestiu o uniforme e foi
tomar café para ir junto com a mãe para o grupo.
---Eu mamãe, o Pedro já foi para o
serviço?---Perguntou dona Elza sentindo falta do Filho na mesa de café.
---Não ele entrou no banho agora,
esta igual um passarinho que aprendeu a voar.
---O que esta acontecendo com meu
filho que a sra não me contou?
---nada fique sossegada, é que ontem
fomos dormir primeiro que você. Mas depois ele te conta.
Nisso Pedro veio chegando abotoando
a camisa.
Dona Ruth fingiu que nem tinha visto
e saiu de fininho.
---Tem alguma novidade
Pedro?---perguntou discretamente dona Elza.
Ele sorriu amplamente não conseguia
esconder a felicidade da mãe. Leninha tomava o café pacientemente esperando
para ouvir o assunto.Cirilo ainda dormia, não tinha pressa não teria aulas
naquele dia.
Nada mamãe, é só que eu acho que
estou namorando a Izabel.
Dona Elza engasgou, Leninha sorriu
baixinho.
---meu Deus! O que! ---Disse dona
Elza assustada.
---Mas você é só uma criança, como
pode assumir um responsabilidade dessas meu filho?
---Que responsabilidade mamãe, nem
sei se realmente é um namoro.
---Meu filho, agora que estamos
saindo de uma enrascada, você quer se meter em outra, aquela menina é de
família seria e de futuro.
----E eu mamãe, a sra quer dizer que
a nossa família não presta?
---Não meu filho, longe de min. Mas é que
somos tão pobres, tão cheios de dividas...
Dona Elza ao dizer isso se sentiu
engasgada, não de susto, mas de vontade de chorar. Leninha levantou para
abraçá-la.
----Deixa ele mamãe, Pedro também é um
rapaz de família, é sério e tem futuro.
---Claro minha filha. Eu tenho certeza
disso.---Disse beijando a filha e olhando com carinho para o filho.---Você
gosta mesmo dela Pedro?
---Claro mamãe, eu amo aquela
menina.---Disse e abaixou os olhos.
---Então não se envergonhe filho,
levanta a cabeça e lute por ela.
Ele levantou a cabeça e sorriu, um
sorriso feliz e orgulhoso de sua mãe e irmã.
Dona Elza levantou deu um beijo na
testa de Pedro pegou o material e foi para
a escola junto de Leninha.
Pedro tomou o café e nisso dona Ruth
que escutava tudo da varanda da cozinha se aproximou e deu um tapinha de leve
nas costas do neto.
---De agora em diante você vai matar
sua mãe de ciúmes.—Disse caminhando para o terreiro da sala e sorrindo.—Ele
também uma risadinha.
“Essa minha avó é mesmo muito
esperta”
Leninha combinou com Lili e Sonia
para irem a casa de Lindalva, elas aceitaram.
Dona Antonia também aceitou o
convite da comadre para irem ver a menina, iria aproveitar para conversar com
ela sobre o namoro dos filhos.
Tudo certo Leninha colocou um
chapeuzinho de aba na cabeça para proteger do sol ficou parecendo chapeuzinho
vermelho, Sonia também estava de chapéu e Lili levou a sombrinha. O domingo
estava bonito e elas teriam que caminhar quase uma hora. Mas isto ela tiravam
de letra. Almoçaram mais cedo e já estavam a caminho.
Aa três meninas iam um pouco mais na
frente.
----Izabel não quis vir
comadre?---Perguntou dona Elza.
---Não comadre, ela disse que ia
dormir um pouco para estar corada quando Pedro viesse para irem ao cinema.
Dona Elza ficou desconcertada.Deu um
suspiro.
---O que foi comadre?---Perguntou dona
Antonia.—Não sabia que eles estão namorando e parece firme?
---Ele me disse, mas apesar da nossa
amizade eu temo por eles, Pedro ainda tem muito que fazer para ficar a altura
de Izabel.
---Acho que isso ele não tem muito que
fazer não comadre, ele já é bem mais alto que ela.----Disse isso e segurou a
comadre pelo braço para caminharem dando uma risadinha.
Dona Elza compreendeu a brincadeira da
amiga.
---Você esta preocupada com o futuro
deles.---Acrescentou dona Antonia caminhando de braços dados com dona
Elza.---Mas eles são jovens demais não vamos assustar os meninos, pois assim
eles perdem o momento mais gostoso de uma paixão.
---Você mi surpreende comadre.—Disse
dona Elza.
---Porque comadre?
---Porque você sempre demonstrou ser
dura, cheia de moral, quero dizer sua filha foi criada com mimo, sempre
protegida por vocês.
---É comadre, e eu sou assim como
você disse mesmo, só que eu conheço você desde menina, crescemos juntas e eu
sei como você criou seus filhos e como eles são, por isso acho que minha filha
esta no caminho mais certo que Deus poderia dar a ela.
Dona Elza não aquentou a
demonstração de carinho da comadre parou para abraçá-la.
---Afinal também você é madrinha
de batismo de minha filha Izabel e eu sei que você não deixaria nada de mal
acontecer a ela.—Acrescentou dona Antonia.
---Claro comadre, claro.
Sonia olhou para trás e viu as duas
paradas.
---E ai gente as senhoras vão ficar
ai paradas de conversa?---falou alto esperando por elas.
Elas riram e começaram a correr
para alcançar as meninas.
Dona Elza graças a Deus conseguiu
tirar aquela ruga de preocupação da testa e começou a pensar como chegaria no
sitio do pai de Lindalva.
Chegaram no terreiro da casa dos
pais da menina, o primeiro a vir cumprimentar foi um cachorro magro de nome
Faísca.
--Passa pra dentro
Faísca.---Ouviu-se uma voz lá de dentro da varanda, era dona Clara que veio dar
as boas vindas as visitas. Ela já conhecia dona Elza por causa da escola dos
meninos e conhecia dona Antonia por causa da igreja.
---Como vai gente, vamos entrando.
Veio logo mostrando simpatia.
Lili, Sonia e Leninha foram as
primeiras a sentarem no banco da varanda, estavam bufando de cansadas, e com
sede.
O sr. Emilio fumava um cigarro
feito de palha, levantou para cumprimentá-las
---E então donas o que devemos
a honra da visita.
Dona Elza sentiu um pouco de
medo e reconheceu que aquele homem não gostava muito de conversa.
---Nada de
importante.---Cuidou logo de responder dona Antonia, ---Estávamos andando até o
sitio do pai de Leonardo e resolvemos ver os Meninos.
---O que tem meus
meninos?---Perguntou dando uma tragada.
---Sentimos falta de Lindalva
na escola, ela esta bem? –Perguntou dona Elza.
---Porque? Alguém disse que
nossa fia ta doente?
---Não, claro que não.Também
nem é de nossa conta, mas é que realmente ela esta fazendo falta na escola, ela
é uma menina tão prestativa.---Disse dona Elza tentando relaxar.
---Podemos brincar com
Lindalva? Cadê ela?---Perguntou curiosa lili.
---Ela não esta.---Cuidou
logo de responder dona Clara.
---Que pena! A sra podia dar um
copo de água então para a gente.---Pediu Sonia.
---Claro filhas.Desculpem-me
não ter oferecido antes, vou buscar uma limonada acabei de fazer.
---Foi entrando pala sala ate
a cozinha.
Dona Antonia cuidou de sentar
um pouco, chegou perto do muro que dava para os fundos da casa e fingiu
levantar o corpo para sentar na beirada dele e sem querer viu três crianças
cuidando de passar para o paiol que ficava próximo da casa.Ela não deixou de
perceber a diferença que estava Lindalva. Afinal conhecia a menina desde
pequena.
Ficou um pouco pálida.Olhou rápido para a
comadre Elza.Ela entendeu que algo havia acontecido.
---E então se Emilio os
meninos estão passeando?—Perguntou leninha.
---è eles foram passar o
domingo na casa da minha mãe, e quanto a Lindalva, ela não quer mais ir a
escola.Por isso não foi este ano.Mas o ano que vem se Deus quiser ela volta a
estudar.
---Não pode deixar não seu
Emílio, ela estava indo tão bem nos estudos.---Disse dona Elza.
---Depois ela continua, ela ainda é muito
nova. Tudo vai dar certo.
Dona Antonia não soube o que
falar tomou um copo e limonada que dona Clara serviu com bolo.
Elas se refrescaram, lancharam
e cuidaram logo de irem embora. Não sabia o que comentar. Seu Emilio não falou
mais nada, continuou fumando o cigarro de palha olhando a fumaça ir pelos ares.
Dona Clara acompanhou elas
ate a porteira.
---Daqui a pouco Lindalva
volta para a escola. Ela é muito nova só tem catorze anos. Dá tempo de
recuperar o tempo perdido.
Dona Elza sem saber de nada
brincou:
---Isso deve ser fase, deve
ser algum namoro.
---Vala-me Deus o Emilio
mata quem chegar perto dela.---Resmungou dona Clara.
Dona Antonia beliscou o
braço da comadre e a puxou para irem embora. Rápido.
Leninha quebrou junto
com as meninas umas canas no meio da estrada para levarem para casa e enquanto
isso aproveitavam para brincar de cavalinho com as canas.
Levaram um susto quando
de repente do meio do mato pulou Cirilo e Leonardo.
---Ua!---Gritaram
pregando um susto nas meninas.
Leninha gritou.
Dona Elza ralhou.
---Vocês estão doidos?
O que fazem por aqui?
---Estamos resolvendo
uns assuntos.—Disse Cirilo
---Que assunto?---Quis
saber a mãe de Cirilo.
---Nada de
importante,e então mamãe conseguiu ver a Lindalva?
---Que nada! Os pais
dela disseram que ela foi com os irmãso na casa da avó.
---Que mentira!---Disse
Leonardo.
---Porque eles
mentiriam.
---Eu vi, eu e o
Cirilo vimos eles entrando no paiol, logo que vocês entraram na varanda da
casa.
---O que -, o que
esta acontecendo naquela casa?---perguntou sem entender nada dona Elza.
Dona Antonia cuidou
logo de abaixar os olhos, já sabia ou palo menos julgava saber, mas não podia
falar na frente das meninas.
---Não sei não mamãe,
mas eu achei a Lindalva tão gorda, parecia inchada.
Dona Antonia mais uma
vez puxou o braço da comadre.
---Vamos embora daqui
rápido.Disse apertando o passo.
Saíram andando
rápido. Sem perceber exatamente o motivo, talvez porque ali bem perto tinha
sido o local onde Raul tinha sido assassinado.
Chegaram a cidade
todos suados.
---Mamãe posso ir
na casa da Lili um pouco antes de escurecer.
---Poder, pode, mas
você está toda suada, esqueceu que hoje tem missa e que vocês tem que tomarem
conta do berçário? Marcelo foi embora, mas a responsabilidade ficou.
---Chi!!!, É mesmo
meninas. Vamos tomar banho e daqui a pouco a gente se encontra na porta da
igreja.
---Me espera então
Leninha, eu vou pedir a mamãe, pego uma roupa e tomo banho com você. Pode dona
Elza?
---Dona Elza disse
que sim, que fosse rápido, que elas esperariam por ela.
Lili correu a
chamar a mãe.
---Oba!
Leninha.Posso fazer o mesmo?---Perguntou toda asanhada Sonia.
--Mas nos vamos
tomar banho no tanque, será que sua mãe deixa.
---Claro você
não sabe que já sarei.—Disse sorrindo.
Leninha
retribuiu o sorriso. Nisso voltou correndo Lili com sua sacolinha acompanhada
de sua mãe.
---Não
acredito que minha comadre,vai passar pela minha porta e não vai entrar.—Veio
falando lá de dentro a mãe de Lili.
---Oh!
Comadre não é nada disso, é só que estamos cansadas, viemos de
longe.—Dasculpou-se dona Elza.
--Eu sei a
Lili me contou que vocês iriam visitar Lindalva, e então ela esta doente mesmo?
----Não
comadre, pelo visto não, apesar de não a termos visto. Doente ela não esta.
---Então
melhor assim. Agora venha comadre, venha com dona Antonia pelo menos tomem um
cafezinho comigo, acabei de coar e tem pão fresquinho.
---Ta bem comadre.
Mas não podemos demorar. Disse dona
Elza.
---Não mesmo,
deixei Izabel sozinha e ela deve estar preocupada com minha demora.
---É mesmo só
um café viu comadre, outro dia eu venho fazer um visita de verdade com mamãe.
As meninas
disseram que iriam à frente para tomarem banho.
Dona Elza
concordou.
Elas ficaram
sozinha tomando café, as duas irmãs de Lili brincavam na varanda.
----Eu vou
falar com vocês duas que eu confio muito, mas não quero que mais ninguém fique
sabendo. Pelo menos por enquanto.---Disse dona Antonia precisando desabafar.
---O que comadre, você
está seria demais desde a hora que voltamos.
---É sobre o
que vi.
Dona Santa
prestava atenção não sabia direito do assunto.
---Eu quase posso afirmar com
certeza de Lindalva não estar indo as aulas.
Fez-se
silencio até ela tomar mais um gole de café.
---Gravidez.
---o que?---Perguntou assustada dona Elza.
---Eu vi
Lindalva correndo com os irmãos para se
esconderem no paiol, e ela usava um vestido de gestante com um barriquinha bem
grande.
---Meu
Deus!---Será isso que eles escondem?---Ficou abismada dona Elza.
---É
comadre no mínimo eles não querem que ninguém fique sabendo que ela deve ter
ficado grávida de algum namorado.
---O que
temos a fazer então?—Perguntou dona Elza.
---Por
enquanto nada, acho que isso não é assunto para nos a não ser que eles resolvam
pedir ajuda.
---não sei
direito o que ocorre, mas Antonia esta certa.---Deu um palpite dona Santa.
Antonia e Elza
se despediram e foram embora cada uma para sua casa e em silencio.
Leninha já tinha
pegado água quente no fogão a lenha e tinha começado o banho.
Dona Ruth
recomendou para não demorar, pois a água iria esfriar rápido e elas poderiam
pegar friagem principalmente Sonia.
Cirilo estava na
escada da igreja sentado com Leonardo, viu sua mãe passar e disse que daqui a
pouco iria embora.
Lili não
aquentava de assanhamento era só ficar pelada que logo começava a passar a mão
pelo corpo.Tirou a roupa toda e sentou no tanque. Sonia fez o mesmo, Leninha
não quis tirar a calcinha entrou de calcinha na água.
---Você é boba
mesmo.Em Leninha.—Dizia Sonia.—Como vai ficar limpa tomando banho de roupa?
---Eu lavo a calcinha
junto, não tem problema, e alem do mais conheço vocês duas, já pensou se mamãe
ou a vovó chegam aqui sem a gente ver?
---O que tem a gente
ta sentada na água, ninguém ta vendo a gente.—Disse Lili colocando a mão no
corpo de Sonia, ela ficava quietinha.
--Vamos fingir que eu
sou um homem bem gostoso, vem ca meu amor.—Disse Sonia fingindo que ia beijar a
boca de Leninha.
Leninha sorria, mas
desviava, não queria brincar daquilo, mas também não queria mostrar indiferença
com as amigas.
Entrou um pouquinho na
brincadeira fingindo que ia morder nelas.
---andem meninas falta pouco para começar
a missa.—Disse dona Ruth da porta da cozinha.
Elas saíram rápido do tangue, rindo
felizes, apostando quem vestia a roupa primeiro.
Foram as três de mãos dadas cuidarem do
berçário.
Delicia esperava por elas toda arrumadinha
de fita no cabelo e com um vestido que já tinha sido de Leninha. Elas não
aquentaram e abraçaram junta a menina, convidando ela para ajudar a cuidar dos
meninos que chegavam.
Dona Antonia chegou em casa e já
encontrou a filha toda arrumadadinha sentada no alpendre esperando por Pedro
para irem juntos a missa.
---A sra vai a igreja mamãe?---Perguntou
Izabel.
---Hoje eu fui cedo, filha. Estou
cansada vou tomar um banho e deitar um pouco. Não demore muito depois da missa,
e tenha juízo.Pedro é um bom rapaz, mas é homem.---Disse dando um beijo na
testa da filha.
---Não se preocupe mamãe, eu tenho
juízo.
Eu sei por isso confio em você.
Elas eram grandes amigas dona Antonia
apesar da aparência conservadora era muito segura ao conversar com a filha
sobre assuntos de homem e mulher não media palavras explicava tudo.
Entrou e não demorou muito. Pedro chegou e os
dois foram de mãos dadas para a igreja.
Dona Elza contou o que tinha acontecido
para a mãe. Ela só respondeu:
---Daqui a pouco fico sabendo de tudo,
todos me procuram na hora do parto.
---É mamãe, mas e se eles resolverem fazer
tudo sozinhos.
---Não tem jeito, quanto mais que foi
eu que ajudei todos eles a nascerem.
È dona Ruth era uma parteira famosa,
só que agora a maioria dos partos eram feitos no hospital, mas os que eram
feitos em casa, lá estava dona Ruth era só aguardar.
A lua começava a aparecer no céu,
Pedro e Elvira voltaram para o alpendre da casa dela, Leninha foi deixada em
casa por eles primeiro, Sonia também foi embora.
Leninha sentou na porta da sala
abservando o jardim que começava a sentir a chegada de outono. Soprava um
ventinho fino, apesar da lua tão branca a noite estava fria.
Ela pegou uma flor amarela daquelas
que soltava as pétalas e começou a bem- me- quer, mal me quer.Deu bem- me-
quer.
Ela sorriu e deu um beijo na flor,
fechou os olhos um pouco, Pensou em Tarzan, como seria um beijo na boca de
Tarzan. Queria tanto experimentar o que fazer para ele perceber que ela já
estava preparada para aquele momento, ou não talvez ainda era muito criança.
Mas mesmo assim queria, queria muito. Abriu os olhos levou um susto ao ver
quase a sua frente Vandinho.Levantou os olhos rápidos, ele colocou a mão na
boca como a pedir para ela não ter medo, ela engoliu em seco. Sentiu as pernas
tremerem, como não ter medo, sozinha na porta da sala e de testemunha só a noite. Ele segurou a mão dela, a mão
dele era gelada, ela viu o brilho nos olhos dele pareciam ter sangue no lugar
da bolinha preta. Ela acordou pela manha e estava deitada em sua cama, e sua
mãe dormia feito uma fada.
Dona Elza acordou com o arranco que
Leninha deu na cama ao sentar-se.
---Como eu vim parar aqui mamãe?
---Ah! É isso minha filha.---Disse
dona Elza calma passando a mão na cabeça da filha e ajeitando para dormir mais
um pouco.
---È mamãe como eu vim pra cama? Eu
estava sentada na porta da sala, Vandinho entrou e eu não vi mais nada.
---O que filha? Você sonhou, só pode
ser, seu irmão chegou e você estava sentada dormindo na porta encostada quase
caindo para dentro, ele disse que você dormia como um anjo.
---É mamãe, eu não me lembro de nada,
só lembro do olhar vermelho de Vandinho.
---Você ainda esta muito impressionada
minha filha.É impossível Vandinho ter vindo por esses lados, ele depois do que
aconteceu só sai acompanhado, vive mais é dopado de remédios.
Ela sentiu um arrepio enorme, fechou os
olhos e preferiu pensar que aquilo realmente teria sido um sonho.Começou a
rezar um terço contando nos dedos.
Dormiu sem acabar de rezar ainda era
cedo, faltava um pouquinho para o dia clarear.
Na escola sentiu vontade de contar para
Lili e Sonia o que tinha acontecido, mas com certeza ririam dela, preferiu
passar um dia normal e tentar esquecer.
Sabia que por traz do olhar de Vandinho
existia uma força parecendo chamar por ela, mas ela nunca ia se sentia dominar,
sabia que Deus era seu protetor e mal algum poderá penetrar em sua alma.
XLI
Cirilo tagarelava com Leonardo em um certo
canto.
---Já desvendamos o caso ou não?—Perguntou
Cirilo.
---Se for o que estávamos pensando já esta
tudo explicado. A Lindalva esta grávida, e com certeza é filho de Raul, ai o
pai dela foi lá com uma faca ou foice e acabou com a vida dele.
---Você que esta dizendo, eu não posso
falar nada.
---É eu lembrei que já vi Raul muitas vezes
conversando com Lindalva no meio dos milhos.
---Conversando.Você quer dizer namorando, se
agarrando.
---Por favor, em Cirilo! Eu nem tinha
imaginado que poderia ser isso, mas depois que vi a barriga dela lembrei desse
detalhe. Mas por favor, não conte isso pra ninguém isso pode dar confusão dos
diabos.
---vamos então esquecer isso tudo, já que
o vagabundo morreu, porque era covarde, traindo a mulher.
---É Cirilo vamos mudar de caso, este por
enquanto esta resolvido.
---Por nos, mas não esqueçamos que a
policia ainda vai desvendar esse caso.
---Serà! Com esse delegado banana que só
sabe dormir e prender putas lá da casa da luz vermelha.
Cirilo não aquentou de rir. Nisso o sinal
do recreio tocou, e eles entraram para a sala.
Leonardo passou por Leninha e a ofereceu
uma bala. Ela aceitou com um sorriso.
Sonia deu uma beliscadinha nela.
----Assanhada.
---Que é isso Sonia, é só uma bala.
---Mas e Tarzan?
---Credo Sonia, é só uma bala.---Incistiu
dando a bala para Lili.
---Oba! Obrigada.---Agradeceu Lili
colocando a bala na boca.
Era só uma bala, mas aquele sorriso ficou
na memória de Leonardo todo o resto da aula, como ele gostava de Leninha.
Leninha era a menina dos sonhos dele.
O tempo voava nem bem recomeçou as aulas
e já estava quase chegando as férias de julho de novo, pensava Leninha enquanto
escrevia uma poesia que Eliza lhe pedira para mandar para Daniel.
Ela estava sentada na penteadeira do
quarto de Eliza, Sonia sentada na cama arrumando os cabelos de Eliza.
---Eu estou com tanta saudade de
Marcelo.—Disse quebrando o silencio.
---É mesmo, ele sumiu mesmo.—Responde
Sonia.
Leninha continuou escrevendo a poesia
enquanto pensava:- --Já estavam no mês de maio estava tão frio. E Tarzan já
tinha quase um mês que ela não o via sentia saudades.---
---Eliza e Daniel?---Perguntou Leninha,
assim se mais nem menos.
---O que tem ele?---Perguntou Eliza se
ajeitando na cama e atrapalhando todo o cabelo que Sonia tinha arrumado. Sonia
sorriu com o pente e a escova na mão.
---Nada.---Disse Leninha parando de
escrever e indo sentar na cama com as amigas.---É só que eu queria aprender a
namorar.
---Você lembra aquela vez que eu comecei
a ensinar a vocês a beijar?---Perguntou Eliza.
---Não Eliza, não é isso, eu não quero que
você me ensine a beijar, eu quero que você me diga como é namorar.
---Eu sei.---Disse Sonia toda assanhada.
---Sabe, sabe demais, não sei como? Se
você nunca namorou.---Disse Eliza gozando a amiga.
---Você é boba, e os livros que eu já li/
---Livro é uma coisa, o negocio é
namorar de verdade e ver como é.
---E como é?---Leninha estava mesmo
interresada no assunto se perceber que a porta do quarto estava entreaberta e
que Elvira esta ouvindo a conversa delas.
---Sabe como é Leninha?—Disse Elvira
entrando e sentando de frente da menina parecendo uma mãe que ia dar aula para
uma filha.
Leninha levou um susto, mas ouviu
calmamente.
---em primeiro lugar, tem que ter muito
amor, amor.Você sabe o que é isso?---Perguntou Elvira.
---Acho que sei, pelo menos acho que sei.
Sonia deitou na cama com as mãos
segurando a cara, Eliza sentou e começou a escovar os cabelos calmamente, os
olhos de Leninha estavam cheios de emoção.
---Que bom que você admite que acha que
sabe.Porque meu bem, amor é uma coisa que a gente só sabe se tem e existe
olhando nos olhos da pessoa que você julga amar.É aquela vontade de estar
sempre juntos, fazer as coisas juntos, as vezes ate dar a mesma resposta as
perguntas que os outros fazem ao mesmo tempo, amar é um entrosamento, é vontade
de beijar, fazer carinho até dormirem juntos.
Ela dizia isso e segurava as mãos de
Leninha, leninha não agüentou se deixar um lagrima rolar.
---Era isso que você sentia por
Raul/--perguntou receosa se estava fazendo a pergunta certa na hora certa.
---È Leninha, é isso que eu sentia e ainda
sinto por ele, não sei se ele sentia isso tudo por min ou se só foi obrigado a
se casar comigo por causa do bebe.
Disse isso levantando e limpando o choro que
teimava em descer.
---E você, me diga, porque esse interesse
todo por namorar, amor...---Neste instante o semblante de Elvira já havia se
transformado e mostrava um sorriso meio fraco, mas franco.
Sonia como sempre enxerida.
---É que Leninha já tem um amor, o primo
dela Tarzan.
---Tarzan? Meu Deus! O Tarzan lá da fazenda
que era amigo de Raul?
---Esta mesmo.—Disse Leninha com os olhos
baixos, enroscando os dedos.
---Que bom gosto em amiga? Morenaço, meio
índio, e ele gosta de você?
---Que pergunta Elvira, todos na cidade
sabem que Tarzan só tem olhos pra Leninha.---Disse Eliza.
----Ao que parece eu ando fora dos
assuntos da cidade mesmo. Vocês namoram d verdade? Mas você é tão novinha
Leninha, apesar de já ter corpo de moça.
----Não a gente não namora, esse namoro
igual de Eliza de beijo, abraço, essas coisas, por isso estou querendo saber
como é?
----Entendi, mas isso é muito fácil, não
tenha medo, esse primeiro beijo vai chegar, ele deve estar é esperando a hora
certa pra você. Ele é mais velho, deve ser esperto e sabido, deve estar te
preservando só pra ele.
---Preservando?---Leninha não entendeu a
palavra.
----É Leninha, preservando.E te digo uma
coisa, seja paciente deixe as coisas acontecerem com naturalidade, não tenha
pressa, se vocês tiverem de ser um do outro nada vai separar vocês.---“ Só a
morte”.---Disse comum pouco de raiva. Nosso veio entrando a pequena Vânia que
começava a engatinhar.
Elvira correu para pegar a filha.
---Ela é linda.---Disse Sonia.
---Quando eu casar com Tarzan quero ter
três filhos.---Afirmou Leninha.
Elvira pegou a filha e deixou as meninas
acabarem o que estavam fazendo.
Sonia depois que Elvira saiu foi brincar
de namorar co Eliza Enquanto Leninha concluía a poesia.
Dona Ruth ficou assustada quando uma
certa manhã acordou co alguém batendo de levinho na janela de seu quarto, abriu
e deu de cara com a mãe de Lindalva.
Dona Clara colocou a mão na boca pedindo
para ela não fazer barulho. Ela foi ate
a porta da cozinha e mandou ela entrar.
---Não, venha até aqui no quintal
conversar comigo.—Pediu ela com aflição.
---O que foi dona Clara.Aconteceu alguma
coisa?
---Desculpe as horas, mas estou precisando
muito do serviço de parteira da sra.
---Aconteceu alguma coisa? Quem vai ter
neném?---perguntou dona Ruth, claro já sabia da resposta.
Dona Clara contou a ela bem devagar
pedindo para ela ir fazer o parto da Lindalva e que fosse no mais absoluto
segredo. Ela ia fingir que tinha achado a crinça na estrada e iria criar o neto
ou neta como filho. Para Lindalva não cair na língua do povo e poder ter uma
vida descente.
Dona Ruth correu a avisar dona Elza que já
esperava por aquilo e pediu a mãe para ter cuidado, pois Lindalva era só uma
criança. Ela não teve medo pois já tinha feito parto de mulheres bem mais nova
que Lindalva.
Graças a Deus correu tudo bem, contou dona
Ruth a filha logo depois da aula da noite.
Lindalva deu a luz a um belo garotão, ela
era muito sadia e foi parto normal, sem complicação.
Ao avos iriam adotar a criança e a
primeira vista tudo seria resolvido.
---Dona Clara não te disse nada sobre o
pai da criança, mamãe?
---Disse filha, mas é tão complicado que
tenho até medo de falar.
---Porque mamãe, é homem casado?
---Casado e morto.---Disse seco dona
Ruth.
---Meu Deus, será de quem eu desconfio.
---É filha, é mesmo de Raul marido de
Elvira.
---Então o pai da Lindalva matou o Raul.
---Não sei depois que dona Clara teve a
confiança de me contar essas coisas eu me calei, tive ate medo de suspirar.
Aquele cara teve o fim que merecia, abusou de duas moças, uma mais rica que foi
obrigado a se casar com ela e a outra maia pobre e pelo visto ele já namora a
Lindalva na mesma época que casou com Elvira, só que ela engravidou primeiro.
----Sabe mamãe, tive medo agora por
leninha.
---Você esta certa filha, esta cheia de
Raus por ai afora e eles gostam de aproveitarem e de menininhas sem
experiência.
---Precisamos prestar mais atenção no que
Leninha anda fazendo pó ai.
---porinquanto não precisamos preocupar
tanto ela só anda com meninas e o Tarzan custa a parecer.
----Mas a Eliza, ela tem namorado e pode
botar muita coisa na cabeça de Leninha, e olha que ela vive enfiada lá na casa
dela.
---è só proibir um pouco mais as idas dela
lá.
---Vamos fazer isso, e eu vou ter uma
conversa com ela, qualquer dei desses.
Dona Elza foi deitar e ficou um bom tempo
olhando o sono da filha que vez ou outra mecha e dava uns gemidos profundos.
Sentiu vontade de acordar a filha para ver
se era algum pesadelo, mas de repente o sono dela ficou mais leve e ela só deu
um beijo na testa da filha.
Ia começar a reforma da casa e Lucas mandou
um empreiteiro, para ampliar a casa, mas sem mecher com a prima, que só ia
ficar na casa até o fim do ano.
Eles não iam mexer dentro da casa, só iam
fazer uns tubulões para poder fazer um segundo andar. Ele queria fazer duas
varandas de fora a fora na casa. E por tudo que o moço olhou ,teriam talvez de
derrubar a casa que estava velha e não aguentaria tudo que planejavam.
Os olhos de Leninha encheram de água quando
pensou que aquela casa daqui a pouco não existiria mais.
XLII
Férias!Como chegou rápido. Julho era mês das
pipas, só se ouvia barulho de papel e taquara, Cirilo era o mestre de fazer
pipa, sempre conseguia um dinheirinho vendendo para os amigos.
O cheiro chegou forte nas narinas de
Leninha, ela, ela sentia ate o cheiro dele no ar.
---Cadê o povo desse casa? ---Entrou
Tarzan porta adentro.
Leninha estava sozinha sentada na varanda
da porta da cozinha, dona Elza e dona Ruth tinham ido levar remédio para Sonia
que mais uma vez infelizmente tinha caído de cama.
Ela levantou como se fosse levada por uma onda mais forte e caiu nos braços dele, foi um abraço tão forte que ela ate sentiu os músculos dele de encontro ao seu corpo.
Ela levantou como se fosse levada por uma onda mais forte e caiu nos braços dele, foi um abraço tão forte que ela ate sentiu os músculos dele de encontro ao seu corpo.
---Minha gatinha! ---Disse ele enchendo a
cara dela de beijos, um quase roçou os lábios dela.
Tinha três meses que não se viam ele
estava cuidando de uma boiada em outras terras pra seu pai, estava mais
queimado, mais bonito. E ele estranhou o comprimento de Leninha, notou os seios
dela. Deu uma olhada de baixo para cima mandando ela dar uma volta,
---Menina, você cresceu. Pode parar, desse
jeito vai ficar mais alta que eu.
---Claro que não.---Disse ela tornando a
abraçar o primo.---Que saudades.
---É eu que quase morri.---Cade a prima
velha, e a mais nova.---Perguntou sentando com Leninha no colo.
---Mamãe e vovó foram na casa de Sonia.
Percebendo então que eles estavam
sozinhos, ele cuidou de tirar Leninha do colo. E ate mudou o jeito tinha prometido
a dona Elza que ia cuidar de Leninha.
---Você esta aqui sozinha?
---Só um pouco, mamãe já deve estar
voltando. Foi só ajudar vovó levar um banho pra Sonia.Você acredita que ela
piorou de novo?
Começaram a conversar igual gente grande,
ele sentou do seu lado na beirada da varanda. Ela contou sobre o namoro de
Pedro e Izabel, Sobre a reforma da casa. Nisso dona Elza chegou, viu a porta da
sala aberta e entrou devagarzinho ouvindo a voz de Tarzan, achou tão bonito o
carinho que ele prestava atenção em Leninha conversar.
---E ai gente boa, sumiu.---Disse dona Elza
entrando.
---Nossa prima, que susto!---Disse Tarzan
levantando para cumprimentar a prima.
---Você sumiu.
-----Trabalho, estava trabalhando muito.
Olha lá debaixo da mesa da cozinha o que eu trouxe pra vocês.
---Presente.---Disse Leninha correndo para
ver o que era.
---Ela não viu você entrar.
---Não ela estava sentada aqui e eu fui
entrando.
----Meu Deus! Olha quanta carne, lingüiça,
feijão, milho verde, mamãe assa pra min?
Leninha estava eufórica adorava milho
assado.
---E uma pra min.---Pediu Tarzan.
---Nossa primo, não precisava tanto. Vou
guardar essa carne antes que estrague, vou fritar e guardar na gordura.
---O toucinho e a lingüiça você pode
pendurar encima do fogão. É bom que fica defumado.
---Boa idéia.
Colocaram o milho pra assar e foi cuidar da
carne.Dona Ruth chegou sentindo o cheiro da carne. Sentiu tão bem já tinha mais
de um semana que não tinham carne naquela casa. Deus que aumente para o primo,
agradeceu.
Tarzan ia dormir ali, tinha coisas para
resolver no outro dia.
Leninha comeu o milho, tomou um banho e foi
com Tarzan esperar Pedro sair do trabalho para vê-lo antes dele ir encontrar
com Izabel.
---Ele vai todo dia namorar.---perguntou
Tarzan.
---Quase.
----Deve estar apaixonado mesmo.
---É.
Leninha ficou calada. Tarzan só andava com
ela de mãos dadas. Ela gostava, sentia uma força, uma quentura boa no corpo, um
prazer tão grande.
---Tarzan, meu amigo.---Disse Pedro logo que
fechou a porta da prefeitura, e viu eles sentados no banco da praça.
Foi dar um abraço no primo e amigo.
----E ai como vai essa força?---Perguntou
Tarzan.
----Bem e você?---respondeu Pedro.
---To sabendo da novidade e ai vai ver a
garota hoje?
---Não, hoje não, ela ia ajudar a mãe numas
coisas lá da costura.
---Então vamos ali tomar um sorvete, que
assim botamos a conversa em dia.
Tomaram sorvete e foram para casa.
Dona Elza não tinha aulas, estava de
férias também a noite. Fez um jantar delicioso. Leninha conversou ate tarde,
mas o sono tomou conta dela.
Tarzan e Pedro ficaram sentados na sala
de aula conversando ate tarde. Dona Ruth preparou um café com leite e deixou
eles lá a sós, Cirilo também foi dormir.
---Então eles já começaram a reforma da
casa pro meu irmão.---Perguntou Tarzan depois que tinha visto alguns sacos de
cimento encostado atraz da porta.
---É eles estão furando uns buracos dos
lados. Mas porinquanto é só, reforma mesmo eles devem começar lá pra setembro.
---Ai vocês vão ter que mudar.
----Alias já deveríamos, afinal seu irmão
salvou a minha mãe, que iria comprar um casa desta numa cidade pequena sem
futuro?
----Sem futuro não.Mas também o que ele ta
querendo e uma casa mais pra passar fins de semana.Duvido que algum dia eles
venham morar aqui.
----Se qualquer jeito o preço que ele
pagou foi só coisa de família pra ajudar.
----Sem modéstia, mas minha família é
muito boa.---Disse Tarzan dando um tapinha na cabeça do primo.---E ai fala da
Izabel.
---No cara. Nem te conto. Ela é demais.
Tenho que fazer alguma coisa. Tenho que casar com ela.
----Já?
---Não, não é isso!----Respondeu Pedro
percebendo a malicia de Tarzan.___Eu falo que eu tenho que casar com ela porque
eu a amo, ela é demais.
----Ah! Você me assustou cara!
---Lembra aquela vez que disse que ia
embora daqui para ganhar mais dinheiro?
---Lembro.
---Pois é não mudei de idéia, eu vou mesmo,
vou na frente, arranjo emprego, casa e busco a mamãe, caso com Izabel.
----Não Pedro, não faça isso.
---Não tem outro jeito, Tarzan eu tenho
que fazer faculdade, eu não vou conseguir nada aqui. Ainda continuo precisando
ajudar a mamãe.
----E a Izabel?
----Ela me espera, já ate falei pra
ela.
----Ela deixou?
---Chora toda vez que toco no assunto,
mas ela deixou, disse que me espera.
----Você tem certeza, com tanta gente
de olho nela?
---Mas ela só tem olhos pra mim. É fogo
cara, ela é demais.---Disse com uma vontade imensa de contar detalhes do namoro
para Tarzan. Tarzan se acomodou direitinho em uma carteira e prestou
atenção.---Você precisa ver os beijos que damos, parece que meu corpo vai explodir
todo.
----E o que você faz depois?
---O que você também faz, eu dou meu
jeito.
---Ce vai à zona?---Perguntou Tarzan
assustado.
---Não. Porque você vai?
---Claro que não. É que você falou de
uma maneira...
---Eu falava é do jeito que eu resolvia
meu tesão sosinho.
---É barra cara, precisa casar.
---E você?
---Eu to esperando Leninha crescer.
---Brincadeira, um baita marmanjo
deste de olho em uma menina, e ainda por cima minha irmã.
---de menina ela só tem a pureza e
algumas manhas, já viu como ela já esta com corpo de moça e o olhar então eu
tremo todo quando ela olha pra min.
----Que é isso Tarzan ta brincando.
----Verdade, sua irmã vai ser uma
grande mulher, e se Deus quiser vai ser minha esposa.
Pedro preferiu mudar de assunto,
sentia respeito pela irmã e não queria falar sobre aquilo.
Foram dormir tarde para levantarem
cedo. Pedro iria trabalhar e Tarzan resolver uns assuntos da fazenda.
Saíram antes de Leninha acordar, eram
férias e ela acordava tarde. Ficou feliz, pois Tarzan só iria embora de tarde
poderiam conversar ainda muito tempo.
Ele trouxe três cortes de vestido
para Leninha sem esquecer da prima velha, sabia puxar saco.
Leninha agradeceu os panos pulando no
pescoço dele.Sempre que ela fazia isso perto da avó ele cuidava logo de afastar
para mostrar respeito.
Trouxe também uma caixa que ela abriu
eufórica, era um tamanquinho de madeira que estava na moda. Ela experimentou.
---Como você sabia meu
numero?---Perguntou surpresa.
---O que eu não sei de você.---Disse
dando uma piscadinha.
Dona Ruth ficava observando os dois
sentia o peito cheio de orgulho. Pois sabia que amor crescia era assim mesmo.
---Sábado ou domingo vamos fazer
pic-nic lá na gruta da pedreira você vem com a gente.---Perguntou Leninha a
Tarzan.
---Que pena Leninha, sou doido pra
fazer pic-nic com vocês, mas tenho um serviço pra fazer com papai, não vou
prometer, mas se der eu apareço. Você não tem certeza do dia?
---Se você disser que vem mesmo eu
marco o dia certo.
---Ta bom vou fazer força pra vir no
domingo.
---Vou te esperar.
---Não. Vocês vão porque talvez eu atrase e eu
sei que vocês gostam de irem cedo. Eu encontro vocês lá.Deixe as frutas que eu
levo.
---Legal.
Tudo combinado para o pic-nic.Pena que
Sonia não podia ir, e a enxerida da irmã de Wanda tava doida pra ir.Mas as
meninas não aceitaram disseram que ela não fazia parte da “turma”. “Legal”,
pensou Leninha.
Foi visitar Sonia, sentiu pena da
amiga. Ela estava debaixo do cobertor quente com aquele sol lá fora, apesar de
ser tempo de frio, aquele cobertozão suaria qualquer pessoa.
Leninha sentou em uma cadeira perto da
cabeceira de Sonia.
---leninha?—Chamou a menina acordando e
vendo a amiga ali lendo uma revistinha. –Tem muito tempo que você esta aqui?
----Não cheguei agora. Só li duas
folhas, não quis te acordar, você dormia tão gostoso.
---è só o que tenho feito, tem um
tempão.---Disse com olhos cheios de lagrimas.
---Ce vai sarar Sonia.
---Vou sarar, vou ficar doente, vou
sarar e ficar doente de novo, até eu não aquentar mais e morrer.
---Não!---Disse Leninha brava levantando
da cadeira para abraçar a amiga.---Morrer não.---Ela disse com tanta raiva que
pareci mais um trovão.
---Gostaria de ter esse certeza. O pior
é se eu morrer agora, morro virgem.
Leninha não aquentou, não sabia se ria
ou chorava da bobeira de Sonia.
---Você não quer morrer
virgem?---perguntou leninha rindo.
---Não de jeito nenhum. Eu quero ter um
príncipe igual ao seu.
---O meu não é príncipe é o rei das
selvas.
---Quem sabe eu não encontre o Mogli.
Leninha mais uma vês não conseguia parar
de rir.
Contou a Sonia que iriam fazer pic-nic,
mas depois correria para contar tudo a ela.
XLIII
Chegou a carta de aposentadoria permanente
de dona Elza. Ela iria viajar por um dia para assinar os papeis. Iria na
segunda-feira.
A turma estava toda pronta para o
passeio, delicia também iria, estava linda nem parecia uma menina de favela,
Eliza toda aprumada se sombrinha e chapéu com Daniel do lado. Cirilo e Leonardo
sempre cochichando nos cantos, Pedro e Izabel iriam para tomar conta dos
meninos, Lili, Wanda e Carlos que estava de olho em Lili, a irmã de Leonardo
que quase não aparecia, mas era a cara dele era um pouco mais nova. Sandro,
Beth, um dos irmãos de Lindalva. E lá foram eles morro acima. Leninha de chapéu
de chapeuzinho vermelho e um vestido de bolinha vermelhas com um short curto do
mesmo tecido. O vestido mais parecia uma blusa para aparecer a beiradinha do
short.A ansiedade dela era saber se Tarzan vinha ou não.
Leonardo estava todo feliz planejava uma
maneira de ficar perto de Leninha, sem saber dos planos da garota.
Dona Elza estava sosinha em casa, a mãe
tinha ido a missa. Qual foi o susto dela quando bateram palmas na porta da sala
e ela se deparou com nada mais nada menos do que o sr Sebastião.
---O sr deseja alguma coisa?—perguntou
assustada. O homem segurava o chapéu nervoso.
---Posso falar com a sra?
---Ma, eu já te paguei tudo.
---Não é sobre isso. Por favor, não vou
fazer mal a Sra.
Dona Elza preferiu fingir que não estava
só. Deixou ele entrar, mas manteve a porta aberta.
---A mamãe ta lá dentro, o sr querendo
mando trazer um café.
---Não é preciso.
---então diga o que o sr deseja. Por
favor, eu tenho compromisso na igreja.
Enquanto isso leninha já suada chegava a
porta da pedreira, a água fresca que minava e formava uma piscina era a
primeira coisa que eles pensavam em fazer:beber. “Mas cadê Tarzan”.---Será que
ele não vinha.
Leonardo encheu um copo d’ água e cuidou
logo de oferecer a Leninha, ela agradeceu procurando em todos os lugares por
Tarzan.
Tomou um susto quando caiu uma flor que
não pertenci a arvore que sombreava seu rosto.Caiu em sua cabeça. Olhou para
cima e lá estava ele.
---Min Tarzan.---Disse cuidando de descer
e oferecer a outra flor que estava em sua mão para leninha. Leonardo não gostou
do sorriso que a menina deu para Tarzan.
---Pensou que eu não vinha, em!---Já faz
mais de uma hora que estou aqui, venham já até limpei debaixo daquela mangueira
pra vocês deixarem os lanches.
Todos seguiram Tarzan, ele estava de calça
jeans bem surrada e com a camisa enrolada na cintura.
A calça dobrada feito pescador, e de bota
de boiadeiro.
Leninha achava ele o Maximo. Achou
engraçada a sensação que sentiu, pois sempre via Tarzan como um homem grande e
hoje ela percebeu que ele não era também assim tão grande era só um rapaz
virando homem, assim como ela uma menina virando moça.
Pedro não desgrudava de Izabel. A todo o
momento que se olhava lá estavam eles de boca grudada. Eliza e Daniel sempre de
mãos dadas e Cirilo toda hora mostrava para Leonardo a calcinha de Wanda que
incistia em aparecer toda vez que o vento soprava, a menina já não aquentava
mais segurar o vestido. Arrependeu de não ter ido de short por baixo.
Enquanto dona Elza dava um jeito de se
livrar do sr Sebastião este oferecia o mundo para ela,
---Estou arrependido pelo que fiz com a
Sra. ---Explicava ele segurando o chapéu sem olhar para frente.
---Por favor, eu não quero falar nisso.
---Mas eu preciso. Eu amo a Sra. Me
perdoa, por favor.
Dona Elza não sabia o que responder.
Sentia medo. Será que aquele homem estava mesmo arrependido.
A sra sabe, sou viúvo, sou bem de vida,
posso cuidar da Sra.
---Não, por favor, me deixa em paz, eu sou
casada.
---- A sra é
largada, seu marido não volta.
Dona Elza sentiu vergonha, aquela palavra largada
pesava muito.Ela não era largada, ela tinha colocado o canalha do marido dela
na rua.
---Eu sei o que sou, não preciso de homem
para viver.---Disse levantando nervosa.
---a Sra não entendeu, eu to dizendo que
quero a Sra para ser minha mulher, ir morar na minha casa, ser dona de tudo que
é meu.
---O sr é que não entendeu, eu não quero
nada com o Sr. O sr não sabe o mal que me fez.---disse lembrando da humilhação
que ele a fez passar.
-----Peço perdão, a Sra, mas o que fiz foi
uma força maior, afinal a Sra tem que entender que eu sou homem, não consigo me
conter perto de uma mulher bonita feito a Sra e ainda por cima sosinha, esta
precisando de um companheiro tanto quanto eu de uma companheira.---Disse
aproximando tentando segurar dona Elza pelo braço.
---Por favor, o Sr não se aproxime.
---É larga ela agora mesmo.---disse uma
voz de homem vindo da porta da sala que se encontrava aberta.
Era o Sr Joaquim Dantas pai de Eliza que
vinha acompanhando dona Ruth da igreja.
Sr. Sebastião levou um susto, quando se
virou e deparou com aquele hoem com uma faca enorme na mão.
Dona Elza caiu sentada em uma cadeira e
dona Ruth correu a abraçar a filha.
Sr> Sebastião viu o brilho da faca.
Pegou o chapéu e disse.
---Eu só vim pedir a ela para se casar
comigo.
---A força?---Perguntou Sr Joaquim,
guardando a faca na algibeira.
---Ela não quer, o Sr não sabe quando
uma mulher não quer uma coisa?
---E que às vezes elas dizem não,
querendo dizer sim.
---Ai o Sr avança.___Perguntou dona Ruth
em tom de desafio.
---Sou homem.
---Não o Sr é um verme.---Disse dona
Elza brava.---E, por favor, vai se embora.
---Eu vou, mas continuo com meu pedido
de casamento, a Sra mudando d idéia é só me procurar.--Disse indo embora como
se fosse realmente um homem que sabia o que queria.
Quando ele fechou o portão do jardim e
pegou o cavalo para ir embora dona Elza sentiu –se melhor.
---Este homem é doido!—Disse sr Joaquim.
Elas até esqueceram que era a primeira
vez que o pai de Eliza ia na casa delas.Era um homem muito prestativo, mas
nunca tinha pisado em sua sala. Ele tinha acompanhado dona Ruth. Disse que
precisava conversar com as duas.
Como sempre Cirilo era o primeiro a
entrar na gruta, e Leninha sempre temerosa tinha medo dos morcegos, vez ou
outra se escutava o barulho de um.
---Acho melhor sair daqui.
---Não precisa ter medo.—Disse Tarzan.
---É que esta tão escuro, quem falou que
ia trazer lanterna?
---Eu.---Respondeu Daniel entrando com
uma na mão dando uma boa claridade lá dentro.
---Quem tinha coragem atravessava os sete
salões e caia na água para se lavar. Delicia quis ir, mas Leninha beliscou na
menina dizendo baixinho que aquilo era coisa só de homem, porque podiam nadar a
vontade.
---Nos também podemos.---Disse
Delicia.—Quem disse que só os meninos podem se divertir.
---É mesmo!—Disse Lili.---Se você tiver
mesmo coragem eu vou com você, sou doida pra fazer isso.
---Então eu também vou.---Disse Leninha,
desamarrando o chapéu e entrando no segundo salão agarrada a mão de Lili e
Delicia. Wanda não podia ir estava de vestido, mas também não tinha muita
coragem.
Quando elas saíram pelo buraco final, os
meninos levaram o maior susto ao veles, estavam todas sujas parecendo que
tinham passado carvão na cara.
O riso foi geral, até Tarzan já limpo não
aquentou e riu e deu parabéns pela coragem das meninas.
Eliza toda aprumada estava sentada na sombra,
nem mesmo no primeiro salão se atreveu a ir.
Leninha, Delicia e Lili correram a se
lavar naquela água gelada da pedreira, mas, que foi refrescante foi.O tempo
estava um pouco frio, mas, o sol brilhava no céu, e só com um pouco de balanço
num instante estavam todos limpos e secos, elas enfiaram na água de roupa e
tudo não havia outro jeito.
Daniel chamou todos para comerem, afinal a
fome apertou, muitos acharam uma grama limpa para tirarem um cochilo, Eliza
deitou no colo de Daniel e este acariciava seus cabelos.
Pedro e Izabel cuidaram de ficar atraz de
uma pedra para trocarem beijos.Delicia. Leonardo, Cirilo e lili conversavam
animados sobre filmes que já haviam vistos.
Tarzan chamou Leninha para uma sombra
pegando uma sacola que tinha trazido com frutas, ofereceu laranja, e banana a
todos.Mas. Reservado uma fruta lá no fundo que era para Leninha.
Ele sentou ao lado dela e mandou abrir a
sacola. Ela supercuriosa abriu logo.Seus olhos brilharam estava linda com duas
rosas no rosto feitas pelo calor do sol.
---Você lembrou?
---E eu ia esquecer?---Ele havia prometido
a ela que a primeira fruta d cacau que desse no pé que ele plantou traria para
comer junto com ela. Promessa feita há muito tempo, quando um dia ela foi à
fazenda e viu um pe de fruta diferente, ele explicou a ela que era cacau e era
com aquilo que se fazia chocolate.
---Como se come?----Perguntou Leninha
cheirando a fruta. Ele sentado de frente pra ela.Ele ainda estava com a camisa
amarrada na cintura. Ela sem o chapéu com os cabelos balançando ao vento.
---Assim, olha.---Abriu a fruta e tirou um
gomo colocando na boca de Leninha.
---Gostoso!
---Quem?Eu ou a fruta.---Brincou Tarzan.
---Os dois.---Respondeu Leninha sem pensar.
A boca de Leninha ficou toda lambuzada pela
fruta, ela ia passar a mão. Quando Tarzan chegou bem de mansinho perto dela e
encostou a boca bem perto da dela dando uma pequena lambidinha quase na boca
dela. Leninha sentiu u super arrepio com aquele contato que pareceu ate ter
descido uma água em sua calcinha.---Pensou logo:” Será que eu fiz chichi”.
Foi uma coisa tão gostosa o contato da língua dele em seu rosto
que ela corou mais ainda.Ele olhou os olhos dela e disse:
---Essa fruta é das boas. Quando amadurecer
mais te levo para comer no pé.
---Ai não vai sobrar nada pra fazer
chocolate.
---Só um pé não vai dar mesmo.
---Porque não planta mais.
---Um dia vou ter uma fazenda só de cacau.
Ai você vai me ajudar a plantar.
Ela gostou da proposta, não respondeu nada,
Ele ajudou ela comer os últimos caroços da fruta porque não podiam assanhar os
outros, só tinha uma fruta.
Leninha já se sentia uma quase verdadeira
namorada. “Porque ele não aproveitou e me beijou de verdade”.---Pensava
enquanto levantava para se juntarem ao grupo. Leonardo observava os dois um
pouco tristonho.
----Porque você não namora
Lili?---Perguntou Cirilo vendo os olhares que a menina dava para o amigo.
----Porque eu ainda estou esperando a
Leninha.---Disse com coragem.
---Ao
que parece Leninha já tem dono.
---Que nada! Eu espero ela ver que ele é
velho pra ela.
---Nem tanto, olha como ele parece criança.
Tarzan brincava com as meninas de
pegador.
XLIV
Se não fosse pelo
susto de dona Elza, o domingo teria sido perfeito. Elas estranharam foi o
pedido do Sr. Joaquim Dantas. Ele pediu a elas para comprarem alguns presentes
para o bebe que dona Clara disse ter achado, apesar de se um homem caridoso e
já havia dado provas disso, era estranho ele se importar com aquele bebe.
Deixou dinheiro para dona Elza trazer roupinhas e o que fosse de mais
necessidade para um bebe de dois meses.Dona Clara tinha anunciado o achado só
havia uma semana esperou Lindalva se refazer na aparência, já estava tudo
normal ela voltou a ser uma menina que podia andar pela cidade, só que o olhar
era bem triste.
---Promete que não vai sumir.---Pediu
Leninha ao se despedir de Tarzan na pracinha da igreja.
---Promessa feita.---Repondeu ele dando um
beijo em sua testa e dando ate logo para todos. Precisava ir embora ainda tinha
coisas a fazer na fazenda.
Eram três horas, o domingo foi ótimo, cada
um foi pra sua casa estavam juntos desde as seis horas da manhã. Leninha,
Lili e Delicia iriam descansar um pouco
ainda tinham que ir a missa e tomar conta dos bebes.
Dona Clara foi a missa com o netinho que
ela tinha adotado como filho. Deixou o bebe no berçário e Lindalva ficou com as
meninas para ajudar tomar conta.
---Que gracinha! ---Disse Lili ao pegar o
menino no colo.---È tão pequeno.
---Só tem dois meses, é muito
delicado.—Disse Lindalva com carinho.
---Que mãe teve coragem de jogar fora uma
criaturinha tão linda!---Disse Wanda.
---È
melhor não falarem nisso. Depois a mãe aparece e a mamãe não vai
devolver.—Pediu Lindalva mudando de assunto.
---E você Lindalva sarou mesmo?---Perguntou
Leninha.
---Eu não estava doente.
---Porque então sumiu das aulas?
---Não estava com vontade de estudar,
precisava ajudar meu avô colher milho.
---Agora você vai voltar pra escola?
---Só no ano que vem, porque esse ano eu já
perdi mesmo, mas gente cadê a Sonia.---perguntou para mudarem de assunto.
---A Sonia ta mal.—Respondeu Leninha com os
olhos cheios de água, enquanto balançava um bebe que fazia beicinho querendo a
mãe.
---Mal?
---È ela esta de cama de novo.
---Afinal que doença ela tem que só ataca
de vez enquando?
---Não sei, a gente pergunta, mas ninguém
diz nada.---Disse Wanda.
---Temos que rezar por ela.
---Me desculpa Comadre.---Disse dona
Antonia rindo depois que dona Elza ter lhe contado da cena ocorrida pela manha
em sua casa.---Mas que é uma tragédia engraçada.
----Engraçada e triste, passei um aperto
quando vi o sr Joaquim com aquele facão nas mãos.
Cirilo de dentro do quarto ouvia a mãe
contar para a comadre.
---Ele é um homem corajoso.
---Corajoso demais enfrentar um homão
daquele porte do Sr Sebastião. ---Cirilo prestava atenção no que a mãe
dizia.---Mas seria bem feito se ele tivesse tomado uma facada.Só que o Sr.
Joaquim com certeza não é homem de matar ninguém. Imagina o coração dele
mandando eu comprar coisinhas de bebe para dona Clara. E olha que ele me deu
bastante dinheiro.
---Falando nisso deixa eu ir embora, você
precisa descansar, amanhã viaja cedo.
---Não se preocupe eu não estou cansada,
estou até feliz, vou me aposentar, com uns atrasados que vou receber vou acabar
com o resto de minhas dividas..
---E ficar sem nada!---Disse a comadre com
a mão na cara sentada na mesa da cozinha.
---Pelo menos com a consciência tranqüila.
----Pensou por um momento em aceitar a
proposta de casamento do homem.
---Ficou doida comadre!---Disse irritada
dona Elza.
---Não comadre, só quis brincar.
---Não brinque com essas coisas, eu odeio
aquele homem.
Leninha chegou da igreja com cara de
sono, cumprimentou dona Antonia, e reclamou que queria viajar com a mãe, esta
explicou a filha que não iria passear e só iria cansar pois iria em muitas
repartições para assinar papeis.
Ela entendeu e disse a mãe que iria passar
a tarde na casa de Sônia. A mãe só recomendou para ela não ficar muito tempo
cansando a Sônia.
---Não acredito!---Dizia Sônia depois que
Leninha contou sobre a lambida de Tarzan.---Ele te deu uma lambida no rosto e
não te beijou a boca?
Sônia esquentou tanto com o assunto que até
sentou na cama.
---È maia foi tão gostoso. Só fiquei
preocupada com o que senti.
---Conta, conta.—Pedia eufórica.
---Parecia que senti um molhado na minha
calcinha, mas só que depois olhei, cheirei, mas não era chichi, parecia mais um
óleo.
Sônia não se conteve, caiu na gargalhada, nem
parecia a menina doente de antes.
---Você ficou é com tezão.
---Tezão?
---È sua boba, isso é tezão, é o que sinto
quando brinco de namorar a Eliza.
---Não tem graça você sentir isso por mulher!
---Mas, sinto ué, o que posso fazer? Nunca
tive oportunidade de beijar e abraçar um garoto, então beijo ela, aperto ela,
ela é tão gostosa, tão macia, você deveria experimentar sem medo.
----Eu não gosto, não me sinto bem.
---Então beija o seu Tarzan, pelo que você
disse sentir deve ser um tezão.
---Tezão é amor?
---Deve ser, porque é tão bom.
---O pior é que dá formigamento, dá vontade
de colocar a mão.
---Então coloca, ué.
---Mamãe disse que se a gente ficar mexendo
na, você sabe no que, a gente não casa.
---Você quer dizer na perereca.Se ela ta
coçando a gente tem que coçar.
---Você é doida.
---E você é boba. Nem parece que já esta
quase uma moça. A sua mãe deve estar é com medo de você se perder, mas uma
cocadinha não faz ninguém se perder.Um dia, hoje não, não quero te passar
doença, deixa eu deitar encima de você, você vai sentir seu coração pulsar tão
forte que nunca vai querer se soltar de min.
---Eu já vi você fazendo isso com Lili e
Wanda.
---Eu sei, você não se junta direito a nos e
só fica olhando de banda, não sabe o que ta perdendo.---Disse enfiando a mão
dentro da calcinha e tirando os dedos molhados de lá.---Vê só de falar nisso
como eu fico.—E você não sente nada? Era tão bom quando você me deixava te
tocar um pouco, agora só pensa em Tarzan, Tarzan.Faz com ele então.
---Ele é homem, só posso fazer quando casar
com ele.
---Então enquanto não casa faz com a gente
uè.
Leninha deu uma risadinha sem graça.---“
trocar um carinho de Tarzan por um bando de meninas sem vergonha”.Pensou e
disse que ia na cozinha ver se dona Neném tinha acabado de fazer os pães de
queijo que estava fazendo.
XLV
Leonardo foi buscar Cirilo para jogarem bola
na pracinha da igreja. Ele ficou batutando a cabeça depois que Cirilo contou
sobre o Sr. Dantas.
___então me diga, o que o Sr. Joaquim Dantas
tem a ver com o bebe de Lindalva?---Perguntava Leonardo.
----Fale baixo Leo.Todos acham que o neném
foi achado.
---Eu sei, mas mesmo assim o que ele tem a
ver.
---Também não sei, mas quem sabe ele ficou
sabendo do que aconteceu e sentiu na obrigação de proteger, afinal Raul era seu
genro.
----Neste mato tem coelho. Vamos descobrir.
---È melhor deixarmos para a policia.---Disse
Cirilo.
---Você sabe que a policia não faz nada.Mesmo
descobrindo, ela não leva ninguém pra cadeia.
---Não tem importância, só a gente descobrindo
já ta bom.
Pedro conversou mais uma vez com Izabel sobre
sua decisão de ir embora arranjar q vida e depois buscar ela.A menina não
concordava, mas por fim também achou que seria bom para o futuro dela.
---Também posso trabalhar dando aulas particulares
e posso fazer faculdade.----Dizia Izabel.
---Pois é.---Respondia Pedro dando-lhe um
beijo com carinho, a gente luta juntos e consegue um futuro melhor, porque aqui
o Maximo que vou conseguir é ser um político e isto sinceramente não esta nos
meus planos.
---Não sei se vou aquentar ficar longe de
você.---Dizia fazendo beicinho.
----Não vou demorar, eu prometo arrumar
emprego, lugar de morar e vir te buscar.
----Você tem que cuidar primeiro de sua mãe.
---Eu sei, mas, a mamãe vai ter a pensão
dela, ela é nova, tenho certeza que vai fazer alguma coisa pra ganhar dinheiro.
Na capital é mais fácil, ela sem dividas fica bem melhor.
---E você acha que ela vai querer ir.
---Vou convencê-la, afinal aonde vamos morar
aqui.A casa esta vendida. Não temos dinheiro pra comprar outra.Se temos que
arrumar uma outra casa pra morar o melhor é que seja em algum lugar que
possamos ter futuro, Cirilo e Leninha são inteligentes já estão crescendo,
precisam de uma chance.
Izabel abraçou Pedro com carinho.
----Eu vou confiar no seu amor e te
esperar.
Pedro abraçou a menina. Sentia muita força
para prosseguir tendo alguém que o amava tanto.
Dona Elza trouxe presentes para todos da
cidade. Tinha recebido pagamento e com estava pra sair algumas gratificações da
aposentadoria se deu no luxo de comprar umas coisinhas pra cada um.Cirilo
ganhou um sapato novo e uma caixa de bombom. Leninha dois prendedores de
cabelos e uma blusa linda, também uma caixa de bombom.Pedro ganhou duas camisas
de manga comprida para o serviço e dona Ruth um sapato para ir a missa.
Leninha abriu correndo a caixa de bombom e
ofereceu a todos menos para Cirilo que também tinha ganhado e tratou logo de
esconder para não dar ninguém.
----Me da um Leninha.
----
Ué, seu folgado e a sua caixa porque você
não come dos seus.
---Quando eu abrir eu dou um pra cada um
igual a você.
---Ta bom, mas eu escolho qual eu quero.
----Ta legal.
Ele tirou um sonho de valsa.
Por muito que Dona Ruth e dona Elza
resmungaram, acabaram concordando com a ida de Pedro para a capital. Não tinha
jeito mesmo, continuar morando ali não tinha futuro. Ela ia dar um pouco de
dinheiro para a passagem e ele iria levar o que tinha acertado na prefeitura. O
prefeito deu uma carta de recomendação para qualquer um que quisesse lhe
empregar, dizendo que ele era um rapaz de caráter e trabalhador.
----Ele com poucos meses de emprego junto ao
prefeito aprendeu muito, tinha o segundo grau e queria fazer uma faculdade de
administração ou contábil.
O dia que Pedro pegou o ônibus para ir
embora foi um dia cheio de lagrimas.
Já era final de agosto quando ele foi
embora.
Dona Elza procurou uma casa pequena para
mudarem, pois já estava quase vencendo o prazo que o primo lhe dera e ela não
ia ficar morando lá até o dia certo, pois já tinha abusado até demais.
Foram morar perto da escola. Alugaram uma
casa com dois quartos. Cirilo e Leninha dormiriam com a mãe, pois dona Ruth
precisava ter um quarto sozinha, tinha suas manias.
---Não sei porque a vovó tem que dormir
sozinha e nos três aqui apertados.---Resmungou Leninha.
---Você sabe sim, fica é fazendo
charminho.---Dizia Cirilo.
---è porque ela ronca muito.
---è mamãe disse que ela tem umas manias,
gosta de fumar cachimbo antes de dormir.
---Eu sei aquele cachimbo fedorento.
---Então porque ainda ta resmungando
---Mas que ela é folgada é.
----Ela tem direito né Leninha, trabalhou
muito e cuida de nos ate hoje.
----Eu si, eu sei.---Falava bravo Leninha.
“Aniversário! Falta pouco já vou fazer onze
anos!” Pensava Leninha olhando no espelho. Tinha começado a usar soutien com
blusas mais apertadas, pois os seios já estavam formados ou quase.
Marcelo tinha dado noticias, estava na
Itália, estava de férias e tinha ido visitar primeiro os pais, em dezembro
seria sua ordenação para padre iria mandar convites a todos.
Como o tempo muda as pessoas, ele tinha
mandado estas palavras dentro de uma carta que escrevera para o padre Mário.
Talvez ele nem queria ficar e nem deixar as pessoas sofrendo de saudades,
também ele iria ser padre não podia ficar com muito sentimentalismo.
Izabel toda tarde chamava Leninha para
sentarem no banco da praça para esperarem cartas que chegavam no ônibus das
seis horas.Tinham dado sorte naquele dia já era a terceira carta que ele
escrevia dede que fora.
Escrevia sempre para a mãe e Izabel.
Nesta ultima carta a noticia era ótima
estava fazendo um curso técnico de aperfeiçoamento a noite e trabalhava como
auxiliar de contabilidade em uma fabrica de colchão. O chefe gostava muito dele
e dizia que quando ele acabasse o curso que duraria três meses lhe daria um
cargo melhor.Talvez até como o de chefe de escritório já que o que era chefe
estava prestes a se aposentar.
Dona Elza ao ler a carta não soube como
agradecer a Deus. Também Pedro merecia aquilo tudo era um rapaz brilhante tinha
um bom currículo.
----Vamos ficar ricos, mamãe?---Perguntou
Leninha. Depois que a mãe leu as noticias.
----Ao que parece Pedro vai realizar o sonho
dele.
--- A sra não respondeu.
----Talvez filha, a vida da gente melhore um
pouco, só que não podemos aproveitar do Pedro, esqueceu que ele só pensa
em conseguir as coisas para casar com
Izabel.
---Mas, mamãe a sra não pode ficar dizendo
isto, coitado ele disse que vai dar uma casa pra nos.
----Eu não posso cobrar isso dele.Sabe
Leninha o que temos a fazer e também abrir nossos caminhos.
---E ir atrás dele?
---Não sei filha eu tenho medo, não sei se a
mamãe se habituaria a morar em uma cidade diferente. E você, você gostaria de
mudar daqui?
Leninha encheu os olhos d’água, lembrou de
Tarzan, das meninas...
----Não sei mamãe, mas se fosse pra gente
ficar rico.
Dona Ruth e Cirilo escutavam calados.
----Eu gostaria de ir mamãe, também preciso
de uma chance. A gente vem sempre aqui nas férias.—Disse Cirilo entrando no
assunto.
---E eu. Claro que vou com vocês.---Disse
dona Ruth.
Mudar de cidade, largar tudo, também não
tinham tudo para largar. Dona Elza vendeu muita coisa quando mudou, pois não
dava para levar quase nada, e como eles poderia passar o resto da vida dentro
de três cômodos. Era muito humilhante, uma mulher que lutou a vida toda para
ter as coisas, ter que desfazer de tudo para cobrir dividas de um safado que um
dia fora seu marido.
XLVI
Leninha sentou na porta da igreja, ficou
olhando a pedreira.
“O que ia doer era ficar longe de
Tarzan, e se ele esquecesse dela, e se ele pedisse para ela ficar e casar com
ele. Não, isso era impossível agora, não tinha idade para casar e queria muito
conhecer outros lugares, sonhava muito em ficar rica, se casasse com ele ia
ficar rica, mas ela queria ser alguém antes de disso, queria ser medica”.
Pensava Leninha olhando para frente.
A porta da igreja estava encostada, resolveu
entrar, só tinha uma pessoa sentada bem na frente. Era Vandinho.
“Ué Vandinho em uma igreja, então ele sarou
mesmo”.
Vandinho olhou para trás, viu Leninha, ela
teve vontade de dar um passo para trás, mas não recuou por um impulso foi e
sentou ao lado do rapaz.
Ajoelhou fez o nome do pai, tudo observado
por ele.
Depois que ela sentou ele procurou pegar
suas mãos e disse baixinho.
----Você vai conseguir, você é forte, é
lutadora, não tenha medo de nada, haverá muitos tropeços, mas você vai
conseguir, o rapaz que você ama é seu, passará muitos anos, mas você e ele são
um só.
Leninha não conseguia soltar a mão dela da
de Vandinho. Ele acabou de falar, fez o nome do pai e saiu da igreja.
A menina sentiu o corpo todo queimar, como
ele podia saber tudo aquilo, como ele conseguiu falar se a língua dele era
presa desde que ficou doente?
Fez o nome do pai, rezou e pediu proteção a
nosso senhor e se aquilo era obra de alguém do outro mundo que Deus lhe desse
alguma explicação.
Chegando em casa contou a mãe que Vandinho
estava na igreja e mais uma vez sua mãe lhe disse que ela devia ter sonhado,
pois Vandinho ainda continuava cheio de problemas.
Ela só não contou a mãe o que o rapaz tinha
dito. Também pra que? Ela não iria acreditar mesmo.
O ano apesar de tudo passou normal, foram
poucos o que tiveram repetência. Leninha e Cirilo sempre passavam com notas
boas. Sônia estava recebendo aulas em casa, dona Elza foi autorizada a fazer um
acompanhamento escolar e ela fez as provas finais tendo bons resultados. Só que
a fraqueza da menina era vista a olhos. Ela emagreceu muito e quase não saia de
casa. Estava sempre tomando remédio e os braços quase não tinha espaço entre
uma agulhada e outra.
Leninha não teria festa de aniversario, ela
não quis, disse que naquela casa não tinha espaço para muita coisa.Tarzan mais
uma vez estava naquelas viagens de meses para levar gado de uma cidade a outra.
A madrinha Santa ofereceu um almoço para ela
e a família, ela não admitia que a afilhada tivesse um dia de aniversario sem
comemoração.
Pedro escreveu uma carta mandando mil beijos
e dizendo que se Deus quisesse no próximo aniversario dela eles estariam juntos
em uma casa grande e bonita.
Passado uma semana de seu aniversario Leninha
ganhou um presente.”Ficou moça”.
Levou um susto ao chegar no banheiro e ver a
calcinha suja de um sangue meio preto.
Teve medo.”Oh! Meu Deus! Que será que
aconteceu, eu me machuquei! Não!...”
---Mamãe!---Gritou alto pela mãe.
Dona Elza cuidava de preparar o almoço quando
escutou o grito da filha.
Ela abriu a porta do banheiro que ficava na
porta da cozinha e entregou a calcinha para a mãe.
Dona Elza já esperava por aquilo.
Pediu Leninha para sair do banheiro esquentou
água e mandou ela sentar para lavar com água morna.
Explicou para a filha que aquilo não era
machucado e que ela já devia ter ouvido colegas falarem, ele agora era moça, e
que todo mês ficaria com sangue por três ou cinco dias, não precisava ter medo
só que teria que tomar cuidado com as roupas para não vazar.
Foi na farmácia comprou um pacote de modess
daqueles cor de rosa na embalagem, ensinou a ela como usar.
Leninha mais ou menos já tinha ouvido falar
sobre este sangue menstrual, mas não gostou nem um pouco da sensação de andar
com um pequeno travesseiro entre as pernas e ainda por cima tinha que lavar
umas quatro vezes ao dia, pois o cheiro não era muito engraçado.
---Nossa Leninha, eu queria ser
você.---Disse Sônia logo que soube da novidade.
---Credo! Você nem imagina como é ruim,
ontem quando desceu foi só um pouquinho, hoje já esta um pouco mais.
---Eu sou quase dois anos mais velha que
você e nem peito ainda tenho.---Disse Sônia um pouco triste.
---Calma Sônia, mamãe me levou hoje de manhã
lá na farmácia e o sr João disse que algumas meninas ficam moças mais cedo e
outras ate quinze ou dezesseis anos, mas é normal.
---Que mais ele disse.
---Que talvez mês que vem nem venha, mas é
normal porque veio muito cedo pra mim. Mas a mamãe disse que também ela ficou
cedo e que vinha normal ate o dia que ela precisou operar.
---E dor, dói mesmo?A Eliza disse morrer de
cólicas.
---Não eu não senti dor, só um pouco de
febre ontem, mas o sr João disse que qualquer coisa é só tomar umas gotinhas de
novalgina.
XLVII
Leonardo levou um tremendo susto ao vir
vindo da cidade e dar de cara com o sr. Dantas, achou estranho parecia que ele
estava saindo do meio dos milhos da fazenda de Lindalva. Fingiu não ver e
continuou firme no caminho.
Comentou com Cirilo e este disse que iria
ficar de olho nele.
Domingo dona Elza chamou Cirilo e Leninha
para irem passear na fazenda do primo Antonio.
Os pés de Leninha saíram do chão ela correu
para o quarto colocou o vestido que Tarzan tinha dado o pano pra fazer.
A
diferença em seu corpo era visível, estava da altura de sua mãe, se sentia
livre uma verdadeira moça. Não colocou o chapéu de chapeuzinho vermelho, Pegou
uma sombrinha e deixou os cabelo soltos ao vento.”Tomara que Tarzan já tenha
voltado”.Pensava.
Cirilo também tinha crescido bastante estava
mais alto que a mãe, de vez em quando a voz saia grossa outras vezes fina.
Dona Ruth não podia ir quase não conseguia
corona dia de domingo e ela não aquentava a caminhada de quase duas horas.
A primeira coisa que Leninha procurou com os
olhos foi Tarzan, mas ao que parecia ele não estava. A mãe dele incistiu e eles
tiveram que almoçar de novo, já tinham almoçado antes de irem, almoçaram cedo.
Mas Cirilo bem que gostou tinha costelinha de porco a carne que ele mais
gostava.
---E Tarzan que não desce para
almoçar.---Disse a prima.
---Tarzan esta aqui?---Perguntou leninha um pouco mais feliz, mas
sem demonstrar muito interesse, sabia que sua mãe não ia gostar de tanto
assanhamento.
---Ele chegou ontem e já foi cedo lá pra
cima.---Apontou com o dedo pela janela.---Ele esta acabando de fazer a caixa d’
água, sozinho deve estar com fome.Disse que ia acabar cedo que ia na matine.
“Nossa se eu soubesse que ele iria na cidade
nem precisava ter vindo aqui.”—Pensou Leninha.
---Se a sra quiser eu vou chamar
ele,.—Prontificou Cirilo.
---Não é melhor levar a comida dele, vai ver
ele nem quer vir almoçar pra acabar o serviço rápido pra ir pra cidade.
---Se a mamãe deixar eu levo a comida
dele.—Prontificou também Leninha.
---Vão os dois.___Disse dona Elza sabendo do
interesse da filha.
---Quando lá chegaram Tarzan se assustou.
---Eu ia a cidade ver vocês e vocês estão
aqui, que bom!
Estava quase acabando de colocar os
encanamentos na caixa que já estava pronta.
---Você fez isso tudo sozinho?—perguntou
Cirilo.
---Ficou uma beleza, não ficou? ---Dizia
orgulhoso.
---Sai daí de dentro e venha comer, trouxemos
comida pra você.—Disse Leninha.
Tarzan saiu da caixa que tinha uns dois
metros de altura por uns quatro de largura.
Chegou perto de Leninha, olhou nos olhos da
menina que faltava pouco pra ficar do seu tamanho e Cirilo já estava mais alto
que ele. Deu um sorriso lindo pra Leninha que abaixou os olhos um pouco tímida.
---Você esta mais alta do que a ultima vez
que te vi, desse jeito vai acabar mais alta que eu.---Brincou.
Sentou em uma sombra e foi comer, estava
realmente com fome, bebeu o refresco de uva que a mãe tinha mandado.
Só vou ligar a água para ver se deu certo e
vamos descer, se vocês quiserem podem ir na frente eu desço rápido, aqui o sol
esta muito quente.
---Eu te espero aqui na sombra.---Disse
Leninha.
---Eu vou descer o primo Antonio disse que
eu posso andar de cavalos, vou aproveitar um pouco que a mamãe agorinha vai
querer ir embora.---Disse Cirilo.
---Você vai pra matine mesmo.---Perguntou
Leninha.
---Agora acho que não preciso ir, você já
esta aqui.Eu levo vocês de noitinha no jipe de papai, vocês vão ficar é comigo,
aqui temos mais coisas pra fazer, domingo que vem a gente vai pra matine.
---Você não vai viajar mais?---Perguntou
curiosa Leninha.
---Porinquanto não.
---Ta bom então eu vou descendo, vou levar
as vasilhas.
Tarzan ligou a bomba d’água que fez um
barulho de água entornando. Leninha olhou a água enchendo a caixa e ficou de
boca aberta.
---Vai ter água nas torneiras
agora?---Perguntou feliz.
---E no chuveiro também.
---Água quentinha?
---È.
Tarzan olhava Leninha parecendo que a via
pela primeira vez, fez um carinho nela levantando os cabelos dela pela nuca.Ela
sentiu um arrepio.
---Sua mãe ta pensando em mudar
mesmo?---Perguntou com o semblante um pouco triste. Estavam sozinhos a uma boa
distancia da fazenda num alto do morro rodeado de arvores e grama.
---Ao que parece, Pedro arrumou um bom
emprego e disse que vai levar a gente.
---Você quer ir?---Perguntou Tarzan
olhando nos olhos de Leninha< estava sem camisa o torso suado e de short
feito de calça jeans cortada, estava descalço.
---Não sei.---Disse Leninha parecendo
triste ao lembrar que indo embora pouco ia ver Tarzan.
___Também não é certo de irem, né?
---Não sei Tarzan, mas se for pro nosso
bem, se for pra gente não ter mais dificuldades.
---Mas não ta tudo resolvido.Já não ta paga
as dividas daquele seu pai miserável?
---Mas e o futuro Tarzan o futuro.
---O futuro é você casar comigo.
Leninha não se conteve sorriu. Um sorriso
lindo de moça, uma verdadeira moça.
Tarzan sentiu uma firmeza to grande ao
dizer aquilo e ver o sorriso dela que seus olhos encheram de lagrimas, o sol
queimava seus rostos. A água enchia a caixa e seus lábios se
aproximavam.Leninha ao sentir a boca de Tarzan com cheiro de suco de uva se
aproximando foi tirando o sorriso. Esperou tanto por aquela boca e não soube
qual reação tomar. Ficou quietinha Tarzan encostou a boca quente nos pequenos
lábios de Leninha e ao sentir o gosto ela entreabriu os lábios e teve uma
sensação gostosa do contato dele suave beijando-a de levinho como se beijasse
um bebe.
Ele a abraçou tão carinhoso, o cheiro do seu
suor era forte, mas era um cheiro bom que Leninha não teve nojo, sentia que
aquele era o cheiro de amor do amor que ela sentia por Tarzan.
“Estamos namorando de verdade”.---pensou
Leninha quando se sentiu beijada.
Tarzan soltou Leninha devagar como se
lembrasse que tinha que respeitar porque ela ainda era uma criança, mas mesmo
sem saber bem ele sabia que pelos modos, Leninha não era mais uma Menina.
----Tenho um presente pra você. Disse brincando
com seus dedos entrelaçados aos de leninha.
---Presente?---Perguntou Leninha surpresa.
----Esqueceu que nem fui no seu aniversario?
Leninha balançou a cabeça, estava tímida.
---Eu não esqueci, deixa a caixa enchendo
que vamos descer e eu vou te dar o presente.
Ela levantou os olhos devagar e procurou um
beijo, ele entendeu a entrega de sua boca e correspondeu carinhosamente.
Dona Ruth estava deitada em sua cama rezando
o terço, olhava de um lado para o outro. Sentia saudades da antiga casa. Da
horta, os olhos enchiam de lagrimas, pedia força a Deus. Depois de velha e o
tanto que trabalhou acabar assim em um barracão de três cômodos e ainda por
cima alugado.”Meu Deus abençoa que minha filha e netos possam recuperar tudo
que já tiveram” Estava tão distraída em suas orações que custou a ouvir as
palmas que vinha da porta.
---O de casa.
---Já vou.---Respondeu calçando os chinelos
para abrir a porta.
----Boa tarde dona Ruth.Desculpe vir
incomodar assim no domingo.---Era dona Clara mãe de Lindalva.
----Que isso! Que nada! Entre.Que bom ter
chegado alguém, estou sozinha, entre.
----Dona Clara entrou cuidando de fechar a
porta da sala que dava direto pra rua.
----Cadê todo mundo?
---Ellza foi passear com os meninos na
fazenda do primo Antonio.
---E porque a sra não foi?
----Não aquento a caminhada. Mas o que devo
a visita, a sra quase nçao é de sair.
---Vim me despedir.
----Despedir?
----È dona Ruth, devo muito favor a sra que
sempre foi fiel a minha confiança. Acho que só a sra e sua filha sabem da minha
agonia.
Dona Ruth ficou assustada.
----O que a sra pretende fazer?---Dona Ruth
convidou dona Clara para sentar e pegou o bule de café feito a pouco servindo a
visita.
---Nos vamos embora. Não podemos mais morar
aqui. Se continuarmos aqui meu marido vai acabar fazendo uma tragédia.----Dona
Ruth sentou perto de dona Clara e começou a tomar um gole de café, sabia que
precisava ouvir.---Aquele homem que engravidou minha filha vai acabar engravidando
ela de novo. Ele não da sossego.
----Mas eu não to entendendo, a sra não me
disse que o filho era de Raul e que já estava tudo resolvido.
----Eu menti, pensei que depois de tudo,
teríamos sossego, mas não o homem continua atrás de Lindalva.
---Por favor, me conta essa historia direito.
---Pois bem, minha filha se encantou com os
presentes do sr Joaquim Dantas.---Dona Ruth engoliu quase engasgando ao ouvir o
nome do pai de Eliza.---Ele passava sempre pelo nosso sitio.—Continuou dona
Clara.---Lindalva parece que se apaixonou por ele e eu quase não dei conta
disso, ela só me contou quando eu senti falta de sua menstruação, levei um
choque.Raul coitado um dia passando por lá viu eles dois no meio do milharal,
ameaçou contar tudo a família dele e ai o sr Joaquim Dantas não pensou duas
vezes enfiou a faca nele e jogou o corpo onde a policia encontrou.
Dona Ruth estava abismada.
----Porque não contaram a policia?
----Lindalva presenciou tudo, o sr Joaquim
ameaçou dizendo que qualquer coisa que ela contasse pra nos ou pra policia iria
desmentir que era pra ela falar se alguém descobrisse que o filho era de Raul.
Porque se não ele falaria na policia que o pai dela tinha matado Raul.E disse
que nunca mais iria aparecer, só que quando a criança nascesse ele sempre
mandaria alguma coisa para ela.
---Entendi agora os presentes que ele mandou
para seu filho, quero dizer neto.
---Filho, ele vai ser sempre meu filho.
---A sra sempre soube que era o sr Joaquim
que tinha engravidado sua filha?
---Sim. Ela me contou, mas quem matou Raul
ela só contou a semana passada quando ele voltou a lhe procurar, prometendo
mundos e fundos, quer montar casa pra Lindalva na cidade. Ela teve forças pra
contar pra mim. Ela tomou nojo dele, não quer ele de jeito nenhum.
----Meu Deus! Pensei que já tivesse visto
tudo nessa minha idade.---Disse dona Ruth.
---Agora a sra percebe porque preciso ir
embora? Meu marido é uma pessoa de bem, aquentar tudo calado. Eu não quero que
ele vire um criminoso, não vou permitir, minha filha é nova vai viver muito
ainda, e ainda por cima os meus filhos não sabem da tragédia, nunca perguntaram
quem tinha engravidado Lindalva, tenho medo deles saberem calados, e quando
crescerem buscarem vingança. Por isso vamos embora.
---Vão viver do que? E vão pra
onde?---perguntou preocupada dona Ruth.
----Com o dinheiro da colheita vamos comprar
uma casinha na cidade, o Emilio tem parentes lá ta tudo encaminhado, os pais de
Leonardo vão comprar nosso sitio e vamos montar um armazém. Se Deus quiser vai
dar tudo certo, tenho sorte de no meio desse mato ainda ter encontrado um homem
compreensível feito Emilio, nunca condenou a filha, perdoou, aceitou calado,
mas essas pessoas caladas são perigosas.
---Eu sei. Vou resar pra vocês serem
felizes, tenho certeza que ainda vamos nos encontrar.
---Eu fiquei sabendo pela Lindalva, a
Leninha disse a ela que vocês também vão embora. È verdade?
---Acho que ate no meio do ano que vem nos
vamos.
---Vão mesmo. Aqui nessa terra só tem gente
pra destruir nossas vidas.
---Depois do que eu fiquei sabendo hoje,
confesso que não da pra confiar em ninguém, a Leninha vive enfiada na casa dele
brincando com Eliza.
---As filhas dele não têm culpa d nada,
tenho ate pena da Elvira, não merecia ter ficado viúva.
---Deus é grande, a sra é muito boa dona
Branca, vou resar todos os dias por vocês.
-----Eu agradeço. Despediu abraçando com
carinho dona Ruth.
---Vou resar pela alma de Raul, coitado!
Desejei tanto mal a ele quando fiquei sabendo da historia.
Dona
Branca não respondeu nada só abanou a cabeça e foi embora. Iriam sair cedo no
outro dia estava tudo certo.
Dona Ana abriu a torneira e ficou
satisfeita de ver a água descendo com tanta força, agora teria água na pia da
cozinha.
Dona Elza ao ver a filha chegar com Tarzan
parece ter notado algo de diferente nos olhos da filha, mas preferiu não dizer
nada, talvez no fundo já soubesse.
----vamos embora Leninha?Daqui a pouco já é
noite. Cadê Cirilo?---Disse dona Elza, preocupada com a volta.
---Cirilo foi andar de cavalo, e Tarzan disse que vai levar a gente de
Jipe.
---Vou mesmo. E vocês só vão embora depois
do café. Cirilo deve estar brincando com os filhos do meu irmão.
----Por falar nisso tenho que ir lá ver o
Josè. Venho sempre aqui e nunca vou lá, ele sempre reclama.
---Isso mesmo nem parece que ele mora aqui
mesmo no terreiro. Disse dona Ana.
---Vou tomar um banho rápido, enquanto isso
vocês vão lá e a mamãe prepara um café. Não é mamãe?---Perguntou Tarzan
abraçando a mãe pela cintura.
----Primeiro eu vou lá com ela ver o Jose,
se não ele segura ela lá e eu fico aqui esperando feito boba.
Tarzan cuidou de ir tomar banho e as três
foram andar pela fazenda para visitar os outros primos.
Leninha brincou um pouco com as meninas e
nem percebeu Tarzan olhando ela igual uma criança feliz.
Estavam brincando de roda e ele tratou logo
de vir também dar as mãos para brincar, tinha muita criança por ali. Ele estava
todo limpo de calça jeans e uma camisa justa enfiada na cintura estava de tênis
e com o cabelo molhado e penteado. Leninha achou engraçado ele estava muito
alinhado.
Puxou ela pela mão e foram sentar na varanda
grande da casa de Tarzan, dona Elza ajudava dona Ana a preparar o café e Cirilo
estava agora andando de bicicleta com outro primo.
Tarzan pegou uma caixinha pequena e entregou
a Leninha.
----Seu presente.
Ela abriu a pequena caixinha e ficou
admirada com o brilho da correntinha que ganhou. Tarzan lhe deu uma correntinha
de ouro com um pequeno camafeu de pingente. Ela correu a mostrar a todos sem
esquecer de beijar Tarzan agradecendo. Deu um beijo nele rápido no rosto mesmo.
Claro que ninguém podia ver ela beijando Tarzan na boca aquilo seria um segredo
só deles, nem precisava ser dito ela e eles sabiam que tinham um compromisso um
com o outro e só aquilo bastava.
Dona Ruth contou pra filha o que dona Clara
tinha tido e esta ficou boquiaberta. Como era difícil confiar nas pessoas de
quem menos espera vem uma surpresa desse tamonho.
Leninha desfilava pela cidade toda empinada
com a correntinha no pescoço, nunca teve nada de ouro e aquilo era o Maximo,
logo dada por quem.Foi passear na casa da madrinha para visitar Lili quase não
tinha brincado com ela naquelas férias que já estavam quase acabando.
----Nossa Leninha, que linda!---Elogiou Lili
mostrando a mãe.
----Que maravilha!---Exclamou madrinha
Santa.
---vamos brincar?---Chamou Lili.
---Eu vim te ver e se a madrinha deixar a
gente podia ir na casa de Sonia.
---Boa idéia, deixa mamãe?---pediu Lili.
---Pode, mas não demorem, venham almoçar
aqui.
----Leninha adorou a idéia estava com
saudades do tempero da madrinha.
Sonia ficou super feliz de ver as meninas,
já não estava mais de cama. Estava na sala lendo um livro não estava mais de
cama. Estava na sala lendo um livro: Romeu e Julieta.
---Como eu queria morrer de amor!—Suspirou.
----O que Sonia/---Perguntou Lili.
----è igual Romeu e Julieta.
---Você é doida.---Disse Leninha.
---Vamos brincar lá no quarto?—Pediu Lili.
Sonia topou, foram as três para o quarto.
Dona neném gostou de ver as meninas. Sonia
sempre melhorava mais quando recebia visitas.
Lili toda assanhada correu a deitar na cama
de Sonia.
---Vamos brincar de medico, eu vou ser a
grávida.---Disse Lili.
---E eu o medico.---Disse Sonia.
---Então eu vou ser a secretaria.---Disse
Leninha.
---Ah não!---Disse Lili.—Seja paciente
também.
----è Leninha, você não brinca mais direito
com a gente.
Leninha torceu o nariz fingindo não entender.
----Todo consultório precisa de uma
secretaria ué!
---E de uma enfermeira.---Disse
Sonia.---Você vai ser a enfermeira. Você sempre gostou Leninha. Você sempre
brincou assim com a gente e parecia gostar.
---Eu gosto Sonia, mas é que vocês exageram
muito.
---Que nada, é tão bom.---Disse Lili.—E você
Leninha já deixou a Eliza te passar a mão muitas vezes.---Falou Lili.
---Eu sei, mas é que agora cresci e não
gosto disso mais.
---È Sonia, ela agora ta namorando.
Leninha não conteve o riso, sentiu ate pena
dos ciúmes das amigas.
----Ta bem eu brinco de enfermeira, mas não
vou passar a mão em ninguém a não ser na barriga pra sentir o bebe.
---Ta bom!---Exclamou as duas a sorrir.
XLVIII
Leninha aquela noite dormiu tão feliz
segurando a correntinha que sonhou que brincava de medico e o medico era
Tarzan, daquele sonho ela gostou, gostou tanto que ate assustou sua mãe com
suas risadas altas acordando todo mundo.
Pedro escreveu de novo.Mandou uma carta para
Tarzan também.Dessa vez ele não escreveu para Izabel só mandou beijos para ela
na carta de sua mãe.
Tarzan viria no domingo para irem ao cinema,
assim Leninha lhe entregaria a carta de Pedro.
Seu Joaquim Dantas apareceu mais uma vez na
casa de dona Elza. Ela levou um susto ao vê_lo batendo palmas. Queria saber
noticias da família de Clara.
Dona Elza não quis demonstrar saber de nada,
apenas disse:
---Não sei deles eu nunca vou por aquelas
bandas.
---È que ontem passei por lá de volta da
fazenda e vi tudo quieto, um visinho disse que eles foram embora e eu fiquei
interessado em comprar aquelas terras.---Explicou sr. Joaquim Dantas um pouco
cabisbaixo.---Pensei que a sra pudesse saber o endereço deles, quem sabe.
---Infelizmente sr Joaquim eu não sei mesmo.
Vou ate procurar saber o que aconteceu. Fiquei preocupada eles pareciam gente
acomodadas.
Dona Ruth serviu um café, quase sem dizer
nada. Não queria demonstrar saber a verdade.
---Eu acho que os pais de Leonardo devem
saber de alguma coisa.---Disse Cirilo ouvindo a conversa.
Dona Ruth deu uma olhada atravessada para
ele e o menino coitado não entendeu nada.
---È uma boa idéia.—Disse sr Joaquim
levantando para ir embora.----Pois bem se vocês souberem de alguma coisa me
avissem tenho interesse naquelas terras e de alguma forma posso comprar pagando
mais para ajudar aquela gente.
Quando ele foi embora dona Ruth e dona Elza
se olharam com um pouco de medo nos olhos.Cirilo não entendeu muito bem pegou a
bola e foi jogar na pracinha da igreja antes que sobrasse alguma coisa para
ele.
Aquela pequena cidade já estava ficando
realmente muito pequena, pensava dona Elza, desde que Pedro viajou não era mais
aquela coisa, ou seria por estarem morando em um lugar tão pequeno, dormindo
apertado e agora sem nada para fazer estava aposentada, não podia tomar o lugar
de alguém que precisava trabalhar já tinha o seu certo.Pegou a carta de Pedro e
leu mais uma vez.
“Aqui mamãe é tudo limpo, arejado, a
cidade tem visa, tem muita gente pra conhecer, quase não se conhece ninguém,
todos trabalham não tem tempo para ficarem de ti...ti....com a vida dos
outros.” –Pulou e leu outro trecho.
“Estou conseguindo ser feliz, mamãe não
que não era feliz ai, sinto falta da comida da vovó, sei que vices virão logo,
estou aguardando. Aqui na fabrica vai abrir uma creche pros funcionários
deixarem as crianças enquanto trabalham, igual Leninha olha para as mulheres
irem a missa, só que aqui é todos os dias de segunda a sexta e também tem que
ter aula, são crianças que já estão prontas pra aprender a ler. Dei o nome da
srs para lecionar aqui, expliquei para o dono da fabrica tudo o que a sra é,
ele ficou muito impressionado. Vocês tem que vir o mais rápido possível, já
pensou mamãe, eu chefe de escritório e a sra a diretora da creche. Teremos um
vidão.
Dona Elza lia aquela carta e sentia uma
felicidade tão grande, só sentia que Pedro parecia se distanciar de Izabel mais
e mais. Não disse a ela nada sobre ter recebido carta aqueles dias, sabia que
ela ia ficar triste dele não ter lhe escrito.
Não tinha muito a pensar, naquela cidade não
restava mais nada a se feito. Ia organizar tudo e no final do ano com o décimo
terceiro ia viajar coma mãe e os filhos para conhecerem o tal lugar abençoado,
quem sabe já ficariam por lá.
Tarzan ao ler a carta do primo sentado na
mesa da cozinha de dona Elza coçou a cabeça. Mandou a prima ler aquela parte
enquanto Leninha tomava banho para irem ao cinema.
“ Tarzan, você precisa vir pra cá, aqui ta
cheio de gatinhas, a gente pode namorar uma por dia, elas não são como as
meninas daí que pra gente pegar na mão tem que pedir em namoro, ela já chegam
abraçando a gente, é uma delicia cara!’
Dona Elza franziu a testa.
---Era isso que eu desconfiava, ele
esqueceu a Izabel.
----È disso que tenho medo, vocês irem
embora e Leninha me esquecer.
----Mulher pensa diferente de homem.
----Diferente nada, a distancia faz todo
mundo esquecer um do outro.
---Se a Leninha for firme como eu, ela
nunca vai te trocar por outro.
----A sra diz isso por que ainda sofre por
causa daquele bandido.
---Mais ou menos.---Disse dona Elza
suspirando.---Não deixe Leninha ver essa carta, ela pode ficar triste e contar
pra Izabel, ela pensa que ele vai vir casar com ela.
---Eu sei. Claro que não vou contar.
---Você é um rapaz de ouro.---Disse dando
um beijo na testa do primo.
Leninha veio toda bonita sem esquecer a
correntinha.
Tarzan segurou na mão da menina e foram
para o cinema sem se esquecer de comprar pipoca e balas de hortelã.
Leninha estava sentindo a vida muito
bonita, tinha ate medo de pensar viu Izabel com algumas amigas no cinema, ela
estava um pouco mais alegre do que os outros dias o filho do pastor andava por
perto. Tarzan olhou e percebeu que mais cedo ou mais tarde ela esqueceria de
Pedro, ao pensar nisso apertou a mão de Leninha com tanta força que quase
machucou a mãozinha frágil.
----Desculpe, é que as vezes penso tanto no
amor que sinto por você que ate dói.
Leninha pediu para Tarzan depois do filme
se ele não se importasse fosse com ela na casa de Vandinho, queria tirar uma
duvida sobre a doença dele.Contou o que lhe tinha acontecido e que sua mãe não
acreditava dizendo que Vandinho estava só dentro de casa e que nunca saia e nem
sabia falar mais.
---Você não tem medo.
---medo eu tenho, mas preciso tirar essa
duvida, e se foi sonho?
----È eu vou com você. Só não podemos
demorar, lembre que sua mãe recomendou para não ficarmos pelos cantos se não os
outros começam a falar mal de você e de min.
---Ninguém tem nada com nossas vidas. Não
estamos fazendo nada errado. A mamãe só tem medo coitada, é porque ela cria a
gente sem pai, mas que mal você poderia me faze?---Perguntou confiante olhando
nos olhos de Tarzan.
---Que tal te beijar todinha?---Perguntou
malicioso.-
---Ela não respondeu, apenas abaixou os
olhos e sorriu timidamente.---Ate que não seria uma ma idéia.---Pensou.
Foram à casa de Vandinho. Bateram na porta e
a mãe dele veio atender. Levou um susto porque desde que aconteceu aquele
problema quase ninguém vinha visitá-los.
---Podemos ver o Vandinho?—Pediu Leninha.
A boa mulher disse que ele estava no quarto
deitado, que podiam entrar mas não reparasse porque ele não reconhecia ninguém.
Leninha espantou.
---Ele não tem saído de casa?
---Não, ele só fica olhando o espaço, tenho a
impresão que ele nem vai viver muito mais, ele quase não come.
---Não pode ser, ele era ate um da minha
turma na escola.Era um rapaz inteligente.—Comentou Tarzan.
---Pois é, agora esta assim. Graças a Deus
que Não destrói mais as coisas, pois do jeito que ele estava era bem pior.
Leninha tomou a frente do caminho onde a
mãe de Vandinho disse que ele estava. Sentiu um arrepio ruim na carne, olhou
para Tarzan, mas empurrou a porta do quarto de Vandinho.
Estava tudo a meia luz, era mais ou menos
cinco e meia da tarde, e ainda tinha sol, mas a cortina estava um pouco baixa.
Leninha não gostou do viu, Percebeu tristeza, muita tristeza, talvez falta de
asseio e compreensão.
O lençol da cama do rapaz parecia não ter
sido trocado a mais de um mês e o cheiro de enxofre do quarto era insuportável.
---Vandinho, olhe quem esta aqui.Tarzan e
Leninha.
Vandinho estava meio que deitado com os olhos
quase fechados. Não se moveu.
---Tudo bem Vandinho?---Perguntou Tarzan.
Continuou quieto.
---Não reparem ele só fica assim
mesmo.---Disse a mãe.
---Posso abrir um pouco a janela?—Pediu
Leninha.
----Acho que pode, só um pouco, ele não
gosta de olhar lá fora fecha tudo.
Leninha abriu um pouco a janela e respirou
fundo para tirar aquele cheiro de enxofre do nariz.
Tarzan fez o mesmo, fingindo olhar lá fora.
---Vou faze um café pra vocês.
---Não, não precisa se incomodar, ainda
tenho que ir a missa das seis, quantas
horas Tarzan?---Perguntou Leninha assustada com as horas.—Meu Deus! Já deve ser
quase seis horas. Esqueci que tinha que ir olhar as crianças.
----Não dá mais tempo, também só um dia, não
tem mais ninguém pra olhar?---Perguntou Tarzan.
---Tem sim, a Lili abre o berçário, tem a
Delicia e mais algumas meninas.
---Então não se preocupe daqui a pouco a
gente passa lá.
---Então vou fazer o café.—Disse a mãe de
Vandinho saindo do quarto.
Leninha chegou perto da cama de Vandinho,
não entendia como aquele rapaz estava no terreiro da casa dela e aquele dia na
igreja, ficou assustado não eram a mesma pessoa.
Tarzan se aproximou também da cama. Qual
não foi o susto dos dois quando Vandinho segurou a mão de Leninha e a de Tarzan
apertando entre as suas.
---Vocês são um só.---Disse baixinho.
Nisso a mãe dele que voltava com as xícaras
de café na mão levou tanto susto que deixou as xícaras caírem no chão.
Tarzan foi socorrê-la.Leninha continuou
segurando a mão do rapaz. Ele olhava fixamente para a menina e sorria, ela
sorriu também, e deu-lhe um beijo carinhoso na testa.
Saíram do quarto deixando Vandinho com um
sorriso na boca. Foram para a cozinha pegar mais café. Leninha estava meio
paralisada e todos mais.Vandinho levantou da cama e foi sentar devagarzinho
perto dos três.
A mãe lhe ofereceu uma xícara de café com
leite e biscoitos ele aceitou e começou a comer parecendo faminto.
---Precisamos ir.---Disse Leninha por
fim.---Tenho que passar na igreja.
Levantou despedindo.Tarzan fez o mesmo.,A
mãe de Vandinho agradeceu a visita e pediu desculpas pelo susto, mas é que
fazia tanto tempo que não ouvia a voz do filho.
Deram ate logo para Vandinho e ele respondeu
com a cabeça, não parando de comer.
Chegaram até o berçário da igreja sem
falarem nada, iam de mãos dadas. Estava tudo correndo bem.Tarzan despediu de
Leninha dizendo que precisava ir tinha serviço cedo e ira á pé não tinha
trazido o jipe e nem a bicicleta tinha descido pra cidade de carona. Ia passar
na casa de dona Elza para despedir e dizer que ela estava no berçário.
---Mas ainda é tão cedo.—Reclamou Leninha
olhando Tarzan de frente.
---Tenho que ir mesmo. Volto qualquer dia da
semana pra te ver.---Disso ela gostou.
---Não fique impressionada com Vandinho.---Pediu
Tarzan fazendo um carinho arrumando os cabelos dela.
---Não fico, não se preocupe.
---Em vez de pensar nele pense em min.
---Ela sorriu. Ele olhou pros lados viu que não vinha ninguém lhe deu um beijo
gostoso na boca.—Pediu pra ela entrar e foi embora.Ela ficou olhando ele pela
janela ate virar a esquina.
Delicia estava balançando uma criança no
colo pra fazer dormir.
A missa já estava acabando.
Lili contou que o sr Joaquim Dantas tinha
passado por ali, perguntado se tínhamos noticias de Lindalva, elas estranharam,
ele disse que precisava informações sobre o sitio que queria comprar.
---Só não gostei do jeito que ele olhou pra
Delicia, perguntou onde ela morava, quantos anos tinha. Disse que ela é muito
bonita.Nunca tinha visto ele assim tão falador.---Explicou Lili.
Leninha não deu muita importância a isso
apenas continuou a pensar em Tarzan, mas dona Elza estava bastante preocupada
com os últimos acontecimentos, logo que Tarzan contou que tinha deixado Leninha
no berçário da igreja, resolveu ir buscar a filha, a missa quando terminava já
estava tudo escuro. Leninha não estranhou a presença da mãe, at´e gostou,
estava começando a fechar o berçário, despediu das meninas, dona Elza perguntou
quem ia levar Delicia para casa, ela disse que a mãe estava na missa e que ate
a pequena Maria Helena estava no berçário. Dona Elza nem tinha percebido que a
pequena menina dormia nos braços da irmã e com isso a mãe deveria estar por
perto, acompanhou Lili ate vê-la entrar em casa e as outras duas meninas
também.
Leninha estava tão feliz que nem reparou no
comportamento da mãe. Seu Joaquim Dantas estava sentado na mesa do bar tomando
uma cerveja, ela fingiu não ver e continuou andando.
---Foi ate bom ver o sr Joaquim ali que eu
lembrei.—Dona Elza se assustou.
---Porque Leninha?
---As meninas
disseram que ele esteve no berçário perguntando de novo pela Lindalva.
---Por favor
Leninha, não quero nem pensar em você dando confiança pra esse homem e diga
pras suas amigas pra não conversarem com ele.
---Porque mamãe?---Perguntou Leninha
continuando a andar segurando o braço da mãe.
---Não tem porque, só eu acho que ele anda
muito diferente daquele homem que sempre ajudou a gente emprestando dinheiro,
vendendo fiado...Dando um litro de leite todos os dias.
---Ele fez alguma coisa pra sra ficar com
raiva dele mamãe?
---Não Leninha, não é isso, é só que agora
que você ficou mocinha a mamãe não quer você conversando demais com homem
nenhum.E suas coleguinhas deveriam fazer o mesmo.—Consertou dona Elza para não
ter que esticar muito o assunto e a curiosidade da filha.
Leninha deixou o assunto pra lá, preferiu
chegar em casa rápido pra jantar e dormir, sonhar com seu amor era melhor que
pensar no pai de Eliza, também pra que?Não tinha nenhum assunto a conversar com
ele.
Izabel estava cabisbaixa reclamou com dona
Elza sobre não receber mais cartas de Pedro. Ela explicou a menina que Pedro
andava muito ocupado com os estudos e o trabalho e que pra ela ele estava
escrevendo mais.E era verdade já estava no mês de setembro e pouco se recebia
noticias de Pedro. A ultima carta só dizia que corria tudo bem e que a mãe
deveria ir para a cidade no principio do ano e não no meio como haviam
combinado.
Dona Elza quase não tinha o que fazer arrumou
uma sala de aula no grupo onde a diretora deixava ela continuar com as aulas a
noite.Durante o dia às vezes substituía alguma professora que faltava para dar
aulas.Estava realmente aposentada e pelo menos o salário da aposentadoria
continuava o mesmo de quando lecionava.Pedro mandou algum dinheiro para a mãe
pagar algumas contas pequenas e pedia a ela para não se iludir mudando para uma
casa maior ou dando entrada para algum lote. Porque o futuro deles não era ali,
eles precisavam ganhar o mundo e que esse mundo não se resumia àquela
cidadezinha pequena que só sofrimento havia causado a eles.
Leninha a medida que aproximava o final do
ano ficava com mais medo. Queria ir embora, conhecer esse mundo que Pedro
falava, mas e Tarzan. Como ficar longe dele.
Seu Joaquim desistiu de pedir noticias de
Lindalva. Cirilo e Leonardo quase tinham certeza que era ele o assassino de
Raul. Cirilo ouviu uma noite a mãe e a avó comentando o caso, só que ele estava
dormindo e só conseguiu ouvir parte da historia. Leonardo mais ajuizado falou:
---Sabe Cirilo na verdade nunca vamos poder
fazer nada, vai ver Lindalva não foi a única a cair nos encantos dele e o pior
é que ele ainda pode estragar a vida de muita menina por aqui.
---È na verdade, verdadeira não vamos poder
mesmo fazer nada, ele é um homem que tem dinheiro, e só Deus pode cuidar desse
caso.---Emendou Cirilo.
---Mas nos podemos ficar de olho nas meninas
que conhecemos e sempre ver se ele não esta por perto.
---verdade, isso a gente pode fazer, porque a
policia aqui é só pra prender as putas que na verdade não estão atrapalhando a
vida de ninguém.
---Só que eles Cirilo, aproveitam prendendo
elas para não pagarem e poder passar as mãos nelas.
Cirilo riu maldoso.Era realmente isso o que
acontecia e ia se sempre assim.Leonardo ainda falou da sorte que Pedro tinha de
ir embora daquela falsidade, e Cirilo disse que também não era bem assim porque
tinha muita gente boa e digna ainda por ali.
Eliza resolveu ir na casa de Leninha saber
porque ela nunca mais havia voltado em sua casa.
Dona Elza recebeu bem a menina que entrou
sala adentro toda emplumada num vestido de linho bordado a mão.
---Nossa dona Elza, cadê Leninha.---Entrou
perguntando.
---Esta deitada. Vá lá ela só esta
descansando.
Ela empurrou a porta do quarto que estava
encostada e foi logo falando.
---Anda prequisoça, sai dessa cama.---Leninha
já estava sentada quando ouviu a voz da amiga.—Isso é coisa que se faça deve
ter uns três meses que não te vejo além da escola. Hoje estava lá em casa
pensando, você sabe que às vezes eu penso né?---Riu dela mesma---E fui fazer as
contas de que você sumiu. Quero saber porque.
Leninha abraçou a miga, claro que não podia
dizer que sua mãe não queria ela enfiada lá por causa de seu pai.etc...
---Não foi nada Eliza, é só que desde que
Sonia ficou doente tenho ficado mais com ela.
---Nem por isso, poderia me chamar e eu iria
com você sempre na casa de Sonia.
Leninha sorriu, explicou que estava
planejando mudar e contou algumas novidades.
Eliza sempre com o nariz empinada e mais
linda que nunca escutava tudo atenta, não disse muita coisa, mas deu a entender
para Leninha que onde ela estava morando não era lugar para eles.Leninha
explicou que estavam economizando para viajarem assim que entrasse as férias, iriam
onde Pedro estava, se gostassem ficariam de uma vez, afinal não tinham muito
que levar mesmo.
Depois foram visitar Sonia, a menina levou
um susto ao ver Eliza, se abraçaram como namorados.
---E então Sonia vai ficar trancada o resto
da vida?---Perguntou Eliza querendo animar a amiga.
Sonia sorriu, Leninha não gostou de ver a
palidez da menina, a ultima vez que vira ela ela não estava tão pálida.
---To quase boa.---Respondeu Sonia.
Dona Neném chamou as meninas para tomarem
suco na cozinha, Sonia não acompanhou continuou sentada no banco da sala.
---O que ela tem de verdade dona
Neném.—perguntou Eliza vendo que Sonia não podia escutar.
---O problema dela é nos ossos.—Respondeu a
mãe de cabeça baixa. Ela não vai aquentar muito tempo.—Continuou de cabeça
baixa. Os olhos de Leninha e Eliza se encheram de água.
---Oh! Meu Deus!---Suplicou Eliza.
---Amanhã vamos levá-la para o hospital, ela
quase não aquenta ficar mais de pé.
---Ela ontem parecia tão bem.---Disse
leninha.
----È assim mesmo.—Disse dona Neném.
As meninas tomaram o suco e foram conversar
tentando animar um pouco a amiga.
“Nossa! Graças a Deus que a vida passa
rápido, se eu tivesse que crescer de novo, juro que nem sei se queria
nascer”.---Pensou Leninha sentada de frente a um espelho do seu quarto.
Um quarto bonito com papeis de parede, uma
cama grande com uma colcha bonita cheia de bichinhos de pelúcia por todos os
lados, um tapete na beira da cama, cortina bonita, o armário cheiio de roupas
bonitas, na escrivania uma televisão colorida de 20 polegadas. Leninha olhava
tudo estava acostumada aquela vida, mas ainda lembrava seu tempo de menina. Os
cabelos agora não tão compridos mas ainda com o mesmo brilho, as unhas bem
feitas, as pernas compridas bem torneadas, o busto agora tinha forma
perfeita,era realmente uma moça bonita.
Difícil lembrar da infância, e não chorar por
Sonia. Sonia aquela menina tão cheia de vida e sem vida não passou dos 15 anos.
Leninha não foi ao enterro da amiga, mas comunicava com ela sempre por cartas
ate o ultimo minuto de vida dela.
Só voltou aquela cidade uma vez para a mãe
votar, mas esta transferiu o titulo rapidinho, dizia que não queria lembranças
tristes, O mais engraçado, ainda lembrava Leninha é que Sonia não morreu
virgem, mandou uma carta contando tudo para Leninha.Conhecera um rapaz,
enfermeiro do hospital se apaixonaram e lá mesmo aos 14 anos virou mulher.Pelo
menos esse sonho Sonia pode realizar, mas o resto foi sofrimento e dor que Deus
a tenha.
Delicia se casou, adivinha com quem?—Leonardo—Leninha
foi convidada mas também não foi estava em época de provas na faculdade, mas
uma foto de casamento dos dois estava no álbum que Leninha resolveu folhear.
Delicia tinha se formado dava aulas no grupo onde dona Elza começara a vida, Leonardo
ajudava na fazenda do pai que também era sua, eles já tinham uma linda menina
com três meses de vida, pelo que contara na ultima carta a menina era linda a
cara de Leonardo com incríveis olhos verdes.
Eliza se casou com Daniel, não chegaram a
ter filhos casaram muito cedo e o casamento não deu certo. Ela não morava mais
lá tinha ido pro Rio de janeiro e as ultimas noticias que leninha tinha dela
era através de Delicia que contava:- - “Sabe Leninha eu acho quase tenho
certeza que Eliza descobriu que gosta mesmo é de mulher, é isso mesmo, ela é
Sapatão, mora com uma mulher lá no Rio De Janeiro, também com o dinheiro que
herdou do pai pode fazer o que quisera”.—
Era uma pena o que tinha acontecido a
família de Eliza como se diz dinheiro não é tudo na vida e não paga a
felicidade. O mal que abateu a família de Eliza não era assim tão merecido,
apesar do que o Sr Joaquim Dantas tinha feito de mal ele também tinha sido uma
pessoa boa. Só que a carne dele foi fraca e ele caiu, caiu mesmo.Três anos depois
que Leninha mudara ele foi encontrado morto no mesmo matagal que Raul fora
assassinado de facadas.Seu Joaquim Dantas estava morto. Passou pouco tempo a
família de Lindalva voltou para o sitio que nunca foi vendido ela não voltou
tinha arranjado trabalho e se casou por aqui mesmo. Leninha tinha o endereço
dela ia qualquer dia visitar. Mas não hoje, hoje tinha uma coisa mais
importante para acontecer.
XLIX
O filho de Pedro gritava lá fora, estava
impaciente, chamava leninha. Que continuava imersa em lembranças.
Pedro por fim acabou dono de um escritório
de contabilidade, tinha carro do ano, morava em uma casa com piscina e tinha
comprado aquela para a mãe. Ele descobriu quase tarde, que o amor da vida dele
era realmente Izabel, tinham se casado já havia cinco anos e Vivian bem tinham
um lindo filho, Quilherme de três anos. Cirilo ainda continuava estudando só
teve duas namoradas que durou mais tempo. Estava se formando advogado ajudava
muito o irmão no escritório.
Dona Ruth, Deus a levou já havia cinco anos,
Leninha na época tinha desesseis anos.
Por mais que avó fingia, coitada, não era
muito feliz por ali, sentia falta da horta e da paz de uma cidade pequena. Já
ali tinha pouco o que fazer, ninguém plantava, espaço tinha, mas o progresso pede
que todo mundo tenha jardins cheios de cimento. Poucas plantas conseguiam
respirar o ar poluído. Tinha bem mais conforto não podia negar, mas sentia
saudades.
Também Leninha ao lembrar da avó pensava
consigo mesma que ela até chegou a ser feliz e que parecia querer ver a filha
bem para descansar, morreu feito passarinho como se diz, não sofreu muito.
De Claudia e de sua família poucas noticias
se tinha, só que tinha se casado.
Wanda e
Silvia também ainda moravam por lá.Wanda tinha família e Silvia tinha
dois filhos cada um de um pai diferente.
Lili morava agora em uma fazenda, a
madrinha Santa preferiu ir de vez para a fazenda, ela sempre passeava na casa
de leninha, e Lili sempre passava férias pó lá, teve uma vez que ficou dois
meses diretos com Leninha, e hoje estavam todos lá,
Também na vida de Leninha qual dia poderia
ser mais especial do que hoje.
Engraçraçado Vandinho sarou mesmo. Lili
contava que ele agora era um ótimo rapaz, ninguém mais lembrava o que tinha
acontecido quando eram crianças, claro lembravam, mas não comentavam, aquilo
foi passado e ele não teve culpa. Leninha ao lembrar sorriu:- -“Ele adivinhou
tudo”.
Se alguém visse dona Elza agora depois de
onze anos dizia que ela tinha até feito plástica, estava muito mais remoçada.
Era dona de um Jardim de Infância que ficava ao lado da sua casa. Leninha era
uma das professoras adorava crianças, também tinha nascido com o dom. Dona Elza
arrebatava corações, o homem de onde Pedro começou a trabalhar e tinham ajudado
eles a mudar, Sr Valter continuava cortejando ela, só que ela sempre dizia que
homem só tinha trazido sofrimentos para ela, e que ela não pretendia nunca mais
se prender em nenhum. Mas ele nunca desistia estava sempre firme lá.
“E Tarzan, meu Tarzan, vocês acham que me
esqueci dele”, ria Leninha parecendo uma criança analisando sua vida, sua vida
era feliz, ia se formar no próximo mês, o ano letivo tinha se acabado era só
vinte de dezembro, faltava pouco para o natal, mas a festa de formatura seria
dali uns dias mais ou menos oito de janeiro estava quase confirmado o baile de
formatura, ia ser não já era médica pediatra, ajudava a mãe dar aulas para
ganhar algum e ajudar nas despesas. Mas seu grande sonho o maior dele estava
para se realizar.
Bateram na porta com força.Era a madrinha
Santa.
---Abre leninha, você esta ai tem um tempão
estamos preocupados.
Ela levou um susto olhou o relógio e correu
a abrir a porta.
---Que foi Leninha, quer desistir na ultima
hora.
---Não madrinha, claro que não,estava
olhando um álbum de fotografia e parece que sai do ar.
A madrinha abraçou a menina.
---Então vamos começar a arrumação a casa já
esta cheia e você não pode atrasar. Aliás, só um pouquinho pode.___dona Santa
piscou para a afilhada.
Dona Eliza estava nervosa, já estava tudo
preparado, ao redor da piscina. Estava cheio de mesinhas, com flores e luzes
por todos os lados, os instrumentos da banda estavam no pequeno espaço
improvisado. Três garçons estavam a postos, enfim tudo preparado para a
recepção.
E que recepção?
Izabel nem parecia ser mãe, ainda era a mesma
menina linda, de cintura fina, igual a mãe que estava igualmente linda. Todos
foram para a igreja que era bem perto dali. Marcelo todo vestido de branco
aguardava no altar, viera especialmente para realizar a cerimônia, resolvera
mesmo se padre e era convidado especial de Leninha.
A igreja era pequena, mas bonita e mais
linda ainda ela se tornou quando começou a tocar a musica da marcha nupcial. Lá
estava ela, mais linda que nunca a pureza toda em forma de branco e lá estava
ele mais Tarzan do que criança.
Douglas e Maria Helena, dois adultos
apaixonados desde crianças, leninha acabara de fazer vinte e dois anos e Tarzan
nem parecia tão mais velho, vinte e nove anos. Como dona Elza sempre dizia um
dia a diferença de idade fica tão pequena o que vale é o amor e amor é o que
tinha de sobra entre os dois. Leninha foi pra longe via pouco Tarzan, só nas
férias quando ele vinha e ficava até ela retomar as aulas. Preservou a pureza
da menina para um dia a tornar sua mulher. E este dia chegou, eles iriam morar
em uma fazenda de cacau que era o sonho dos dois. Leninha não queria ficar o
tempo todo na fazenda, pelo menos até começarem a vir os bebes que não seriam
poucos “brincava”.
Dona Elza chorou, quase a cerimônia toda ia
ficar longe da filha. Mas era melhor, ela precisava ter a sua família e se Deus
quisesse ser feliz, feliz, muito feliz com o seu Tarzan.
FIM